Ensinamentos Fundamentais do Budismo Ch'an

 

 

Terceira Parte


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Sem Outra Escolha a Não Ser Falar

Um dia, O Mestre Ch'an Tao-fu foi visitar o Mestre Ch'an Hsüeh-feng I-ts'un. Em seu primeiro encontro, o Mestre Hsüeh-feng perguntou: "Onde você mora?"

Tao-fu replicou: "Wenchou".

O Mestre Hsüeh-feng disse: "Quer dizer que você veio do mesmo lugar que o Mestre Ch'an Hsüan-chüeh Yung-chia".

Tao-fu estava inseguro e perguntou: "Onde vivia o Mestre Yung-chia?"

O Mestre Hsüeh-feng repreendeu-o: "Você é tão ignorante que eu deveria dar-lhe uma boa surra, mas por hoje, você pode ir".

"Tang-tang-mi-mi-ti (A verdade última se manifesta claramente em todos os lugares)" foram as palavras ditas pelo Mestre Hsüeh-feng quando um dia ele se dirigiu à assembléia. Depois de ter dito isto, o Mestre Hsüeh-feng ficou em silêncio, e ninguém compreendeu o que ele quis dizer.

Tao-fu adiantou-se e perguntou: "O que é tang-tang-mi-mi-ti?

O Mestre Hsüeh-feng indagou: "O que você disse?"

Tao-fu ficou em expectativa respeitosamente.

O Mestre Hsüeh-feng esperou, mas ninguém falou, assim ele continuou: "Tang-tang-mi-mi-ti" é a essência do ensino Ch'an".

Depois de ouvir isto, Tao-fu ajoelhou-se, juntando as mãos disse: "Tenho vivido aqui durante vários anos e nunca ouvi o Mestre oferecer ensinamentos tão compassivos."

O Mestre Hsüeh-feng disse: "Eu nunca falei assim antes. Incomoda-lhe agora que eu tenha dito isto?"

Tao-fu observou: "Como eu me atreveria ficar aborrecido? Não há nada que o senhor possa fazer".

O Mestre Hsüeh-feng disse: "Eu não tive outra escolha a não ser falar".

Daquele momento em diante, Tao-fu tornou-se plenamente devotado como praticante Ch'an sob a orientação do Mestre Hsüeh-feng.


Onde está o Monge Altamente Cultivado?

Certa vez, quando o Primeiro Ministro P'ei-hsiu estava visitando o Templo Lung-hsing, ele viu uma pintura e perguntou: "Que significa esta pintura ?"

O monge do templo respondeu: "A verdadeira conduta de um monge altamente cultivado".

P'ei-hsiu questionou: "Eu posso ver a verdadeira conduta, mas onde está o monge altamente cultivado?

O monge do templo não pôde responder.

P'ei-hsiu perguntou: "Existem praticantes Ch'an aqui?"

O monge do templo disse: "Nós temos aqui um monge itinerante que chegou recentemente. Ele parece ser um praticante Ch'an".

P'ei-hsiu pediu para se encontrar com este monge itinerante e disse-lhe: "Eu acabei de fazer uma pergunta ao monge do templo. Será que você pode respondê-la?"

O monge itinerante respondeu: "Por favor, faça sua pergunta".

Assim que P'ei-hsiu começou a falar, o monge itinerante gritou: "Primeiro Ministro!"

Naturalmente, P'ei-Hsiu respondeu a seu título.

"Onde?" O monge itinerante perguntou.

P'ei-hsiu exclamou: "Então, é você o monge altamente cultivado!"

P'ei-hsiu prostrou-se diante do monge e pediu para tornar-se seu discípulo. O monge itinerante era o famoso Mestre Ch'an Huang-po.

O Primeiro Ministro P'ei-hsiu foi um verdadeiro seguidor dos ensinamentos do Mestre Huang-po - "Não procure nada do Buda. Não procure nada no Dharma. Não procure nada na Sangha. Este é o verdadeiro caminho da prática".


Nenhum Buda no Santuário

O Mestre Ch'an Wu-yeh era alto e robusto, com uma voz ressoante como um sino. Quando ele visitou pela primeira vez o Mestre Ch'an Ma-tsu, Ma-tsu provocou-o: "Que magnífico santuário, mas não há nenhum Buda aí dentro".

