Kenryo Kanamatsu
Naturalidade


I. Puro Sentimento


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O Budismo é uma religião de Iluminação (satori) como mostra o termo Buddha que significa O Iluminado. Quando o homem alcança Boddhi, o despertar da ignorância para a perfeição da consciência torna-se um Buda. Em outras palavras, Bodhi ou iluminado é a libertação da ignorância que obscurece nossa consciência prendendo-a nos limites de nosso ser pessoal e obstruindo nossa visão da verdade. A verdade abarca a totalidade. Não existe isolamento absoluto na existência e o único caminho para atingir a verdade é através da interpenetração de nosso (ser) em todos os objetos.

Quando envolvemos a nossa consciência na concha morta do nosso (ser) estreito, estamo-nos destruindo. Isso é o assassinato do próprio espírito (de nosso ser) que é o espírito de abrangência e permeação. Essencialmente o homem não é um escravo de si mesmo, ou do mundo; mas um amante. Nossa liberdade e realização está na perfeita abrangência, e permeação. Por esse poder de abrangência, essa permeação de nosso ser, nossos corações são retomados para se unirem com o Coração Original que tudo penetra, que é o Coração dos nossos corações.

Porém, estando fechados dentro das paredes estreitas de nosso ser limitado, nós perdemos nossa simplicidade e nos tornamos surdos ao apelo que vem da profundidade de nosso coração. Não somos totalmente conscientes do nosso desejo inerente, porque ele está oculto sob várias camadas de orgulho e auto engano. Assim como não somos, geralmente conscientes do ar, assim nos acostumamos a esquecer os apelos do nosso coração, a demandarem a nossa atenção. Mas, quando encontramos situações incompatíveis com nossos desejos egoístas e cálculos humanos frustrantes, paramos e refletimos na debilidade de nossos desejos terrenos. É o momento em que o coração se afirma e nos força a olhar além de nosso ser estreito.

Aqui sentimos um Poder Impensável mais forte que nós, compelindo-nos a escolher entre ser e o não-ser, entre a ignorância e a Luz. Esse Poder Impensável, mais forte que nós, esse apelo persistente impelindo o ser a se transcender, é um chamado que nos faz o Coração Todo Compassivo – O Espírito Eterno da Simpatia – que é na sua essência, a Luz e a Vida de tudo; é a consciência Universal. O Espírito existe para tudo sentir e para estar consciente de tudo. Na sua consciência estamos imersos de corpo e alma. É através da sua consciência que o sol atrai a Terra; é através da sua consciência que as ondas de luz são transmitidas de planeta para planeta. Essa Luz e Vida, esse Ser que Tudo sente, está não apenas no espaço, mas em nossos corações. Ele é Onisciente no espaço ou Mundo da Extensão, e é Onisciente no Coração ou Mundo da Intenção. Ele age nos recessos mais profundos do nosso coração como o amor inato – esse sentimento fundamental, puro e universal que interpenetra todos os objetos, que se move e existe em continuidade ininterrupta com o mundo externo. Nosso ser tem que abrigar seus limites no esquecimento e na morte, e penetrar repetidamente nesse fundamental sentimento puro. Ele tem que ousadamente penetrar na profundidade da existência, tocar a Unidade Fundamental e seguir o ritmo eterno do Coração do Mundo para tornar-se uno no todo.

O homem iluminado com sua perspectiva interior aprofundada e alargada encontra o Espírito Eterno em tudo. Ele se realiza na existência, descobrindo a Verdade Viva em todas as realidades verdadeiras. Aos olhos da sua mente a natureza não é totalmente natural, ela reflete algo sobrenatural. A água não limpa apenas seus membros, mas purifica seu coração, na medida em que toca seu espírito. A terra não mantém apenas o seu corpo, mas alegra sua mente, porque seu contato é mais do que um contato físico – é a presença viva da Glória de Amida (*) – o Espírito Eterno. Não é um mero conhecimento como a ciência, mas uma intuição do espírito pelo espírito. É onde Buda fala para Buda. A revelação de Amida não é para ser buscada através de nossos esforços; ela vem para nós por si mesma, por sua própria vontade. Amida está sempre em nós e conosco, mas através do nosso entendimento humano o colocamos fora de nós, contra nós, como se oposta a nós, e exercitamos o nosso poder intelectual ao extremo para possuí-la. A revelação, porém, só acontece quando esse poder humano foi finalmente exaurido, renunciou ao seu egocentrismo e quando retornamos à nossa simplicidade.

