Shuichi Maida
Quem é Mau?
O Mau e Sua Salvação na Ótica do Budista Shin


4. Os Limites do Ser Humano

Saisei Muroo (1889-1962) foi um poeta nascido na minha cidade natal. Eu me recordo dele desde a época em que eu era estudante. Guardo na memória a sua imagem conversando em pé com a sua esposa e com o bebê em seus braços na beira do riacho que corria em frente de sua casa. O riacho que corria em frente de sua casa era o rio Saigawa que percorria toda a cidade de Kanazawa.

Ele fez uma viagem para a Manchúria, na China, em 1937. Ele transformou em poemas tudo que viu e ouviu durante a viagem. Estes poemas foram publicados na edição de dezembro do mesmo ano da revista Chuo-koron. Um poema em especial me chamou a atenção. O poema estava tão bem escrito que eu não pude deixar de considerá-lo como uma de suas obras-primas. Depois de lê-lo pela primeira vez, eu o transcrevi nas margens do livro do meu exemplar do Tannishô. Este poema se chamava “O Fruto do Espinheiro” (Sanzashi) e foi escrito quando esteve em uma casa de prostituição em alguma cidade durante a viagem. O poema dizia:

Um pano enrugado pendurado como uma cortina de um palco,
Seu quarto, de seis por quatro tatamis.
Trabalho árduo todo dia – o de prostituta.
Ela dorme profundamente – sua face pálida.
Ela quer sorrir, mas nada de sorrisos em sua face.
Ela quer chorar, mas mesmo a tristeza está perdida.
Trabalho árduo todo dia – o de prostituta.
Aqui estou, nenhuma palavra para lhe dizer,
nada para lhe oferecer.
Adoço o fruto do espinheiro,
Apenas trago e umedeço meus lábios de néctar.

Eu estimo este poema porque descreve acuradamente o que chamo de limites de um ser humano. Estes limites estão bem expressos nos seguintes versos: Ela quer sorrir, mas nada de sorrisos em suas faces. Ela quer chorar, mas mesmo a tristeza está perdida. Quando se pode sorrir, chorar, ou se pode dizer expressões como: “Que doloroso!” pode-se dizer não atingimos o estágio final da existência humana. No ponto crítico, tudo que podemos fazer é algo semelhante aos seguintes versos: Ela dorme profundamente – sua face pálida. Ela se encontra em um estado onde perdeu a sensibilidade humana e existe simplesmente como um animal.

Entretanto, esta é a realidade humana. Esta realidade é uma expressão inequívoca de um ser humano, de uma mulher. Se adotamos um termo marxista, esta é uma imagem de uma “escrava branca” que atingiu o extremo estado de miséria. No seu desejo de sorrir ou chorar, vemos, todavia algum sinal de humanidade. Eu posso dizer que neste momento, os elementos do humano e animal estão entrelaçados e fundidos. É difícil visualizar com clareza os limites do ser humano.

Um ser humano é essencialmente uma criatura que é direcionada a um ponto crítico como este: pelo destino, circunstâncias, ou pela situação social. Isso é a realidade. Por esta razão, prefiro chamar este poema de “Realidade”. A Realidade mostra seu aspecto sangrento, o ponto crucial, na existência de uma frágil mulher.

Eu vejo a realidade neste poema porque reconheço uma força que está além das capacidades do ser humano. Eu reconheço uma força inevitável que não podemos controlar. Penso que esta inevitabilidade é a característica mais preponderante da realidade.

Eu associo como poema de Basho (1644-1694, um famoso poeta de haiku japonês). Uma vez, Basho encontrou um bebê abandonado nas margens do rio Fujigawa. Ele alimentou o bebê com uma bolinha de arroz e compôs um poema. Depois se afasta do bebê, abandonando-o no mesmo lugar onde o encontrou. Seu poema dizia:

“Oh poeta arcaico (que foi tocado pelo) choro de
um macaco!
Como você reagiria ao choro deste bebê abandonado
no vento (frio) de outono?”

Este poema é precursor do poema de Saisei Muroo. Embora estes dois poemas tenham diferentes versos, possuem o mesmo significado. Em ambos poemas vejo os autores enfrentando realidades com um profundo sentimento de reverência. Uma realidade como esta é absoluta. Aquele que pensa que poderá mudar a realidade é um superficial. Tal pessoa ainda não tem reconhecido a natureza absoluta da realidade. Os moralistas o acusariam do seu caráter rude. Porém estou seguro de que Basho suportaria esta crítica porque foi capaz de reconhecer e suportar algo mais difícil que foi a inescapável realidade.

