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Ensinamentos Fundamentais do Budismo Ch'an |
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Queridos Mestres e Amigos do Darma, Gostaria de agradecer a todos por virem a esta palestra sobre budismo. Nosso tema hoje é a "Perspectiva Budista sobre Magia e Sobrenatural". Ao mencionarmos a palavra "magia", imediatamente pensamos naqueles atos misteriosos, sobre-humanos e fora do comum. Quando enfrentamos um obstáculo, não gostaríamos que acontecesse um milagre? Talvez que o super-homem aparecesse e eliminasse os nossos problemas. Se alguém nos desse um soco ou nos agredisse verbalmente, não seria incrível se fôssemos mestres em artes marciais? Poderíamos nocautear nosso agressor usando apenas um dedinho. Ao sermos perseguidos, não seria maravilhoso se pudéssemos voar? Evitaríamos facilmente uma calamidade. Se alguém quisesse causar confusão, não seria ótimo se pudéssemos lançar um feitiço e imobilizar essa pessoa? Se um milionário não estivesse disposto a fazer o bem, não seria bom se pudéssemos juntar todo o dinheiro dele e distribuí-lo aos pobres e necessitados? A magia, para a maioria das pessoas, é basicamente o desejo de ser importante, poderoso, capaz de fazer o impossível. Embora a magia possa ser um instrumento para punir o mal e ajudar os necessitados, também pode ser mal empregada e pôr em risco a humanidade. A magia traz algum benefício para a humanidade? Ela é boa ou ruim? Por que ela existe? Eu gostaria de examinar a perspectiva budista sobre a magia e o sobrenatural a partir de quatro aspectos. Definição e Classificação de Magia De acordo com as escrituras, a magia é um poder ilimitado, inimaginável e acima do normal, que conquistamos com a prática da meditação. Em geral, achamos que só Buda, os bodhisattvas, os deuses ou os devas têm poderes mágicos ou sobrenaturais. Mas, na realidade, fantasmas e demônios também podem ter poder mágico. Nós, seres humanos, temos poder mágico também. A magia não se limita aos atos extraordinários de causar chuvas e tempestades ou formar nuvens. Ela faz parte do nosso dia-a-dia. Se formos observadores, podemos reconhecê-la. Quando estamos exaustos e com sede depois de uma longa jornada, um copo d'água mata a nossa sede. Esse copo d'água não é como uma poção mágica? Alguém que não saiba nadar afunda como uma pedra ao cair na água, mesmo que lute desesperadamente para se manter na superfície. No entanto, um bom nadador só precisa dar algumas braçadas e bater os pés para nadar como um peixe. Não é mesmo um milagre? Aqueles que estão aprendendo a andar de bicicleta seguram o guidão com toda força e mesmo assim caem da bicicleta. O ciclista experiente consegue até largar o guidão e continuar pedalando em alta velocidade. Não parece sobrenatural? Também podemos descrever aqueles incríveis malabarismos circenses como mágica. Do ponto de vista científico, o próprio corpo humano é um milagre. Lágrimas afloram quando estamos tristes e o riso brota quando estamos felizes. A fome pode ser saciada pela comida. A sensação de frio acaba quando nos agasalhamos. Esses fenômenos todos não são mágicos? As glândulas mamárias da mulher não apenas secretam leite como variam a composição e a quantidade de nutrientes de acordo com as necessidades do bebê. Depois que o bebê pára de mamar, a produção de leite cessa naturalmente. Não é assombroso? A magia não se resume a truques e feitiçaria; ela está em todo lugar. A mudança das estações, as flores que desabrocham e murcham, as várias fases da lua, os tamanhos diferentes dos animais, não são todos expressões de prodígios mágicos? Os efeitos prodigiosos da magia estão à nossa volta onde quer que estejamos. Quantos tipos de poderes mágicos estão registrados nas escrituras budistas? Segundo a classificação mais comum, existem seis categorias principais. São elas a visão celestial, a audição celestial, o poder de ler a mente das outras pessoas, o poder de realizar milagres, o poder de conhecer vidas passadas e o poder de erradicar todo sofrimento. A. A Visão Celestial