Só podemos senti-lo como Coração do nosso coração e Espírito do nosso espírito; só podemos senti-lo no amor e na alegria que experimentamos quando entregamos nosso ser e ficamos ante ele face a face.


2

O espírito de renúncia é a mais profunda realidade do coração humano. O ser pode apenas realizar-se verdadeiramente se entregando. No dar (dana) está nossa mais verdadeira alegria e libertação porque nos unimos com o infinito. Crescemos nos perdendo e nos unindo. Ganhar uma coisa é por sua própria natureza parcial, é limitado a um desejo particular, mas o dar é incompleto, pertence à nossa completitude, não surge de nenhuma necessidade, mas de nossa afinidade com o infinito, que é o princípio de unidade e perfeição que temos no mais profundo do nosso coração. Nossa alegria permanente não é conseguir alguma coisa, mas nos darmos àquilo que é maior que nós, ao infinito ideal da perfeição.

Todas as nossas posses assumem um peso pela gravitação incessante de nossos desejos egoístas; não podemos libertar-nos facilmente deles. Elas parecem pertencer à nossa própria natureza, prendem-se a nós como uma segunda pele e sangramos quando nos desapegamos delas. “É mais fácil um camelo passar em uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”. Aquele que está voltado para acumular riquezas é incapaz com seu ego continuamente inflado, de atravessar o portão do mundo espiritual, do mundo da perfeita harmonia; ele está preso nas paredes estreitas de suas limitadas aquisições. Assim, abarcar a totalidade entregando nosso ser. Porém, quando o ser é entregue, o doador ainda está aí porque o ato de dar só é possível quando existe aquele que dá e o outro que recebe. Não importa quão longe possamos ir, sempre permanecerá o doador que realiza o ato de dar. Enquanto existir a idéia de dar em nossa consciência, o doador será sempre deixado atrás como um resíduo insolúvel e nenhuma entrega final do ser será possível. Se alguém deseja ser um doador absoluto necessita transcender o dualismo de alguém que dá e de outro que recebe. Quando isso é realizado ocorre uma total mudança de posições e aquele que dá é ao mesmo tempo aquele que recebe. A transferência absoluta do eu para o não-eu é ao mesmo tempo a transferência (parinama: ekô) do não-eu para o eu. Aqui entramos no mundo espiritual – o reino da fé. A chave para desvendar os mistérios desse reino é o amor, porque a fé é a mais elevada culminação do amor. No amor todas as contradições da existência se unem e se perdem.  No amor a unidade e a dualidade não se opõe. O amor é um e dois ao mesmo tempo. No amor sou e não sou; estou em você e você em mim. No amor perda e ganho se harmonizam. O amante se dá constantemente para se ganhar no amor. Deveras o amor é o que une e liga inseparavelmente tanto o ato de dar como o de receber. Assim, quando um homem ama, dar torna-se um motivo de alegria para ele, pois ele transcende a noção dualista de um que dá e de outro que recebe.

Ele transcende até mesmo a idéia de dar. Para ele dar é ao mesmo tempo receber. O amor é a perfeição da consciência. Não amamos porque não compreendemos, ou melhor, não compreendemos porque não amamos. Porque o amor é o sentido supremo de tudo à nossa volta. Não é um mero sentimento; é a verdade; é a alegria que está na raiz de toda criação. É a luz branca do puro sentimento que emana de Amida (Amitabba), a luz infinita. Assim para habitar com esse ser que tudo sente, que está no céu externo assim como em nosso coração temos que alcançar essa plenitude da consciência que é o amor e de sua extensão por todo o mundo que podemos nos transferir de volta ao Amor Original, que podemos alcançar comunhão com Amida, o Espírito da Alegria (Sambhogakaya).

O Nirvana (nehan) pregado por Sakyamuni, o fundador do Budismo, não é nada mais que essa mais elevada culminação do amor. É o morrer absoluto do ser que é ao mesmo tempo o nascimento absoluto do ser Universal. É a extinção da Lâmpada da Luz da Manhã. Aí entramos no mundo espiritual ou reino da fé. Mas aquele que entrou no reino da fé nunca senta preguiçosamente nesse país, porque a fé é movimento e repouso simultâneos; limitação e liberação não se antagonizam na fé. Ele volta a esse mundo e não para por um momento de estender um amor ilimitado a todas as criaturas, como uma mãe por seu único filho que ela protege com sua própria vida. Acima, abaixo e em volta de si ele estende seu amor, que não conhece limites nem obstáculos, e é livre de toda crueldade e antagonismo. Enquanto em pé, sentado, andando ou deitado, mesmo em seus sonhos, ele mantém sua mente ativa nesse exercício de boa vontade universal.


