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Ricardo Mário Gonçalves
A Imigração
Coreana no Japão Desde as Origens até
A imigração não é um fenômeno característico nem da época contemporânea, nem da civilização ocidental. Podemos encontrá-la em outras civilizações e outras eras. Num país como o Brasil, que recebeu e ainda recebe fortes contingentes de imigrantes, não será de todo destituído de interesse estudar casos de imigração dele distanciados, tanto no espaço como no tempo; tal estudo poderá suscitar reflexões sobre as influências que a imigração pode exercer no desenvolvimento de uma cultura e fornecer dados para uma eventual “sociologia da imigração”. Pretendemos estudar neste trabalho alguns aspectos de um problema até hoje não abordado entre nós – o da imigração coreana no Japão antigo. O Japão, que hoje se caracteriza por ser um país de elevada densidade demográfica, obrigado a recorrer à emigração para dar vazão a seus excessos de população, foi, nos inícios de sua história, paradoxalmente, um país de imigração. Apresentando fraca densidade demográfica e um grande atraso de desenvolvimento em relação às culturas continentais – no século III de nossa era, o Japão ainda se encontrava em pleno neolítico enquanto que há séculos a China dispunha de uma cultura refinada que conhecia a escrita e o ferro e que já produzira admiráveis criações literárias e sistemas filosóficos – o Japão entrará em rápido desenvolvimento com a vinda de emigrantes do continente – na maior parte coreanos – que procuraram refúgio no arquipélago a partir do século III, quando o desmembramento do Império Chinês dos Han – comparável à queda do Império Romano no Ocidente – trouxe o fim da pax sinica, iniciando um período de vários séculos de anarquia e conflitos armados no Extremo Oriente. Graças aos imigrantes, o Japão absorve em curto período os principais elementos da cultura continental, conseguindo em poucos séculos ombrear com a China em civilização material e cultura espiritual. Tal absorção teria sido realizada mesmo sem a imigração, mas procuramos mostrar que esta acelerou muitíssimo o processo. Um dos objetivos principais de nosso trabalho foi justamente verificar em que medida a imigração estrangeira contribuiu para o desenvolvimento da cultura japonesa em seus vários aspectos. Devotamos particular interesse ao estudo do papel dos imigrantes na introdução da escrita chinesa e do Budismo no Japão, pelo decisivo papel que esses elementos desempenharam no processo de formação da cultura japonesa. Também tivemos emprenho apresentar vários exemplos de imigrantes e descendentes destes que alcançaram posição destacada na sociedade japonesa, para realçar ainda mais a importância da imigração dentro da História do Japão. Tomamos como limite de nosso trabalho o século VIII, porque além dessa época só encontramos exemplos esporádicos de imigração em pequena escala que estão longe de apresentar a importância e a amplitude dos primeiros séculos da história japonesa. É evidente que, graças à exigüidade de fontes à nossa disposição e às limitadas dimensões requeridas para este trabalho, muito ainda ficou por dizer. Acreditamos, porém, que foi possível pelo menos dar uma visão geral do assunto e chamar a atenção sobre um ou dois de seus problemas fundamentais. Uma explicação se faz necessária no tocante aos nomes próprios citados no trabalho. A escrita chinesa ideográfica é usada tanto na Coréia como no Japão. O significado dos ideogramas é idêntico, na China e nesses países, embora a pronúncia seja diferente, assim como o sinal 1 é pronunciado “um” em português, “one” em inglês e “un” em francês. Desconhecendo os idiomas chinês e coreano e consultando