Wu-yeh prostrou-se e replicou respeitosamente: "Eu creio que sei um pouco do ensinamento dos três yanas. Mas realmente não entendo o ensinamento Ch'an de que ' a mente é o Buda'."

Já que Wu-Yeh foi sincero, Ma-tsu disse: "A mente que não entende é isso. Nada mais. Quando você não entende, há confusão. Quando você entende, há realização. Quando você está confuso, você é um ser senciente. Quando você alcançou a iluminação, você é um Buda".

Wu-yeh perguntou: "Além da mente, do Buda e dos seres sencientes, existe algum outro Dharma?"

Ma-tsu comentou: "A mente, o Buda, os seres sencientes não são diferentes. Como poderia haver qualquer outro Dharma?"

Wu-yeh indagou: "O que significou a vinda do Patriarca do Ocidente?"16

Ma-tsu replicou: "Onde está o Patriarca agora? Ele se foi e voltou em outra ocasião!" O Mestre Wu-yeh despediu-se e partiu.

Subitamente, Ma-tsu gritou: " Venerável!"

Wu-yeh voltou sua cabeça.

Ma-tsu disse: "O que é isto?"

O Mestre Wu-yeh ajoelhou-se, prostrou-se, e chorou: "As pessoas dizem que o Caminho do Buda é muito longo. Eu hoje compreendi que a verdadeira forma do Corpo do Dharma está originalmente presente dentro de nós".

Ma-tsu disse: "Este companheiro pouco inteligente finalmente alcançou a realização!"

Em termos de cultivo, qual é o tempo necessário para chegar até o fim do Caminho de Buda. Se nós dissermos que requer um longo tempo, então ele pode levar até três grandes kalpas. Se nós dissermos que o tempo é curto, a realização pode ser alcançada instantaneamente. Porque nós nos perdemos e tentamos procurar o Dharma externamente, necessitamos de Budas e patriarcas para nos ensinar milhares de vezes, antes que possamos ficar convencidos de que deveríamos retornar às nossas origens.

Após um único grito, Wu-yeh voltou a cabeça e imediatamente reconheceu sua verdadeira face.

De acordo com um ditado Chinês: "Não procure água quando você é um peixe dentro dela. Não procure pela montanha, quando você está caminhando nela".

16. Um conhecido kung-an usado pelos mestres Ch'an. O Patriarca é Bodhidharma que veio da Índia, que está a oeste da China. Ele é considerado o primeiro patriarca da Escola Ch'an.


Um Bote Virado

Um noviço foi visitar o Mestre Ch'an Hsüeh-feng, e o Mestre perguntou: "De onde você veio?"

O noviço respondeu:: "Eu vim do Mestre Ch'an Fu-ch'uan (literalmente, 'um bote virado')".

Intencionalmente, provocando-o, o Mestre Hsüeh-feng acrescentou: "Você ainda não cruzou o mar da vida e da morte. Por que você virou seu barco?"

O noviço não entendeu o que o Mestre Hsüeh-feng queria dizer. Quando ele retornou ao Mestre Fu-ch'uan, ele relatou o que acontecera.

O Mestre Fu-ch'uan então disse ao noviço: "Você é muito tolo. Porque você não disse que já havia transcendido o mar da vida e da morte e que por isso você já havia virado seu bote?"

O noviço voltou para o Mestre Hsüeh-feng que inquiriu: "Já que você virou seu bote, por que você voltou?"

O noviço replicou confidencialmente: "Uma vez que o ciclo da vida e da morte já tinha sido transcendido, por que eu não deveria virar o bote?"

Hsüeh-feng disse severamente: "Esta não é a sua própria compreensão. Seu professor ensinou-lhe a dizer isso. Leve estas vinte pancadas para seu professor Fu-ch'uan e diga a ele que eu também dei vinte pancadas em mim mesmo. Todas estas pancadas não tem nada a ver com você".

O Mestre Hsüeh-feng deu ao Mestre Fu-ch'uan vinte pancadas e deu outras vinte em si mesmo. A mensagem subjacente é muito clara: O Ch'an deve ser livre dos limites da linguagem. Hsüeh-feng e Fu-ch'uan estavam ambos fazendo um jogo de palavras, assim cada um mereceu as vinte pancadas. Isto nada tinha a ver com o noviço, que ainda não as merecia.


