Gyomay Kubose
Budismo Essencial
A Arte de Viver o Dia-a-Dia


23. A Naturalidade

Qual a lição que podemos extrair da vida do mestre Shinran? Ele foi um grande mestre budista e podemos aprender muitas coisas com sua vida. Um de seus ensinamentos é a vida da naturalidade.

Shinran usou o termo “jinen honi” para expressar a naturalidade. Jinen significa “natureza” e honi quer dizer “de acordo com a lei da vida”. É a compreensão das coisas e da naturalidade da vida. Através da vida “jinen honi”, a pessoa deixa de ter preocupações desnecessárias e vive naturalmente. Meu amigo, Rev. Kenryo Kanamatsu, escreveu um livro chamado Naturalness (A Naturalidade). É um livro maravilhoso. Eu gostaria que todos o lessem. Nossa vida tornou-se muito artificial e superficial; precisamos pôr os pés no chão e ser naturais. Todos os poemas do Japão e da China expressam a realidade ou as impressões da vida humana e sempre terminam na unidade com a natureza.

Só quando nos tornamos unos com a natureza é que seremos capazes de resolver nossos problemas. Quando alcançamos uma perfeita harmonia com a natureza, tornamo-nos uno com ela. É viver como o desabrochar das flores, como o brilho do sol. É ser verdadeiramente nós mesmos. Isso é naturalidade. As crianças são encantadoras porque são naturais; elas não fingem nem mostram artificialidade.

Ser uno com a natureza é não ter preocupações desnecessárias nem desejar que as coisas sejam diferentes do que são. É encarar a realidade e viver a vida verdadeiramente. Temos, é claro, muitas preocupações e precisamos elaborar planos; mas isto é o máximo que o homem pode fazer. No fim, as coisas devem se harmonizar com a natureza. É um grande erro dizer, “conquiste a natureza!”, pois nunca poderemos conquistá-la; podemos apenas nos harmonizar com ela. Shinran chamou a isso “jinen honi”, seguir a lei do dharma, os ensinamentos, viver com o próprio dharma, a fonte da paz interior.

A vida da naturalidade vai além das ínfimas preocupações e dúvidas humanas. A natureza cuida de si mesma. No ramo da medicina fizemos grandes avanços, mas existe um limite para aquilo que os médicos e os remédios podem fazer. Podemos apenas nos harmonizar com a natureza, pois a própria natureza deve ser a cura. Todos os nossos esforços são um complemento à natureza e às suas atividades.

Shinran não tinha preocupações desnecessárias sobre a vida. Ele viveu no fluxo da vida, o fluxo da natureza a que chamava de tariki (o outro poder) ou hongan (a essência da vida). A vida tem seu próprio princípio operacional e existe realmente um limite para o que possamos fazer com o nosso poder. Os japoneses dizem “makasu”, que significa deixar o princípio agir por si mesmo.

O Rev. Kiyozawa disse: “Quem sou eu? Nada sou a não ser este momento no fluxo da vida. Este fluxo da vida não está sob meu controle; ele é a vida do próprio Universo. A vida do Universo flui em mim e eu apenas estou fluindo nesta vida e isto sou eu”. Com efeito, precisamos fazer planos, precisamos fazer esforços, precisamos fazer inúmeras coisas de acordo com o nosso modo de vida; mas, em última análise, esta não é uma realização nossa e sim uma realização da Vida. Penso que o indivíduo moderno se preocupa demais com as coisas. As mulheres estão excessivamente preocupadas com o número de calorias que consomem a cada refeição. Se as pessoas pensassem mais em suas graças do que em suas calorias, a vida seria muito mais feliz e pacífica. Preocupamo-nos demais com as coisas ínfimas da vida. Deveríamos fazer o que deve ser feito, ser unos com aquilo que fizemos e não nos preocupar com ele. Deixe a vida cuidar de si mesma; deixe a verdadeira vida fluir do seu interior e seja livre. Para Shinran, cada dia era o melhor da vida, pois a cada momento a vida fluía de dentro dele. Nenhum fingimento, nenhuma fachada falsa eram necessários. Ele foi sincero e convicto ao viver tal como ele era. Pois então não é verdade que muitas das nossas preocupações têm como causa algo que tentamos esconder? Vivemos uma vida dupla e por isso existe preocupação. Se formos tal como somos, viveremos como somos, sem fingimento, sem superficialidade. Nenhuma fachada falsa, e a vida será agradável.

A vida da naturalidade é uma vida de liberdade, uma vida onde não existe qualquer necessidade de preocupações inúteis, uma vida onde existe completa unidade com a lei da natureza – não conquistar e, sim, harmonizar. É uma vida sem artificialismo ou superficialidade. O homem moderno tem um número excessivo de máscaras para usar. Precisamos tirar as máscaras e ser nós mesmos, com sinceridade e convicção, e viver verdadeiramente como somos. Penso que este ensinamento é a grande contribuição de Shinran a todos nós.


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