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Revª. Leninha Cipriani
O que o Mestre Shinran queria dizer com:
Relembremos, que a Terra Pura é o estado de compreensão e retomada das nossas origens. A aceitação absoluta das Leis Naturais, da própria Natureza. É a volta ao estado de ausência de influência das paixões, das discriminações. É enfim, a volta à pureza de princípios. Este capítulo irá mostrar-nos o encontro do Mestre Shinran com um grupo de discípulos vindos do Japão Ocidental para Kyoto em busca de esclarecimentos para suas dúvidas, em relação às heresias difundidas sobre o Nembutsu. A situação político-social do Japão conturbou-se mais ainda, quando os Mestres Hônen e Shinran começaram seus trabalhos para a difusão do Novo Budismo. E isto, porque esse Budismo emergente ia contra todos aqueles conceitos de magia que permeavam as Escolas Shingon e Tendai. A propaganda de que, quem praticasse o Nembutsu iria para o Inferno (divulgada pelas Escolas Vigentes) foi o pivot em torno do qual giravam as discórdias quanto à Salvação pelo Nembutsu. E foi para esclarecer isto, que estes fiéis já motivados pela Salvação através do Nembutsu, procuraram o Mestre Shinran em Kyoto.
Com isto, o Mestre Shinran afirma, que só pelo Nembutsu é que há o reencontro do homem com as Leis. E ele afirma isto por experiência própria, pois ele passou 20 anos praticando o Ascetismo, e continuou a sentir as paixões, não encontrando a Paz. Ele percebeu que, somente à partir deste reencontro é que surge a Fé, a certeza de que todas as Leis far-se-ão cumprir, vindo daí a Salvação, a Iluminação. Ele sentiu que para ele, portador das paixões humanas era impossível encontrar a Verdade da Vida pelo Portal Sagrado, pelo Auto-Esforço, pois este caminho estava além da capacidade humana. Ele percebeu algo muito grandioso embutido nas Leis Naturais, o Outro Poder, inacessível às nossas mentes. E, aceitar tudo isto seria sempre, um processo na vida de cada pessoa, que culminaria por fim na Recitação do Nome (Recitação do Nembutsu). Para o mestre Shinran, agora somente através do Caminho do Nembutsu, seria possível se chagar à Terra Pura. Portanto, não poderia falar para estes discípulos viajantes que agora o procuravam, que conhecia outro Caminho para o Ir Nascer, ele não poderia falar de textos que pregassem o Ir Nascer pelo Auto-Poder. Ele apenas possuía os meios para afirmar que o Nembutsu, por ser concedido pelo Outro Poder lhe trazia a Paz, a Salvação, que ele não encontrou pelo Caminho do Auto-Poder. Os discípulos que o procuraram estavam errados quando pensaram (se pensaram) que ele ensinaria os outros caminhos tradicionais que o Budismo pregava (condenando o Caminho do Nembutsu).
Nos Templos de Nara e no Monte Hiei, concentravam-se as Comunidades Budistas Tradicionais ( Hinayana), manipuladas naquela época pela cúpula do governo. Estes Ascetas do Budismo Hinayana, relegavam o Budismo Amidista do Nembutsu, entregando-se às práticas do Auto Poder, e até já às práticas mistas, onde o Nembutsu entrava como parte das práticas Meditativas. Eles defendiam o Ir Nascer pelo Auto-Poder. E, Shinran dizia aos discípulos que, se desejavam ouvir dele, Ensinamento sobre a Prática do Auto Esforço, melhor seria que se dirigissem à Nara e ao Monte Hiei. Ele nada sabia sobre isto.
