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Shunko Tashiro 1. Velhice, Doença e Morte Na Sociedade Contemporânea
Cheguei ontem ao Brasil, país da claridade e da energia, possuidor de infinitas possibilidades. Agradeço a todos pela oportunidade de apresentar, hoje, esta palestra, neste local. A sociedade brasileira, assim como a japonesa, está envelhecendo rapidamente. As autoridades providenciam programas de educação e busca para o sentido da vida. Certamente os movimentos pela melhoria da saúde e práticas de lazer são importantes e proporcionam, momentaneamente, um sentido para a vida. Mas isso não basta para sanar a inquietação espiritual que assalta as pessoas à noite, no leito, quando refletem: “Amanhã cedo, na hora de despertar, ainda terei minha vida?” Não se pode dizer que se viveu uma vida maravilhosa se não houver uma educação para encarar a velhice. Numa sociedade de idosos, uma importante questão é como assumir a velhice, bem como o relacionamento da família e das demais pessoas com esses idosos.
Como parte das atividades do meu movimento “Grupo de estudos para refletir sobre a morte e a vida”, recebo cartas de pessoas de todo país (Japão). Recebi essa carta de um acompanhante de doentes terminais atuando e Izu Nagaoka, Província de Shizuoka. “Tenho 56 anos de idade. No hospital de idosos, que é uma espécie de viagem sem o bilhete de volta, temos muitos casos diferentes: pessoas sem parentes, pessoas amparadas pelo seguro social, pessoas solitárias, etc. São cerca de 150 pacientes permanentes. É triste eu dizer isso, mas não é exagero afirmar que elas passam os dias esperando sua vez de morrer... Explicarei como me tornei voluntário deste hospital. Minha mãe foi internada num hospital do governo. Esgotadas as possibilidades de cura, foi encaminhada ao hospital de idosos. Visitei-a várias vezes, numa das quais convidaram-me para ser acompanhante, julgando-me uma pessoa de tempo livre. Até então, eu trabalhava como cozinheiro em outro hospital, mas decidi ser acompanhante, para ser um filho piedoso. Assim, pude abraçar minha mãe quando ela partiu ao encontro de meu falecido pai. Ela morreu com a expressão serena, manifestando gratidão para com todos. Minha mãe foi uma exceção muito especial. A maioria morre assistida pelos médicos e pelos auxiliares que monitoram os aparelhos. Embora tenham filhos, morrem tristes e solitários, sem terem sequer quem lhes dê para beber um derradeiro gole d´agua... Quando minha mãe morreu, pensei em voltar às minhas antigas funções de cozinheiro, mas não conseguia dar as costas aos pacientes que sentiam dependência por mim. Passei a tratá-los como se fossem meus pais, tentando proporcionar-lhes algo pelo qual se sentissem gratos. Se esse algo foi bom, tudo correu bem. Penso que uma pessoa que pôde agradecer pelo menos uma vez, foi salva. Minha falecida mãe me mostrou meu caminho. Mesmo os que não se movem ou falam, expressam sua humanidade de alguma forma. Quem não os compreendem não é um verdadeiro acompanhante. Quem não tem respeito pelos velhos e não pode tratá-los com carinho, não pode ser acompanhante. A assistência aos idosos depende da qualidade dos acompanhantes. É preciso receber uma formação sólida. É uma falha do Ministério da Saúde não organizar um sistema de formação de assistentes a idosos numa sociedade que está envelhecendo. Pacientes graves são colocados em quartos com aparelhagem, não mais se alimentam ou evacuam. Resta aos que os assistem orar, e facilitar-lhes a passagem pelo umbral da morte. Quando saio do quarto de um deles, antes de sair, sempre lhes dou água, imaginando que será impossível proporcionar-lhes um derradeiro gole na hora da morte. Sinto que aquele que não mais fala, me diz: “Muito obrigado”. Não será essa a Palavra Sagrada? Além da tristeza, sinto uma mistura de alegria e gratidão que me faz unir as mãos. Que devo fazer para me tornar um conselheiro de moribundos, tal como fazem os senhores? Essa carta expressa bem a situação dos hospitais de idosos atualmente. Faltam enfermeiras, faltam acompanhantes. Há ótimos recursos técnicos, mas falta aprendizado para se solidarizar com os pacientes e ajudá-los a aceitar a velhice e a morte.