3

De acordo com a história, Sakyamuni atingiu a iluminação em Budagaya às margens do rio Nairanjana há mais de vinte e cinco séculos atrás, aos trinta e cinco anos de idade. No Sadarma Pundarika Sutra (O Lótus da Boa Lei), porém Sakyamuni afirma o seguinte: “No passado imensuravelmente infinito eu atingi o Bodhi (iluminação) e tenho vivido aí por um período de tempo incalculavelmente longo. Eu sou imortal”. Essa afirmação provém do mais profundo recesso de sua natureza aonde ele e sua audiência e todos nós essencialmente movemos e temos nosso ser. É o eterno “eu sou” que fala através do “eu sou” que está em mim. O “eu sou” finito atingiu o seu fim perfeito realizando sua liberdade e harmonia com o “Eu sou” infinito: aqui eu sou e não sou; você habita em mim e eu em você. Esse é o reino da verdadeira espiritualidade – a fé – onde o olho com que eu vejo Amida é o mesmo com que Amida me vê. É o estado de liberdade absoluta onde o ser penetra em todos os outros seres através da união com o Grande Ser. O “eu sou” finito encontra seu ser maior em todo o mundo, e adquire a absoluta certeza de sua imortalidade. Ele tem que morrer na sua prisão do ser, mas nunca poderá morrer onde é uno com a totalidade, porque ali está sua verdade e sua alegria. Porém, pelo processo do conhecimento nunca poderemos atingir a unidade com o “Eu sou” infinito – o Ser Universal. Podemos apenas senti-lo através da intuição imediata do coração amante. O conhecimento é parcial porque nosso conhecimento é um instrumento, é apenas uma parte de nós, pode dar-nos informação sobre coisas que possam ser divididas e analisadas, e cujas propriedades possam ser classificadas, parte a parte. Mas Amida, o Ser Infinito, é perfeito e eterno, e um conhecimento parcial nunca pode ser um conhecimento dele. Ele pode apenas ser conhecido através do puro sentimento, porque o puro sentimento em sua completitude, é conhecer com todo o nosso ser. O conhecimento nos separa das coisas a serem conhecidas, mas o puro sentimento conhece seu objeto por fusão. Tal conhecimento é imediato e não admite dúvida. É o mesmo que conhecer nosso próprio ser, apenas mais que isso. Transcende o dualismo do conhecedor e do objeto a ser conhecido. Quando se diz que se vê alguma coisa, essa coisa não é mais que si mesmo. Esse conhecimento da identidade, puro sentimento – que não é analisável em sujeito e objeto , em conhecedor e conhecido, não é nada mais que prajna (Hannya) – intuição transcedental. Prajna é um conhecimento que conhece e não conhece, uma intuição que não intui, um pensamento que não é pensamento. É o não-pensar (munen) e a não-mente (mushin) não no sentido de inconsciência, mas no sentido de que transcende todos os traços de entendimento discursivo ou analítico. Todo pensamento envolve a distinção disto e daquilo, porque pensar significa dicotomizar, dividir, analisar, Prajna, não-pensar, ou não-mente, não divide, mas está além da mente auto-centrada (vijnana) que é a criadora das intermináveis complexidades de discriminações e divisões. Como o fundamental sentimento puro, prajna subjaz e acompanha a consciência cotidiana do senso comum e do tempo. A totalidade do ensinamento Budista baseia-se nessa idéia central de puro sentimento, não-pensar e não-mente, mostrando que nenhuma verdade espiritual pode ser atingida pelo raciocínio ou pela demonstração.

