Revª. Leninha Cipriani
Uma Interpretação do Tannishô


Capítulo VIII


“PARA O PRATICANTE, O NEMBUTSU NÃO É, NEM UMA PRÁTICA NEM UMA AÇÃO VIRTUOSA. NÃO É UMA PRÁTICA ASCÉTICA PORQUE NÃO É PRATICADO COM BASE NA MINHA VONTADE. NÃO É UMA AÇÃO VIRTUOSA PORQUE A AÇÃO VIRTUOSA NÃO DEPENDE DA MINHA VONTADE. JÁ QUE O NEMBUTSU SE BASEIA TOTALMENTE NO OUTRO-PODER E NA RENÚNCIA AO CAMINHO DO ESFORÇO PRÓPRIO, NÃO É ELE, NEM UMA PRÁTICA ASCÉTICA, NEM UMA AÇÃO VIRTUOSA. ASSIM DISSE O MESTRE.”

Em seus primórdios, o Caminho do Nembutsu não era seguido dentro do Budismo. Sidarta Gautama, o Buda Sakyamuni, quando uniu-se aos Mestres Indianos na busca do Autoconhecimento, começou a praticar a Meditação Zazen, que é uma Prática Ascética (do Auto Poder) que consiste em sentar com as pernas cruzadas e a coluna reta, tendo as mãos ajustadas uma à outra (os polegares se tocando levemente) apoiadas abaixo do umbigo, e com os olhos cerrados, mas direcionados ao encontro dos polegares. Acalma-se a Mente que deve também concentrar-se abaixo do umbigo. Esta posição (o Yoga também a usa), propicia a unificação Corpo-Mente. Mas, quando a isto nos propomos surgem na Mente Interferências que impedem que esta Mente se acalme. Por causa desta dificuldade, por ser uma Prática Difícil, é que surgiu a alternativa do Nembutsu. Esta Prática de Meditação Zazen, já existia desde antes do Buda Sakyamuni, que recebeu-a dos Mestres Indianos.

Há a alternativa da Recitação do Nembutsu como Prática Meditativa, e isto, ajuda a afastar as interferências. Assim sendo, para o praticante, O NOME, é apenas uma facilidade de ordem didática, que tenta exprimir o ESBOÇO DO TODO, DO INFINITO, DO IMENSURÁVEL: AMIDA. Não existe uma boa tradução para essa expressão, mas, na hora em que brota no coração puro e sincero, ela está expressando uma Comunhão com a Vida Infinita, Comunhão esta, Contemplativa, porque neste coração há uma confiança que independe de entender esta Vida Infinita, ela constitui-se numa Entrega Total, Absoluta, sem Interferência do Ego.

Como vemos a expressão NAMU AMIDA BUTSU não tem conotação mágica, tampouco é uma prece através da qual reza-se pedindo à uma Força Superior (individualizada ou não, dependendo da pessoa que se expressa), que realize as necessidades egoístas do pedinte. Ela traz o afastamento do Ego, à partir do desapego.

Isto é um Princípio Budista.

O nosso Budismo Shin, não procura a Libertação dos Apegos, pois sabemos que isto é IMPOSSÍVEL, pela nossa condição de humanos: precisamos nos alimentar, morar, ganhar dinheiro, etc.

O problema é que este ser humano sempre quer comer mais e melhor, morar melhor, ganhar mais, etc. Há sempre a ânsia infinita do QUERO MAIS. E ESTE É O APEGO DO QUAL DEVEMOS NOS AFASTAR.

Devemos abandonar os desejos fantasiosos, e pensar nas necessidades Reais. A experiência do apego é negativa. O Desapego porém, não pode significar alienação. No Budismo, o desapego tem que ser Amoroso, ou seja, sem esperar retorno, e consciente. Com tudo isto, deduzimos que: DEVEMOS ACEITAR A REALIDADE COMO ELA SE APRESENTA, SEM PERMITIR QUE A NOSSA VONTADE EGOÍSTA, SE CHOQUE NO ENCONTRO COM A MESMA. Por exemplo: Uma pessoa rica que empobrece de repente. Sem aceitar esta Realidade, permanece apegada à vontade de se apresentar como rica, e pior, sofrendo uma ansiedade contínua de ser rica outra vez.

Ela sofre sem saber que a Realidade executa as Leis Universais, e que há causas para a apresentação dos fatos.