principalmente fontes japonesas, nós grafamos à maneira japonesa muitos nomes próprios cuja forma original, chinesa ou coreana, ignoramos. Quando um nome é citado pela primeira vez em nosso trabalho e há motivo para dúvidas por parte do leitor, indicamos entre parêntesis se sua grafia é chinesa, coreana ou japonesa. No caso de nomes em que conhecemos ambas as grafias (original e japonesa), apresentamos a grafia japonesa entre parêntesis. Ex.: Ki-Shi (jap.); Silla (jap. Shiragi); Koguryo (jap. Kôkuri). Principais fontes para o estudo da história antiga do Japão e da imigração coreana
Além dessas crônicas, podem ser consultados com proveito:
A Coréia e o Japão no início dos tempos históricos até o século VIII
O passado remoto da Coréia está envolto em trevas. Sabe-se que sua porção meridional foi ocupada em meados do III milênio a.C. pelo povo neolítico Yao proveniente da China do Sul1. Sua porção norte, em época incerta, foi ocupada pelos nômades tunguses, responsáveis formação posterior do reino de Koguryo (jap. Kôkuri). Os coreanos atuais, que falam um idioma ural-altaico, provêm da mistura desses povos e provavelmente de outros invasores também. Graças ao contato com a China, a cultura coreana progrediu rapidamente. No século IV a.C. a cultura dos estados chineses do Norte já se implantara solidamente na porção norte da península e começava a expandir-se pela Coréia do Sul2. As crônicas chinesas procuram relacionar a história da Coréia com a das dinastias chinesas. Um personagem lendário, Ki-Shi (jap.), pertencente à família real de Yin, teria, após a queda dessa dinastia às mãos dos Chou (1050 a.C.), fugido para a Coréia e ali fundado um reino. Entretanto, só nos fins do século IV a.C. podemos admitir a existência de um estado organizado na Coréia. Ei-Nan (jap.), originário do estado de Yen, no norte da China, teria destruído esse reino e formado o de Ei-Shi (jap.) com Seul por capital. Muitos chineses teriam emigrado para esse reino. Em 108 a.C., o Imperador Wu-Ti da Dinastia de Han conquistou esse estado e instalou quatro colônias na porção ocidental da península: Rakurô, Shinban, Rindon e Gento (jap.)3. O progressivo enfraquecimento do Império fez com que, excetuando Rakurô, essas colônias fossem abandonadas por volta de 82 a.C. Por volta de 37 a.C., nômades tunguses fundaram na poção norte da península o reino de Kôkuri, já citado, que compreendia também uma parte da Manchúria. A partir da mesma época começou ao sul da península um movimento de agregação das tribos, que levou, nos séculos II e III de nossa era à formação de três reinos, ou melhor, três confederações de tribos – Sankan (jap.) – a saber: Shinkan (jap.), formado por 12 tribos, Benkan (jap.), também por 12 e Bakan (jap.), por 544. Quanto à colônia de Rakurô, em 220 de nossa era, com a queda do Império Han, passou às mãos do Império Wei, que dominava o norte da China. Caindo este, tornou-se vulnerável aos ataques dos bárbaros e acabou destruída por Kôkuri em 313. Por volta de 346, as tribos de Bakan formaram o reino de Kudara e 10 anos depois, Silla (jap. Shiragi), uma das tribos de Shinkan, dominou as demais e formou o reino que tem o seu nome. A região de Benkan foi dominada pela tribo Kara (jap.) que, em meados do século IV, tornou-se tributária do nascente Império Japonês, que instalou no território a colônia Mimana. A história desses reinos está narrada com detalhes na parte relativa às relações nipo-coreanas. Kudara e Kôkuri foram destruídos pela dinastia chinesa de Tang aliada a Shiragi (660 e 668, respectivamente). Em 735 o reino Shiragi tornou-se senhor de toda a Coréia e como tal permaneceu até 935, quando foi destruído pelo novo reino de Kôrai (jap.).
