A
Prática do Chöd
As origens da prática
Por que praticar o Dharma?
Acreditamos firmemente na realidade de um ego, pensamos que existe
verdadeiramente um "eu" muito limitado ao qual nos
assimilamos. Disto decorrem inúmeros sofrimentos, pois esse
sentimento do ego, que nos leva a desejar o que pode satisfazê-lo e
a rejeitar o que o desagrada, submete-nos a múltiplas emoções
conflituosas. O Dharma conduz-nos ao conhecimento que realiza a ausência
do eu e transforma as emoções em consciência primordial.
Inteligência e realização
Para atingir esses objetivos,
o Dharma propõe diferentes abordagens: a do pequeno veículo, a do
grande veículo e a do Vajrayana. Este compreende quatro classes de
tantras: o Kriya-tantra, o Charya-tantra, o Yoga-tantra
e o Anuttarayoga-tantra. No total, considera-se que o
Dharma do Buddha compreende 84 mil tipos de ensinamentos. Quando uma
pessoa inteligente aborda esses ensinamentos, seja o dos auditores
no pequeno veículo, ou o dos bodhisattvas no grande veículo,
compreende facilmente que todos têm fundamentalmente a mesma função
e que todos propõe abordagens espirituais profundas. A compreensão
intelectual, entretanto, não é tudo. Aquele que ensina o Dharma
baseando-se somente em seus estudos, sem ter atingido um certo nível
de realização, ensina em função unicamente de sua compreensão;
privado do poder de clarividência, da visão direta da natureza dos
fenômenos, pode cometer certos erros. Mas, aquele que alcançou a
realização de um bodhisattva ou mesmo de um arhat possui uma visão
direta que lhe permite ensinar sem erro.
Quanto àquele que realizou
o estado de Buddha, tendo percorrido a totalidade das terras e dos
caminhos, ele chegou ao estado último: sabe perfeitamente o que são
os seres ordinários, o que é um Buddha, o que é o Despertar,
assim como os meios para alcançá-los. Nada escapa do campo de seu
conhecimento e de sua visão, e por isso é chamado de
"onisciente".
No Tibet, a difusão do
Dharma efetuou-se por dois canais, englobando as duas maneiras de
ensinar que acabamos de mencionar. Por um lado, encontramos um tipo
de transmissão enfatizando mais a teoria, veiculado por dez
linhagens chamadas os "Dez Pilares do Conhecimento". Por
outro lado, oito escolas enfatizaram a prática dos ensinamentos,
sendo chamada os "Oito Grandes Carros de Prática". É a
uma dessas oito escolas que pertence a tradição de Chöd de que
falaremos.
Cortar o ego pela raiz
Chöd significa
"cortar".
Todos nossos sofrimentos procedem dos efeitos dos três venenos, o
desejo-apego, a raiva-aversão e a cegueira. Esses três venenos são
eles próprios o produto da assimilação de um eu. Chöd,
"cortar", refere-se ao fato de cortar completamente, pela
raiz, essa assimilação, de modo que os problemas que resultam dela
sejam automaticamente suprimidos. Tomemos o exemplo de uma árvore
venenosa. Para livrarem-se dela, vocês podem tentar arrancar suas
folhas e seus frutos ou cortar seus ramos; mas ainda existem grandes
chances de ver ramos, folhas e frutos surgirem de novo no ano
seguinte. Se, por outro lado, vocês retirarem suas raízes, poderão
estar seguros de que ela não brotará de novo. Chöd repousa sobre
esse mesmo princípio: cortar a raiz de todos os problemas.
Uma prática inspirada no
Prajnaparamita
Chöd está associado ao
segundo ciclo de ensinamentos do Buddha, referente à ausência de
características. Neste ciclo, o Buddha desenvolveu amplamente a noção
de vacuidade exterior, a vacuidade interior, a vacuidade ao mesmo
tempo exterior e interior, a vacuidade da vacuidade, a vacuidade
superior, a vacuidade inferior, etc. Esses ensinamentos foram
inscritos nos Sutras do Prajnaparamita, cuja extensão das versões
variam:
- o Prajnaparamita em Cem
Mil Versos, compreendendo doze volumes no cânone tibetano;
- o Prajnaparamita em Vinte
Mil Versos, quatro volumes;
- o Prajnaparamita em Oito
Mil Versos, um volume.
Com o objetivo de torna-los
mais acessíveis, esses ensinamentos foram retomados em seguida por
grandes mestres da Índia, como Nagarjuna, que os codificou sob a
forma do madhyamika, ou ainda Asanga, redator dos Cinco Tratados de
Maitreya.
Machig Labdrön, iniciadora da prática de Chöd, era ela mesma
extremamente versada nos textos do Prajnaparamita a ponto de eles
constituírem um fator essencial de seu desenvolvimento espiritual;
por essa razão era chamada "Machig Drönma, a realizadora da
palavra do Buddha".
O yogi indiano P'hadampa Sangye era, por sua vez, o depositário de
um ciclo de instruções sobre a vacuidade. Como existia um laço
muito estreito de mestre para discípulo entre P'hadampa Sangye e
Machig Labdrön, o ciclo de ensinamentos do primeiro, shije, e o da
segunda, Chöd, transformaram-se em um único. Nesse contexto, a
meditação que propõe Chöd repousa sobre os dois princípios
fundamentais do Mahayana.
- A vacuidade, ou seja, a
realização da ausência de eu, onde acreditamos que exista um;
- A compaixão por todos os
seres que sofrem por causa da ausência dessa realização.