Isso não é, porém, a negação do entendimento ou a parada do raciocínio, mas significa alcançar a raiz e o fundamento dos sentidos e do entendimento. A consciência cotidiana comum voltada para os objetos e presa ao tempo irá perder seu caminho se não despertar e for guiada por esse fundamental puro sentimento (prajna), no labirinto de intermináveis complexidades. A luz onipresente de Prajna não elimina as distinções, mas as evidências, claramente em seu verdadeiro e espiritual significado, porque o ser está morto e tudo é visto no sereno espelho do não-eu (mugo). Não sendo um dos efeitos de nosso esforço humano, prajna é o fundamento de nossa existência, ou seja, a condição metafísica em que toda nossa vida da conduta e da ciência se fundamenta. Prajna é, por assim dizer, o olho transparente que não possui cor e por isso discerne todas as cores. A abertura desse olho é a iluminação ou a revelação de Amithaba, a Luz Infinita. É a visão luminosa da Terra Pura (Sukhavati: Jodo) de Amida.


4

No grande Sukhavati Vyuja Sutra (O Embelezamento da Terra Pura), Sakyamuni prega a Ananda, um de seus discípulos sobre a magnificência da Terra Pura (Sukhavati), o mundo feliz da Amida, onde ele reinou desde que atingiu o Budato dez kalpas atrás:

“Agora, Ó Ananda, esse mundo chamado Sukhavati (Terra Pura) pertencendo ao Buda Amithaba é próspero, rico, bom de se viver, fértil, amável e cheio de muitos deuses e homens...Ó Ananda esse mundo Sukhavati tem a fragrância de vários doces perfumes, é rico em múltiplas flores e frutas, adornado com árvores de jóias e freqüentado por tribos de muitos pássaros de doce voz que foram criados pelo Buda Amida com essa finalidade.” Existem flores de lótus aí de meia yojana de circunferência. Existem outras de uma yojana de circunferência; e outras de duas, três, quatro ou cinco yojanas de circunferência. E de cada jóia de lótus trinta e seis centenas de milhares de kotis de raios de luz. E de cada raio de luz procedem trinta e seis centenas de milhares de kotis de Budas, com corpos de cor dourada, que vão ensinar a lei da verdade (Dharma) aos seres nos imensuráveis mundos do Oriente. Assim, também no sul, no ocidente e norte, acima e abaixo nos pontos cardeais e intermediários; eles seguem seu caminho para mundos imensuráveis e inumeráveis e ensinam a lei aos seres em todo o mundo. “Nesse mundo Sukhavati, Ó Ananda, fluem diferentes tipos de rios; existem grandes rios de mais de vinte, trinta, quarenta, cinqüenta yojanas de largura e mais de vinte yojanas de profundidade. Todos esses rios são deliciosos, com água de doces e diferentes aromas, com corbelhas de flores adornadas com várias jóias, resbando com doces nozes.

E Ó Ananda, procedem de um instrumento que consiste em centenas de milhares de kotis de partes, que incorporam música celestial e é tocada por pessoas inteligentes, o mesmo som delicioso que procede desses grandes rios, o som que é profundo, desconhecido, incompreensível, claro, agradável, nunca cansativo, nunca desagradável, agradável de se ouvir... “É novamente, Ó Ananda, as bordas desses grandes rios são cheios de ambos os lados com árvores de jóias de vários perfumes, nas quais corbelhas de flores, folhas e ramos de todos os tipos se apóiam. E se os seres que estão nas bordas desses rios desejam gozar deleites celestiais a água sobe até o tornozelo logo que eles entrem no rio, se eles o quiserem, ou se eles desejarem a água sobe até os seus joelhos, quadris ou ouvidos. E surgem os prazeres celestiais. Se os seres quiserem que a água fique fria, ela fica fria; se a quiserem quente, ela se torna quente; se a quiserem quente e fria de acordo com seus desejos”. E Ó Ananda, não existe em lugar nenhum desse mundo Sukhavati qualquer som de pecado, obstáculo, infortúnio, tensão e destruição; não existe em lugar algum qualquer som de dor, mesmo o som daquilo que não é nem dor nem prazer não é ouvido ali, Ó Ananda e muito menos o som de dor. Por essa razão, Ó Ananda, esse mundo é chamado Sukhavati. Porque Ó Ananda, o kalpa inteiro pode chegar ao fim, enquanto as diferentes causas do prazer do mundo Sukhavati sejam louvadas, e mesmo então o fim dessas causas de felicidade não ser alcançado...

“E novamente Ó Ananda, nesse mundo Sukhavati os seres não se alimentam com comida feita com materiais grosseiros; mas qualquer alimento que desejem, esse alimento eles percebem como se o tomassem e sentem deleite no corpo e na mente. E não precisam colocá-lo na boca”.

