Shunko Tashiro
O Respeito à Vida


4. Transcendendo a Morte


Não é Preciso Esperar o Último Momento

Vejamos como no Japão de outrora nossos antecessores transcenderam a morte e quais as questões daquela época. Para os japoneses a morte constituiu uma grande questão na fase final do período Heian – séc. VIII a XII. A “Crônica da Glória e do Luxo” que narra a vida dos dirigentes Michinaga e Yorimichi, mostra o penoso esforço com que as pessoas dessa época tentaram transcender a morte. As epidemias de cólera e varíola eram constantes e desencadeavam revoltas como as de Hogen e Heiji. Mesmo os aristocratas viam seus familiares morrerem uns após outros.

Essas pessoas procuraram uma saída na obra “Seleções Sobre o Ir-Nascer” do patriarca Genshin, onde aprenderam um método para enfrentar a morte, que consistia numa verdadeira liturgia para os últimos instantes da existência. Construíram então os templos Hoshoji e Byodoin para que na morte pudessem estar cercados, de representações de um paraíso dentre as quais do Buda Amida na atitude de vir receber o moribundo. Ligavam-se à essa imagem por uma corda de cinco cores, para que ela os guiasse na grande viagem. Em suas vidas procuraram com empenho acumular virtudes para que, no momento da morte, pudessem, graças às mesmas, ter um pensamento correto que os possibilitasse partir para o além guiados por Buda. Ainda hoje persiste em várias regiões do Japão essa prática do “Ir-Nascer Puxado pela Corda”.

Viver o “Agora”

O que constitui problema nesse caso é a visão pessimista da vida presente que leva a esperar a morte de forma extremamente passiva. Quem teve dúvidas em relação a isso foi o Mestre Shinran. Quanto ao acúmulo de virtudes, duvidou ele, a partir de sua própria experiência, que o homem seja capaz de fazê-lo. A construção de templos como o Byodoin seria coisa acessível a um número muito pequeno de pessoas, estando fora da possibilidade da multidão de devotos leigos.

Assim, em uma de suas epístolas Shinran diz: “Não há que se aguardar a hora da morte nem almejar pelo advento de Buda no momento final”

Assim, o problema da morte não deve ser adiado para o momento final, deve ser enfrentado agora, é na vida presente que se deve atingir o grau em que a transformação em Buda já está determinada. É tomando-se como base a consideração da morte, que a partir de agora, na vida presente, nenhum instante poderá ser negligenciado. Quando percebemos que para nós o amanhã é incerto, o grande esforço de cada instante faz com que cada dia seja vivido na sua plenitude, que nós sintamos quão preciosa é a vida.

No relato intitulado “Minha escritura sagrada depois de receber o diagnóstico de câncer” escrito pela Sra. Suzuki de Hokkaido, que faleceu aos 46 anos de idade lemos: “Haverá quem não pense na morte, uma vez diagnosticado um câncer? Hoje,com o progresso da medicina, difícil é encontrar uma doença que nos confronte com a morte. Eu, a qualquer momento, sou vulnerável à morte. Esqueci-me disso, tornando-me orgulhosa. Agradeço o encontro com o câncer, que despedaçou meu orgulho. Eu não tinha jeito, mas foi-me dada essa doença para que eu tomasse consciência de minha ignorância."

Há outras poesias que demonstram a consciência da plenitude de vida alcançada através do confronto com a morte por meio do câncer.

Manshi Kiyozawa, que morreu aos 41 anos de tuberculose, então uma moléstia incurável, disse: “Nós não somos apenas a vida, somos também a morte. Somos dotados conjuntamente de vida e morte”.

Nós consideramos apenas a vida, nós a chamamos e procuramos afugentar a morte. Mas a vida e a morte são a frente e o verso de uma mesma realidade. O mesmo Manshi nos diz: “A morte é a mãe da vida”.

Quem recebeu um diagnóstico de câncer ou percebeu intuitivamente que sofre dessa doença passa a contemplar a morte, a encará-la de frente, o que faz com que cada instante seja vivido como algo muito precioso. Isso por causa do encontro com a morte. Quanto a nós, embora não experimentemos a morte podemos compartilhar a experiência daqueles que caminham para a morte. Através da morte daqueles que nos são próximos podemos despertar para a vida.

Aprendendo com a Velhice , a Doença e a Morte dos que nos são Próximos

Eu considero o funeral como a ocasião adequada para aprendermos essas coisas. Aquele que está morto nos ensina concretamente o que é viver, o que é a vida. Nós tendemos a considerar o funeral como um mero ritual ou costume, mas seria preciso reconsiderá-lo como uma ocasião de aprender o respeito à vida. Compartilhar a experiência da velhice com os idosos, por sua vez, será aprender como nós mesmos iremos enfrentá-la e transcendê-la.

Quanto aos problemas dos idosos, nós sempre pensamos em interná-los em asilos e hospitais adequados mas, apesar das dificuldades, o melhor seria mantê-los em casa, o que nos proporcionaria a oportunidade de aprender a respeito da velhice. É claro que isso dá muito trabalho, mas nem tudo é negativo. Podemos perceber isso quando verificamos, a postura de Shinran, que consistia em viver de forma desperta o dia-a-dia, através da consideração da morte, que ecoa agora profundamente em nosso coração.

Espontaneamente

A vida que tomamos consciência no “Agora” é a vida espontânea. Shinran nos ensinou a doutrina da espontaneidade, que consiste em obter a tranqüilidade vivendo a vida tal como ela é. Nós nos apegamos a nossos critérios e queremos viver em conformidade com nossos pensamentos. Entretanto, o nascimento, a velhice, a doença e a morte não acontecem em conformidade com eles. Nossa dor começa quando queremos submeter à nossa vontade algo que escapa a seu controle.

Só quando passamos a viver a vida como ela é, com espontaneidade, obtemos a verdadeira tranqüilidade.

Em nossos dias encontramos em livrarias títulos como “Envelhecer com beleza” ou “Morrer com beleza”. Também existe no Japão uma crença popular sobre a possibilidade de uma morte súbita e serena. Mas lutar para morrer com beleza ou súbita e serenamente, ou seja, submeter à nossa vontade a morte que escapa a ela, só produz sofrimento. O importante é saber que ela está além de nossa vontade, o que elimina os esforços inúteis.

Quando há a dor, cumpre aceitar a dor, quando há sofrimento, cumpre aceitar o sofrimento. Quando nos sentimos prontos a aceitar qualquer tipo de morte, então surge a tranqüilidade. Podemos aceitar até a probabilidade de um dia ficarmos definitivamente acamados, pensando que isso ensinará aos que nos cercam em que consiste o ser humano. É quando nos entregamos à espontaneidade de viver tal como a vida é, que alcançamos a maior tranqüilidade.


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