P'hadampa Sangye
Vindo da Índia, chegou um
dia no Tibet superior um "detentor do conhecimento" (sânsc.
vidyadhara) chamado P'hadampa Sangye (sânsc. Kamalashila).
Ele era mais precisamente "vidyadhara de longa vida", isto
é, possuía o controle sobre a duração da vida. Dizia-se que
tinha duzentos anos quando chegou ao Tibet.
P'hadampa Sangye propunha um ensinamento chamado shije,
"pacificar", cuja função particular era dissipar os obstáculos
exteriores — os sofrimentos físicos e as doenças —, assim como
as perturbações interiores — os pensamentos e as emoções
conflituosas. Por isso esse sistema era conhecido sob o nome
"shije que pacifica todos os sofrimentos".
P'hadampa Sangye visitou o Tibet na época em que ali vivia
Milarepa. Ambos atingiram a plena realização e gozavam de uma
grande reputação. Além disso, em alguma parte na fronteira entre
a Índia e o Tibet, também morava um grande realizado, Dharmabodhi.
Assim, na mesma época e na mesma região encontravam-se três seres
excepcionais: Milarepa, P'hadampa Sangye e Dharmabodhi.
Milarepa e Dharmabodhi
Milarepa era discípulo de
Marpa. Recebera dele todas as instruções e todas as iniciações
necessárias, de maneira que não se preocupava em buscar os
ensinamentos de um outro lama, por maior que fosse. Ele era discípulo
de um único mestre. Entretanto, seus próprios discípulos,
particularmente Rechungpa, disseram-lhe um dia:
— Dharmabodhi está residindo neste mesmo momento perto daqui. Por
que você não vai vê-lo?
— Não tenho nada para lhe perguntar, respondeu Milarepa. Acho que
ele também não tem nada para me perguntar. De que serviria visitá-lo?
— realização do senhor com certeza é muito grande —
replicaram os discípulos — , entretanto, o senhor não estaria
manifestando um pouco de orgulho?
— Não — respondeu Milarepa — , não sinto orgulho.
Simplesmente não vejo utilidade para um tal deslocamento.
Entretanto, se isso os preocupa tanto, irei de bom grado encontrar
Dharmabodhi. Você — dirigindo-se a Rechungpa — parte na frente
com alguns discípulos; eu os encontrarei no caminho.
Rechungpa e outros yogis
colocaram-se, então, a caminho e chegaram perto do local onde
Dharmabodhi morava sem terem encontrado Milarepa. Então, viram
aparecer no céu um stupa de cristal que pousou suavemente diante
deles: era Milarepa. Todos foram ao encontro de Dharmabodhi , que
fez com que Milarepa se sentasse em uma poltrona semelhante a sua e
os dois mestres ministraram-se simultaneamente ensinamentos.
Quando terminaram, Dharmabodhi prosternou-se diante do ilustre
visitante, o que aumentou ainda mais a fé de todos por Milarepa.
P'hadampa Sangue dá um
chute em Milarepa
Uma outra vez, Milarepa
aceitou encontrar P'hadampa Sangye. Quando este aproximava-se do
local de encontro, Milarepa, advertido por suas faculdades
supranormais, disse a si mesmo: "Vamos ver se o célebre
P'hadampa Sangye possui realmente todos os poderes que lhe
atribuem". E transformou-se em uma pequena moita na beira do
caminho. P'hadampa Sangye chegou, passou perto da moita como se não
visse nada e continuou caminhando. "Ele não tem nenhum
poder", disse Milarepa, "ele não me reconheceu!".
Exatamente nesse momento, P'hadampa Sangye virou-se, deu um chute na
moita e disse:
— Seria melhor que você não ficasse aqui, Milarepa. De qualquer
modo, você não viverá mais muito tempo; eu ofereci sua força de
vida aos dakas e às dakinis. Eles agora a absorveram completamente,
e é por isso que você morrerá hoje mesmo.
— É verdade, reconheceu Milarepa, retomando sua aparência
normal, acho que você tem razão, eu morrerei hoje, pois me sinto
muito doente.
— Não diga! E o que você está sentindo?
— Bem, nas costas estou afligido pelo maha-ati; na frente, tenho o
peito afetado pelo mahamudra; por dentro, sinto que fui corroído
pelo Madhyamika. Com certeza, logo irei morrer de tudo isso. Eis
como será minha morte: o ego vai morrer na sabedoria do não-ego,
as emoções vão morrer na consciência primordial e os pensamentos
vão morrer na vacuidade.
Depois, Milarepa acrescentou:
— Creio que você é verdadeiramente um grande realizado. Você
vem da Índia e mora nesse momento no meu país: deixe-me honrá-lo
com uma refeição.
— Ficarei muito feliz em ser seu convidado — respondeu P'hadampa
Sangye.
O yogi da Índia multiplicou-se então por sete e os sete P'hadampa
Sangye ocuparam cada um o alto de uma folha de grama.
Milarepa, por sua vez, preparou a refeição: desfez a calota de seu
próprio crânio, colocou-a em sua mão e depositou ali seu cérebro,
que transformou-se num néctar maravilhoso. Em seguida, de seu
umbigo fez aparecer o fogo do tummo para aquecer o precioso
alimento. Depois, fez aparecer, por sua vez, sete Milarepa que se
instalaram igualmente sobre as pontas de sete folhas de grama. Os
sete P'hadampa Sangye e os sete Milarepa compartilharam a refeição,
improvisando alternadamente cantos sagrados.
