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Gyomay
Kubose
Estamos vivendo no mundo relativo, no mundo das relações; isso equivale a dizer que estamos relacionados uns aos outros. Com efeito, somos inter-relacionados e interdependentes. Ninguém é capaz de viver sem as outras pessoas e coisas. Na verdade, todos nós somos um. Esta relação, no entanto, não deve tornar-se oposição. Sempre que a relação se transforma em oposição ou em extrema dependência ou agressividade, ela cria problemas e sofrimentos. Temos a tendência de nos opor aos outros, de censurá-los, e esta é a causa do sofrimento nas relações humanas. Havia um casal que tinha três filhos. O marido gostava de álcool e jogo. A esposa, mulher muito inteligente, fazia de tudo para corrigi-lo, mas ele estava cada vez pior e muitas vezes nem vinha passar a noite em casa. A raiva da mulher era tanta que ela nem conseguia dormir. Perdeu o apetite e começou a ter problemas de saúde. Para ela, era natural sentir raiva e ficar revoltada com a vida. As amigas lhe ofereciam conforto e conselhos. Duas delas lhe garantiram que o comportamento do marido era errado, mas que, quando um homem agia daquele jeito, sua esposa também tinha alguma responsabilidade. Seu marido era mau, é claro, mas ela também era má e deveria olhar para dentro de si mesma. A mulher não deu ouvidos a estes conselhos, porque acreditava que nada havia de errado com ela. Certo dia pediram-me para falar com ela. Conversamos. Depois que ouvi sua história, concordei com tudo o que ela disse, o que a deixou satisfeita e feliz. Mas ficou chocada quando lhe afirmei que eu não diria que os dois eram culpados, mas sim que ela era a única responsável por seu próprio sofrimento. Perguntou-me, espantada, o que eu queria dizer com isso. • No mundo relativo – respondi – onde as coisas são comparadas, seu marido está errado e você está certa. Mas quando você o condena, quando briga com ele, tem raiva dele, sente pena de si mesma, adoece e negligencia os filhos, aí você é culpada, O bom e o certo em você tornam-se maus, e você é responsável por seus próprios sofrimentos e misérias. Ela compreendeu e concordou comigo. E então eu lhe disse que existe um mundo onde ela não precisa sofrer, que existe um modo de libertar-se, e que eu sabia que ela era capaz de alcançá-lo. Ela me perguntou como poderia fazer isso e superar seu sofrimento. • Você deve ir além do mundo relativo – expliquei. Quer dizer, ir além da comparação e das oposições. Você precisa estabelecer sua própria vida, que não será reprimida ou vitimada pelos outros. Ela compreendeu e começou a viver sua própria vida sem se deixar perturbar pela vida errada do marido. Superou admiravelmente a situação e começou uma vida nova. Um dos meus amigos contou-me uma experiência recente: estava andando pela calçada e, de uma janela do terceiro andar, jogaram água em cima dele. Aquilo também estava acontecendo com muitas outras pessoas naquele local. Ele pensou que algum adolescente estivesse jogando água nas pessoas e ficou preocupado e irritado. Observou o local durante algum tempo. Um dia, viu o autor daquilo e, para sua grande surpresa, não era um adolescente e sim um homem adulto! E, ao lado dele, duas crianças. Um pai e seus dois filhos se divertiam jogando água nas pessoas. Quando meu amigo descobriu isso, mal conseguiu dizer uma palavra. Sua irritação se dissolveu e ele pensou, “Ah, aquele idiota está perdendo seu tempo e sua vida fazendo uma bobagem dessas”. E, de súbito, ele perguntou a si mesmo, “E quanto a mim? Estou fazendo a mesma coisa. Fiquei irritado com alguém que não tem um pingo de juízo na cabeça e aqui estou eu perdendo meu tempo minha vida com essa irritação”. Seus pensamentos se transformaram em compaixão; a oposição desapareceu, e ele e aquele homem tornaram-se um. Estamos vivendo em uma cultura de dicotomias e materializamos os outros como se eles estivessem em oposição a nós. Tão logo percebemos isto, também iremos compreender que aquilo que está em oposição a nós é a nossa própria sombra. Quando virmos os outros em nós ou nós mesmos nos outros, superaremos a oposição e o mundo relativo, e nos tornaremos unos. No ato de reconhecer os outros enquanto tais, no sentido mais elevado, existe respeito por eles e também por nós mesmos. Só quando respeitarmos a nós mesmos, no real sentido da palavra poderemos respeitar verdadeiramente os outros.
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