Não se sabe ainda quando o homem fez sua aparição no território nipônico. Descobertas recentes em Iwajuku, prefeitura de Gunma e regiões vizinhas mostram que desde o pleistoceno o Japão já era habitado, mas até agora não temos nenhuma data segura. Cerca de 5 mil anos a.C. delineou-se no Japão a primeira cultura neolítica – Cultura Jomon – aparentada com as populações neolíticas do norte da Ásia. No século III a.C., invasores vindos do Sul da Ásia via Coréia, introduziram o cultivo do arroz, um novo tipo de cerâmica e objetos de bronze: é a Cultura Yayoi, que se estende até o século III de nossa era. As crônicas chinesas já citadas em relação à Coréia descrevem os pequenos estados japoneses que, como súditos, prestavam homenagens e pagavam tributos aos Imperadores das dinastias Han e Wei. Graças aos freqüentes contatos com o continente, o Japão entrou em rápido processo de desenvolvimento cultural e em meados do século IV de nossa era surgiu o Estado Imperial, em torno de um núcleo situado na Planície de Yamato, na região centro-oeste da ilha Honshû, a maior do arquipélago. Os primeiros séculos da História Japonesa representam uma luta contínua entre o esforço centralizador empreendido pela Coroa e as tendências descentralizadoras representadas pelos grandes chefes de clãs detentores da maior parte das terras cultivadas do país e dos servos a elas ligados. Esses chefes descendiam de antigos líderes de comunidades independentes e sempre se mostraram saudosos de sua antiga autonomia. As estreitas relações que a Corte Imperial manteve com o Continente permitiram-lhe copiar as instituições do despotismo chinês e assim fortalecer seu poder. Em fins do século VI teve início a regência do Príncipe Shôtoku que, com o auxílio do clã Soga, unido à Coroa por uma série de interesses até certo ponto comuns – no fundo, parece que ele pretendia o controle absoluto do país – iniciou um amplo movimento de absorção de elementos culturais do Continente, inaugurando relações diplomáticas em pé de igualdade com a dinastia chinesa de Sui. Tomou também uma série de medidas internas, destinadas a regular as funções da burocracia imperial. Sua obra, retomada por seus seguidores, culminou na Reforma Taika (645), que deu um golpe decisivo na facção descentralizadora confiscando as terras e servos dos grandes senhores, obrigando-os a viver daí em diante em dependência da Coroa, à qual prestavam serviços como ministros, funcionários, generais, etc. Controlando as terras e os agricultores teoricamente livres, mas na realidade quase escravos, a Coroa japonesa inaugurou uma espécie de socialismo estatal copiado do chinês, caracterizado pela distribuição de terras aos lavradores, obrigados a ceder parte de sua produção à Coroa. A obra centralizadora foi coroada com a promulgação dos primeiros códigos de leis (710-718), copiados dos chineses, e com a elaboração das primeiras crônicas oficiais, promovendo o prestígio da família imperial (712-720). Também foi nessa época que pela primeira vez o Japão teve como capital uma verdadeira cidade – Nara, construída em 710, cópia de Chang-An, capital da China dos Tang. O século VIII representou o auge do despotismo japonês, que principiou a decair no século seguinte, por motivos que não cumpre examinar aqui5. Ao período que vai desde os meados do século III até o século VI de nossa era, costumamos chamar de Período de Yamato, por causa da sede do poder imperial ou então Período dos Túmulos, por causa das grandes construções funerárias que o caracterizam. O período que vai da regência do Príncipe Shôtoku até a fundação de Nara é denominado Período Asuka, nome da localidade em que residia a Corte e, por fim, ao período em que Nara foi a capital do país (710-794) nós chamamos de Período de Nara6.