Depois disso, eles se separaram, muito felizes por terem se
encontrado.
No total, P'hadampa Sangye
ficou cem ou duzentos anos no Tibet. Depois foi para a China onde
considera-se que viva até hoje, sobre uma montanha chamada Riwo
Tse-nga, o "Monte dos Cinco Picos". Aqueles que reúnem mérito
suficiente e possuem conexões kármicas privilegiadas podem, ainda
em nossos dias, encontrá-los
P'hadampa Sangye e o mestre
chinês
Durante o período que viveu
na Índia, P'hadampa Sangye teve um outro encontro célebre, com um
mestre vindo da China, de nome Mahayana, que ensinava exatamente a
vacuidade. "Tudo é vacuidade", dizia; "inútil,
portanto, abandonar os atos negativos ou realizar atos positivos:
basta permanecer na vacuidade".
Inúmeros tibetanos ficaram seduzidos por uma via aparentemente tão
fácil de ser seguida, de modo que o buddhismo importado da Índia
estava ameaçado por essa nova tendência vinda da China. Aqueles
que permaneciam ligados ao buddhismo puro ficaram apreensivos.
Sabendo da presença da P'hadampa Sangye no Tibet, pediram-lhe para
vir combater as falsas visões do mestre chinês. "Se este
mestre é alguém inteligente", respondeu P'hadampa Sangye,
"um debate poderá mostrar-se útil; em se tratando de um tolo,
nosso confronto será estéril".
As pessoas disseram que não sabiam quem era exatamente o mestre
chinês, mas que lhes parecia que apenas ele, P'hadampa, por ser ao
mesmo tempo um grande erudito e um mestre realizado, poderia
resolver as dificuldades nas quais se encontrava o buddhismo no
Tibet. P'hadampa Sangye aceitou, então, ir ao encontro de Mahayana.
Quando este se aproximou dele para recebê-lo, P'hadampa Sangye,
erguendo seu bastão, descreveu no ar três círculos acima de sua
cabeça, depois três círculos à direita e três à esquerda,
seguidos de um certo número de movimentos. Por meio de sinais, sem
usar a palavra, ele perguntava: "O que é a vacuidade? O que é
a verdade relativa? O que é a verdade última?" O mestre chinês
entendeu as mensagens e respondeu. P'hadampa Sangye viu, então, que
tinha um interlocutor digno dele.
Os dois mestres puseram-se de acordo para organizar um grande debate
público, para o qual seriam convidados os mais célebres eruditos e
todas as autoridades locais em matéria de filosofia budista.
Fixaram o duelo: aquele dos dois que fosse vencido deveria voltar ao
seu país de origem, Mahayana para a China, P'hadampa Sangye para a
Índia.
O debate ocorreu, longo e sutil. Finalmente, P'hadampa Sangye venceu
e o mestre voltou para a China. Entretanto, o vencedor fez uma
homenagem ao mérito de seu adversário: "Quando um homem
inteligente engaja-se em uma via falsa, pode, se lhe explicarmos o
seu erro, reconhecê-lo e abandoná-la. Mas quando se trata de um
tolo, ele permanecerá surdo a toda tentativa de explicação e só
poderá persistir em seu caminho errôneo".
O buddhismo tibetano conserva uma imensa gratidão a P'hadampa
Sangye que permitiu que fosse restabelecida a visão justa e que
florescesse de novo no Tibet o Dharma perfeitamente puro.
O mestre chinês Mahayana era
um verdadeiro erudito, alguém que buscava efetivamente a verdade, o
que o levou a reconhecer seu erro. Uma pessoa falsamente
inteligente, ao contrário, jamais aceita questionar suas opiniões.
Ela sempre acredita que o que pensa é definitivamente verdadeiro e
fecha-se em suas idéias.
Sakyapandita e os dois
monges incultos
Uma história tibetana
ilustra bem a diferença entre a inteligência aberta e a estupidez.
Dois monges tinham vindo ver o grande erudito Sakyapandita.
— Vocês conhecem bem os textos que vocês estudaram? —
Perguntou-lhes
— Nós os assimilamos perfeitamente. — Responderam os dois
companheiros.
— Vocês poderiam dizer-me que tipo de atividade é preciso
abandonar (pang-já) e qual deve ser adotada (lang-já)?
Ele esperava que eles dessem a resposta mais simples, isto é, quais
são os atos negativos e os atos positivos.
Mas os dois tolos tomaram os dois termos por nomes de pássaros e
responderam arrogantemente que pang-já era uma determinada
espécie e lang-já uma outra. Depois, puseram-se a falar
doutamente sobre os costumes dos pássaros, os primeiros, segundo
eles viviam na planície e os segundos nas montanhas.
Sakyapandita, não tendo certeza se os monges tinham compreendido
bem sua pergunta, se zombavam dele ou se eram verdadeiramente estúpidos,
fez uma nova pergunta simples: quais são os dezoito infernos?
— Vejamos — disseram os dois monges ——, temos os oito
infernos quentes e os oito infernos frios, o que perfaz
dezesseis....
Faltavam-lhes dois. Eles não sabiam onde encontrá-los, quando duas
palavras vieram a sua mente, sem que tivessem a menor idéia do que
significavam:
— E temos também sha-nak e sha-mar!
Sha-nak e sha-mar, "gorro negro" e
"gorro vermelho", eram na realidade duas expressões que
serviam para denominar o Karmapa e Situ Rinpoche, os dois lamas Kagyüpas
mais célebres na época.