Neste parágrafo, vemos que o Mestre Shinran, afirma aceitar os Ensinamentos do Mestre Hônen, como o único caminho para atingir a Salvação (ou Paz), caminho este, baseado na recitação do Nembutsu, como aceitação absoluta do Outro-Poder. Mas, vemos que, ao mesmo tempo em que afirma isso, ele evita emitir opinião própria sobre o Outro Poder, porque, opinião vem do Racional, é falsa e tem limites, e a Verdade, o Outro Poder, estão além do humano, estão permeados pelo Ilimitado. Ele aceita os ensinamentos do Mestre Hônen, mas usa aqui o Não-Dual, a Não-Discriminação, o Silêncio que significa a verdade que não vemos. Usa também o Conceito do Vazio (do Mestre Nagarjuna) onde Conceitos e Teorias são construções provisórias que servem apenas para intercomunicação: isso quando afirma que não sabe se o Nembutsu é a Semente do Ir Nascer na Terra Pura (encontro da Paz) ou se é uma Prática que leva aos Infernos.
Aqui Shinran justifica porque não terá arrependimento mesmo se vier a cair nos infernos (ou seja, mesmo se não vier a alcançar a paz) por causa da recitação do Nembutsu. Como vimos, Shinran passou 20 anos dedicando-se às práticas de Auto- Poder, professando o Budismo Hinayana, e não encontrou a Paz, continuou a sentir as paixões que geram o sofrimento. Diante de tal impossibilidade, e percebendo como o conhecimento dos ensinamentos de Hônen levavam à essa Paz, ele Shinran, conclui que não terá do que se arrepender, pois ele nada perdeu, visto que nada havia alcançado pelas práticas difíceis do Auto-Poder. Ele não se realizou como BUDA, não encontrou a Paz através daquelas práticas, e sim através da Prática de Nembutsu. E, se ele era incapaz de se realizar pela prática difícil, automaticamente já estava predestinado aos Infernos desde o início, ou seja, predestinado a NÃO encontrar a Paz. E, no entanto, o Caminho da Prática Fácil, do Nembutsu, lhe deu esta Paz, ele salvou-se dos Sofrimentos, dos Infernos, através deste Caminho.
Aqui, Yui-En faz um encadeamento dos Ensinamentos, pregados à respeito da veracidade do Voto Original, que já traz suas raízes nos Ensinamentos do Buda Sakyamuni. O Voto Original já está presente na experiência de Iluminação do Sakyamuni, quando ele percebe que não adiantam as fustigações, e percebe a Lei da Interdependência no leite da vaca, na grama que a alimentava, na chuva que regava a grama, etc. Aqui, o Sakyamuni, é o primeiro elo de uma Corrente de Mestres, que ensinavam que a Compaixão de Amida é verdadeira, o que é mais tarde confirmado por Cheng-Tao, Patriarca do Amidismo Chinês, precursor de Hônen e Shinran. Vemos pois, que Yui-En ao escrever este texto, faz uma colagem de pensamentos do Mestre Shinran finalizando com a veracidade dos Ensinamentos desse Mestre a respeito do Nembutsu. E, aceitamos esta Prática dizendo que ela tem fundamentos, porque os Ensinamentos do Sakyamuni, sobre a Compaixão de Amida redundando no Nembutsu, transpuseram o tempo, chegando aos nossos dias, através dos Mestres Cheng-Tao, Hônen, Shinran, e seus seguidores.
Aqui, Shinran finaliza seu discurso, aos discípulos que o procuraram, mostrando que não vai emitir uma opinião que vá pesar totalmente, na tomada de posição daquelas pessoas, porque qualquer opinião é limitada, passível de erro. E Amida é Ilimitado. Esta tomada de posição entre o tradicional Budismo Hinayana e o Budismo do Nembutsu, que está emergindo, tem que ser algo que brote como resultado de um processo, tem que ser espontâneo. Ele evita emitir opinião sobre a veracidade de um ou de outro caminho evitando assim a Mente Discriminatória. Ele acha que toda opinião, por estar limitada pela capacidade de entendimento de quem a emite, é passível de erros, pode não ser Real. Assim vemos, que apesar de escolher para si o caminho da Prática Fácil do Nembutsu ele deixa bem claro que esta escolha é problema de cada um, afirmando inclusive que, se houver alguém interessado na Prática Difícil, haverá quem melhor a esclareça em Nara e no Monte Hiei.
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