Esquecendo as Palavras

Um dia, o Mestre Tung-shan observava um monge que se dirigia à assembléia sem se basear em qualquer escritura. O monge disse para si mesmo: "Maravilhoso! O Buda e o Caminho são inacreditáveis!"

Tung-shan encaminhou-se para ele e disse: "Eu não vou perguntar sobre o Buda ou o Caminho. Estou interessado em conhecer a pessoa que há pouco falava sobre o Buda e o Caminho".

Naquela época, o monge Ch'u era o monge chefe do templo, conhecido como Monge Chefe Ch'u.

Após ouvir as palavras de Tung-shan, o Monge Ch'u permaneceu em silêncio.

Contudo, o Mestre Tung-shan não o deixou ir e persistiu: "Por que você não fala logo?"

O Monge Chefe Ch'u replicou: "Nada pode ser ganho se eu falar".

Tung-shan não estava satisfeito: "Você não disse nada mesmo. O que você quis dizer com ' Nada pode ser ganho se eu falar'?"

Depois de ouvir isso, o Monge Chefe novamente ficou em silêncio

O Mestre Tung-shan viu que ele tinha feito um inimigo e disse gentilmente: "O Buda e o Caminho são apenas nomes vazios. Por que você não baseia seus ensinamentos nas doutrinas?"

O Monge Chefe Ch'u aproveitou a oportunidade e perguntou: "Como a doutrina está sendo ensinada?"

O Mestre Tung-shan bateu palmas, riu e exclamou: "Esqueça as palavras quando compreender o seu significado!"

Algumas vezes, quando os mestres Ch'an falam entre si, eles parecem falar sem qualquer sentido. Contudo, há muita verdade no que eles dizem.

Quando o Mestre Tung-shan incitou o Monge Chefe Ch'u a falar logo, ele permaneceu em silêncio. Quando o Monge Chefe perguntou a Tung-shan como ensinar a doutrina, Tung-shan replicou dizendo-lhe: "Esqueça as palavras quando compreender o seu significado!"

Esquecer as palavras é a verdadeira prática do Ch'an.


Nem Perguntas nem Respostas

Um mestre Ch'an colocou uma charada para seus discípulos decifrarem: "Duas pessoas estavam caminhando sob um chuvisco. Por que o céu não chove sobre uma só pessoa?"

Um discípulo disse: "Essa pessoa deve estar usando uma capa".

Um outro discípulo tentou dizendo: "Deve ter sido uma chuva parcial. Uma pessoa apanha chuva, enquanto uma outra não".

O terceiro concluiu: "A outra pessoa devia estar caminhando sob um telhado".

O Mestre finalmente explicou: "Todos vocês estão apegando-se a um único ponto de vista, de que uma pessoa não está apanhando chuva, fixando-se nele. Assim, vocês estão se afastando cada vez mais da verdade. Quando eu perguntei, 'porque o céu não chove sobre uma só pessoa'?' isto implica que ambas as pessoas estavam sendo molhadas!"

Quando entramos em uma discussão no Ch'an, não deveríamos nos aproximar dela apenas do ponto de vista proposto, mas como na vinheta acima, deveríamos nos aproximar dela do ponto de vista de não fazer qualquer pergunta.

Existem milhares de registros Ch'an, que fazem o Ch'an ser visto como se ele fosse um ensinamento baseado em perguntas e respostas. Algumas vezes, as perguntas realmente não precisam ser respondidas. Outras vezes, a resposta não é pertinente ao que foi perguntado.

Quando existem perguntas e respostas, os argumentos surgem naturalmente. Quando alguém alcançou a auto-realização, não haverá mais argumentos. O uso de perguntas e respostas não deve ser considerado um jogo de adivinhação. Além da resposta, o que há para ser ganho?


Esvazie sua Xícara

Um professor universitário foi visitar o Mestre Ch'an Nan-yin e pediu a ele para definir o Ch'an.

O Mestre serviu-lhe uma xícara de chá, mas continuou a encher a xícara apesar do chá já estar derramando.

Tendo visto isto, o professor observou: " Mestre, a xícara está cheia".

Mas o Mestre Nan-yin explicou: "Você é justamente como esta xícara, cheio de conceitos e idéias. Se você não esvaziar primeiro a xícara que está em sua mente, então como eu posso começar a explicar o Ch'an para você?"