Sabemos que, como Seres Humanos, temos a Mente Limitada, incapaz de entender a Grandiosidade de Amida, na qual estamos mergulhados. Mas, na hora em que começamos a aceitar esta Grandiosidade Ininteligível, percebemos que dela devemos compartilhar, cooperando. E esta cooperação com esta Grandiosidade (Amida) passa a fazer parte de todos os atos do Praticante (do Nembutsu ) sem ele nisto pensar: é uma COOPERAÇÃO: Espontânea, Natural, Não-Intencional, Total, e revela-se como uma Característica dos Budistas Shin. Vemos que esta Postura de Cooperação Total com Amida, está isenta das limitações do Ego, aqui o que foi Ego, passa a ser Eu, que por ser tão espontâneo, impensado e natural, chamamos de EU MAIOR.

“PARA O PRATICANTE, O NEMBUTSU NÃO É NEM UMA PRÁTICA ASCÉTICA NEM UMA AÇÃO VIRTUOSA ”...

Pois: Em primeiro lugar, o Nembutsu é espontâneo sem premeditação, sem uma teoria que conduz à prática (como é o caso da Meditação Zazen que tem todo um processo de preparação). Em segundo lugar, como ele é uma Renúncia ao Esforço Próprio, ele não depende da minha vontade para ser vivido por mim porque é em verdade, a Compaixão de Amida à mim (à nós) dirigida, fluindo normalmente. Está portanto totalmente baseado no Outro Poder que quando imprime-se no Ego faz nascer o Eu (que é uma disposição permanente de cooperar com o Todo, independendo da vontade da pessoa, independendo dela pensar antes de agir).

... “NÃO É UMA PRÁTICA ASCÉTICA PORQUE NÃO É PRATICADO COM BASE NA MINHA VONTADE. E NÃO É UMA AÇÃO VIRTUOSA, PORQUE A AÇÃO VIRTUOSA NÃO DEPENDE DA MINHA VONTADE ”...

Por ser desvinculado do Ego, por ser Absoluto, por ser Global, por ser Universal, NÃO PODE ser o Nembutsu reduzido à Prática Ascética, que é ligada aos indivíduos que a ela se dedicam, nem tampouco, pode ser reduzido a uma Ação Virtuosa (como nós, humanos entendemos: sendo algo de bom que fazemos por outras pessoas) porque a Ação Virtuosa também é Global, Universal, é de Amida para nós, e não de nós para outros, é a Verdade que caminha em nossa direção, para esmagar a Ignorância.

O Nembutsu portanto, é tudo que existe na nossa vida. Não é Unidade (como o Ego), é afastamento deste Ego, é Libertação dos Apegos, é atuação de Tathagata, é avanço da Mente para o Global. Ele pertence ao Outro Poder, e nos é dado de acordo com as condições propiciatórias, que geraram Auto Questionamento, Busca do Conhecimento, Transformação do Ego, Harmonização com o Absoluto, Recebimento do Voto Original de Amida, e Encontro da Paz (Salvação).

Diríamos ainda, que o Nembutsu NÃO é uma prática porque o seu significado não está apenas na Verbalização do Nome, Ele, nos leva de volta as nossas origens, sem pensarmos. Ele é o Ensinamento que nos afasta do Ego, embora saibamos que é impossível deste nos libertarmos, pois o próprio fato de estarmos vivos já é uma dependência do Ego, o fato de pensarmos (característica humana) já também é Ego. Por isso, o Budismo afirma, que o simples fato de sermos Humanos, já torna impossível a Libertação dos Apegos (Ego). O que podemos fazer para melhorar o panorama descrito, é TRANSFORMAR os Apegos, aceitando a Realidade, como ela é.

Esta Verdade que vem a nós pela Compaixão de Amida é representada no Jôdo Shinshû pela imagem de Buda sempre em pé, e em movimento, significando isto, que, Ele está trazendo a Verdade, para tirar-nos da Ignorância; é a Compaixão fluindo naturalmente em nossa direção, oriunda da Grandiosidade Absoluta. Se o Nembutsu fosse uma Prática teria uma Teoria para a ela se chegar. E isto não existe.

“... JÁ QUE O NEMBUTSU, SE BASEIA TOTALMENTE NO OUTRO PODER E NA RENÚNCIA AO CAMINHO DO ESFORÇO PESSOAL, NÃO É ELE NEM UMA PRÁTICA ASCÉTICA NEM UMA AÇÃO VIRTUOSA. ASSIM DISSE O MESTRE”.

Como vimos, o Nembutsu flui naturalmente na nossa direção envolvendo-nos e presenteando-nos com a Verdade. É obra do Outro Poder. Quem segue este Caminho renuncia ao Caminho do Esforço Pessoal, entregando-se, compartilhando, cooperando com Amida sem Esforço Pessoal (prática ascética) e sem Ação Virtuosa (no sentido humano de favorecer alguém).

Assim sendo, por não valorizar o Auto Poder, o Nembutsu não é Prática Ascética nem Ação Virtuosa.


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