“E se depois de satisfeitos desejam diferentes tipos de perfumes, então todo País Búdico é perfumado com esses mesmos perfumes celestiais. E quem quer que deseje perceber aí tal perfume, todo perfume do Gandharnaraja sempre alcança seu nariz”.

“E novamente, Ó Ananda, nesse País Búdico quaisquer seres que tenham nascido, nasçam ou nascerão são sempre constantes na verdade absoluta, até que alcancem o Nirvana. E por que é assim? Porque não existe lugar ou menção lá das outras duas divisões como os seres não constantes ou constantes na falsidade...”

“E novamente , Ó Ananda, nas dez direções , e em cada uma delas, em todos os Países Búdicos iguais em número à areia do Rio Ganges, os bem-aventurados Budas iguais em número à areia do Ganges glorificam o nome do Bem-aventurado Amithaba, e tendo-o ouvido elevarem seu pensamento com uma feliz aspiração, mesmo uma vez apenas não se desviarão do mais elevado e perfeito conhecimento....”

A representação mitológica da verdade espiritual é um elemento essencial no corpo do ensinamento de Sakiamuni. Quando lemos os Sutras Budistas o mito surge em nossa consciência comum com a revelação de algo novo e estranho e a experiência estreita de senso comum é subitamente inundada pela penetração de uma vasta experiência, como se fosse de outro mundo. As visões da imaginação mitopoética são recebidas pelo ser da consciência comum com a estranha hipótese de existência em outro mundo Ser que enquanto se revela nessas visões possui um profundo segredo que não desvelará.

A expressão mitológica representa produtos naturais do mundo do puro sentimento transcendente ao tempo e ao espaço que envolve o campo da consciência comum temporal e espacial em nossas mentes. Sakiamuni apela para aquela parte maior e fundamental da natureza humana que não é articulada, e lógico, mas sente, deseja e age – para aquela parte que não pode explicar o que uma coisa é , ou como acontece, mas sente espontaneamente que é coisa boa ou má, e se expressa, não cientificamente em julgamentos teóricos, mas praticamente em julgamentos de valor. Apelando, através da recitação de sonhos a essa parte principal de nós que sente valores, que deseja e age, Sakiamuni atinge a pedra fundamental da natureza humana.

Nessa profundidade o homem está mais próximo da natureza universal – mais próximo de seu segredo que quando está no nível de suas faculdades mais “elevadas”, onde ele vive em um mundo conceitual de sua própria criação que ele está sempre tentando pensar. Afinal, não importa quanto o homem possa ascender como um pensador, é apenas em valores que ele genuinamente pensa; e o fundamento de todos os valores – o valor da vida – já tinha sido apreendido antes do surgimento do pensamento, e é ainda apreensível independente dele. Por que é a vida digna de ser vivida? Por que é bom estar aqui? O problema não é colocado para o pensamento e o pensamento não pode resolvê-lo. O pensamento pode sentir que ele foi colocado e resolvido em algum lugar, mas não pode genuinamente pensá-lo. Ele é colocado para a profundidade de nossa natureza, e está sempre sendo silenciosamente compreendido e resolvido pela parte fundamental de nosso ser. E a mais digna de confiança assim como a mais enganosa afirmação de que é o problema, e qual sua solução, alcança a consciência através do sentimento. O sentimento está mais próximo do que o pensamento desse ser fundamental que é ao mesmo tempo o problema vivo do Universo e sua solução viva. Sakiamuni apela do mundo dos sentidos e do entendimento científico para essa parte profunda da natureza humana. As respostas não são dadas em uma linguagem articulada que o entendimento científico possa interpretar; elas vêm como sonhos, e tem que ser recebidas como sonhos, sem intenção de interpretação doutrinária. Seu sentido supremo é o sentimento que nos penetra quando percebemos; e quando despertamos deles vemos nossas preocupações cotidianas e todas coisas temporais com olhos purificados. O efeito que Sakiamuni produz pelo mito em seus discursos é produzido em vários graus pela própria natureza sem a ajuda da arte literária ou outra arte. O sentido de majestade e sublimidade que nos invade quando olhamos a profundidade do céu estrelado, o sentido da passagem de nosso curto tempo com que vemos as flores de cerejeira brotarem novamente, essas e muitas como essas, são experiências naturais que lembram o efeito produzido na mente do ouvinte pelos discursos de Sakiamuni. Quando essas disposições naturais são experimentadas, sentimos o impensável ser intemporal que estava, está e estará sempre nos envolvendo; e coisas comuns – as estrelas, as flores de cerejeira – tornaram-se subitamente estranhas e maravilhosas porque nossos olhos estão abertos para ver que eles mostram sua presença. São tais disposições de sentimento em seu ouvinte que Sakiamuni induz, satisfaz, e regula pelo mito que evidencia o ser intemporal, o Universo e os ideais na visão.