Nos últimos tempos cresceram as moléstias incuráveis, como o câncer na fase terminal. As estatísticas do ano passado no Japão dão o câncer como “causa mortis” de 26% dos falecidos no país, ou seja 205.414 pessoas. É um grande problema cuidar desses pacientes e ajudar cada um deles a aceitar sua morte. No sistema médico japonês, por exemplo, ainda não se anuncia ao paciente a existência de câncer. Há 2 anos atrás o Ministério da Saúde do Japão pronunciou-se a favor do anúncio, mas não estamos preparados para isso. Nos hospitais americanos e europeus uma equipe formada por médicos, enfermeiras, especialistas em medicina social e capelão, ajudam o paciente a defrontar-se com a doença. No Brasil e no Japão tudo se centraliza no médico, não há pessoas como capelães que proporcionam ajuda espiritual. Não se anuncia o diagnóstico, mas quase todos os pacientes percebem, intuitivamente, que estão com câncer. Nenhum interno de um hospital de cancerosos duvida disso. Digamos que ele veja, no leito ao seu lado, um doente perdendo os cabelos por causa dos remédios e se queixando de dores. Como ele se sentirá tomando o mesmo remédio que seu vizinho tomou dois dias atrás? Ele percebe claramente qual o seu fim. Médicos e familiares, temendo chocá-lo, fingem nada saber. Sabem o nome da doença mas não o pronunciam. A situação é, portanto, de vivenciar o momento mais grave da existência, num clima de embuste mútuo e suspeita. Acredito que muitos de vocês tenham perdido parentes com câncer. O número de óbitos mostra que não é um problema a ser visto com indiferença. É um tremendo problema alguém ter de aceitar a morte numa situação dessas. Isso tem sido ignorado tanto pelo sistema médico japonês como pelo brasileiro. Só agora, em alguns hospitais, alguns médicos sensíveis estão pensando nisso. No currículo das faculdades de medicina do Japão não há matérias como filosofia, religião ou tanatologia. Na faculdade de medicina da Nagoya, onde presto colaboração, tais temas foram incorporados ao curso de introdução à medicina no ano passado. As faculdades de medicina do Japão tiveram por modelo escolas alemãs de médicos militares. O fato da medicina militar se concentrar na técnica é uma das causas de esquecimento, do apoio espiritual. A medicina oriental sempre esteve ligada à religião. A comunidade budista contava com “Casas de Impermanência” e “Pavilhões do Nirvana” destinados à assistência de doentes terminais. A palavra japonesa Byoin – hospital – designava um dos prédios dos templos budistas. No ocidente também, a medicina estava ligada à religião. No fim do período feudal do Japão, Siebold e outros introduziram a medicina ocidental. Como o Cristianismo estava proibido, apenas a técnica foi introduzida. O espírito cristão foi posto de lado. Depois do início da modernização, o movimento nacionalista anti-budista de inspiração xintoísta, impediu a integração entre medicina e religião. A medicina continuou reduzida à técnica, dissociada do budismo, levantando este tipo de questão. A primeira obrigação do médico é prolongar ou salvar vidas. Mas, numa situação de aumento do número de idosos e de pacientes com câncer terminal é necessário pensar seriamente numa “medicina para a morte”. Para isso é preciso, então, integrar profundamente a técnica com a religião, especialmente o Budismo, que está na essência do ser humano.
Também temos a problemática da bioética. Hoje a tecnologia médica prepara muitas novidades. Nos Estados Unidos já temos as “mães de aluguel”, mulheres que recebem em seus úteros, óvulos fecundados de outras mulheres. Isso já causa disputas na justiça pela posse de bebês. Já temos também a inseminação artificial feita por meio de espermatozóides mantidos congelados. Sem um rigoroso controle não se saberá mais qual dos irmãos é o mais novo ou o mais velho. É claro que se considera mais velho o irmão que nasceu primeiro. Hoje questiona-se uma postura médica fundamentada apenas na técnica, sobretudo no que diz respeito à morte cerebral, ao transplante de órgãos e à utilização de células cerebrais de fetos, pelos que padecem do mal de Parkinson. Do ponto de vista dos receptores nada pode haver de mais maravilhoso, mas, o que será do respeito à vida do doador? O que fazer para que os órgãos não sejam transformados em mercadoria? Como pensar nos direitos humanos do indivíduo e nos sentimentos dos familiares? Há uma série de grandes questões ligadas a uma ética para a vida. Temos de tomar consciência enfim, de uma série de novas interrogações ligadas à morte, à vida e à existência.
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