Talvez eu pudesse ser aquele que encontrou um bebê abandonado. Que atitude tomaria? Eu também o abandonaria, igualmente como Basho o fez porque sou rude e inumano. Eu não posso deixar de sentir empatia por Basho. Logo as pessoas me perguntariam: — Então você é um egoísta? Está você preocupado somente com a sua própria felicidade? Eu não tenho outra resposta além de dizer “Sim” a esta indagação. Que miserável sou eu! Estou encarando a minha ilimitada e absoluta vilania.

Esta realidade possui uma natureza absoluta. Absoluta significa a natureza que está além do meu próprio poder. O que fez o poeta em relação à prostituta? Ele não fez absolutamente nada além de confessar a ineficiência de sua própria existência ao dizer: “Aqui estou, sem nenhuma palavra para lhe dizer. E nada para lhe oferecer”. Estes versos são idênticos às palavras proferidas por Shinran quando fala de si próprio como um tolo tonsurado. Tolo tonsurado se refere a uma pessoa ignorante e incompetente. Devido a sua ignorância, o poeta não encontrou sequer uma palavra para lhe dizer. Ainda que fosse uma pessoa mais lúcida, poderia ter encontrado palavras de salvação para a prostituta. Suas palavras poderiam ter mudado a sua vida e fazer o seu renascimento possível. Ou no mínimo as palavras poderiam tê-la confortado de algum modo. Porém da forma como aconteceu, a ignorância do poeta não lhe permitiu dizer nenhuma palavra. Devido a sua incompetência, ele não foi capaz de oferecer-lhe nada, nem mesmo fazer algo por ela.

Assim, que restou ao poeta? Ele pôde reconhecer somente a realidade tal como se apresentava. Para o poeta havia somente uma atitude a tomar: “Adoçando o fruto do espinheiro apenas trago e umedeço os meus lábios de néctar”. “A mente do tolo tonsurado” refere-se ao reconhecimento da natureza absoluta da realidade. Que mais nos resta além desta verdade? A pessoa pode não ser uma prostituta, mas duvido se seremos capazes de fazer dela o que quisermos. Eu simplesmente duvido se existe alguém neste mundo que possamos controlar como desejamos. Gostaria de colocar a seguinte pergunta ao leitor: Poderá você fazer seu companheiro (a) agir de acordo com a sua vontade? Você terá de admitir sua incapacidade de controlá-lo totalmente, um ser humano íntimo, e apesar do fato de terem jurado total obediência na ocasião do matrimônio. Assim, como poderíamos falar em controlar outras pessoas? Esses seres humanos formam a sociedade e criam a realidade. É simplesmente ridículo pensar que podemos controlá-los de alguma forma.

Este poema possui um enorme conteúdo didático. Ao tratar com a realidade das prostitutas este poema nos ensina a aceitar a realidade de nossa existência. O poema fazendo desta forma mostra-nos uma incontrolável fatia da realidade. A incontrolabilidade da nossa realidade, ilustrada através de um exemplo de uma prostituta, aplica-se também no caso da humanidade em geral.

Você tentará salvar a prostituta? Se você o fizer, vai se defrontar imediatamente com o obstáculo da incontrolabilidade do próprio eu que está tentando salvá-la. Esse eu é incontrolável. Eu não posso fazer nada para o meu próprio eu. A coisa mais difícil de controlar neste mundo é o nosso próprio eu. Nas raízes do eu, o amor pelo próprio eu se enrosca como uma serpente. Sempre nos defrontamos com esse amor pelo próprio ego. Você diz que está tentando salvar a prostituta, mas você não poderá salvar a si próprio. Este poema conduz o leitor sincero a cultivar uma profunda introspecção dentro da realidade. Ele nos conduz ao reconhecimento do eu como algo que reside nas raízes da realidade.

Seguramente há uma razão porque transcrevi este poema nas margens do livro Tannishô. Reconhecer e aceitar a realidade tal como ela é, é o próprio Nembutsu. Neste sentido, podemos dizer que o poema traduz a voz do Nembutsu do poeta Muroo. A sua cidade natal, Kanazawa, está situada na região que antes foi chamada de província de Kaga. Já que o mestre Rennyo viajou muito por estes lugares, Muroo deve ter assimilado o pensamento do mestre inconscientemente. Este poema não poderia ser escrito se não fosse baseado no espírito do Nembutsu. Disto eu não duvido nem um pouco.


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