Revª. Leninha Cipriani
Uma Interpretação do Tannishô


Capítulo VII


“O NEMBUTSU É UM CAMINHO SEM OBSTÁCULOS, PORQUE O PRATICANTE QUE TEM O CORAÇÃO PURO E SINCERO, É REVERENCIADO PELOS DEUSES DO CÉU E DA TERRA E NÃO PODE SER PREJUDICADO PELOS DEMÔNIOS E PELOS SEGUIDORES DE CRENÇAS HOSTIS AO BUDISMO. É UM CAMINHO SEM OBSTÁCULOS, POIS NELE AS PIORES CULPAS DEIXAM DE PRODUZIR CONSEQÜÊNCIAS PENOSAS E NENHUMA AÇÃO VIRTUOSA PODE A ELE SE EQUIPARAR. ASSIM DISSE O MESTRE”.

Quando o nosso texto afirma que, o Nembutsu é um caminho sem obstáculos, devemos pensar que (segundo o mestre Shinran), todos nós seres humanos, somos carregados de paixões, é como se tivéssemos sempre um pé no poço das paixões humanas, embora o outro pé, após encontrar os Ensinamentos, queira seguir o caminho (do Nembutsu). Por isso, não possuímos, não enxergamos a Verdade. Só o Tathagata possui a Verdade Incondicional, e esta em grande parte não é entendida por nós porque é muito profunda. Vemos, através da História, que os Grandes Pensadores, Filósofos, que buscaram aprofundar os Conhecimentos pararam em determinada etapa, por achá-los inacessíveis à inteligência humana. E aqui, pensamos na Fé do Voto Original que seria a nossa Fé no Desejo de Amida, posto que, Amida é a própria Lei, e sendo esta Incondicional, quando isto entendemos, nos sentimos integrados a este Desejo, pois não haverá mal que mude esta Lei, este Desejo de Amida. Tudo será executado conforme determinação desta Lei. Portanto, não haverá Mal que tome dimensão de obstáculo para obstruir o Caminho do Nembutsu, o Caminho da Paz.

Este Capítulo fala sobre a força do Nembutsu, que envolve aqueles que o praticam, que abre um caminho sem obstáculos, pela integração às Leis. Para esta integração é necessário apenas, existir no praticante, um coração puro e sincero, isto é, cheio de Fé na Execução das Leis. Com esta Fé, não há possibilidade do Mal atingi-lo, esse praticante será então “reverenciado pelos deuses do céu e da Terra”, ou seja, “pelas entidades inferiores aos Budas (aqui leia-se Buda como sendo: os homens que despertam para o Conhecimento do Real).

Shinran quer mostrar aqui, que o praticante do Nembutsu não precisa ORAR aos Deuses, pois ele está acima dos mesmos. Mesmo que estes Deuses queiram impor obstáculos no Caminho do praticante, não o conseguirão porque este praticante, estando centrado na Fé do Voto Original, todos os seus Atos estarão de acordo com as Leis, nada impedirá sua Paz, sua Salvação. Esta Salvação seria uma relação do coração puro e sincero com o Absoluto. Difere do Conceito Ocidental de Salvação, que na maioria das Religiões gira em torno de: fazer boas ações, para conquistar no Céu um lugar junto aos parentes falecidos. O Shin Budismo não prega estes trabalhos exteriores, mas sim uma Transformação Interior que vem de um coração puro e sincero, que vem lá de dentro, produzindo vibrações de Compaixão pelas pessoas, integrando o praticante no Caminho Búdico, por iniciativa própria, integrando-o na Concepção de Mente Una, onde a Natureza e todos os seus constituintes, animais, vegetais e minerais, têm a sua importância, individual, individualidades estas, que somadas vão constituir o Todo.

Com isto, o praticante vai adquirindo aos poucos uma VISÃO GLOBAL, e não Individualista (Egoísta).

O Caminho do Nembutsu vai arrastar consigo, o bem-estar de todos, porque o seu praticante vai estar sempre motivado a ajudar a todos. E todos encontrarão a Paz, a Salvação, aqui e agora.

E o processo prossegue, pois este é um Caminho sem retorno que “não pode ser prejudicado pelos demônios, e pelos seguidores de crenças hostis ao Budismo”, pois, o Tathagata (que significa o Tudo, a Verdade, o Incondicional nas nossas Vidas)quando nos envolve (se com ele nos harmonizamos) é para sempre. Nada vai ter força suficiente para NEGAR a sua Realidade.

Estes demônios aos quais o Texto refere-se, seriam todos aqueles seres que tentam nos enganar com suas artimanhas, e, as crenças hostis seriam as outras Religiões que tentam impor seus princípios e chamam-se de certas. No Budismo, tudo parte dedutivamente, vem do âmago do ser humano. Nem os demônios, nem as crenças hostis, conseguem prejudicar o Caminho do Nembutsu, o Caminho Búdico, que é um Caminho Universal, acessível a todos, e não tenta hostilizar as outras Religiões, desde que, BASEIA-SE NOS PRINCÍPIOS DAS LEIS UNIVERSAIS, que não podem ser negadas, estão expressas no nosso dia-a-dia claramente. Portanto, este Caminho não possui obstáculos, ao contrário, ele abre as portas, às pessoas que reconhecem a Naturalidade.

