|
Revª. Leninha Cipriani
A palavra COMPAIXÃO, traduz a expressão sânscrita MAITRI e KARUNA. Maitri seria o proporcionar alegria a outra pessoa, e Karuna, o sentimento de pena que procura a maneira de diminuir o sofrimento do outro. Veremos porém, que a Compaixão, assume roupagens diferentes, conforme provém do Caminho da Prática Difícil (Esforço Pessoal), ou, do Caminho da Prática Fácil (Terra Pura ou Caminho do Voto Original de Amida). A Compaixão seria então a afeição e solidariedade, dirigidas a todos os seres. Seria uma espécie de Amor Universal. Vemos então, uma proximidade nos Conceitos de Amor e Compaixão, porém, a palavra Amor não é usada nos textos budistas, porque ela traz as conotação negativas de: a) Apego egoísta ao objeto amado, gerando o Sofrimento. b) Desejo insaciável de satisfação pessoal. Então da proximidade de conceitos, o Amor tende a individualizar gerando o Egoísmo, enquanto a Compaixão tende a Globalizar.
Veremos assim, que existem dois níveis na Compaixão: a) A Compaixão no nível humano b) A Compaixão de Buda (Amida) A Compaixão no nível humano, seria o compadecer-se pela condição de ignorância do ser humano (ignorância das Leis, da Verdade que elas exprimem), e querer ajudá-lo a entender as Leis o máximo possível. A Mente dotada de Compaixão pelos outros seres, tem o poder de propiciar Sabedoria para quem não a tem. A Compaixão de Buda Amida é aquela que se compadece da ignorância do Mundo, do Global. Prosseguindo na análise do nosso texto: ...”A Compaixão segundo o Caminho de Realização através do Esforço Pessoal” Isto refere-se à compaixão do asceta. Este procura a Salvação pelo Esforço Pessoal, pelos seus sacrifícios, pelo Auto Poder. É um caminho idealista. Aqui ele tanta buscar a sua Salvação se compadece e induz os outros nessa busca. Recai portanto, na Compaixão no Nível Humano, que possui seus limites: toda ajuda que provem do homem é limitada. Só a Compaixão que provém de Buda é ilimitada. A ajuda humana, a Compaixão humana é incompleta, com falhas. A Compaixão através do Esforço Pessoal, a Solidariedade Humana, o Humanismo, tem limites, e pode ser melhor entendido com os seguintes exemplos: Um movimento pacifista para acabar com uma guerra: os esforços emitidos neste sentido podem ser identificados como: Compaixão através do Auto Esforço proveniente dos seres nele envolvidos. É um exemplo de Solidariedade Humana, e por ser humano, é limitado, diferente da Compaixão que vem de Buda, que é ilimitada. Na nossa Sociedade temos Pobres e Ricos. Os pobres não têm nem o mínimo necessário a uma vida digna de ser humano, faltando condições básicas de saúde, alimentação, habitação etc. A postura ascética humanista, a compaixão através do Auto-Esforço, tenta melhorar isto; uma atitude de solidariedade humana válida, mas limitada. Temos meninos de rua pedindo esmolas. Por se habituarem a recebê-las em determinado farol, diariamente, sempre nesta expectativa, continuarão a viver, não buscando sobrevivência mais digna. Com essa comodidade estabelecida, chegam às vezes a ser assaltantes, ladrões, criminosos. A esmola é portanto uma Compaixão (através do Auto-Esforço) que lhe foi dirigida, mas é limitada, apenas imediata para matar a fome, mas sem uma ação de mudanças básicas. Como vemos, este tipo de Compaixão pelo Auto Esforço, pode gerar efeito contrário, trazer prejuízos a longo prazo (como é a transformação da criança pedinte, em assaltante). Portanto, qualquer Compaixão no nível humano é LIMITADA. Vejamos agora: “A Compaixão Segundo o Caminho da Terra Pura” Esta Compaixão que provém de Buda, vai ser dirigida aos seres, fazendo nascer neles o desejo de reverenciar a grandiosidade de Amida, através da Recitação do Nembutsu (quando já surgiu a