Se as pessoas são arrogantes e preconceituosas, mesmo quando o néctar dos céus chove sobre elas, não se beneficiarão. Antes de colocarmos a água da verdade em uma vasilha, ela tem, primeiro, que ser esvaziada e limpa; de outra maneira, o gosto da água será afetado.


A Compaixão de um Mestre Ch'an

O Mestre Ch'an Liang-k'uan praticou o Ch'an dedicadamente por toda a sua vida. Quando velho, recebeu notícias de que seu sobrinho não tinha um trabalho fixo e ainda tinha esbanjado a riqueza de sua família. Os mais velhos da família estavam muito preocupados e desejavam que o Mestre Liang-k'uan retornasse e persuadisse seu sobrinho a deixar os maus hábitos. Cheio de compaixão, o Mestre Liang-k'uan decidiu fazer a longa viajem para casa.

Depois de três dias de viagem, ele finalmente chegou à casa de seu sobrinho, que ficou muito feliz ao vê-lo. O Mestre Liang-k'uan permaneceu na casa de seu sobrinho naquela noite.

Na manhã seguinte, antes que o Mestre Liang-k'uan partisse, ele disse para seu sobrinho: "Acho que estou realmente ficando velho. Minhas mãos estão tão trêmulas que não posso sequer amarrar meus sapatos. Você poderia me ajudar?"

Seu sobrinho estava mais que feliz em ajudar.

Então, o Mestre Liang-k'uan disse compassivamente. "Muito obrigado. Você vê, quando uma pessoa se torna velha, ela fica cada dia mais fraca. Então, cuide-se enquanto você ainda está jovem. Seja bom e tente construir um alicerce firme para o seu futuro".

Depois de ter dito isto, o Mestre virou-se e partiu. Ele sequer mencionou uma palavra sobre os erros do sobrinho. Mas depois da visita do Mestre, seu sobrinho não voltou a se comportar mal novamente.

O ensino do Ch'an varia. Algumas vezes ele consiste em bater e gritar ou em perguntas e respostas. Outras vezes ele envolve discursos sutis com implicações nas entrelinhas. Não importa qual o modo utilizado, um mestre Ch'an nunca esclarece a verdade ou dá a resposta, porque a verdade ou a resposta somente nos pertencem quando as tivermos revelado por nós mesmos.

Será que os pais que cuidam de seus filhos entendem este tipo de ensinamento Ch'an?


Bons e Maus Atos

Um monge perguntou ao Mestre Ch'an Chün-chi: "Quem são aqueles que fazem o bem?"

Chün-chi respondeu: "Aqueles que usam correntes e algemas".

O monge perguntou novamente: "Quem são aqueles que fazem o mal?"

Chün-chi disse: "Aqueles que praticam o Ch'an e meditam".

O monge exclamou: "Realmente tenho raízes inferiores! Não posso entender seu ponto de vista. Você poderia, por favor, explicar isto em termos mais simples?"

Então Chün-chi disse: "Aqueles que são maus não fazem o bem. Aqueles que são bons não fazem o mal".

O monge ainda estava confuso.

Depois de um instante, o Mestre Chün-chi perguntou-lhe: "Agora você entendeu?"

O monge respondeu: "Não".

Chün-chi comentou: "Os que praticam o mal não têm boas intenções. Os que praticam o bem não têm más intenções. Nós dizemos que bem e mau são como nuvens que flutuam, não há nem surgimento nem extinção".

Finalmente, o monge entendeu.

Do ponto de vista convencional é verdade que o bem gera o bem e o mal gera o mal. Mas da perspectiva da verdadeira natureza íntima das coisas, não existem tais termos, como bem e mal. Se não pensarmos em termos de bem e mal, então nossa verdadeira natureza pode ser contemplada.

O Mestre não estava errado ao dizer que aqueles que praticam o bem são aqueles que usam correntes e algemas, enquanto aqueles que fazem o mal são aqueles que praticam o Ch'an e meditam. Aqueles que praticam o bem agarram-se aos méritos, que não são diferentes de correntes e algemas. Embora aqueles que fazem o mal possam cair no estado do sofrimento, sua verdadeira natureza não será alterada de forma alguma.