Aquele que realmente pratica o Nembutsu não deve temer as conseqüências de nenhum dos seus atos, pois estes estarão permeados pela consciência do Princípio de Ação e Reação (da execução das leis). Este praticante, vivendo harmoniosamente com este princípio, nada deve temer.

No nosso texto é dito que: As piores culpas deixam de produzir conseqüências penosas:

Esta frase, contradiz o Princípio Búdico que abordamos aí atrás, de Ação e Reação, pois se a pessoa tem culpa, vai sofrer conseqüências. Mas aqui, o importante, O MAIS IMPORTANTE, é o coração puro e sincero, e isto é possível pelo olho da Sabedoria de Buda, isto é, nós estamos no caminho e praticamos um ato condenado pela Sociedade. Mas SE estamos no Caminho e praticamos ALGO considerado errado, AGIMOS DE ACORDO COM AS CONDIÇÕES PROPICIATÓRIAS. Já vimos anteriormente, que o Ser Humano vai ser Bom ou Mau, conforme as circunstâncias, conforme as condições nas quais ele está imerso. Já sabemos, que nos mantemos vivos graças à morte de outros seres que nos alimentam. Vivemos a vida graças àquele ser que morreu. E sentimos CULPA por isto? Não, porque esta é uma Lei Natural. Mas ao nos conscientizarmos disto, devemos ver o quanto as nossas vidas são importantes no TODO. Matar é um ato ruim e dá culpa.   Você não sente culpa pelos que morrem para lhe alimentar, mas é preciso que você descubra qual sua tarefa para colaborar com o Todo, (pois os pequeninos já contribuíram servindo de alimento à você). Agora, procure qual a sua tarefa para beneficiar o Todo, esforce-se para também contribuir com a sua parte, oferecida àqueles que virão à sua frente.

Assim sendo, “as piores culpas, (como a morte deste seres que nos servem de alimentos) deixam de ser culpas, deixam de produzir conseqüências penosas”.

Podemos exemplificar esta afirmativa com um exemplo: o caso do acidente aéreo nos Andes onde foi praticada a Antropofagia. As condições propiciaram esta atitude. Aqui fica bem claro, que nossa Natureza Básica não é boa nem má é como um papel branco que se colore de acordo com a tinta que o atinge. As pessoas que praticaram nos Andes, o Canibalismo, para não sentirem culpa, podem procurar transmitir benefícios, percebendo assim que aqueles mortos que os alimentaram serviram para (hoje mantendo-os vivos) beneficiar outras vidas, não havendo sido portanto nada em vão.

Ainda interpretando: “As piores culpas deixam de produzir conseqüências penosas”: Aqui podemos afirmar que, o Praticante do Nembutsu aceita os defeitos das pessoas e os seus, não tenta fugir deles, incorpora-os porque sabe que todos os atos das pessoas estão diretamente ligados à condição humana. Mesmo errando (infringindo as Leis Sociais ou Naturais) pode ocorrer um Re-questionamento, a busca do Ensinamento, a conscientização da Lei de Ação e Reação e o encontro da Paz.

E quando é dito no texto: “Nenhuma ação virtuosa vai a isso se equiparar”, podemos dizer que nenhuma ação virtuosa supera o Nembutsu, porque a Ação Virtuosa é uma prática do Auto Poder, enquanto o Nembutsu é do Outro Poder, é um caminho sem obstáculos, inclusive, superando a busca de felicidades e prazeres. Como? Sabemos que o ser humano sempre busca isto, mas a Realidade de Vida são os Sofrimentos: não sabemos se, ou quando vamos adoecer, ou sofrer acidentes, ou morrer. Há a descriminação de procurar as coisas afortunadas e desprezar as desafortunadas. Isto, gera a insegurança de nos defrontarmos com infortúnios a qualquer momento. Com isto, nos deparamos com o importante Princípio Budista da Impermanência que diz: todas as coisas estão em constante transformação, nada agora é igual ao que era há um segundo, nem ao que será no próximo, (as pessoas sadias podem se tornar doentes, as jovens podem envelhecer, etc). A vida portanto não acontece como a queremos, ela se transforma a cada instante, independente da nossa vontade. E, temos que aceitar este Princípio da Impermanência. Ele inclusive, nos ajuda a esperar que um mau ato possa transformar-se num bom porque (como tudo muda, se renova a cada instante) existem possibilidade de arrependimento e proposição ao bem. Esperar esta transformação é característica do praticante do Nembutsu, por isso, a cada dia estamos pensando que não há obstáculos no caminho daquele que se questionar e buscar. Ele vai atingir a Mente Búdica, se passar a ter o coração puro e sincero. A vontade de seguir o caminho vai imprimir-se nos seus atos, e nada vai ser maior ou mais virtuoso do que isto. O Tathagata concede então, um fluxo de retidão ao praticante que não sofre quando o mal dele se aproxima. Ele ajuda aos outros seres de maneira ininterrupta, sem pensar objetivamente.

É a Ação do Outro-Poder fluindo neste Coração e à esta Ação, nada vai se equiparar, determinando um Caminho sem Obstáculos.


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