Sakyapandita ficou tão entristecido com a ignorância e a tolice
dos dois monges que começou a chorar. E os dois pretensiosos
pensaram: "Coitado, ele não começou seus estudos tão cedo
quanto nós e chora por causa de sua ignorância!"
Machig Labdrön, dons
excepcionais
Ainda na mesma época, vivia
na região de Lab, nas cercanias da província de Khan, uma jovem
que possuía todas as qualidades: bonita, voz extremamente agradável,
inteligência muito viva. Ela recebera a base de sua educação
espiritual de um mestre chamado Ngöshechem, conhecido por ter sido
o primeiro tertön [revelador de tesouros] do Tibet. Depois
tornou-se discípula de P'hadampa Sangye, por quem tinha uma grande
fé, mesmo antes de encontrá-lo, simplesmente por ouvir falar dele.
A jovem possuía, além disso, dons excepcionais na leitura oral.
Difundira-se no Tibet que monges e lamas realizassem leituras em voz
alta do Kangyur, a tradução tibetana do cânone budista;
esta também era, para muitos yogis mendicantes, uma maneira de
obter alimento. No Kangyur, encontram-se os doze volumes da
Prajnaparanita em Cem Mil Versos, a explicação mais desenvolvida
do segundo ciclo de ensinamentos do Buddha, tratando da ausência de
características. A jovem de Lab era capaz de realizar em um único
dia a leitura dos doze volumes, quando, para um leitor comum, eram
necessários quinze dias. Não se contentando em ser especialista na
técnica da leitura, tinha acesso ao sentido profundo do que lia,
assimilando noções tão sutis como os dezoito tipos de vacuidade.
Essa jovem chamava-se Drönma, "Resplandecência". Como
nascera na região de Lab, era chamada Machig Labdrön: "Mãe
Única, Resplandecência de Lab".
Machig Labdrön e Thöpa
Bhadra
Certa vez em que tinha sido
convidada para fazer a leitura do Prajnaparamita, ela encontrou um
grande realizado, chamado Thöpa Bhadra, que também realizava esse
tipo de leitura. Criaram entre si um laço muito estreito e viveram,
pelo menos aparentemente, como um casal comum. Alguns se chocavam
com isso: "Esse homem e essa mulher são, ao que parece,
grandes mestres e vivem como os mais comuns dos mortais!" Um
dia, entretanto, alguém viu uma grande luz no interior da residência
do casal. A pessoa arriscou uma olhadela e viu como se o Sol e a Lua
estivessem reunidos. Esse Sol e essa Lua eram de fato Machig e Thöpa
Badra.
Tiveram vários filhos, que eram cuidados por Thöpa Badra, enquanto
Machig viajava. Dois de seus filhos ficaram particularmente
conhecidos, Gyelwa Samdrup e Thönyen Samdrup, assim como sua filha
Dorje Drölma. Os três atingiram a realização.
A grande erudição de Machig, seus talentos excepcionais, sua
grande inteligência fizeram com que muito rapidamente sua fama se
propagasse por todo o Tibet, chegando até a Índia. Quando ela
encontrou P'hadampa Sangye, recebeu dele o ciclo completo dos
ensinamentos da linhagem shije de onde provém a prática de Chöd.
Leitura rápida
Um dia, eruditos vindos da Índia
propuseram a Machig de fazer um concurso de velocidade de leitura.
Ela aceitou, ainda que não visse muita utilidade nisso. Os textos
tibetanos impressos no sentido da largura, são compostos de folhas
independentes que compreendem em geral cada uma seis linhas. Uma
pessoa comum lê uma linha por vez. Machig lia seis linhas
simultaneamente! Ela venceu facilmente o concurso e, nessa ocasião,
falou de suas vidas precedentes.
Lembrança de uma vida
passada
Ela revelou, especialmente,
que tinha sido um yogi na Índia e que ainda podiam ser encontradas
em uma gruta, da qual ela deu a localização, as relíquias de seu
corpo passado. Dos yogis indianos, alguns tinham diferentes poderes
e praticavam em particular a caminhada que permitia percorrer
centenas de quilômetros em um único dia. Assim, um deles foi à Índia
muito rapidamente, acompanhado de P'hadampa Sangye, para verificar
as palavras de Machig. Eles encontraram vestígios de sua vida
passada de acordo com as indicações que ela tinha dado.
Compreenderam, então, que Machig era verdadeiramente um ser
plenamente realizado, e tiveram uma fé total nela. A fama de Machig
ficou ainda maior.
A conversão do filho mau
Dos filhos de Machig, havia
um que seguia o mau caminho: roubava, andava com bandidos, matava
animais e recusava-se a escutar seu pai e sua mãe. Não longe de
sua casa vivia um ngagpa, isto é, um yogi que tinha um
cabelo muito longo, um pouco como os sadhus da Índia, e que
tinha a faculdade de lançar encantamentos. Ele possuía um boi que
utilizava para ir todos os dias buscar água em uma fonte distante.
O mau filho de Machig foi um dia na casa do yogi, roubou-o e matou
seu boi. Quando se deu conta de quem era sua vítima, ficou
aterrorizado: "Ele vai usar sua magia contra mim, vai me matar,
com certeza", pensou. Correndo para a casa de Machig,
implorou-lhe:
— Mãe, eu roubei um ngagpa, matei seu boi, ele vai se vingar! Mãe,
você precisa me proteger!
