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Shunko Tashiro
O Respeito à Vida
5. Aprendendo com o
Relato de um Paciente Terminal
Vivificando e
Sustentando
Quero refletir com vocês a partir de um exemplo concreto. No dia 16 de dezembro do ano passado, a Sra. Keiko Hirano, de 41 anos de idade, da Província de Gifu, no Japão, faleceu de câncer deixando 3 filhos. Sua segunda filha é uma criança que sofre de grave deficiência física e mental.
“Yukino, na condição de deficiente física e mental, me deu uma lição dizendo:
— Mamãe, não vivemos com o nosso próprio esforço. Nós só podemos seguir vivendo se formos vivificados e sustentados.
— Mamãe achava que era o centro do mundo e que vivia com o próprio esforço. Foram vocês que me ensinaram quão ignorante, repelente e horrível era meu coração, incapaz de aceitar que as coisas estão além de nossa vontade.
Nós encaramos a vida como propriedade privada, como algo nosso e obediente à nossa vontade, mas na realidade ela escapa ao controle da mesma. Aquela mãe aprendeu com a filha deficiente a dimensão da insubstancialidade do ego.
Uma Mãe Comum
“A única coisa que esta mãe doente pode fazer para coces é continuar a ser sua mãe até a hora da morte. Enquanto estiver forte, poderei fazer comida e lavar roupa como qualquer mãe comum. Quando não puder mais me mover, hei de simplesmente depender de vocês, quando estiver sofrendo, terei que aceitar o sofrimento tal como ele é”.
Aí está indicada a maneira espontânea de viver. Não há que buscar uma morte edificante. A tranqüilidade maior se alcança deixando-se as coisas como estão. Quando lemos isso, somos levados a pensar que jamais poderemos ser assim, mas basta ser aquilo que somos, de uma maneira comum. Se confiarmos nossa vida à espontaneidade, haverá sempre um solo a nos sustentar. Diz ainda essa mãe:
“Não se esqueçam de que existe um mundo
perceptível apenas através de uma profunda tristeza, através da dor. Entendam
que existe um solo a sustentar aquele que está triste e sofre, tal como ele
está”.
A Existência
tem em si um Profundo Significado
Escreveu ela ao filho mais velho:
“Você não se lembra mas outrora eu estava sofrendo por causa de Yukino e tentei morrer com ela. Você então me salvou, dizendo: Yukino é toda bonita, seu rosto, suas mãos, suas pernas, sua barriga. Yukino é o tesouro do nosso lar.
Essas palavras que você disse, ainda pequeno, fizeram a mamãe despertar. Sinto que desde então eu tenho vivido graças a você. Desde que me disseram que Yukino, tão graciosa como uma bonequinha, é deficiente física e mental, vivi 15 anos penosos. Como será a vida dessa criança? Viverá ela uma existência vazia, sem sentir as alegrias e as tristezas? É uma grande interrogação, uma interrogação muda, a interrogação de Yukino...”
Essa mãe pensava como nós, vivia num mundo de fracassos como o nosso. Segundo os critérios vulgares de utilidade, a vida dessa criança não teria valor algum, tal é a armadilha do racionalismo moderno. O grande significado do homem está em sua própria existência. A palavra do filho mais velho ensinou isso à mãe.
Em minha faculdade existe um departamento de assistência social e procuramos receber, na medida do possível, estudantes deficientes. No departamento de estudos budistas temos estudantes completamente cegos. É profundamente significativo para os demais estudantes a presença na classe de alunos deficientes visuais. Nas escadas e outros locais difíceis sempre alguém espontaneamente lhes dá a mão. Sua própria existência é de profundo significado para os companheiros, ela ensina o verdadeiro sentido e valor da vida. Temos de tomar consciência disso tudo para evitar que surja discriminação.
E prossegue a mãe:
“Desde que percebeu isso, mamãe mudou. Mamãe tomou consciência de que vivia sem grandes interrogações a respeito de sua maneira de viver, transferindo para os outros, desde que tomou consciência de si mesma, a responsabilidade assumida pelas coisas da vida, de que vivia uma vida vazia, tomada apenas por pensamentos de queixa e de cólera. Percebi, por fim, que a vida de Yukino é plena de tranqüilidade. Ela não pode sequer comer ou andar sozinha, ela vive totalmente entregue ao Outro Poder Absoluto, sem nenhuma dúvida. É lindo vê-la assim...”.
A situação de Yukino fez sua mãe mudar sua escala de valores. Fez ela perceber seu erro em julgar que a vida obedecia à sua vontade e em transferir as responsabilidades da vida, por si assumidas, para os outros.
A Iniciativa
da Mudança de Atitude
Prossegue ele:
“Yukino, se eu puder lhe deixar uma
palavra, essa palavra será: Obrigada.
Isso porque eu devo a Yukino o fato de minha vida de 40 anos ter podido ser plena e feliz desde que você nasceu, até os dias de hoje, você tem chamado sua mãe para o despertar. Você sempre ensinou para sua mãe com ilimitado amor em que consistem as alegrias, as tristezas e os sofrimentos da vida. Sinto que seu olhar, sempre sorridente, me diz:
Seja como você é, mamãe, não é preciso nenhum esforço desmedido. Veja como o
céu, as montanhas e o sol estão incentivando mamãe! Veja como o sol generoso
ampara mamãe...”
