Biografia
Bokar Rinpoche, principal discípulo e sucessor de Kalu Rinpoche, escreveu essa curta biografia de Kalu Rinpoche logo após sua morte.
A Fé Reavivada: Breve
Exposição dos Atos do Lama Sublime
Om soti
Desde inumeráveis kalpas nutristes teu ser
do esplendor das duas acumulações,
Dominastes a criação, a perfeição e a bodhichitta,
Usufruístes magnificamente dos dois benefícios,
o teu e o dos outros,
Rangjung Kunkhyab, prosterno-me a teus pés.
Essas palavras enunciadas como uma oferenda servem de liminar a este texto dedicado a um Lama glorioso e santo, um guia sublime cuja bondade perfeita e a atividade maravilhosa aplicam-se a todas as tradições e aos seres nesta época degenerada. Quando devemos nomeá-lo, ele é chamado de o Senhor dos Refúgios, Lama Vajradhara Kalu Rinpoche. A breve exposição da atividade desse lama sublime servirá de lembrança àqueles que têm devoção por ele, assim como de alimento para a fé.
Numerosos grandes seres de visão profunda afirmaram que ele era a expressão da atividade de Jamgön Lama Lodrö Thaye, profetizado pelo Buddha, que foi o diadema coroando todos os eruditos-realizados do País das Neves, ao mesmo tempo que uma luz para todas as tradições.
O Senhor dos Refúgios, Lama Vajradhara Kalu Rinpoche, nasceu em 1904 na aldeia de montanhas de Trechö, no Khan, no Tibet oriental. Seu pai era Lekshe Drayang, um adepto tântrico,
décima terceira encarnação da linhagem dos tulkus de Ratak Palzang e sua mãe era conhecida pelo nome de Drölkar (Tara Branca). Inúmeros sinais e presságios extraordinários acompanharam seu nascimento.
Desde a infância, mostrou naturalmente as marcas de um ser santo e de aprendizagem anterior: o desinteresse pelo ciclo das existências, a compaixão pelos seres, o respeito pelo dharma e pelos lamas. Ele apreendeu a escrita, a leitura e o sentido do dharma sem esforço, simplesmente recebendo seu ensinamento.
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Aos treze anos, no mosteiro de Palpung, sede Kagyüpa do Tibet oriental, foi ordenado monge por Jamgön Tai Situ Pema Wangchok e recebeu o nome de Karma Rangjung Kunkhyab, “Espontâneo-Universal”. Mais tarde reconheceu-se com unanimidade que o nome e o sentido combinavam.
Aos dezesseis anos, fez retiro de três anos e três meses no grande centro de retiro de Tsadra Rinchendra, que tinha sido a sede de Jamgön Lodrö Thaye. Do mestre de retiro, Lama Norbu Töndrup, cujas experiências e realizações eram completas, recebeu então as iniciações novas e antigas, mais particularmente as instruções e as práticas dos Cinco Ensinamentos de Ouro do grande realizado Khyungpo Neljor, do mesmo modo que se esvazia o conteúdo de um recipiente. Durante os estágios de impregnação e de realização dessas práticas, manifestou uma confiança, uma diligência, experiências e realizações completamente não habituais.
Antes e depois desse retiro, recebeu, estudou, meditou e praticou inumeráveis ciclos de iniciações que fazem amadurecer, e instruções que liberam, no contexto dos sutras e dos tantras da antiga e da nova escola, de numerosos grandes seres de todas as tradições, como o grande erudito Tashi Chöpel, um discípulo de Jamgön Lodrö Thaye, Situ Pema Wangchok, Khyentse Shenpen Ser, Plane Khyentse Öser, Pao Tsuklak Mawai Wangchuk, Tsatsa Drubgyu, Dzokchen Rinpoche, Sechen Gyeltsap, Sechen Kongtrul e Khyentse Chökyi Lodrö.