— Não tenha medo, vou ajuda-lo — assegurou-lhe Machig. — Mas
para que minha proteção seja eficaz, é preciso que você pratique
o Dharma; senão não poderei fazer nada por você.
— Eu aceito tudo o que você quiser, mãe, vou praticar.
Machig deu a seu filho, então, as iniciações e as instruções
necessárias, depois levou-o a uma gruta, fechando magicamente todas
as saídas.
O jovem rapaz, na gruta, dedicou-se à prática de Chöd durante
muitos anos, meditando sem nenhuma distração. Sua única ligação
com o mundo exterior era um raio de luz que se infiltrava na gruta
por uma minúscula abertura e através da qual dakinis introduziam
alimentos e bebidas. Depois de vários anos de prática, o filho de
Machig tornou-se também um ser realizado.
O medo é vazio
A prática de Chöd leva à
realização da vacuidade e à compaixão. Ao mesmo tempo, tem como
particularidade permitir que nos desfaçamos do medo e das noções
de pureza ou de impureza material. Quando, por exemplo, o medo
aparece ou um perigo surge, treina-se em pensar: "Quem tem
medo? É a mente. Fora da mente, não há nada que possa sentir
medo. Já que a mente é vazia, o medo também é vazio".
Assim, nada mais parece aterrorizante. Para tornar o treinamento
mais eficaz, Machig preconizava buscar para a prática do Chöd
lugares aterrorizadores como os locais mal-assombrados, cheios de
demônios e abandonados pelos homens, assim como locais repugnantes
como os ossários cheios de cadáveres. A própria Machig freqüentou
dessa forma oitocentos desses lugares e sua realização foi
consideravelmente aumentada.
Sangye Nyentönpa e a gruta
que desmorona
Machig transmitiu a prática
de Chöd principalmente a dezoito grandes discípulos, sendo um
deles, na linhagem Kagyüpa, o Karmapa Rangjung Dorje. Na linhagem
Shangpa Kagyü, foi Bepel Neljor, "o yogi Escondido",
igualmente conhecido pelo nome Sangye Nyentönpa, que recebeu essa
transmissão.
Para praticar Chöd, ele procurava freqüentar locais
aterrorizadores, cuja função acabamos de mencionar.
Um dia em que dormia em sua gruta, foi despertado por pequenos grão
de terra que caiam sobre seu rosto. Ao abrir os olhos, constatou que
a rocha acima dele estava trincando. Seu primeiro reflexo foi correr
para a saída da gruta. Todavia, no momento de sair, lembrou-se que
estava praticando Chöd com o objetivo de superar o medo. Então,
retornou, instalou-se de novo sob a rocha ameaçadora e permaneceu
assim durante três dias, praticando Chöd e meditando sobre a
vacuidade. No final dos três dias, abandonou a gruta livre de todo
medo. Assim que transpôs o limiar, a rocha desintegrou-se.
Um remédio para a loucura
Chöd é uma prática muito
profunda que permite atingir rapidamente o estado de Buddha se for
praticada com perfeição. Mas também é particularmente benéfica
para os seres assolados por medos, angústias, doenças ou atingidos
pela loucura. Imaginemos uma pessoa dominada por uma neurose que a
torna incapaz de fixar-se em um lugar e a leva a errar
permanentemente na natureza. Um praticante especialista na prática
de Chöd terá condições de pôr fim nesse desejo de fuga.
A medicina tibetana repertoria 404 tipos de doenças dentre as quais
101 são devidas a espíritos malignos. Para curar esses tipos de
doenças, não existe um meio mais eficaz do que a prática de Chöd.
A essência da prática
Cinco versos do ritual
permitem-nos compreender a função essencial da prática.
O primeiro desses versos diz: Concedais vossa graça para que eu
evite envolver-me nas atividades do mundo ilusório. Chöd permite,
de fato, reconhecer que todos os objetos exteriores são apenas aparências
ilusórias e assim desapegar-nos deles.
Em segundo lugar, temos: Concedais vossa graça para que eu me desfaça
do apego por este corpo ilusório composto pelos quatro elementos.
Os métodos mais poderosos ensinados por Machig levam-nos ao
desapego do corpo e à interrupção de pensar em termos de "eu
sou esse corpo".
O texto continua: Concedei-me acolher como um único sabor as
circunstâncias adversas, as doenças, os espíritos malignos e os
obstáculos. A prática permite não ser afetado pelas circunstâncias
adversas, libertar-se dos medos, dos perigos, das doenças e dos
sofrimentos, permanecendo na essência deles.
O quarto verso menciona especialmente: Concedais vossa graça para
que eu reconheça meu próprio rosto na manifestação que nada mais
é do que expressão da mente. Chöd é um meio eficaz para que
todas as aparências liberem-se delas mesmas, o que significa que
elas são reconhecidas como produções da mente. Sendo a própria
mente percebida como vazia, todas as aparências liberam-se nessa
vacuidade.
Enfim, é dito: Possa eu obter a liberdade nos três corpos
auto-conhecedores, existentes em si. Podemos com essa prática obter
a liberdade interior, o domínio de nossa própria mente,
reconhecida como sendo ultimamente os três corpos de um Buddha: sua
vacuidade, o corpo absoluto (dharmakaya), sua claridade, o
corpo de glória (sambhogakaya) e a união dos dois, o corpo
de emanação (nirmanakaya).
Consideremos, agora, alguns pontos que, no desenrolar mesmo do
ritual, são específicos da prática de Chöd e lhe conferem um caráter
particular.