As relações entre o Japão e a Coréia têm suas raízes nos períodos geológicos anteriores ao aparecimento do homem. Até o pleistoceno, desde sua formação no período arqueozóico o Japão esteve quase sempre ligado ao continente através de faixas de terra que ligavam Kyushu à Coréia e Hokkaido e Sakalina à Sibéria Oriental. A separação definitiva só se consumou com o término do último período de glaciação. Através dessas ligações terrestres, não só os animais, mas também os homens do pleistoceno puderam atingir o Japão7. A separação não veio dificultar muito as comunicações entre o Continente e o Japão: Fusan, porto da Coréia do Sul, dista pouco mais de 200 km de Fukuoka (antigo Kakata), porto da costa noroeste da ilha de Kyushu. Além disso, a travessia desse braço de mar conhecido como Estreito de Tsushima é facilitada pela presença das ilhas Iki e Tsushima, esta última exatamente a meio caminho entre a Coréia e o Japão. Não nos enfronharemos no estudo cheio de controvérsias das migrações pré-históricas. Lembremos apenas o advento da Cultura Yayoi ao Japão, via Coréia, antes de passar ao estudo das relações nipo-coreanas nos tempos históricos. As crônicas chinesas já citadas anteriormente mostram-nos que já nos meados do período Han (século I a.C.) havia relações entre pequenos reinos japoneses e o Império da China. Barcos japoneses iam ter à colônia de Rakurô levando presente e escravos em sinal de vassalagem e às vezes esses emissários iam até a capital do Império, onde se avistavam com os soberanos. No século III, quando a China do Norte era dominada pela Dinastia Wei, Himiko, rainha de Yamatai, estado japonês situado em Kyushu, segundo uns e na planície de Yamato, segundo outros, mandou várias embaixadas a Wei, via Coréia8. O século IV é muito importante, tanto do ponto de vista da história da formação do Estado Japonês quanto do das relações nipo-coreanas. Foi nele que se formou a Corte Imperial Japonesa e que uma colônia, Mimana, foi por esta estabelecida na região de Benkan, ao cabo de uma expedição militar. Entretanto, as fontes escritas são escassas e ambíguas, as arqueológicas incompletas e passíveis de várias interpretações, fazendo desse século um dos mais obscuros da História Japonesa. O “Kojiki” e o “Nihon-gi” narram a lenda da conquista da Coréia pela Imperatriz Jingû, personagem fabulosa por alguns identificada à rainha pré-histórica Himiko9. É impossível descobrir algo de verdadeiro nessa lenda, exceto a menção de uma expedição militar à Coréia, mas quanto aos relatos a respeito do Imperador Sujin – 8º do Japão, segundo as crônicas – não só parece ter sido ele um personagem real, possivelmente o primeiro imperador do Japão, como também o conquistador do Sul da Coréia e fundador de Mimana. Há mesmo quem afirme que esse imperador seja de origem coreana e que tenha conquistado o Japão à frente de um exército de cavaleiros10. Em todo o caso, é inegável que a influência japonesa já se fazia representar na Coréia através da colônia de Mimana e que o Mikado começou a intervir nos assuntos da península. Várias expedições militares, nos séculos V e VI foram mandadas do Japão à Coréia, em defesa de Mimana, ameaçada por Shiragi. Também se registraram campanhas contra Kôkuri. Elas não impediram que Shiragi anexasse Mimana a seu território em 562, após várias guerras em que Kudara sempre esteve aliada ao Japão. Este só renunciou – temporariamente – à reconquista de Mimana durante a regência do Príncipe Shôtoku, que procurou estabelecer relações amigáveis com Shiragi. Em meados do século VII, um apelo de Kudara, ameaçado por uma coligação de Shiragi com a China dos Tang, fez com que tropas japonesas fossem novamente enviadas ao Continente. Sofreram elas fragorosa derrota na Batalha de Hakusuki-no-e (663), frente às forças conjuntas de Shiragi e Tang. Essa derrota tirou ao Japão toda e qualquer esperança de reconquistar suas possessões no continente. Essa batalha coincidiu com destruição do reino de Kudara pelas forças de Shiragi e Tang. As classes dominantes de Kudara refugiaram-se