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Shuichi Maida
Na primeira parte da peça Fausto de Goethe, Fausto Diz:
Fausto está com mais de quarenta anos de idade quando aparece nesta cena. Ele colidiu com um grande problema da primeira fase da vida e se debate. A cena de abertura da peça se chama Noite e narra este conflito. Esta cena é um monólogo de Fausto e estas expressões são muito importantes para compreender seu sofrimento interior. Esta cena de abertura indica que Fausto era professor universitário e havia estudado profundamente Medicina entre outros conhecimentos. Imagina-se que alcançou grande progresso na busca de conhecimento porque diz: a fundo, com ardor e paciência. Porém seu sentimento é de vazio: e agora eis-me aqui, pobre tolo, tão sábio como antes. Neste trecho, ele manifesta o seu sentimento interior e diz que embora tenha se dedicado profundamente aos estudos e assimilado muitos conhecimentos defrontou-se com uma parede de ferro, não se sente nem um pouco mais sábio que antes. Esse é o ponto que considero o ponto de partida de Fausto. Muitos acreditam que a aquisição de conhecimentos e o desenvolvimento do próprio espírito culminam no progresso espiritual de um ser humano. Podemos dizer que no mundo moderno existe uma forte crença popular no chamado progresso gradual do espírito humano. No caso de Fausto é diferente. Ele se defronta agora com um impedimento ou uma parede de ferro na sua frente. Como esse processo de auto questionamento que Fausto iniciou foi importante para esse livro, gostaria de abordá-lo com maiores detalhes. De acordo com as palavras do Fausto, a frase “e agora eis-me aqui, pobre tolo, tão sábio como antes” opõe-se à nossa crença do progresso espiritual gradual ou do mito de que as coisas avançam para uma direção superior progressivamente. A cena se refere a um homem com quarenta anos de idade, um professor bem sucedido se defrontando com uma parede de ferro. Até este momento de sua vida, avançou ininterruptamente na busca do conhecimento, porém agora se sente impedido interiormente. Se fosse meramente um questionamento qualquer não teria sido tão relevante. Porém ao meu ver o que realmente aconteceu com Fausto naquele momento foi um processo de procura interior chamado Regressão. Fausto se despertou para a realidade de que não se tornou nem um pouco mais sábio, comparado ao que era antes. Eu disse regressão mas referimos aqui é uma reviravolta de 180 graus. Dogem (1200-1253), mestre do Budismo Zen se refere a este ponto no tratado Fukan Zazen-gi (Regras gerais para a Prática da Meditação zazen): “Deves aprender a regredir e a refletir sobre ti próprio”. A regressão espiritual a que se refere Dogen e o sofrimento interior de Fausto não são experiências completamente idênticas nem tampouco diferentes. O talento de Goethe lhe possibilitou exprimir uma aguda visão de vida. Suas palavras parecem estar em sintonia com as palavras de Dogen que por sua vez baseia a visão de vida no pensamento oriental. O verdadeiro aprendizado não é aquele obtido através do progresso baseado na aquisição de conhecimentos mas no processo interior de regressão. Segundo Goethe trata-se de conhecer a própria tolice. É encarar o próprio eu que não passa de um tolo. Nicolau Cusanus (1400-1464), um filósofo místico alemão, falou sobre Conhecimento da Ignorância (Docta Ignorantia). Agora o leitor poderá dizer: — Bem, o que o autor está mencionando aqui deve ser o conhecimento da ignorância. Agora posso entender o que é o conhecimento da ignorância. Porém o conhecimento da ignorância a que me refiro aqui não consiste em se tornar mais sábio através do acúmulo de informações. Tal compreensão seria estranha quando se procura o verdadeiro significado do Conhecimento da Ignorância. Se se procura verdadeiramente compreender o significado do Conhecimento da Ignorância não se deve confiar na habilidade de conhecer ou no conhecimento. É importante a postura de curvar-se e deixar de lado o orgulho intelectual. O Conhecimento da Ignorância é a total humildade. O profundo despertar é uma questão de aceitar este fato e curvar-se diante desta verdade e deixar de intelectualizar as coisas. Se alguém caminha mais para frente pensando que está adquirindo a compreensão do Conhecimento da Ignorância. Fausto não adquiriu a compreensão do Conhecimento da Ignorância. Ele descobriu quem é realmente um verdadeiro ignorante. Depois de haver estudado todos os tipos de conhecimento, Filosofia, Direito, Medicina e Teologia, compreendeu que não sabia absolutamente nada sobre a vida. Para Fausto este descobrimento foi o início de seu renascimento espiritual. Fausto estava para começar uma vida nova após haver cultivado a velha escaramuça por quarenta anos. Seus quarenta anos foram estágios preparatórios para uma nova vida. Pode-se dizer que todos esses anos foram cultivados dentro de um útero materno. A vida nova de Fausto começou quando perdeu a fé no progresso e na crença de que poderia aprimorar a si próprio através da disciplina, treinamento, cultivando e procurando aperfeiçoar o espírito e a personalidade. Ao contrário do caminho de Fausto, muitos acreditam no caminho expresso por Wagner, outro personagem que aparece nas últimas cenas da peça e que representa exatamente o personagem oposto. Há o diálogo muito interessante na última parte da peça entre Wagner que baseia sua vida no progresso espiritual e Fausto que está de frente com uma parede de ferro, totalmente incrédulo no progresso. Muitas pessoas se identificam com o caráter de Wagner. A perspectiva de vida Wagneriana é comumente aceita por muitos. As visões de vida demonstrados por Dogen e pelo Cusano, embora não sejam perspectivas comuns e predominante no mundo moderno, são muito importantes. Existem duas maneiras de pensar sobre a vida. Quando nós começamos a conhecer a regressão é que de fato a nossa vida inicia. A este respeito, mestre Shinran disse: “Eu sou um homem cheio de maus karmas, desejos e sofrimentos”. Esta foi a conclusão que chegou após o processo de introspecção. Ele esteve no Monte Hiei e passou vinte anos estudando o Budismo intensivamente. Foi quando se deparou com um sério dilema. Ele descobriu que apesar de todos os esforços realizados era um monge repleto de desejos e sofrimentos. Este foi o seu despertar após muitos anos de duras práticas religiosas. Podemos dizer que existem dois pontos de vista sobre a vida, aquele do personagem Wagner e o de Fausto. Alguém que acredita no ponto de vista wagneriano não poderá jamais entender o faustiano, i.e., jamais compreenderá simplesmente a razão porque Goethe escreveu o livro Fausto. Se não existir uma clara compreensão do ponto de partida inicial da vida de Fausto ninguém será capaz de compreender qualquer significado de seu sofrimento. Portanto a clara compreensão deste ponto inicial é muito importante para este capítulo. Após o questionamento: — Para que tenho estudado tanto? Fausto finalmente reconheceu a própria ignorância e a incapacidade para seguir adiante. O questionamento lhe estimulou uma sensação de que estava perdido espiritualmente. Causou-lhe também um sentimento de dúvidas e incertezas. Porém foi este sentimento de perda de rumo, dúvida e indagação que lhe fez procurar o verdadeiro caminho pela primeira vez em sua vida.
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