Kenryo Kanamatsu
Naturalidade


V. Naturalidade no Trabalho Cotidiano


1

Aqueles que atingirem a verdadeira espiritualidade nunca falaram com pesar do sofrimento da vida ou da prisão do Karma, porque aprenderam a transcendê-lo. Não que a prisão tenha cessado de existir para eles, mas tornou-se uma forma de liberdade encarnada. Não há dúvida que eles têm seu ser na corrente contínua da causalidade, mas isso é uma verdade externa. A verdade interna é que todos os seres nasceram do Amor Eterno.

O homem espiritualmente desperto é feliz em aceitar a prisão e não procura evadir-se dela. Ele permite que a lei da causalidade (inga), moral e física, siga seu curso, ou seja, ele submete-se a ela, não se separa dela, não faz qualquer distinção entre ela e si mesmo; identifica-se com ela, tornando-se idêntico a ela.

O que o distingue do homem comum é sua passividade absoluta, sua submissão absoluta à lei de causa-e-efeito. O que ele aprendeu nessa vida não é que existe dor nesse mundo, mas que é possível transcendê-la para a alegria. Isso o capacita a transcender a prisão.

Ele apenas segue seu caminho destemidamente com absoluta fé em seu ser mais profundo e imortal, que não teme a morte ou o sofrimento e que vê na dor apenas o outro lado da alegria.

Ele é por um lado totalmente passivo, mas por outro totalmente ativo na medida que é senhor de si mesmo.

Como esse domínio de si é derivado de uma fonte que o transcende, do Outro Poder, é-lhe dado total autoridade para usá-lo como quiser; na verdade não há limite para seu poder. Tendo perdido a vontade própria na vontade de Amida, o Grande Compassivo, e levando sua vida espiritual no seio de Amida, ele possui uma vida mais abundante que qualquer outro, com nenhuma procura de si, nenhum apego; sendo igual em todas as circunstâncias, ele é senhor de qualquer situação. Porque quem age aqui é o Buda Amida e não seu ser limitado. Aqui está sua passividade ativa ou atividade passiva. O homem comum, ao contrário, separa de si a lei da causalidade.

Ele pensa que existe um agente externo chamado Karma ou causalidade, que o segue se ele for bom ou mau. Ele não percebe que é o agente moral assim como a lei, que a lei está inerente em sua ação, que ele é o próprio construtor da lei.

Separar, dividir, discriminar, fazer uma distinção é o trabalho do intelecto e onde a intelecção prevalece existe sempre o dualismo do ser e dos outros. Na verdade é esse dualismo que tece a teia do Karma e nos apanha desprevenidos.

Enquanto estivermos no plano do intelecto ou da mente auto-centrada, não podemos deixar de gemer sob o peso do condicionamento kármico. A única e mais fundamental diferença entre o homem espiritual e o homem comum é que o primeiro possui essa consciência espiritual (Prajña) que tudo penetra e a tudo é idêntica – puro sentimento – que está além do pensamento, que transcende qualquer forma de distinção (shabetsu) ou discriminação (funbetsu); enquanto que o último ainda não atingiu o auto-despertar do espírito. Viver no plano da consciência espiritual, porém não significa abandonar ou fugir da assim chamada vida mundana. A vida espiritual não é uma existência separada da vida cotidiana no plano intelectual.

O espírito não ignora nem nega o intelecto; ele transcende-o no sentido de ter suas próprias leis dentro dos limites do intelecto; e enquanto mantém isso em boa ordem, não conhece limites externos impostos sobre si.

A verdadeira espiritualidade é serenamente equilibrada na força, na correção ou na relatividade e da dualidade e do fora. Está no mundo da relatividade e da dualidade e ao mesmo tempo sobre ela. O mundo espiritual é simultaneamente de dualidade e unidade de distinção e não-distinção; e por essa razão Karma é não-Karma (Akarma) assim como o próprio Karma. No que nos diz respeito é apenas quando não mais nos separamos, mas nos identificamos com as limitações do Karma que ganhamos a alegria da liberdade. Mas como? Como a corda é presa na Harpa. Quando a Harpa é verdadeiramente forte, quando não existe a mais leve negligência na força do nó, apenas então surge a música; e a corda transcendendo-se em sua melodia encontra sua verdadeira liberdade.

É por estar preso por tais regras duras por um lado que ela pode encontrar essa margem de liberdade pelo outro. Enquanto a corda não era verdadeira, ela estava simplesmente presa; mas um alívio de sua prisão no nada da inação não teria sido o caminho da liberdade. O verdadeiro esforço em nossas vidas cotidianas consiste não em negligenciar a ação, mas em torná-la mais e mais próxima à harmonia eterna. Ou seja, o ser deve dedicar-se ao Espírito Universal através de todas suas atividades.