A mãe confessa que seus 40 anos de vida foram plenos e felizes graças à filha Yukino. Em que constituirá, então, para nós, uma vida feliz? Será feliz uma vida cheia de coisas materiais que nós desejamos?
Queremos, sem nos transformarmos, uma vida feliz, marcada pela longevidade e pela riqueza. Mas a realidade é outra. Quando nós tombamos, quando nossos valores são trocados, sentimos a verdadeira felicidade e a autêntica satisfação. Essa mãe não diz que a felicidade seria a cura de Yukino e a obtenção de dinheiro. A situação permanece a mesma, mas a mudança dos valores da mãe faz com que ela se encontre com a Terra Pura.
5.5 A Vida Imensurável
E a Mãe continua:
“A morte liberta o homem de todos os sofrimentos, angústias, tristezas, ressentimentos e ódios. Assim, mamãe se libertará de todos os empecilhos humanos, possivelmente até dos amores e desamores para com vocês. Mas não me interpretem mal! Eu jamais me esquecerei de vocês. Quando todas as paixões se apagam, subsiste apenas o Grande Voto. É a Vida Imensurável. A vida é o mundo do Voto sem Limites.
Todos os seres viventes são vivificados por esse profundo Voto. Assim, mamãe estará mais próxima de vocês do que esteve até agora. Nos momentos tristes e difíceis, apurem bem seus ouvidos. Vocês ouvirão a voz de mamãe: Vivam! Vivam! Ela soará no coração de vocês como um encorajamento. A mamãe em breve se transformará no NAMU-AMIDA-BUTSU de vocês. Desde que nasceu, Yukino foi o Buda da mamãe. Ela sempre me encorajou dizendo: “Ânimo, mamãe! Viva! Graças a isso mamãe tomou consciência do precioso Voto que dá sustentação à vida. É só através da morte que mamãe se transformará no NAMU-AMIDA-BUTSU de vocês. Entretanto, desde que nasceu Yukino vive como o NAMU-AMIDA-BUTSU iluminado para todos nós. Se nós só pudermos retornar à Pátria Original da Vida libertando-nos de todas as maquinações e paixões mundanas, então Yukino é um Buda que vive na Pátria Original da Vida desde seu nascimento. Procurem despertar para a realidade da vida, que consiste em saber que somos vivificados por todas as coisas. Não se esqueçam da expressão Vida Imensurável. Ela foi para mamãe como que um passaporte que lhe permitiu viver livre e desimpedida. No futuro, vocês irão se deparar com inúmeras palavras. Descubram aquela que será um passaporte para vocês. Para isso, mantenham ouvidos e corações alertas. Das profundezas da vida, nascerão para vocês encontros com palavras e com pessoas. É para isso que as pessoas vieram da Vida Imensurável para nascer na condição humana.
Ela se encontrou com a expressão Vida Imensurável e viveu por essa palavra. A Vida Imensurável é uma dimensão além de nossa sabedoria presunçosa e nossas maquinações. Nós fazemos maquinações para nós mesmos e nos torturamos a nós próprios. A tranqüilidade está no afastamento dessas maquinações. Podemos aprender isso com nossos antecessores, como Muso Kimura, Masao Hanada e Saiichi Asahara, que viveram segundo o Ensinamento do Mestre Shinran, assim como tantos outros que da mesma forma transcenderam a morte. Sua caminhada é um testemunho da veracidade do caminho de superação da vida e da morte baseado no Ensinamento do Mestre Shinran.
Educação Para
a Vida
Nos Estados Unidos, em alguns estados, a educação para a morte faz parte do currículo das escolas primárias. Eu gostaria de definir essa expressão como educação para a vida. Essa educação pode ser dada nas aulas de Língua Pátria, comentando poesias, ou nas aulas de Ciências Naturais através da observação das plantas. As pessoas não mais morrem nos lares. Morrem nos hospitais e dali seguem para o necrotério, para o recinto do funeral, para o forno crematório e para o ossário. Assim as crianças ficam pensando: “O vovô sumiu, para onde será que ele foi?”
É muito importante uma educação para a vida que parta de uma contemplação da realidade da morte e da tomada de consciência da mesma como um problema nosso. Não se trata de nenhuma educação complicada, mas apenas de ir aprendendo com as pessoas que vão morrendo em torno de nós, e de, por sua vez, atuarem como conselheiros para a morte. Assim, eu vejo aqueles que compartilham o nascimento, a velhice, a doença e a morte e que juntos procuram estudar as questões da vida. No sistema de assistência médica de uma sociedade em envelhecimento vemos tudo isso ser colocado diante de nós. Acho que tal questionamento e tal aprendizado outra coisa não é, senão o próprio aprendizado do Budismo.
Agradeço a todos que, não obstante a barreira da língua, me ouviram com interesse. Obrigado.
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Templo
Budista Apucarana Nambei Honganji
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