O Mestre Chün-chi não quer nos deixar confusos com os termos 'bem' e 'mal'. Nós precisamos entender que bem e mal são dharmas, mas o Dharma, em si mesmo, não é nem bem nem mal.


Quem é Nossa Posteridade?

O Mestre Ch'an T'ien-huang perguntou ao Mestre Ch'an Shih-t'ou: "Além de libertação, meditação e sabedoria, o que mais você ensina?"

Shih-t'ou disse: "Ninguém é escravo. Por que, então, deveríamos falar sobre libertação?"

T'ien-huang indagou: "Se você fala deste jeito, como esperar que os outros o entendam?"

Shih-t'ou questionou: "Você sabe o que é o ' vazio'?"17

"Eu tive uma compreensão do 'vazio' há muito tempo atrás".

Shih-t'ou observou: "Ah! Você também é do mundo das ilusões".

T'ien-huang discordou: "Eu não sou do mundo das ilusões"

Shih-t'ou continuou: "Há muito tempo que eu sei de onde você veio".

"Como pode você chegar a esta conclusão sem qualquer evidência?"

Shih-t'ou replicou: "Seu corpo é a evidência.

T'ien-Huang retorquiu: "Os quatro grandes elementos são originariamente vazios, e os cinco agregados são não-existentes, assim o que podemos usar para inspirar e guiar nossa posteridade?"

Shih-t'ou gritou: "Diga-me, quem é nossa posteridade?"

Finalmente, T'ien-huang entendeu.

A verdade é que tudo é vazio, não existe nem o bem, nem o mal. Todos os conceitos dualísticos, tais como escravidão e libertação, vazio e existência, frente e verso, são incompatíveis com o Ch'an. Se os praticantes puderem eliminar tais conceitos, eles poderão certamente atingir a realização.

17.  'Vazio' é a doutrina de shunyata que afirma que todos os fenômenos, incluindo o ego, não têm realidade, mas são compostos de um certo número de elementos.


Qual é Sua Queixa?

O Mestre Ch'an Chü-tun de Lung-ya Shan foi para Chung-nan Shan para meditar sob a orientação do Mestre Ch'an Ts'ui-wei. Após muitos meses, o Mestre Ts'ui-wei ainda não havia dado a ele qualquer instrução.

Um dia, ele criou coragem e perguntou ao Mestre Ts'ui-wei: "Desde que eu cheguei aqui, tenho estado meditando com os outros, mas não recebi qualquer ensinamento do senhor. Por que?"

O Mestre Ts'ui-wei indagou: "Qual é sua queixa?"

Devido o fato de Chü-tun não ter obtido a essência do ensinamento de Buda, ele deixou o Mestre Ts'ui-wei e foi para Tê-shan na esperança de aprender com o Mestre Ch'an Hsüan-chien.

Uma vez ele disse ao Mestre Hsüan-chien: "Eu sempre admirei seus ensinamentos. Estou aqui há algum tempo, mas ainda não ouvi os ensinamentos do Mestre".

Parecia que o Mestre Hsüan-chien se comunicara com o Mestre Ts'ui-wei, porque ele perguntou: "Qual é a sua queixa?"

Desapontado Chü-tun foi estudar com o Mestre Tung-shan Liang-chieh.

Um dia, Chü-tun perguntou: "Eu rogo ao senhor, por favor diga-me uma palavra sobre a essência dos ensinamentos do Buda".

O Mestre Tung-shan disse diretamente a ele: "Eu contarei a você quando a água na gruta fluir contra a corrente".

Quando ouviu isto, Chü-tun alcançou a realização.

Meditar com dúvida, meditar com intuição, ou meditar com espírito cético- não são meios tão bons como utilizar a mente cotidiana para meditar.

Estamos todos vivendo na ilusão e estamos à deriva no círculo do nascimento e da morte. Se pudermos entender o significado da água da gruta fluindo contra a corrente, então nossa verdadeira natureza será revelada.


O Que é a Mente do Buda?

O Mestre Ch'an Hui-chung certa vez perguntou ao Mestre Tzü-lin: "Você tem estudado o budismo por muitos anos, qual é o significado de 'Buda'?"

Sem pensar Tzü-lin respondeu: "Buda significa 'O Iluminado'. "

O Mestre Hui-chung indagou: "O Buda pode se tornar iludido?"