Essa dedicação é a canção da humanidade, nela está sua liberdade. A alegria domina quando todo trabalho se torna o caminho para a união com Amida; quando nossa auto-oferta se torna mais e mais intensa. Então existe a liberdade. Então existe a naturalidade em nosso trabalho diário. Não mais nos perturbamos com o Karma, porque nos identificamos com ele. Nunca caímos na causalidade porque somos ela mesma.

Deveras o sofrimento é sem dúvida sofrimento, mas absorvemo-lo em nossa consciência espiritual onde todas as coisas que têm seu lugar no plano dos sentidos e do entendimento encontram seu próprio sentido em harmonia com o esquema eterno do Universo. A alegria expressa-se através da lei da causalidade.

O raio salvador do sorriso compassivo de Amida é visto brilhando através da escuridão da noite. O mundo com todo seu sofrimento, limitações e dualidade, torna-se uno no mundo espiritual. Então nesse mundo surge a Terra Pura de Amida. Esse é o significado do Sukhavati-yuha – o embelezamento (yuha) da Terra Pura (Sukhavati).


2

Os seguintes incidentes da vida de Shamatsu (1799-1871) popularmente conhecido como Shoma foi exemplo, dar-nos-á um exemplo de naturalidade no trabalho cotidiano. Shoma foi um dos grandes devotos do Shinshu. Ele era um pobre jornaleiro trabalhando para outros e vivi em Sanuki na ilha de Shikoku. Suas anedotas são escritas em um pequeno livro; Shoma – arinomamano – ki (Shoma como ele era).

O que segue foi retirado dele. Quando Shoma voltava para casa de Kyoto para Shikoku teve que atravessar um trecho do mar.

Enquanto estava no veleiro com seus companheiros surgiu uma tempestade e o mar ficou tão violento que parecia que o barco ia afundar. Os outros perderam sua fé absoluta no Nembutsu e invocavam a ajuda de Kampira, o deus do mar. Mas Shoma dormiu até que seus amigos o despertaram. E quando lhe perguntaram como ele podia dormir tão profundamente diante de uma tal calamidade, Shoma respondeu esfregando os olhos: "ainda estamos neste mundo?". Podemos dizer que ele não percebia em que mundo estava – esse mundo do sofrimento ou aquele mundo de perfeita felicidade – A Terra Pura.

Ele, com toda probabilidade estava vivendo em seu próprio mundo espiritual. A vida e a morte eram como nuvens flutuando no céu. Elas não o preocuparam de forma alguma. Shoma visitou uma vez um Templo Budista no campo e logo que entrou no salão principal onde Amida era venerado estendeu-se confortavelmente diante do santuário, quando um amigo espantado lhe perguntou porque estava faltando com respeito a Amida; ele disse: "estou de volta à casa de meu pai e você que faz esse tipo de observação deve ser um enteado".

É uma atitude mental que nos lembra uma criança profundamente adormecida no colo da mãe. Ele era tão feliz no abraço do grande compassivo que o mundo das formalidades sociais desaparecia completamente de sua mente: "na verdade vos digo que a menos que vos torneis como crianças não entrareis no reino dos céus".

O amor infinito de Amida por nós e nossa confiança absoluta em seu amor são freqüentemente comparados às relações entre mãe e filho e foram especificadas por Gido (1805-1881); às vezes chamado (Iriki-in) um sábio Shinshu como segue:

1. Como a criança não faz julgamentos, assim devem os seguidores do Tariki (Outro Poder) estar livres de pensamentos de auto-afirmação.
2. Como a criança não conhece impurezas assim os seguidores do Tariki não devem nunca ver os maus pensamentos e atos.
3. Como a criança nada sabe sobre a pureza assim os seguidores do Tariki devem ser inconscientes de quaisquer bons pensamentos que possam ter.
4. Como a criança não aspira conquistar um favor especial da mãe quando lhe dá oferendas, assim devem os seguidores do Tariki ser livres da idéia de ser recompensados por algo que tenham dado.
5. Como a criança não vai atrás de nenhuma outra pessoa que não sua mãe, assim os devotos do Tariki não devem correr atrás de outros Budas ou Bodhisatvas que não Amida.
6. Como a criança sempre busca a mãe, assim devem os seguidores do Tariki pensar em apenas um Buda "O Buda da Luz Infinita".
7. Como a criança sempre guarda a memória de sua mãe, assim devem os seguidores do Tariki guardar o pensamento do Buda uno Amida.
8. Como a criança chora por sua mãe, assim devem os seguidores do Tariki invocar o Nome de Amida.
9. Como a criança pensando em sua mãe como a única pessoa em quem pode confiar absolutamente, deseja ser abraçada por ela em todas ocasiões, assim os seguidores do Tariki não devem ter outro pensamento que não seja o de ser abraçado por Amida apenas, mesmo quando em perigo.
10. Elas não devem ter temores ou dúvidas sobre o amor infinito de Amida, o Buda uno, cujo Voto é não abandonar nenhum ser em seu abraço. Quando abraçado por essa luz ninguém precisa ter a idéia de ser abandonado por ela. Apesar de algo repetitivo, o que foi mostrado acima resume a fé Shinshu, e porque é chamada "a Fé do Outro Poder". Nosso ser mortal, finito, imperfeito, condicionado pelo Karma, pecador e condenado ao inferno, apenas pode viver ao perder-se para o Outro (Amida).