B. A Audição Celestial A audição humana não é de longo alcance. Precisamos de amplificadores e microfones para poder ouvir os sons mais distantes. As pessoas com audição celestial são capazes de ouvir sons com nitidez, independentemente da distância. Maudgalyayana, o número um em poderes sobrenaturais entre todos os discípulos do Buda, uma vez resolveu averiguar o alcance da voz do Buda. Usando poderes mágicos, ele viajou até outro mundo de Buda, a trilhões de anos-luz de distância. Ali ele fez uso de sua audição celestial e, apesar da distância, ainda conseguiu distinguir com clareza a voz do Buda transmitindo seus ensinamentos. Podemos saber português, mas talvez não inglês, japonês ou outras línguas. As pessoas com talento para línguas podem falar vários idiomas, mas ainda assim têm uma compreensão limitada de outros. As pessoas com audição celestial são capazes de entender todas as línguas. Além dos idiomas humanos, elas também entendem o cantar dos pássaros e o rugido dos animais. C. Poder de Ler a Mente das Outras Pessoas O poder de
ler a mente das outras pessoas consiste na capacidade de saber com precisão o
que os outros estão pensando. Vivemos reclamando, "você simplesmente não me
entende...". Se já é difícil entendermos a nós mesmos, imagine entender os
outros. Aquele que tem o poder de ler a mente alheia pode ver os pensamentos
bons e ruins na mente das pessoas como se estivesse olhando através de uma
lente transparente. Nem um único pensamento lhe passa despercebido. E. O Poder de Conhecer Vidas Passadas Às vezes somos tão esquecidos que não conseguimos nos lembrar nem mesmo do que aconteceu ontem. As pessoas com excelente memória podem recordar o que aconteceu há meses ou anos atrás. Aqueles dotados do poder de conhecer vidas passadas podem se lembrar de fatos ocorridos em suas vidas passadas com tanta facilidade com que se lembram dos ocorridos no dia anterior. Além de conhecer o próprio passado, essas pessoas também conhecem o passado dos seres sencientes. Quando alguém morre, a pessoa dotada desse poder também pode predizer a retribuição futura do carma do falecido e o lugar onde ele renascerá. F. O Poder de Erradicar Todo Sofrimento Sofrimento
é aflição. Aqueles com o poder de erradicar todo sofrimento não passarão por
mais nenhuma aflição. Eles não estarão mais sujeitos aos ciclos de nascimento e
morte nem terão que renascer neste mundo de ignorância. Os cinco poderes
mágicos mencionados antes deste não são exclusivos dos praticantes do budismo —
fantasmas, demônios, deuses e devas também podem ter poderes semelhantes,
embora não tenham ainda como escapar dos ciclos de renascimento. Esses cinco
poderes mágicos não são, portanto, supremos. Somente o poder supremo de
erradicar todo sofrimento pode fazer com que a pessoa transcenda os ciclos de
renascimento. Esse poder só está ao alcance de santos budistas, assim como o
Buda e os Arhats. Esse poder está fora do alcance dos mortais ou dos espíritos
não-iluminados. A Magia na Sociedade A maioria das pessoas da nossa sociedade se sente
particularmente atraída por fenômenos estranhos e fora do comum. Por outro
lado, os ensinamentos profundos, formidáveis e práticos do Buda não despertam a
mesma atenção. A magia tem de fato um grande poder para atrair as massas, pois
satisfaz a curiosidade do povo. Que relação te, afinal, a magia com a vida das
pessoas? Além do bodhisattva Avalokiteshvara, a deusa Ma Tzu também é muito respeitada. Como Taiwan é uma ilha cercada pelo mar aberto, as pessoas têm de ganhar seu sustento no mar e enfrentam todos os perigos imprevisíveis que isso significa. Conhecida por proteger as pessoas do afogamento, Ma Tzu é considerada a protetora dos marinheiros. Chi-Kung, considerado por muitos um Buda vivo, é outra figura cultuada pelo povo pelo fato de usar sua magia para resolver os problemas daqueles que sofrem. Assim, como a chuva depois de uma longa estiagem, a magia pode dar esperança àqueles que enfrentam uma situação desesperadora. As pessoas em geral ficam fascinadas com os fenômenos mágicos. Por falar em "Buda Vivo", não faz muito tempo havia um monge budista, o Venerável Miao Shan, que o povo chamava de o "Buda Vivo da Montanha Dourada". A vida desse monge sempre fora cheia de histórias mágicas, pitorescas e incomuns. Ele e o abade do Templo da Montanha Dourada, o Venerável Tai Tzang, eram bons amigos. Houve, certa vez, uma jovem que sofria de uma doença rara e incurável e não conseguia engolir. Ela acabou se dirigindo ao Templo da Montanha Dourada para pedir ajuda. O Venerável Miao Shan, o "Buda Vivo", pediu que ela abrisse a boca, retirou dali um pouco de muco e a jovem foi milagrosamente curada. Em outra ocasião, o Venerável Tai Tzang e o "Buda Vivo" estavam ambos na sala de banhos da comunidade. O Venerável Tai Tzang, conhecendo as numerosas histórias de cura do "Buda Vivo", implorou: ""Buda Vivo", sua compaixão, por favor, cure a doença que minha mãe tem a tanto tempo no estômago." Imediatamente o "Buda Vivo" pegou um pouco de água da banheira com as mãos em concha e disse: "Aqui está, esta é a tigela de sopa de prajna (sabedoria transcendental). Dê a sua mãe e ela ficará livre de toda doença"> O Venerável Tai Tzang hesitou por alguns instantes, o que era compreensível, mas não disse nada. Apenas pensou consigo mesmo: "Isso é uma piada. Como alguém pode beber a água da banheira de uma casa de banhos comunitária?" O "Buda Vivo" então disse: "Por isso eu o aconselhei a não me procurar em caso de doença. Eu lhe prescrevi sopa de prajna e você a trata como se fosse água de banheira. O que espera que eu faça?" Por esse motivo, nem sempre ele concordava em curar as doenças das pessoas. Às vezes, quando não conseguia negar um pedido, ele empregava métodos incomuns como esse para ajudar o doente. Quando faleceu em Burma, em 1935, o Venerável Tzu Hung ajudou a providenciar seus funerais. Desde então, o "Buda Vivo" ainda é lembrado por muitas pessoas pelo seu poder de resolver os problemas das pessoas e lhes dar esperança. Com os exemplos citados, podemos compreender que a magia não é algo que deva ser usado no dia-a-dia nem a toda hora. Contudo, seu uso ocasional serve como um tratamento de emergência, muito útil como lenitivo em momentos de sofrimento. B. A Magia é Salvadora nos Períodos de Agitação Política ou Social Há um ditado que diz: "Tempos incomuns exigem métodos incomuns". Em épocas de rebelião, de caos social ou de guerra, a pregação dos ensinamentos budistas pode não atrair a atenção necessária para amenizar a situação. Por outro lado, a magia pode ser empregada para causar um impacto instantâneo. Assim como acontece no caso de uma doença grave, o paciente precisa antes receber os primeiros-socorros para depois seguir um tratamento prolongado de reabilitação. Durante o período da sublevação das Cinco Tribos e dos Dezesseis Estados Normandos (304-439 E.C.), os generais assassinos Shi Le e Shi Hu causaram uma rebelião homicida. Inúmeros inocentes perderam a vida. O Venerável Buddhacinga partiu da Ásia Central com a esperança de converter os generais em guerra. "Vocês deveriam ter bom coração. Pensar no povo. Não matem pessoas inocentes", implorou o Mestre aos comandantes. Os generais responderam ardilosamente: "Você quer que tenhamos bom coração. Queremos ver como é o seu coração". "Tudo bem. Dêem uma boa olhada nele", replicou o Venerável Buddhacinga, tomando a espada de um soldado e cortando o próprio peito. Então, tomou o coração palpitante nas mãos e falou algo inclinando-se sobre uma bacia de água limpa. Na água, floresceu milagrosamente um lótus branco. Buddhacinga, então, estendeu calmamente o coração para os generais e disse: "Este é o meu coração, tão puro quanto esta flor de lótus branca". Até mesmo os generais assassinos ficaram impressionados com tamanha bravura e poder e passaram a ser discípulos do mestre. Buddhacinga usou a magia para convertê-los e, assim, também salvou milhares de vidas. Durante os levantes, a magia pode ter o poder de um salvador. Dizem es lendas que, durante a dinastia T'ang houve um mestre Ch'an, o Venerável Yin Feng, que também tinha um grande poder mágico. Certa feita, ele se deparou com uma batalha feroz entre dois exércitos e tentou estabelecer a paz por meio de paciente persuasão. Como ninguém