Ficando impaciente, Tzü-lin o desafiou: "Se ele já é o Buda, então como ele pode se tornar iludido?"

Hui-chung contrariou-se: "Se ele não é iludido, qual é o sentido da iluminação?"

Tzü-lin não tinha nada a dizer como resposta.

Enquanto Tzü-lin estava escrevendo um comentário para um sutra, o Mestre Hui-chung disse a ele: "Uma pessoa que escreve um comentário deveria estar em harmonia com a Mente búdica, devendo alcançar um verdadeiro entendimento dos ensinamentos do Buda e saber muito claramente a necessidade de todos os seres, somente então será capaz de escrever bem".

Tzü-lin estava aborrecido com estas observações e declarou: "Você está certo. Foi precisamente por isto que eu comecei a escrever o comentário".

Após ouvir isto, o Mestre Hui-chung mandou que alguém trouxesse uma tigela com água contendo sete grãos de arroz e um par de palitinhos e perguntou a Tzü-lin o que aquilo significava.

Novamente, Tzü-lin não pode responder.

O Mestre Hui-chung repreendeu-o dizendo: "Você sequer pode entender o que eu quero dizer. Como você pode dizer que está em harmonia com a Mente búdica?"

A tigela com água, os grãos de arroz e o par de palitinhos significam que o budismo não está isolado da vida diária. Qual o sentido do budismo se ele estivesse divorciado da vida? O Mestre Tzü-lin tinha escrito comentários que eram irrelevantes para a vida cotidiana. Portanto, ele já tinha sido afastado da Mente búdica.

O Sexto Patriarca Hui-neng, observou: "O Dharma está bem aqui no mundo e deve ser compreendido sem sair deste mundo. Se deixarmos este mundo e tentarmos procurar o bodhi, então seria como procurar chifres em um coelho". Um verdadeiro praticante Ch'an não pratica o Ch'an como se ele fosse algo separado deste mundo ou fora da vida comum.


Um Feixe de Lenha

Certa vez, o Mestre Ch'an Shih-t'ou de Nan-yüeh, Hunan, perguntou a um monge estudante: "De onde você veio?"

O estudante respondeu: "De Kiangsi."

Então Shih-t'ou continuou: " Você viu o Mestre Ch'an Ma-tsu?"

O estudante respondeu: "Sim".

Após ouvir isto, Shih-t'ou apontou para um feixe de lenha e perguntou: "O Mestre Ma-tsu se parece com este feixe de lenha?"

O estudante não sabia como responder. Como o estudante não entendesse o ensinamento do Mestre Shih-t'ou, ele voltou ao Mestre Ma-tsu e contou-lhe o que havia acontecido. Após ouvir o estudante, o Mestre Ma-tsu sorriu e perguntou-lhe: "Que peso tinha o feixe de lenha?"

O estudante disse: "Eu não o pesei".

Então, Ma-tsu observou: "Você deve ser muito forte".

Confundido, o estudante perguntou: "Por que?"

Ma-tsu respondeu: "Você carregou aquele feixe de lenha por todo o caminho de Nan-yüeh até aqui. Isto não demonstra sua força?"

Este monge estudante perambulou de lugar para lugar fazendo observações negativas sobre vários mestres Ch'an, pelas costas. Em vez de ficar aborrecido, Ma-tsu ensinou ao noviço uma lição.

Hoje, nós também vemos muitos seguidores budistas, carregando seus feixes de lenha, indo de um mestre a outro. Não se sabe se eles acham os feixes de lenha pesados ou não.


A Pérola Mani

Quando o Buda estava no Pico dos Abutres18, ele mostrou uma pérola mani19 para os Quatro Reis Celestiais20 e perguntou: "De que cor é esta pérola mani?"

Em resposta, cada um usou diferentes cores para descrevê-la.

O Buda jogou fora a pérola e perguntou novamente: "Agora, de que cor é esta pérola mani em minha mão?"

Os quatro Reis Celestiais não entenderam o que o Buda queria dizer e replicaram: "Buda, não há nada em sua mão".

O Buda então disse: "Eu mostrei a vocês uma pérola comum, e todos vocês puderam dizer a sua cor. Agora eu estou mostrando uma pérola legítima, e no entanto vocês não a podem ver! Como vocês são confusos!"

