Gyomay Kubose
Budismo Essencial
A Arte de Viver o Dia-a-Dia


20. A Vida do Devir

Gramaticamente falando, em inglês a palavra becoming é o particípio de to become (tornar-se) e comumente tem o sentido de “mudar para”, “devir” ou “vir-a-ser” – assim como uma lagarta torna-se uma borboleta ou uma bolota se torna um carvalho. Como adjetivo, becoming tem o significado de apropriado, adequado, conveniente. No mundo material, isto é tudo.

A vida do devir é um vir-a-ser no mundo espiritual. É a contínua revelação da verdade na nossa vida e em todas as coisas. A verdade está eternamente revelando a si mesma em todas as formas de vida e em todas as fases da vida – este é o vir-a-ser espiritual; é a verdade contínua e a verdade adequada dentro da verdade em nosso mundo espiritual. Isto não está no passado nem no futuro; é a vida aqui e agora, neste mundo presente, cumprindo seus propósitos, compreendendo seu valor e revelando sua beleza. A verdadeira felicidade está sempre no estado de vir-a-ser, porque a verdade está sempre no vir-a-ser. E, neste vir-a-ser, existe liberdade e naturalidade; nenhuma artificialidade. E também existe criatividade, pois, à medida que vivemos na verdade, estamos criando nova vida dentro de nós. E existe a permanência, porque o eterno vir-a-ser é a eternidade e o sopro da vida. É o próprio dharma, a vida de Buda. É a verdadeira vida budista, onde a beleza, a verdade e a felicidade são reveladas e desfrutadas.

A vida do devir, o viver na verdade contínua, está no presente. A felicidade está no presente, e é só vivendo no presente que alcançamos a verdadeira felicidade. Com efeito, no mundo da verdade existe apenas o presente, mas as pessoas tendem a viver em três mundos: o passado, o presente e o futuro. Apesar de estarem vivendo no presente, algumas pessoas vivem mais no passado e outras vivem mais no futuro. Os idosos geralmente tendem a viver mais no passado. “Ah, os bons velhos tempos!” ou “Quando eu era moço...” são expressões bem familiares nos lábios dos idosos. Por outro lado, os jovens tendem a viver mais nas esperanças futuras. Recordar as lembranças felizes e planejar o futuro faz parte da vida, mas tornar-se apegado ao passado ou ao futuro e esquecer-se de viver no presente traz infelicidade e desarmonia. Viver no presente é de suprema importância. É com este presente imediato que devemos nos preocupar. Somos felizes? Estamos livres, agora, das queixas infundadas, da avidez, das frustrações e do ódio? O apego ao passado torna a pessoa teimosa; o apego ao futuro pode provocar ilusões idealistas e desapontamentos.

Buda ensinou que todas as coisas estão em mudança constante. A verdade da vida é o devir; de fato, todas as coisas se transformam. A verdade e a beleza da natureza estão nessa mudança. As árvores e as flores são belas porque mudam. Imagine uma árvore que pára de crescer – isso significa sua morte.

Crescimento é mudança; é a própria vida. É o desabrochar da vida interior. A brotação e o crescimento das folhas novas, a floração, o desdobrar das folhas de verão, o cair das folhas de outono...tudo isso é belo. Toda a vida de uma árvore é a vida do vir-a-ser. Existe crescimento e vida.

A vida humana não constitui exceção no mundo da natureza. Devemos crescer constantemente, a nível individual e a nível coletivo. Por que a maravilhosa cultura grega chegou ao fim e a grande civilização romana decaiu? Foi porque ambas se estagnaram. Por que o amor muitas vezes termina em fracasso? Por que há tantos lares destruídos? Porque os casais se esquecem de cultivar o amor. Depois de alguns anos de casamento, eles esquecem como amar. A maioria dos divórcios ocorre nesse período de “fadiga” da vida conjugal. Tudo isso acontece porque deixou-se o amor estagnar.

Vejamos, agora, o exemplo do tempo. O tempo é um fluxo contínuo. Ele nunca pára. Neste fluxo contínuo existe a eternidade. Buda disse, “Nessa própria transitoriedade, a imortalidade se oculta”. Um rio nada mais é que um fluxo contínuo de água. Sem este fluxo, o rio não existiria. As flores são belas porque florescem em sua plenitude e caem no momento devido, sem apegar-se à árvore; as crianças são encantadoras porque crescem.