conscientização da Imperfeição e a entrega a esse Amida ). Explicando melhor: a pessoa, possuidora da Mente Búdica é alvo da Grande Compaixão, beneficia os outros seres. A isto chamamos Compaixão-Expansão da Mente. Seria a conscientização, de que, por mais que as pessoas à nossa volta estejam sofrendo, pelo esforço pessoal jamais lhes ofereceremos uma ajuda total, um rompimento do Ego em direção ao Eu, e isto, porque tudo que oferecemos é limitado. A maior ajuda que podemos oferecer é levá-los ao desejo de reverenciar Amida, através da aceitação da Naturalidade e harmonização com esta, que processualmente chegará a recitação do Nembutsu. Estas outras pessoas também receberão a Grande Compaixão que é ilimitada. Então, a Compaixão Segundo o Caminho da Terra Pura seria a abertura da Mente para receber e dar essa Grande Compaixão, que não refere-se ao Individual mas ao Global (Amida). Seria uma Compaixão que transcende o Ego. Não seria a Compaixão (ou Amor), de um grupo de pessoas que pratica uma obra social, mas, um caminho que significa ter Fé nas Leis, aceitar a Grande Compaixão, expressando isso com a Recitação do Nembutsu, que traz uma Relação profunda com a Vida Infinita, Ilimitada. Esta Compaixão, segundo o Caminho da Terra Pura, parece ser a Verdadeira a Correta forma de Compaixão segundo o Budismo Amidista. Vemos então, que a Grande Compaixão ou Compaixão de Buda Amida, é baseada no Nembutsu. O Ego é rompido graças a Grande Compaixão de Buda Amida, e com isto há uma percepção do nosso estado original, ou seja, há uma percepção de ligação profunda com Amida. O Nembutsu que ao ser recitado significa esta percepção de ligação com Amida, proporciona o Despertar para os fatos básicos da Vida, que é Infinita porque fica como herança para as gerações posteriores. O Modo como vivemos deixará marcas que refletirão nestas futuras gerações tornando a nossa Vida Infinita. Quando rompemos com o Ego, vislumbramos a Vida Imensurável. Se o Nembutsu não se fez presente na Vida da pessoa a experiência na hora da morte, leva a este rompimento, fazendo-a perceber o Global, a Vida Incondicional. Se rompemos com o Ego e nos defrontamos com a Grandiosidade Incondicional de Amida, sentimos a nossa impotência e desejamos com Ele nos harmonizar para fazermos parte do mundo da Grande Compaixão. E, romper com o Ego, atingir a Paz almejada, fazer parte do Mundo da Grande Compaixão, precisa ser alcançado SEM ESTARMOS PRÓXIMOS À MORTE. Temos de fazê-lo aqui e agora, só assim viveremos plenamente. Sabemos que vamos morrer. Se não transcendemos o Ego durante o processo de vida, a experiência na hora da morte o faz. Então, conseguimos vislumbrar a Vida Imensurável. A Morte, deve ser encarada, como parte do processo de vida, que se integra a outro Grande Processo: o de vida Infinita. No momento em que percebemos isto, recebemos a Atividade de Tathagata, passamos a tê-lo como nosso centro, como nosso Self. Daí surge a Fé; fé na nossa integração incondicional à Vida Infinita, na execução das Leis, que nos levará à Paz. E tudo isto está expresso na expressão NAMU AMIDA BUTSU. Então, recitar o Nembutsu, expressa o Recebimento da Grande Compaixão de Amida. E, beneficiar todos os seres à partir deste recebimento (Compaixão-Expansão da Mente), tentar romper a Ignorância dos mesmos em relação às Leis, à Verdade, passa a ser o objetivo deste seguidor do Caminho da Terra Pura. Vemos então, que recitar o Nembutsu, não é algo mecânico, como se possa imaginar à primeira vista. O nome de Amida é pronunciado como um símbolo, um chamado para o Despertar. Integrados neste contexto, fica mais fácil rompermos com os nossos pontos de vista e nos iluminarmos para percepção e recebimento da Vida Infinita, e para transmiti-la.