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Desejando renunciar a todos os confortos e todos os bens desta vida, satisfeito com o que possuía, dedicou-se a nutrir a força de sua aspiração para praticar unicamente em ermitérios nas montanhas. Aos vinte e cinco anos também renunciou, exteriormente e interiormente, a todas as coisas materiais, companheiros, servidores, relações familiares, conforto, etc. Permaneceu, então, em retiro em diversos lugares solitários, como Lhapu, perto de Derge, e durante doze anos viveu do estritamente necessário, entregando-se somente à prática com uma indefectível perseverança.
Depois, atendendo o pedido de Situ Pema Wangchok, voltou a Palpung onde ocupou durante muitos anos a função de lama mestre de retiro nos dois centros de retiro, Naroling e Niguling. Graças a isso, numerosos discípulos ergueram a bandeira da prática, sendo que um grande número vive ainda no Khan, assim como no Tibet central e na região de Tsang.
Aos quarenta anos, Rinpoche realizou uma peregrinação e fez oferendas em vários lugares sagrados do Tibet central e do Tsang, visitando os santuários das duas principais estátuas de Lhassa, Jowo e Shakyamuni, assim como os grandes mosteiros das diferentes escolas.
Nessa ocasião, transmitiu os Cinco Ensinamentos de Ouro, da gloriosa linhagem Shangpa, conferindo as iniciações que fazem amadurecer, as instruções que liberam e as transmissões escriturais que servem de suporte, a numerosos seres, como Kardorje, de Sera, Lhatsun Rinpoche, Tokme Rinpoche e Mokchok-Je, de Drepung. Compartilhou, assim, com cada um deles, os ensinamentos da linhagem Shangpa.
Além disso, revivificou os ensinamentos das tradições Jonangpa e Shangpa em diferentes lugares: principalmente no mosteiro de Taranata, Takten Puntsokling, sede da escola Jonangpa, linhagem notável por seu esplendor e sua riqueza tanto cultural quanto espiritual, na sede-vajra de Shangshung (o mosteiro de Khyungpo Neljor), assim como em Lhapu e Nyetang, mosteiros de Mochokpa. Sua atividade em favor da doutrina e dos seres foi imensa.
Rinpoche foi em seguida para o Tibet oriental e permaneceu em Palpung e Hortok. Recebeu ensinamentos, estudou, meditou e praticou-os. Depois, difundiu-os, dando iniciações, transmissões escriturais e explicações. Assim, agiu amplamente em favor da doutrina e realizou o bem dos seres, tornando significativa toda conexão estabelecida com ele.
Em 1955, em razão das perturbações que atingiram o Tibet oriental, voltou para o Tibet central. A princesa do Butão, Ashe Wangmo, por causa de suas aspirações anteriores e de excelente disposição natural de sua mente, sentiu uma grande devoção por Rinpoche quando ouviu falar dele. Ela suplicou, então, ao muito sublime e glorioso
décimo sexto Karmapa, que o designasse abade do mosteiro de Jangtchup Chöling, na província butanesa de Kurtö, e capelão da família real. Sua Santidade Karmapa concordou que era necessário que Rinpoche fosse ao Butão, o que aconteceu em 1957. Durante muitos anos, manteve, protegeu e desenvolveu ali a doutrina. Estabeleceu, além disso, novos centros de retiro das tradições Karma Kamtsang e Shangpa e fez construir stupas. Conduziu inumeráveis pessoas dessa região ao caminho da libertação e da onisciência.
Em 1966, Rinpoche estabeleceu-se em Sonada, no mosteiro de Samdrup Dargyeling, onde criou logo de início o centro de retiro.
Em 1973, a pedido de Sua Santidade, o décimo sexto Karmapa, ministrou em Rumtek, sede da linhagem Kagyüpa, diferentes ciclos de instruções às quatro eminências que são à luz dos ensinamentos Kagyüpa:
Shanar Rinpoche, Situ Rinpoche, Jamgön Rinpoche e Gyeltsap Rinpoche. Transmitiu-lhes os seis dharmas de Naropa, que constituem o caminho dos meios hábeis na linhagem da prática Karma Kamtsang, caminho da liberação. Ministrou-lhes, também, os Cinco Ensinamentos de Ouro da linhagem Shamgpa, as treze iniciações do Protetor e aquela de Dorje Purpa na tradição dos termas novos.