prestava atenção aos seus conselhos, ele finalmente atirou seu cajado pelos ares e então voou até ele e dançou com o objeto na mão. Os soldados em guerra ficaram tão impressionados com a cena que esqueceram a luta. A batalha antes sangrenta foi instantaneamente interrompida pela magia do mestre Ch'an. A partir dessa ocasião as pessoas passaram a chamá-lo de Mestre do Cajado Voador. Esse mestre Ch'an era muito bem humorado e cheio de surpresas Ch'an. Um dia em que fazia uma palestra sobre a vida e a morte, ele perguntou aos discípulos: "Vocês já viram alguém morrer enquanto está sentado meditando?" Os discípulos responderam: Certamente que sim. Houve um mestre Ch'an que morreu enquanto meditava sentado". "Então, vocês já ouviram falar de pessoas que morreram enquanto estavam de pé?", perguntou o mestre Ch'an. "Já, já ouvimos. Os familiares do Venerável Fu morreram todos enquanto trabalhavam na fazenda. Muitos praticantes da Terra Pura também podem morrer como quiserem", responderam os discípulos. O mestre Ch'an, então, perguntou: "E alguém de cabeça para baixo, já viram morrer?" Surpresos, os discípulos responderam: "Nunca vimos nem ouvimos nada parecido". "Ótimo. Nesse caso, eu mostrarei a vocês", disso o mestre Ch'an, que em seguida ficou de ponta-cabeça e entrou em Nirvana. Os discípulos ficaram chocados e entristecidos. Providenciaram às pressas os funerais e se depararam com um difícil problema. Quando tentaram mover o corpo do mestre, descobriram que ele estava tão imóvel quanto um pilar de concreto. Não importava quanta força fizessem, não conseguiam erguê-lo do chão. Ninguém sabia o que fazer até a chegada da irmã do mestre, uma monja que há muito cultivava o Caminho. "Você usava magia para confundir as pessoas quando vivo", ralhou ela. "Ainda quer usar o mesmo truque para impressionar as pessoas depois da morte? Faça o favor de cair agora!" Por mais estranho que pareça, o corpo caiu no mesmo instante. O mestre Ch'an não queria impressionar as pessoas com sua mágica. Ele só queria que elas vissem que os praticantes Ch'an podem lidar com o estado de morte com total controle e liberdade. Os exemplos citados mostram que a magia pode ser um ótimo instrumento em tempos de agitação social. Alguns de vocês podem pensar: "Muito bem! Vou praticar com afinco e adquirir poderes sobrenaturais, também. Vou poder seqüestrar os líderes dos exércitos inimigos e todos os nossos problemas estarão resolvidos". Porém, não se trata apenas disso. Quando um líder cai, outro surge no lugar daquele, e, depois desse, outro e mais outro. A força não soluciona os problemas definitivamente. Só a moralidade e a compaixão podem levar a uma paz duradoura. Durante o período dos Três Reinos (222-265 E.C.), o sábio primeiro-ministro Kung Ming capturou e libertou sete vezes o rebelde Meng Huo, porque ele entendia que as pessoas só podiam ser persuadidas por meio de truques ou da força. Precisamos ter grande confiança na moralidade e na compaixão, embora os efeitos não sejam visíveis de imediato. A moralidade e a compaixão transformam maus hábitos e purificam a mente das pessoas. A magia, por mais poderosa que seja, só pode ser usada numa emergência, para proporcionar um alívio temporário. As soluções definitivas dos nossos problemas encontram-se sempre num plano normal e ordinário. C. A Magia é um Expediente que se Usa na Pregação A magia em geral é mais aceita pelas massas do que a razão. Ao longo da história, mestres budistas muito estimados pelo povo usaram a magia, em circunstâncias extraordinárias, como um método de disseminação dos ensinamentos budistas. Durante a Dinastia Han Oriental, sob o regime do Imperador Ming, o budismo foi introduzido na China. Os taoístas resistiram e desafiaram os missionários budistas para um duelo de magia aberto ao público. O Imperador facilitou e presidiu essa disputa histórica. Ele ordenou que duas grandes fileiras de mesas fossem colocadas num grande salão. As escrituras budistas e algumas relíquias do Buda foram dispostas numa das fileiras e as escrituras taoístas, na outra. Os sacerdotes taoístas chegaram orgulhosamente voando ou