Esse puro sentimento, que é experienciado como a intuição solene da presença do impensável ser intemporal, aparece na nossa consciência cotidiana comum, mas não se origina nela.

Sua origem deve ser encontrada na influência sobre a consciência daquela condição primeira de que surgimos, quando a vida estava tão adormecida quanto a morte (Nirvana) e ainda não existia o tempo. É natural então que possamos cair por um tempo, de nossa consciência comum cotidiana, na condição intemporal dessa vida primeira do não-eu; porque o único princípio fundamental de nossa natureza, sendo essa parte fundamental de nosso ser que fez no início e faz ainda silenciosamente a afirmação em que toda nossa vida racional da conduta e da ciência se fundamenta - a afirmação que a vida é digna de ser vivida, de que é bom estar aqui. A antecipação da morte pelo homem oprimiria sua vida com melancolia insuportável, se uma vida consciente não sentisse suas raízes nesse centro profundo de sua natureza que sem sentido do passado, do futuro ou do ser está silenciosamente presente na vida, na fé implícita de que ela é digna de ser vivida, de que existe um cosmos no qual é bom viver. De qualquer forma, existe ainda espaço para melancolia em suas horas de descanso e lazer. Se lhe vem conforto nessas horas não é pensando em alguma solução para sua melancolia, mas penetrando sozinho na condição intemporal dessa parte fundamental de nosso ser. Quando ele desperta novamente para a vida cotidiana é com a fé elementar nessa parte de seu ser novamente confirmada em seu coração; e ele está pronto para destemidamente desafiar tudo que o nega no mundo dos sentidos e do entendimento. Algumas vezes, mais freqüentemente, essa fé imóvel não apenas transfigura, mas dispersa a própria melancolia que o invade com o pensamento da morte e enche seu coração com a doce esperança da imortalidade pessoal. Para resumir, o puro sentimento é ao mesmo tempo a intuição solene do ser intemporal e impensável que nos envolve e a fé que a vida é boa. Na primeira fase, o puro sentimento é uma experiência normal de nossa vida consciente; não é uma experiência que surge ocasionalmente ao lado de outras experiências, mas um sentimento que acompanha todas as experiências de nossa vida consciente – essa doce esperança em que se baseiam nossos esforços nas realizações particulares que constituem ávida desperta da conduta e da ciência.

Tal sentimento apesar de normal, é corretamente chamado de transcendental porque não é um dos efeitos, mas a condição de nossa entrada e nossa perseverança no esforço que constitui a experiência. Na vida desperta da conduta e da ciência, o entendimento entregue a si mesmo proclama ser a medida da verdade; os sentidos, o critério de bem ou mal. O puro sentimento surgindo de outra parte do ser sussurra ao entendimento e aos sentidos que eles estão esquecendo alguma coisa. O que? Nada menos que o impensável plano do universo.

E o que é esse plano impensável? A outra parte do ser, deveras o compreende em silêncio como ele é, mas só pode expô-lo ao entendimento na linguagem simbólica da imaginação – na visão. É no puro sentimento manifesto normalmente como a fé no valor da vida, extaticamente como intuição do ser impensável e intemporal, e não no pensamento através da construção especulativa que a consciência chega mais próximo ao objeto da metafísica: a Realidade Suprema, porque sem essa fé no valor da vida o pensamento não pode despertar.

É no puro sentimento que a consciência toma consciência do bem, ou do universo como um lugar aonde é bom estar. O puro sentimento é assim o começo da metafísica porque a metafísica não pode começar sem pressupor o bem; mas é também o fim da metafísica porque o pensamento especulativo não nos leva realmente além do que o sentimento que o inspirou desde o início já nos levou, terminamos como começamos, com o sentimento de que é bom estar aqui.


Templo Budista Apucarana Nambei Honganji
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86802-265 — Apucarana — Paraná
Telefone/Fax:
(0xx43) 3423-0315
Monge Responsável:
Rev. Wagner Bronzeri (Sh. Haku-Shin)
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