Oferenda de mandala
Numerosas práticas incluem o
que chamamos "oferenda de mandala": pensa-se que se
oferecem aos buddhas e às divindades, a montanha axial do universo,
circundada pelos quatro continentes, os quatro círculos de
montanhas de ferro, etc. A oferenda do mandala no Chöd apresenta a
particularidade de que, ao invés de pensar que oferecemos o
universo sob esta forma, é nosso próprio corpo que é oferecido
como mandala, cada parte sendo visualizada em correspondência com
uma parte do universo: o tronco simboliza a montanha axial, a cabeça
corresponde aos diferentes mundos dos deuses, os olhos são o sol e
a lua, os quatro membros, os quatro continentes, etc. Dessa maneira,
o próprio corpo torna-se o mandala do universo.
As noções de "eu"
e de "meu" estão profundamente enraizadas em nós,
cobrindo três aspectos: em primeiro lugar, "eu"; em
segundo lugar, "meu corpo"; em terceiro lugar, "meus
negócios, meu terreno, minha casa, etc.". Desses três, o
primeiro é o mais restritivo, o corpo vindo em segundo lugar e
nossas posses em terceiro.Uma das maneiras de nos desfazermos dessas
fixações, ao mesmo tempo acumulando mérito e purificando-nos, é
praticar a oferenda do mandala. Em geral, ela recai sobre o mundo
exterior e portanto sobre o terceiro dos aspectos que acabamos de
ver: oferecemos em imaginação o universo, tudo o que ele contém e
todos os nossos bens. Em Chöd, ao contrário, oferecemos nosso
corpo, situando-nos, portanto, em um nível mais restritivo de
apego.
P'howa
A prática de P'howa, a ejeção
da consciência, efetuada no contexto de Chöd, reveste também um
caráter particular. Apresenta-se sobre três variantes: o P'howa
exterior, com símbolos e suporte, o P'howa interior, com símbolos
e sem suporte e o P'howa secreto, sem símbolos nem suporte.
O ego, a assimilação ao
corpo, é uma tendência implantada ,muito solidamente em nós. Para
desfazer-nos dela, Chöd integra a prática de P'howa, a partir da
qual, no curso do ritual, mente e corpo são considerados como
separados.
Realizando P'howa, o meditador visualiza que o eu, ou a consciência
ordinária, é enviada ao céu e que se funde na vacuidade do espaço.
Então, ele permanece no estado em que a mente é onipresente como o
espaço; o conhecimento, onipresente como a mente, e o Dharmakaya,
onipresente como o conhecimento. Esse P'howa, chamado a
"Abertura da Porta do Céu", é considerado cem vezes
superior a um P'howa ordinário.
Oferendas
Em todo ritual, realiza-se em
intenção às Três Jóias oferendas de água, flores e incensos,
imaginadas inumeráveis. Em Chöd, elas são efetuadas segundo um
processo particular: são os deuses e os demônios vindos dos
diferentes órgãos sensoriais que as apresentam. Dos olhos emanam
os deuses e as deusas que oferecem as formas, dos ouvidos aqueles
que oferecem os sons, do nariz os que oferecem perfumes, etc.
Além disso, os rituais compreendem uma oferenda de torma. Em Chöd,
é o nosso corpo, carne e sangue, que oferecemos como torma. Uma
variante consiste em pensar que o universo é o recipiente que contém
a torma e que os seres que o povoam são a torma. Uma outra
possibilidade, em Chöd, é ainda visualizar a pele como o
recipiente, enquanto que a carne, os ossos e o sangue são a torma.
Enfim, é possível considerar que, sobre o suporte das aparências
exteriores, é oferecida, enquanto torma, nossa faculdade de pensar.
Quando se trata de demônios ou espíritos malignos, é a eles que
realizamos mais especialmente oferenda: damo-lhes o amor, a compaixão,
nossa carne e nosso sangue.
Os quatro tipos de
convidados
Dos diferentes tipos de
oferendas efetuadas durante o ritual, as principais, utilizando o
corpo sob diversas formas após ter ejetado a mente pela prática de
P'howa, são chamadas "festim branco" e "festim
vermelho", apresentadas para quatro categorias de convidados.
Os "convidados de honra", agrupando as Três Jóias, os
buddhas, os bodhisattvas e os lamas; nós lhes oferecemos nosso
corpo transmutado em diferentes oferendas: exteriores, interiores,
secretas.
Os "convidados de capacidades", isto é, os protetores do
Dharma, assim como os deuses ou espíritos que, embora não estejam
liberados, voltaram-se para o Dharma movidos por uma motivação
fraterna pelos seres e que assumiram engajamentos junto ao Buddha
Shakyamuni, Padmasambhava ou Machig Labdrön. Pensamos que nosso
corpo transforma-se naquilo que lhes é agradável.
Os "convidados de compaixão", isto é, os seres das seis
classes. Todos foram nossos pais e mães e temos, portanto, em relação
a eles uma dívida de gratidão que lhes testemunhamos pensando que
nosso corpo torna-se tudo o que eles possam desejar.
Os "convidados de crédito", compostos por espíritos que
tentam nos prejudicar. Eles o fazem em razão de uma dívida kármica
que assumimos em relação a eles em nossas vidas passadas:
cometemos atos prejudiciais em relação a eles, até podemos tê-los
matado. Também, como forma de remissão, oferecemo-lhes agora a
carne e o sangue de nosso corpo com o qual se alimentam.
Uma vez que a mente tenha
sido enviada para fora do corpo, este é transformado, pela
visualização , em uma grande variedade de oferendas que
correspondem aqueles aos quais são endereçadas .