O ser humano está sempre observando desordem onde existe ordem (Natural). Está sempre mudando a Realidade. Está sempre com postura contrária à qual as coisas SÃO, à qual as coisas se mostram. Por que? Porque para enxergar a Realidade, para enxergar as coisas como elas são realmente, É PRECISO ROMPER COM O EGO. Só com este rompimento, surge a possibilidade de uma vida sem ilusões e erros. Mas, esses erros e ilusões, geralmente, estão mais presentes que ausentes na Humanidade. Quando não existe esse rompimento do Ego, e a pessoa se defronta com o Budismo, ela se direciona na Realização através do Esforço Pessoal. Porém, como vimos anteriormente a Compaixão inerente a este Caminho é Limitada e Insuficiente para salvar os outros seres, porque ela não é perfeita. Um benefício a um ser, só pode ser Total e Perfeito, se vier através do Outro-Poder, se vier da Compaixão segundo o Caminho da Terra Pura (que é oriunda do Ilimitado, do Absoluto, de Amida, do Nembutsu ). é a Grande Compaixão de Tathagata. Devemos nos conscientizar de que, ela rompe com o nosso Ego, libertando-nos dos apegos, tirando o véu das Ilusões da nossa Mente. Esta Compaixão de Tathagata é Global, e não pode estar em nós, porque somos Limitados, e ela é Ilimitada, vem a nós através da Correta Fé, através do Nembutsu. Ela não é afetada pelo Egoísmo. Segundo o Budismo, o mundo, é basicamente constituído de Egoísmo Humano, mas isto, é característico do ser humano. Vemos na nossa Sociedade, o Rico explorando o Pobre pelo poder do dinheiro. O Rico é essencialmente egoísta. E esta exploração do Pobre pelo Rico, não se reflete apenas no campo humano. No campo ecológico vamos encontrar o Egoísmo em alta escala: A Natureza que é perfeita, constituída por Sistemas, é explorada pelo homem que procura tirar proveitos dela, através de inúmeras máquinas e de mão-de-obra pobre, e sem se preocupar com as conseqüências, busca lucros pessoais. É o Egoísmo em atividade, nos mais desavisados. Estes homens cortam muitas árvores para seu próprio uso, sem repô-las. Queimam grandes extensões de florestas, sem fazer a reposição com mudas. Se porém estes homens não olhassem apenas para os seus proveitos, se olhassem globalmente, poderiam enxergar o mal que estão causando aos seus descendentes, os prejuízos que estão acarretando para o planeta Terra. Estes mesmos homens matam os animais que não lhes são servis, pelo simples prazer de caçar. Estas atitudes são condenadas pelo Budismo, que só aceita a morte de um ser vivo em função da sobrevivência de outro. Por isso, não podemos estragar os alimentos que nos são oferecidos pela Mãe-Natureza, eles sacrificaram-se em prol da nossa sobrevivência. Se não ocorrer isto, se for feito o sacrifício indiscriminado dos mais fracos ocorrerá um Desequilíbrio Ecológico. Precisamos defender os Ecossistemas. Daí porque dizemos que a Ecologia está profundamente ligada ao Budismo: porque existe um Equilíbrio Universal, uma Unidade Universal. E aspirar à Paz, aspirar à Terra Pura, é confiar nesta Unidade Universal, a qual não deve ser afetada com nosso egoísmo. A Compaixão da Terra Pura provém do Nembutsu, da sua Recitação que é: dar o Voto de Confiança a esta Unidade. A Terra Pura contém este princípio Universal, e o Caminho Budista é o despertar para este Princípio. A Terra Pura é uma representação do mundo da Verdade, e o Caminho da Terra Pura com a Compaixão Global que dela provém, consiste na recitação do Nembutsu, que, repito: expressa a nossa Reverência às Leis, Sua Aceitação. A PESSOA QUE ATINGE ESTE GRAU ENCONTRA A PAZ. E QUEM NÃO O ATINGE FICA COM O VAZIO INTERIOR, FICA NA EXPECTATIVA DE PREENCHER ESTE VAZIO COM OS PRAZERES DO MUNDO MATERIAL. A dependência do álcool e das drogas, pode estar relacionada com este Vazio. Até mesmo o Homossexualismo, se olhado, como situação de desequilíbrio hormonal, se for buscado algum tratamento que possa ajudar, (e ao mesmo tempo for aceito como algo que É assim mesmo), se for desacompanhado da busca de prazeres para sua compensação, podemos dizer que o seu portador alcançou a Paz. Se busca o prazer, há o Vazio, pois, em geral, as pessoas que não sentem o Vazio da ausência da Paz, não procuram estas Compensações. A Verdade da Terra Pura, não pode ser colocada na nossa Sociedade Impura, com toda a sua magnitude, por causa do Egoísmo Humano. No Budismo é FUNDAMENTAL rejeitar esta Terra Impura e aspirar à Terra Pura (que é o Mundo da Verdade). Como ? O mestre Shinran nos legou que, Aspirar à Terra Pura, não é jogar fora ou tentar eliminar Todo o nosso Egoísmo. Como já vimos, jamais o conseguiríamos, pela nossa própria instância humana (porque já o possuímos pelo simples fato de sermos humanos). Vimos, que nem pelo Caminho Sagrado, (das fustigações, das repressões, dos sacrifícios), não o conseguimos. SE aspiramos, desejamos a Terra Pura, JÁ é bom. Por isso, o Mestre Shinran falou: “Ir buscar a Terra Pura sem se preocupar em rechaçar os desejos egoísticos, sem praticar mortificações, seria o Caminho mais acessível a todos. Se recitamos o Nembutsu, já temos a Compaixão Global e Perfeita.” Portanto, aspirar à Terra Pura sem a preocupação constante de esmagar o Egoísmo, É O CAMINHO DA PAZ ALCANÇADO PELO PRATICANTE DA NOSSA ESCOLA JÔDO SHINSHÛ.
|
||