materializando-se. Os representantes budistas, Kashyapamatanga e Dharmaraksa, entraram no salão caminhando devagar. A multidão estava apostando que os monges não seriam capazes de vencer os sacerdotes taoístas. Depois que ambos os lados haviam se acomodado em seus assentos, os sacerdotes taoístas iniciaram o ataque usando feitiços para reduzir a cinzas as escrituras budistas. Nada aconteceu. Em vez disso, a relíquia do Buda irradiou uma luz brilhante. Quando a luz chegou às escrituras taoístas, os livros pegaram fogo no mesmo instante e foram rapidamente destruídos. Nesse momento, Kashyapamatanga voou pelos ares e disse:
Esses versos querem dizer que o espírito do budismo é tão digno e majestoso quanto o leão, o rei dos animais. Como pode o taoísmo, como a matreira raposa, se comparar a ele? O taoísmo é como a lamparina; sua sabedoria não se compara à do budismo, brilhante como a luz do céu e da lua. Um lago definitivamente não pode abarcar a imensidão do vasto oceano; a colina não é páreo para a grande e alta montanha; como o taoísmo pode se comparar com o reino soberbo do budismo? As nuvens auspiciosas dos ensinamentos budistas cobrem o mundo, possibilitando que aqueles com raízes de bondade germinem e cultivem as sementes bodhi, até finalmente atingir o fruto supremo da budeidade. Hoje, usei a magia como um meio de converter os seres vivos ignorantes a trilhar o caminho certo. A magia não é um fim em si mesmo." Os sacerdotes taoístas ficaram todos petrificados ao ouvir os versos. Tentaram fugir, mas seus poderes mágicos não surtiram efeito. O Imperador Ming, impressionado com as virtudes e poderes de Kashyapamatanga e Dharmaraksa, mandou construir quatro templos na cidade e mais quatro em suas cercanias, para monjas e monges, respectivamente. Esse foi o início, na China, dos monges e monjas do puro cultivo. Graças ao duelo de magia, o budismo finalmente plantou suas sementes na China e acabou por crescer e frutificar. Repito: embora o uso da magia não seja a solução final, ela pode, sem dúvida, ser um meio de disseminar os ensinamentos. O Cultivo e o Uso da Magia Visto que a magia está tão estreitamente relacionada a nós, como podemos conquistar poderes mágicos? Como devemos usar esses poderes? Devemos avaliar o verdadeiro sentido e as assombrosas aplicações da magia diretamente em nossa vida. Por exemplo, quando olhamos belas flores, um prado verdejante ou a lua no céu, nosso espírito se eleva naturalmente e se enche de alegria. Isso não é mágico? Quando queremos agradar uma pessoa, nós a elogiamos e ela fica radiante. Se dissermos as palavras erradas, no entanto, ela pode, em vez disso, brigar conosco. Essa não é a magia da linguagem? As emoções humanas, como a felicidade, a raiva, a tristeza e a alegria, não são todas mágicas? A magia está em todo lugar à nossa volta. Temos de aprender a apreciar os encantos da magia na nossa vida diária. Quando queremos assistir a um programa de TV, apertamos o botão do controle remoto e instantaneamente a imagem aparece na tela. Essa imagem pode vir de longe, até mesmo de um outro país, numa transmissão via satélite. Essa não é uma visão celestial? Quando pegamos o telefone, podemos ouvir vozes que vêm de longe, apesar de obstáculos como as montanhas. A comunicação moderna não é um som celestial? Como os aviões, podemos voar como pássaros, alcançando qualquer destino que pretendamos. Não temos o poder milagroso de viajar para onde quisermos? Se formos observadores, descobriremos que nossa vida cotidiana é mágica. Acontece apenas que, se estivermos desatentos, a magia deixa de ser assombrosa. A magia está também na natureza. Por exemplo, quando nuvens escuras encobrem o céu, a chuva cai. Às vezes, enquanto o sol ainda brilha, grandes gotas de chuva caem, mesmo assim. Não é um fenômeno mágico? Dependendo da interação de diferentes sistemas de pressão atmosférica, pode haver brisas suaves, rajadas de vento, furacões, tempestades ou neve. As estações mudam, mantendo o equilíbrio ecológico e permitindo que todos os seres vivos continuem a crescer. Todas essas mudanças na natureza podem ser vistas como