Em outra ocasião, quando trabalhava em um campo de arroz e ficou cansado, Shoma voltou para casa para descansar. Quando sentiu uma brisa fria e refrescante ele pensou na sua imagem de Amida no santuário de sua casa.

Ele apanhou-a e colocou-a a seu lado dizendo: "você também apreciará a brisa". Isso pode parecer um ato anormal, mas no mundo do puro sentimento tudo que necessita de cuidado tem vida, como uma criança faz de uma boneca um ser vivo. No mundo do puro sentimento não há consciência de um processo de personificação.

É apenas o intelecto que faz a distinção entre animado e inanimado, sensível e não-sensível. Do ponto de vista espiritual tudo é vivo e é objeto de afetuosa preocupação. Não é esse um caso de simbolismo, mas de tomar a realidade como ela é. Isso é a vida de naturalidade. Quando Shoma ficou doente enquanto viajava, seus amigos levaram-no para casa em um palanque e lhe disseram "agora que você está de volta à sua casa, esteja tranqüilo e grato pela compaixão de Amida". Shoma disse: "obrigado, mas onde quer que eu esteja deitado doente, a Terra Pura está sempre próxima de meu quarto".


3

Disso podemos dizer que o mundo de Shoma não era o mesmo que o das pessoas comuns. Ele não via as coisas à sua volta da mesma forma que elas. Seus olhos estavam fixos em um mundo além desse, embora não no sentido de um mundo separado. Para a mente de Shoma, mas aqui mesmo. Sua vida neste mundo era a vida na Terra Pura, onde o mar é sempre calmo e as barcas seguras. Assim, no meio do redemoinho, ele não tinha motivo para ter medo de nada.

Quando tinha sono dormia; quando queria sentar, sentava; quando o barco era jogado para cima e para baixo, ele também era jogado para cima e para baixo; como se identificava com o redemoinho, aceitava o que viesse sem preocupar-se com as conseqüências. Mesmo no meio das ondas ele sentia os braços amorosos de Amida no templo do campo. Ele era tão feliz no abraço do Grande Compassivo que era natural em todas as suas ações, nunca sendo perturbado por quaisquer circunstâncias.


4

Na verdade, onde é a outra margem do não-Karma?

É em algum lugar que não aquele em que estamos?

É abandonar todo nosso trabalho e responsabilidades na vida? Não, no próprio coração de nossas atividades, nesse mesmo momento estamos alcançando nosso fim. Em nosso próprio trabalho está nossa alegria e é nesse contentamento que nossa alegria permanece. Amida é a fonte e inspiração de nosso trabalho e o fim também é ele, e assim toda nossa atividade é penetrada de paz e alegria. Na verdade, o oceano de alegria, essa margem e outra margem são uma e a mesma em ti. Quando digo que esta margem é minha, a outra fica perdida; e meu coração clama incessantemente pela outra. Não haverá fim para o sofrimento enquanto não se perceber que este lar é meu. Quando este meu lar é feito teu, nesse mesmo momento é transcendido, mesmo com as velhas paredes do Karma ainda cercando-o. Tudo permanece o mesmo, apenas é transcendido (mesmo com as velhas paredes do Karma ainda o cercando).

Onde posso encontrá-lo senão neste meu lar feito teu?

Onde posso unir-me contigo senão neste meu trabalho transformado em teu trabalho? Se deixar meu lar, não alcançarei o teu; se cessar meu trabalho nunca poderei unir-me a ti no teu.

Porque você habita em mim e eu em você. Você sem mim ou eu sem você nada somos. Assim em meio ao nosso lar e ao nosso trabalho surge o Nembutsu: "NAMU AMIDA BUTSU!

Por aí corre o Oceano de amor, e aí mesmo está a outra margem esperando ser alcançada. Sim, aqui está o eterno presente, não distante, não em algum outro lugar.


Templo Budista Apucarana Nambei Honganji
Travessa Dorizon, s/n
86802-265 — Apucarana — Paraná
Telefone/Fax:
(0xx43) 3423-0315
Monge Responsável:
Rev. Wagner Bronzeri (Sh. Haku-Shin)
E-mail: honganji@dharmanet.com.br

Voltar para a página anterior

]