Neste mundo mutável, o mundo do vir-a-ser, se nos recusamos a mudar haverá luta, sofrimento, guerra. Nascer é certamente um devir; mas a morte também é um devir. Existe uma maravilhosa filosofia nesta vida do vir-a-ser. Devemos aceitar todas as mudanças que surgem e renascer de novo a cada novo momento. A infância tem sua graça; a juventude, seu vigor; e a velhice, seu lugar de respeito. Cada uma dessas fases da vida tem sua própria beleza e cada beleza tem seu lugar.

Em cada momento, em cada lugar, em cada vida, existe o valor e a beleza absolutos. Cada momento é vivo e é uma vida natural. Viver na verdade é o mundo de Buda e, neste mundo de Buda, existe a naturalidade. Shinran Shonin disse, “Jinen Hôni”, o que significa ser natural de acordo com o dharma, a lei.

Quando observamos o mundo da natureza, vemos a beleza florescendo em sua plenitude, de modo livre e natural, sem quaisquer apegos. A mudança é aceita e, ao aceita-la, revelam-se a verdade e a beleza. Todas as coisas se transformam na verdade da vida. O mesmo ocorre na nossa vida; se permanecermos livres dos apegos do ego e vivemos a vida da naturalidade, vivemos no verdadeiro sentido de viver.

No verdadeiro viver, existe uma criatividade que torna a vida significativa e valiosa. À medida que vivemos, precisamos constantemente criar, constantemente crescer em termos espirituais; caso contrário, estaremos apenas existindo. Quando vivemos na vida da verdade, no mundo de Buda, na vida do devir, estamos vivendo uma vida criativa.

E nesta vida criativa não existe artificialidade ou mera mudança. O amor ou a amizade artificiais ou fingidos, em qualquer relacionamento humano, não podem trazer a felicidade; só trazem sofrimento e miséria, só trazem uma vida restrita e desconfortável. Por mais bela e perfeita que possa ser a imitação, nela não existe verdade. Como a flor artificial, ela pode ser bonita; mas logo nos cansamos dela. O relógio tiquetaqueia o passar do tempo, mas o relógio não é a vida do devir ou da criação.

Em nossa vida, podemos estar em movimento e, ainda assim, não estar criando. Tudo depende dos pensamentos e do propósito por trás do movimento. Andar pela calçada sem um propósito não significa coisa alguma; porém, andar pela calçada para ir à escola ou ao encontro da namorada é plenamente significativo e neste ato existe alegria e propósito.

E assim, na vida, devemos fazer uma pausa para analisar se estamos apenas nos movimentando dia após dia ou se estamos vivendo uma vida criativa. Se não pudermos encontrar beleza, alegria, felicidade e valor na nossa vida, é porque não estamos vivendo a vida do devir. Será um existir, não um verdadeiro viver.

Viver é uma força dinâmica; ou seja, ser um com a Lei Universal, expressar a natureza búdica interior, revelar a verdade através da nossa personalidade. Uma vida religiosa, vivida em unidade com os ensinamentos de Buda, é uma vida criativa na qual todas as coisas se tornam significativas. Cada criatura, cada coisa, boa ou má, tem significado; e todas serão para nós fonte de orientação para uma vida gratificante e criativa.

Quando vivemos nesta grande vida do devir, vivemos na vida do nembutsu, a vida religiosa na qual Buda e nós somos um. No nembutsu vemos e sentimos Buda em toda parte e em todas as coisas. A própria vida torna-se a revelação de Buda. A vida da naturalidade e a vida da criatividade estão sintetizadas nesta vida do nembutsu, que é a vida de respeito e humildade através da qual todo o mundo e toda a vida tornam-se o mundo de Buda. É um mundo maravilhoso de adoração, que está sempre criando e se transformando.


Templo Budista Apucarana Nambei Honganji
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86802-265 — Apucarana — Paraná
Telefone/Fax:
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Monge Responsável:
Rev. Wagner Bronzeri (Sh. Haku-Shin)
E-mail: honganji@dharmanet.com.br

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