Em primeiro lugar, o corpo toma a forma de vários objetos alegres e
agradáveis, oferecidos ao lama-raiz e a todos os lamas de linhagem.
Esta oferenda e chamada nônupla, pois inclui para cada um três
elementos da personalidade dos lamas — corpo, palavra e mente —
três graus de oferenda: exterior, interior e secreta. Nessa mesma
fase da meditação, a oferenda é estendida aos yidams, aos buddhas
e aos bodhisattvas, sob quatro formas— exterior, interior, secreta
e última.
Num segundo momento, em intenção dos protetores e dos guardiões
do Dharma, temos, sempre em seguida à transformação do corpo, as
substâncias de "reparação" e de "realização".
Em um terceiro momento, destinados às seis classes de seres,
aparecem dons sob a forma de coisas belas de se ver, sons agradáveis,
pratos deliciosos, perfumes suaves, etc.
Enfim, as oferendas são destinadas a uma quarta categoria de seres:
os credores kármicos. Durante inumeráveis vidas passadas, de fato,
realizamos atos que engendraram o sofrimento dos outros, que os
tenhamos matado ou infligido diversas dores. Portanto, karmicamente,
temos uma dívida com eles, dívida que lhes permite, por exemplo,
nos causar doenças. No ciclo das oferendas que estamos tratando, nós
lhes apresentamos nossa carne, nosso sangue, nossos ossos, ou
qualquer parte de nosso corpo que imaginamos que lhes seja aprazível.
Dar seu corpo
Geralmente, quando um adepto
do Dharma é assolado por medos, angústias ou perigos, o remédio
é orar às Três Jóias. Mas o praticante de Chöd considerará que
essas experiências desagradáveis são produzidas por maus espíritos
e dirá: "Esses seres, que são maléficos hoje, foram no
passado meus pais e mães e manifestaram, então, por mim a maior
bondade. Se desejassem, agora, nutrir-se com meu corpo, eu lhes
ofereceria com prazer". E, dirigindo-se a eles, ele pensa:
"Esse corpo que é meu, façam dele o que quiserem, agrada-me
mais doá-lo a vocês do que conservá-lo para mim".
Completa aceitação
Na perspectiva de Chöd,
mesmo a doença pode ser integrada à prática. Quando ela surge, ao
invés de rejeitá-la, pensamos: "É uma coisa boa; possa eu,
graças a esta doença, tomar para mim as doenças e os sofrimentos
de todos os seres!" Ao mesmo tempo, consideramos que esta doença
pode ser provocada por credores kármicos. Que eles sejam sua causa,
que eles a mantenham ou que a levem a cabo, nós lhes dizemos:
"Venham! Sejam bem-vindos! Se devo ficar doente, que eu fique
doente; se eu devo morrer, que eu morra!" O que quer que aconteça,
tudo é percebido, para além das aparências, na vacuidade da situação.
Em geral, quando estamos doentes, procuramos nos curar por intermédio
de um médico, de remédios variados, até de rituais. Em Chöd, a
abordagem é diferente. Aceitamos completamente a doença, aceitamos
completamente a morte. O corpo é integrado à noção de vacuidade
e não é mais um objeto que é preciso cuidar; ele é simplesmente
oferecido àqueles que desejam vê-lo doente.
Não esquecer o essencial
Se recebermos a iniciação e
as instruções de Chöd, se compreendermos bem o sentido da prática
e se a realizamos de modo eficaz, acredita-se que poderemos adotar
então qualquer conduta. Comportamo-nos de modo insólito, sermos
considerados loucos, torna-se sem importância.
O essencial na prática de Chöd, todavia, continua sendo
compreender bem a natureza última da mente, realizar que ela é
vazia e ao mesmo tempo desenvolver uma grande compaixão por todos
os seres, pensando que eles sofrem porque eles próprios ainda estão
na ignorância da natureza da mente. Chöd inclui ao mesmo tempo o
aspecto último, a realização da natureza da mente, e o aspecto
relativo, a prática da compaixão. Praticar Chöd permite
desenvolver essas duas facetas que são o fundamento do Dharma. É
para isso que contribuem a oferenda de nosso corpo como mandala às
Três Jóias, por exemplo, bem como as outras visualizações do
mesmo tipo.
Machig Labdrön dizia que a acumulação de mérito do praticante de
Chöd é superior a cem acumulações de mérito comum, que a prática
dos "festins branco e vermelho" é superior a cem outras
práticas, que um lugar aterrorizante é superior a cem ermitérios
e que os deuses e demônios que são nossos credores kármicos são
benfeitores superiores a cem outros.
Questão — Um
leigo pode praticar Chöd?
Kalu Rinpoche — Sim, é claro, para realizar esta prática
basta ter recebido a iniciação e ter total confiança nela. Se você
desejar realizá-la, deve receber explicações sobre ela de um lama
qualificado.
No Vajrayana acredita-se que o que recebemos depende em grande parte
do modo que vemos as coisas: se considerarmos um lama como um
Buddha, receberemos dele verdadeiramente a graça de um Buddha; se o
considerarmos como um bodhisattva, receberemos dele a graça de um
bodhisattva; se para nós ele é apenas um homem bom, mas comum, nos
será concedida a graça de um homem bom; enfim, se não tivermos
nenhuma fé nele, não receberemos absolutamente nada.