A pérola mani é a mente verdadeira que está em cada pessoa. Os povos do mundo estão obcecados à procura de riqueza e glória, mas poucos compreendem que todos os tesouros do mundo são ilusórios. Se procurássemos o tesouro que está dentro de cada um de nós, com o mesmo afinco e energia que gastamos com empreendimentos mundanos, alcançaríamos ilimitada riqueza.

18. O Pico do Abutre, situado perto de Rajaghra, foi o local de muitos discursos feitos pelo Buda. O pico tem a forma da cabeça de um abutre, por isso é chamado de Pico do Abutre.

19. A pérola mani é uma pérola brilhante e luminosa simbolizando o Buda e suas doutrinas. Mani pode ser traduzido por "como desejado", uma vez que, o possuidor da pérola recebe o que ele ou ela desejar.

20. Os quatro Reis Celestiais foram introduzidos na China por volta do século oitavo. Eles são considerados os protetores das quatro direções e vivem nas encostas do Monte Meru. Eles são também venerados como guardiões dos monastérios, e suas imagens são usualmente colocadas na entrada de muitos Templos Chineses.


Cartas de Uma Mãe

Quando o Mestre Ch'an Hui-hsin era um monge noviço de quinze anos, ele era muito inteligente. Por isto, conseguiu uma audiência com o imperador e ganhou dele muitos presentes. Para demonstrar seu amor filial, Hui-hsin mandou os presentes que ganhara do imperador para sua mãe.

Após receber os presentes, sua mãe escreveu-lhe uma carta dizendo: "Eu fiquei muito feliz com os presentes que você me enviou, especialmente porque lhes foram dados pelo imperador. Entretanto, quando o mandei para o monastério, eu desejava que se tornasse um verdadeiro praticante Ch'an e não alguém que se perdesse na riqueza e na glória. Se você está se ocupando somente com vaidades, então está indo contra meus desejos. Espero que você se lembre do dever de um verdadeiro praticante Ch'an".

Após receber esta carta de sua mãe, Hui-hsin decidiu tornar-se um verdadeiro praticante Ch'an, não se preocupando com a conquista da fama e da fortuna.

Em outra ocasião, Hui-hsin queria ir para casa visitar sua mãe. Novamente, ela lhe escreveu: "Eu já mandei você para o monastério. Você agora pertence ao monastério e a todos os seres, não é mais minha propriedade privada. De agora em diante, você é o filho do Buda' e deveria respeitar seus mestres e as Três Jóias e não pensar mais em sua mãe".

Após receber estas duas cartas de sua mãe, Hui-hsin decidiu devotar todo o seu tempo e esforço para aprender o Dharma, o que possibilitou que ele se tornasse um verdadeiro praticante Ch'an.


Vendendo Gengibre Cru

O Mestre Ch'an, Pao-shou, tomava conta do armazém no Templo Wu-tsu, cujo abade, naquele tempo, era Chieh-kung. Às vezes, quando Chieh-kung ficava doente e necessitava gengibre cru para remédio, seu assistente ia ao armazém buscar um pouco. Ao invés de dar o gengibre ao assistente, Pao-shou repreendia-o e mandava-o embora.

Quando Chieh-kung soube disto, deu algum dinheiro ao assistente e pediu que ele comprasse um pouco de gengibre de Pao-shou. Somente então Pao-shou deu o gengibre ao assistente.

Mais tarde, quando o Templo Tung-shan necessitou de um abade, o oficial do condado escreveu a Chieh-kung pedindo que ele recomendasse alguém. Chieh-kung sugeriu: "Aquele companheiro que vendeu o gengibre cru pode ser o Abade do Templo Tung-shan.

Assim, Pao-shou tornou-se o Abade do Templo Tung-shan, e a história intitulada: "O Gengibre Cru de Pao-shou é Picante por Dez Mil Anos"23 tornou-se famosa entre os adeptos Ch'an.

Pao-shou era fiel ao seu ofício e recusou-se a abusar de sua autoridade. Apreciando a lealdade de Pao-shou, Chieh-kung sugeriu que ele se tornasse o novo abade do Templo Tung-shan. Ambos dão bons exemplos a serem seguidos.

23. Significa que o ensinamento do Mestre Ch'an Pao-shou é duradouro por milhares de anos.


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