De 1971 a 1989, Rinpoche foi várias vezes para numerosos países:
Estados Unidos, Canadá, diferentes países da Europa e do sudeste
asiático. Inicialmente, conferia aos discípulos os votos de
refúgio nas Três Jóias. Insistindo sobre a lei do karma, a
conduta que deve ser rejeitada ou adotada, ensinava o grande e o
pequeno veículo. No contexto do vajrayana, em particular, dava as
iniciações que fazem amadurecer e as instruções que liberam.
Conferia, mais especialmente, em várias ocasiões, a grande
iniciação de Kalachakra. Entretanto, guiava principalmente seus
discípulos, ensinando-lhes a meditação de Avalokita (Chenrezi), o
Grande Compassivo.
Em diferentes países, Rinpoche fundou mais de setenta centros do
dharma assim como vinte centros de retiro; construiu nesses locais
vinte stupas. Confiou a responsabilidade desses centros e a tarefa
de efetuar o ensinamento do dharma a mais de trinta lamas, seus
discípulos, que tinham realizado o retiro de três anos. No mundo
inteiro, sua bondade e sua atividade espiritual suscitaram imensos
resultados para a doutrina e para os seres.
Em 1983, Rinpoche deu uma prova suplementar de sua solicitude pelos seres, transmitindo as iniciações e as explicações do Tesouro dos Preciosos Termas aos quatro regentes do Karmapa, que são como as jóias da coroa dos ensinamentos Kagyüpas, assim como a numerosos lamas, tulkus e monges, e milhares de discípulos dotados de fé, vindos da Índia, do Tibet, do Sikkim, do Butão, do Oriente e do Ocidente.
Em 1986, em sua grande compaixão, decidiu tornar mais acessível ao conjunto do mundo a compreensão e a prática do santo dharma nos três veículos do buddhismo. Com esse objetivo, fundou um grupo de tradução chamado “Comitê Internacional para a Tradução da Enciclopédia dos Conhecimentos, tratado que resume a essência dos sutras, dos tantras e da cultura buddhista”. Com o auxílio de eruditos tibetanos das diferentes escolas, tradutores ocidentais empenham-se atualmente nesse trabalho.
Em 1988, Rinpoche projetou a construção de um stupa de uns trinta metros de altura em Salugara, perto da cidade de Siliguri, no estado de Bengala Ocidental, na beira de uma estrada muito importante. Esse stupa conteria as cinco espécies de pérolas-relíquias e seria um suporte de liberação pela visão.
Em fevereiro de 1989, Rinpoche foi a Sherab Ling, a sede de Sua Eminência Situ Rinpoche. Em companhia deste último e de outras eminências, tomou parte no ritual de Mahakala, assistiu às danças sagradas e participou das festividades do Ano Novo Tibetano.
Em seguida, Rinpoche foi a Dharamsala, sede do Dalai-Lama, onde encontrou Sua Santidade, que manifestou seu interesse por sua atividade em favor dos seres e da doutrina e assegurou-lhe seu apoio.
Em 15 de março, Rinpoche voltou ao seu mosteiro de Sonada. Demonstrou, progressivamente, uma certa alteração de seu estado de saúde. Seu secretário particular e sobrinho, Gyaltsen sentiu-se então incapaz de assumir a responsabilidade da situação. Expôs a Rinpoche as grandes vantagens que teria se fosse transferido para Delhi, para a França ou para qualquer outro país do Oriente ou do Ocidente, onde receberia melhores cuidados.
Todavia, Rinpoche não se mostrou favorável a esta sugestão, dizendo que não haveria nenhuma utilidade em ir onde quer que fosse, que o melhor seria ficar ali onde estava. Seu estado de saúde continuava a alterar-se e seguindo conselho médico, foi a uma clínica, onde recebeu cuidados durante três semanas. Sua saúde demonstrou, então, sinais de melhora.