A prática de Chöd inclui a linhagem dos "tantras-pai",
linhagem dos meios vinda do Buddha Shakyamuni, passando em seguida
por Manjushri, assim como a linhagem dos "tantras-mãe",
linhagem do conhecimento, vinda de Yum Chenmo (A Grande Mãe),
depois passando por Tara e a dakini Sukhasiddhi. Enfim, Chöd
integra também a linhagem dos tantras não-duais.
Questão — É
preciso, necessariamente, ir aos cemitérios para praticar Chöd? O
problema á que não há cemitério em Montchardon!
Kalu Rinpoche — Se você desejar ir a um cemitério, vá, mas
não é necessário. Um cemitério é um local onde encontram-se cadáveres,
alguma coisa de apavorante e repugnante. Milarepa dizia que temos um
cadáver permanentemente à nossa disposição, nosso corpo! Existe
ainda um outro cemitério, o maior de todos os cemitérios: aquele
onde morrem todos nossos pensamentos, todas nossas emoções.
Questão — É
necessário ter feito as preliminares antes de praticar Chöd?
Kalu Rinpoche — Sim, é preciso, primeiramente, ter feito
as preliminares. Existem, também, preliminares específicas para a
prática de Chöd. Embora encontremos essa prática em todas as
escolas budistas, os Sakyapas, os Nyingmapas, os Gelugpas, ela está
mais particularmente ligada à escola Kagyüpa. Assim, se
completarmos as preliminares da escola Kagyüpa, não é
verdadeiramente necessário fazer as preliminares específicas de Chöd.
Questão — Se o
praticante não está qualificado, essa prática pode comportar
perigos?
Kalu Rinpoche — Se somos capazes de desenvolver uma
compreensão suficiente da vacuidade e da compaixão, não há
nenhum perigo. Nesse momento, mesmo que o chamamos causas adversas,
demônios, obstáculos, medos, todas as negatividades, podem ser
transformadas.
Machig Labdrön disse: Se você tem um inimigo e você decidir usar
uma faca para livrar-se dele, talvez você o consiga; talvez, também,
seja ele que se livre de você. Enquanto que se transformar esse
inimigo em um amigo, seu inimigo desaparecerá. Do mesmo modo,
quando você está doente e deseja ficar bom, mas duvida que vai
conseguí-lo, o resultado será incerto; ao passo que, se você
pensar que a própria doença é uma coisa boa, você ficará curado
pelo simples fato de que não há nada mais a ser rejeitado.
O praticante atemorizado
pelo damaru
Apesar de tudo, é necessário
um certo hábito da prática antes de entrar em situações
delicadas. Cita-se o exemplo de um praticante bastante medíocre que
decidiu, um dia, praticar Chöd em um cemitério. Enquanto era dia,
as coisas se passaram bem, mas quando a noite chegou, ele ficou
totalmente inseguro. No entanto, ele começou a soprar em seu
kangling e a tocar o damaru. De repente, uma bola do damaru bateu em
seu rosto; acreditando estar na presença de um demônio,
aterrorizado, ele deixou tudo para trás e fugiu correndo!
A sílaba sagrada
Nos Cem Mil Cantos de
Milarepa, encontramos preciosas explicações sobre esse ritual,
pois Milarepa responde detalhadamente muitas perguntas de uma mulher
sobre a personalidade do lama instrutor, sobre a iniciação, sobre
a própria prática, seus benefícios, etc. Nessa passagem dos Cem
Mil Cantos, Milarepa também dá explicações muito detalhadas
sobre o sentido da sílaba Ph'e (sânsc. Ph'at) que é
repetida várias vezes no ritual Chöd. A força dessa sílaba,
segundo Milarepa é tripla:
- do ponto de vista
exterior, permite retirar a mente do torpor;
- do ponto de vista
interior, tem o poder de interromper um fluxo muito grande de
pensamentos;
- do ponto de vista secreto,
faz com que a mente se libere na sua natureza própria que é
vacuidade, claridade, conhecimento sem descontinuidade.
Nesse canto, Milarepa
explica, também, os três níveis pelos quais podemos compreender
uma iniciação. A imposição do bumpa sobre a cabeça constitui a
iniciação exterior; a meditação de nosso corpo como o corpo da
divindade, a iniciação interior; e o reconhecimento da natureza
essencial de nossa mente constitui a iniciação última ou ainda a
iniciação verdadeira.
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Questão — Qual
é a relação entre Chöd e a Prajanaparamita?
Kalu Rinpoche — Existe uma relação estreita, na medida em
que Chöd é fundado sobre a compreensão da vacuidade e da compaixão,
que é também o ponto de vista de todo o Vajrayana. Ora, a
Prajanaparamita diz respeito precisamente à compreensão da
vacuidade.
Questão — Como conciliar a prática de Chöd com a prática
de um yidam?
Kalu Rinpoche — Isto é feito automaticamente. Quando, na
prática de Chöd, fazemos P'howa, pensamos que a consciência
abandona nosso corpo e transforma-se na divindade Vajra Yogini (Dorge
Pamo): portanto, tornamo-nos um yidam e permanecemos assim
durante toda a prática. Quanto a nosso corpo, que é apenas um cadáver,
nós o oferecemos aos diferentes convidados dos quais já falamos. |
Kalu
Rinpoche. Ensinamentos Fundamentais do Budismo Tibetano: Budismo
Vivo, Budismo Profundo, Budismo Esotérico. Tradução de Célia
Gambini, revisão técnica de Antonio Carlos da Ressurreição
Xavier. Brasília: Shisil, 1999. Para adquirir o livro, clique aqui.
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