no Japão. A este só restou uma nação amiga na península: Kôkuri, destruído poucos anos depois por Shiragi. Por volta de 686, o Japão iniciou relações amistosas com Shiragi, mantidas através de trocas de embaixadas. No século seguinte entrou em relações com Bokkai (jap.), reino estabelecido por refugiados de Kôkuri na Manchúria. Só nos fins do século VI o Japão voltou a empreender uma ação militar contra a Coréia. Do ponto de vista cultural, o mais importante dessas relações com a Coréia foi o longo contato pacífico com Kudara, como veremos ao tratar dos problemas da escrita e do Budismo. História da imigração coreana no Japão
Deixando de lado as controvertidas migrações pré-históricas, uma primeira vaga de imigração coreana no Japão é registrada no século IV e V, coincidindo com as expedições militares acima citadas. A maior parte desses imigrantes compunha-se na realidade de prisioneiros de guerra, conduzidos ao Japão pelas forças expedicionárias e colocados à disposição da Coroa Imperial para a prestação de serviços diversos. Além dos coreanos, muitos chineses de Rakurô foram assim levados ao Japão. Esses imigrantes foram de uma importância extraordinária para o desenvolvimento da Cultura Japonesa. Foram eles agrupados em “be” (comunidades de servos especializados em tarefas diversas) ao serviço da Coroa Imperial. Uma enumeração do “be” de origem estrangeira nos revela imediatamente os setores em que sua influência se fez sentir: “osaka-be” (comunidade de funcionários encarregados de funções judiciárias), “takara-be” (comunidade dos administradores do Tesouro Imperial), “aya-be” e “fuhito-be” (comunidades de escribas), “suetsukuri-be” (ceramistas), “kanuchi-be” (ferreiros), etc.11 Notemos, quanto aos “kanuchi-be”, o problema das vinculações entre a imigração e a introdução e desenvolvimento da metalurgia do ferro no Japão. Há autores que sustentam que um dos principais objetivos das expedições militares à Coréia era obter armas e instrumentos de ferro, até então muito escassos no Japão. Teria havido assim, por parte da Coroa Imperial, um interesse todo especial em trazer ferreiros ao Japão.12 Alguns clãs estrangeiros alcançaram posição proeminente na sociedade japonesa, como os Aya e os Hata, que se declaravam descendentes das famílias imperiais chinesas de Han e Chin, respectivamente. Alcançaram no Japão a posição de “tomo-no-myatsuko” (líderes de comunidades de profissionais diversos). Os Hata tiveram grande importância no aperfeiçoamento das técnicas de tecelagem no Japão.13 Foi também nesse período que a escrita chinesa foi introduzida e difundida no Japão, através da ação de embaixadas de Kudara e dos escribas estrangeiros a serviço da Corte Imperial e que o Budismo fez sua aparição (inícios do século VI).
Neste período notamos uma segunda vaga de imigrantes no século VII, composta por fugitivos dos reinos de Kudara e Kôkuri, destruídos por Shiragi. Após o desastre de Hakusuki-no-e, fugitivos de Kudara, entre os quais muitos nobres, foram para o Japão junto com as tropas nipônicas em retirada. Em 665, a Corte Imperial providenciou a instalação de cerca de 400 imigrantes de Kudara na província de Ômi, no ano seguinte, de 2 mil na região Leste e em 669, de 700 novamente na província de Ômi. Durante a guerra contra Shiragi e Tang, coreanos de Shiragi e chineses também foram trazidos ao Japão como prisioneiros. Depois de Hakusuki-no-e nota-se também a vinda de coreanos de Kôkuri. Em 687, membros da família real de Kôkuri, liderando 56 imigrantes, foram instalados na província de Hitachi e em 716, 1.799 naturais do recém-formado reino de Kôrai vieram se estabelecer na província de Musashi. Feita a paz com Shiragi, até mesmo naturais desse reino, imigraram para o Japão, sendo instalados na província de Shimousa (668).14