Em 5 de maio, Rinpoche retornou a seu mosteiro de Sonada. Entretanto, nos dias que se seguiram, seu estado agravou-se de novo. Em 10 de maio de 1989, às três horas da tarde, aos oitenta e cinco anos, a fim de dar um exemplo àqueles que, como eu, tornaram-se mais medíocres apesar de sua conexão com o dharma e continuam apegados à permanência, assim como por consideração aos seres que vivem em outras esferas de existência, ele entrou na pura clara luz, a infinitude absoluta.
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Nós,
seus discípulos e as pessoas que lhe eram próximas mergulhamos nas
trevas do sofrimento, deixados sem refúgio e sem protetor. Nesse
momento de total confusão, suas eminências Jamgön Kongtrul
Rinpoche, Shamar Rinpoche, Chatral Rinpoche, Situ Rinpoche e
Gyeltsap Rinpoche vieram sucessivamente prestar homenagem ao kudung,
o corpo sagrado de Rinpoche. Eles recitaram com fervor orações de
aspirações para que se realizassem plenamente o que a mente de
Rinpoche tinha concebido, inteiramente voltada para o bem dos seres
e da doutrina.
Aliviaram nossa tristeza, assegurando-nos que não
tardaria a vir uma nova emanação sublime, protetor dos
ensinamentos e guia para mim mesmo, os discípulos e os seres. Nessa
intenção, compuseram orações de pronto retorno. Por outro lado,
presidiam os rituais que foram realizados, manifestando assim sua
bondade conosco.
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Resumindo, nosso nobre lama, desde a mais tenra idade, manifestou seu desinteresse pelo ciclo das existências e, desviando-se dele, atravessou o limiar dos preciosos ensinamentos do Buddha. Tornou-se um grande mestre-vajra dos três tipos de votos, os da liberação individual, de bodhisattva e do
Vajrayana.
Pela escuta, a reflexão e a meditação, assegurou seu próprio desenvolvimento espiritual; pela explicação, o debate e a composição, fez o bem para os outros; pela habilidade, nobreza e excelência, fez seu próprio bem e o do outro. Por essas nove qualidades próprias aos seres autênticos, expôs, propagou, manteve e protegeu sem parcialidade a doutrina do Vencedor, mais particularmente os preciosos ensinamentos das linhagens Karma Kagyü e Shangpa Kagyü.
Por sua bodhichitta e sua bondade extraordinária, reviveu os ensinamentos estabelecendo comunidades para os monges, fundamento da doutrina do Buddha, e criando centros do dharma, no Tibet central e no grande Tibet, na Índia, na China, no Butão e no Sikkim, assim como em todas as partes do mundo. Mostrou-se, assim, inigualável em dar uma vida nova às instruções sagradas.
Dentre seus discípulos, que são os detentores de linhagens, encontram-se numerosos e excelentes amigos espirituais, como os regentes de Sua Santidade Karmapa na tradição Kagyüpa, e os lamas e tulkus de todas as tradições. No mundo inteiro, teve inumeráveis discípulos de boa fortuna, homens e mulheres. Além disso, incontáveis seres estabeleceram com ele uma conexão significativa. Todos foram colocados no caminho excelente da liberação e da onisciência.
Este breve resumo dos acontecimentos da vida de Rinpoche foi escrito por um discípulo de capacidade inferior que, durante muitos anos gozou da proteção amorosa desse lama, o grande Vajradhara em pessoa. Eu, que sou chamado de Bokar Tulku, ou Karma Ngedön Chökyi Lodrö, escrevi esse texto em 3 de junho de 1989, diante do precioso kudung. Por este ato, possa eu e todos os seres atingir o estado precioso desse nobre lama.
Sarva Mangalam.
Kalu
Rinpoche. Ensinamentos Fundamentais do Budismo Tibetano:
Budismo Vivo, Budismo Profundo, Budismo Esotérico. Tradução
de Célia Gambini, revisão técnica de Antonio Carlos da Ressurreição
Xavier. Brasília: Shisil, 1999. Para adquirir o livro, clique aqui.
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