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Gyomay
Kubose
Picos nevados numa manhã tranqüila, um lago de águas cristalinas, uma caminhada pelos bosques no outono, a fumaça de um bastão de incenso na meditação matinal, o doce silvo da chaleira na sala de chá – a serenidade destes cenários ou momentos está além das palavras. A serenidade é a morada da nossa vida espiritual. Da mente tranqüila, muitos pensamentos profundos e ações dinâmicas irão brotar. Com efeito, a serenidade é a morada da criatividade e a fonte da verdadeira paz e felicidade na vida. Portanto, criar serenidade na vida é muito importante, em especial para os habitantes das grandes cidades como nós. A urbanização moderna, a expansão externa, a mecanização crescente, aumentam a complexidade e diminuem a serenidade da nossa vida. Algumas pessoas simplesmente não podem ficar quietas, não conseguem sentar imóveis. Outras deixam o rádio ou a televisão ligados o dia todo, embora não estejam realmente ouvindo ou assistindo; é uma questão de hábito e também porque não conseguem suportar o silêncio. Estas pessoas são nervosas, irritam-se com coisas triviais e se aborrecem com extrema facilidade. Não são capazes de ver a vida tal como ela é ou as coisas tais como elas são. Para muitas pessoas, ser calmo ou sereno significa desconforto e tédio. O grande consumo de suporíferos e tranqüilizantes é um sintoma da falta de serenidade interior. Estas práticas e atitudes externas e objetivas sobrepõe-se aos aspectos interiores da vida. Quer sejam boas ou más, buscamos as coisas externas e não nos damos ao trabalho de vê-las dentro de nós. Para aplacar a irritação e o nervosismo, muitos de nós fumam ou mascam chicletes, mas esta é uma solução relativamente temporária. Precisamos de alguma coisa mais fundamental. Talvez seja por este motivo que o budismo ensina e enfatiza a meditação. A meditação é o alicerce da vida budista. Embora todos os budistas, independentemente de seitas e escolas, aprendam a meditação, o zen dá ênfase especial à meditação enquanto o shin ensina a recitação do nembutsu. Acredito que todas as religiões ensinam o caminho da vida meditativa, pois a calma e a serenidade são essenciais a uma boa vida. Todas as preces têm sua eficácia. Ralph Waldo Emerson disse que todas as pessoas deveriam dispor de dez ou quinze minutos para si mesmas, a sós, todos os dias. Se todos os norte-americanos meditassem dez minutos por dia, o país mudaria. Somente quando estamos calmos é que somos capazes de ver as coisas como elas realmente são. Somente quando nossa mente está tranqüila é que somos capazes de espelhar a verdade, assim como a calma superfície das águas espelha a beleza da Lua. Uma mente perturbada ou transtornada não consegue ver a verdade das coisas, assim como as águas revoltas não conseguem refletir a Lua. Todas as coisas criativas – a poesia, a arte, a filosofia – são produtos da mente serena e harmoniosa, porque elas exigem uma penetrante percepção da vida, e esta percepção só é possível quando nossa vida é serena. Basho, famoso poeta japonês, mostrou esta aguda percepção quando escreveu este haiku:
“Nazuna” é uma pequena flor silvestre, comum e insignificante. “Yoku mireba” (quando olho atentamente) é da maior importância. A menos que estejamos calmos e conscientes, não conseguimos olhar atenta e cuidadosamente. As florzinhas silvestres passarão despercebidas. Mas, embora ninguém lhes preste atenção, Basho olha cuidadosamente e vê as nazunas em plena floração ao sol! Como são belas! Como Basho se sente afortunado! Todo o mistério e prodígio da vida estão ali. Basho não pode deixar de conversar com elas. Como são maravilhosas e dignas, tão humildes e, ainda assim, com sua própria glória e orgulho. “Kakine Kana” (ao longo da sebe); as nazunas floresciam ao longo de uma sebe velha e comum, sem que ninguém lhes prestasse a menor atenção. “Kana” não tem nenhum significado particular, mas é uma importantíssima expressão poética. Pode-se dizer que é um ponto de exclamação falado, enfatizando o sentimento poético. A mente calma e harmoniosa é capaz de fazer essas observações penetrantes, encontrado a vida em todos os lugares e saboreando a unidade da vida na natureza. Esta é a essência da poesia. A cerimônia do chá é outro bom exemplo do aprendizado da serenidade. Na cerimônia do chá, primeiro aprendemos a andar. Deve-se caminhar silenciosamente – em silêncio, mas não na ponta dos pés. Caminha-se em silêncio, mas com firmeza. Entra-se na sala de chá em silêncio, com humildade, curvando-se ao passar pelo portal. Observa-se atentamente as pinturas estilizadas, o arranjo das flores e todos os utensílios. A serenidade e a tranqüilidade impregnam toda a cerimônia do chá. A disciplina da cerimônia do chá ensina a arte da serenidade, da percepção consciente e da graciosidade, as quais tornam-se, então, parte da nossa vida. Embora a serenidade seja uma parte da nossa vida, ela precisa ser cultivada. Ela é exatamente como a vida – boa em sua essência, mas, se negligenciada ou abandonada, torna-se selvagem. A disciplina e o cultivo são necessários na vida. A serenidade precisa ser aprendida. A meditação, a cerimônia do chá, a escrita dos poemas haiku e a caligrafia japonesa são caminhos para cultivarmos a serenidade na vida.
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