magia. Na nossa vida diária, a magia também é o acúmulo de experiências, a expressão da sabedoria humana e a utilização inteligente de recursos. As inscrições que encontramos no calendário chinês, como "início da primavera", "época de insetos", "chuvas", "equinócio de outono", "frio rigoroso", etc. descrevem períodos sazonais assim como foram identificados ao longo da experiência de incontáveis gerações e representam uma herança preciosa de nossos ancestrais. Os fazendeiros usam seus anos de experiência para prever o tempo e identificar a época adequada para plantar e colher. Na nossa sociedade, muitos especialistas já nos advertiram sobre a explosão populacional, a poluição do meio ambiente e a crise energética, o que nos permite planejar o futuro desde já. Como é possível que todas essas pessoas vejam o futuro? A experiência nos habilita a predizer o futuro. Ela é uma magia poderosa. Além da experiência, uma decisão tomada com sabedoria também pode ser mágica. O sábio primeiro-ministro Kung Ming conseguiu prever o futuro com precisão e sugerir estratégias incomuns que defenderam do perigo o Reinado de Shu,durante o Período dos Três Reinos. O Sr. Yang-ming Wang defendia "a visão das coisas por meio da consciência" e "o uso de ações para acompanhar o conhecimento na previsão do futuro". A história está repleta de pessoas sábias que viram as mudanças do tempo e predisseram tendências futuras. Elas foram capazes de fazer essas predições por causa da sabedoria que tinham. Quando enfrentamos dificuldades, se analisarmos a situação, somos capazes de superá-las. Isso não é mágico? O acúmulo de conhecimento humano leva a muitos avanços científicos. Isso também é mágico. A lua é considerada romântica, misteriosa e bela, no entanto, está fora do nosso alcance. Agora, com as naves espaciais, pisamos na lua e caminhamos em sua superfície irregular. Para qualquer um que tenha vivido antes do século XX, esse ato não seria considerado magia? Com os vários avanços tecnológicos do campo da medicina, atualmente temos muitos tratamentos que seriam pura magia aos olhos de nossos ancestrais. Se nossa pele for gravemente lesionada, podemos fazer um enxerto usando a pele de outra região do corpo. Se nossos rins ou nosso coração deixar de funcionar, podemos receber um transplante de um doador. Se não conseguimos enxergar, podemos fazer até um transplante de córneas. O sucesso dos bebês de proveta abre novos horizontes para a reprodução humana. Todos esses avanços seriam surpreendentemente mágicos para os nossos ancestrais. Inventamos o avião e técnicas para causar chuva artificial. Agora não voamos pelos ares e causamos raios e trovões? A magia não é exclusividade dos espíritos e devas. Se usarmos nossos conhecimentos com sabedoria, também podemos realizar incontáveis milagres na nossa vida aqui na Terra. Aprender magia não é considerado difícil no budismo. A questão mais importante é saber em que essa magia se baseia. Os poderes mágicos podem se apoiar em quatro fundamentos: A . Compaixão B. Preceitos Magia baseada nos preceitos puros significa que os
praticantes devem seguir esses preceitos. Seguir os preceitos é um aspecto do
treinamento tríplice dos budistas. O corpo e a mente têm de repousar nesses
preceitos. Aceitando-os, sabemos distinguir o certo do errado, o que devemos e
o que não devemos fazer. Quando temos a intenção de seguir os preceitos,
vigiamos nossas atitudes com eles, não usamos a magia para prejudicar os outros
e só a usamos nas ocasiões em que ela nos ajuda a realizar feitos positivos em
relação à observação dos preceitos. Assim, quando aprendemos magia, temos de
seguir os preceitos rigorosamente. Do contrário, o resultado é o poder
destrutivo do mal. A Perspectiva Budista sobre Magia e Sobrenatural A magia é uma esperança em tempos de tribulação; é a
salvação durante rebeliões. É um expediente que se usa na pregação. A magia tem
de ser praticada na vida cotidiana. Por fim, vamos falar sobre a perspectiva
budista sobre magia e sobrenatural. Resumirei esse tema dividindo-o também em
quatro pontos.
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