No século VIII temos uma terceira e última vaga de imigrantes que buscaram o Japão. O Período de Nara caracterizou-se pelo estabelecimento de relações pacíficas entre o Japão e seus vizinhos do continente e, por conseguinte não temos mais imigração de refugiados e prisioneiros de guerra. Embaixadas foram trocadas entre o Japão e a China dos Tang e, além de imigrantes coreanos, letrados e monges budistas chineses foram ter ao Japão, como Dôei, Bodai, Dôsen e Ganjin. Até persas, anamitas e indianos foram ao Japão nessa época, ainda que em pequeno número15. A cerimônia de inauguração do “Daibutsu” (Grande Buda) construído no Templo Tôdaiji de Nara, por ordem do Imperador Shômu, foi dirigida por um monge indiano de nome Bodhisena16. Notamos na mesma época um grande desenvolvimento da música sacra budista, introduzida por monges chineses, coreanos e de outras procedências, destacando-se nesse campo o anamita Buttetsu.17 Entretanto, já nos fins desse século as relações com o continente começaram a diminuir, o que teve por conseqüência o declínio e cessamento da imigração. Em 779, Shiragi cessou de enviar embaixadas ao Japão e no século seguinte as embaixadas japonesas à China foram rareando até serem de todo suspensas em 894. As relações com o Continente só foram reatadas no século XII, mas não houve mais imigração estrangeira no Japão, excetuando-se o caso dos monges budistas chineses que se refugiaram no Japão nos séculos XIII e XVII, quando das invasões mongólicas e manchu na China.18
A escrita japonesa compõe-se hoje em dia de três tipos de caracteres: “kanji” (ideogramas chineses), “hiragana” e “katakana” (silabários criados pelos japoneses através de simplificação de alguns “kanji”, no século IX). Não obstante certos autores nacionalistas dos séculos XVIII e XIX terem pretendido que os japoneses tivessem inventado um sistema de escrita próprio – “kamiyomoji” ou “Letras da Era dos Deuses” – anteriormente à introdução da escrita continental, nada confirma essa hipótese e a história da escrita japonesa deve começar com a da introdução dos ideogramas chineses no Japão. Os ideogramas chineses foram levados ao Japão pelos imigrantes coreanos e isso pode explicar a facilidade com que eles foram adaptados à língua japonesa, uma vez que esses imigrantes já os empregavam para escrever a língua coreana, dotada de uma estrutura fonética muito mais complexa que a japonesa.19 A primeira inscrição que a história japonesa registra é a do sinete de ouro descoberto em Hakata em 1794, pelo lavrador Jinbee, que diz: “Rei de Wa-Nu de Han”. A “Crônica de Han Posterior” menciona esse sinete, oferecido pela Corte Chinesa ao embaixador do reino japonês de Wa-Nu no ano 57 a.C.20 Dessa forma, várias inscrições entraram esporadicamente no Japão em época remota, mas só a partir do século IV, quando a complexa organização do nascente império japonês reclamava um sistema de escrita, os ideogramas chineses começaram a ser realmente usados no Japão. Nem todos os imigrantes deviam conhecer a escrita e quando esta se tornou necessária a Corte Japonesa passou a promover a imigração de escribas profissionais. O “Nihon-gi” relata que em fins do século IV, durante o reinado do Imperador Ôjin, Kudara mandou ao Japão um embaixador de nome Achiki, que se radicou no país. Sabendo que Achiki conhecia a escrita chinesa, o Imperador chamou-o e perguntou-lhe se sabia de algum letrado superior a ele, e Achiki mencionou Wa-Ni, de Kudara. O Imperador mandou então buscar Wa-Ni, que trouxe para o Japão o “Seiji-mon” (Coleção de mil caracteres arranjados numa ordem que facilita seu aprendizado) e o “Lun-Yu” (Livro das Analectas de Confúcio) e tornou-se depois o preceptor do Príncipe Herdeiro Uji-no-Wakiiratsuko. Os letrados e escribas vindos ao Japão, assim como os outros especialistas, foram organizados em “be” e os personagens supracitados são considerados ancestrais de dois clãs de escribas de origem estrangeira, os “Yamato-no-Fuhito”, descendentes de Achiki e os “Kawachi-no-Fuhito”, descendentes de Wa-Ni, estabelecidos respectivamente nas regiões de Yamato e Kawachi. O “kabane” (nome de família conferido pelo Imperador a especialistas diversos) “Fuhito” (de “fumi” = escrita e “hito” = pessoa) conferido a família de escribas, parece datar do século V. A abundância de documentos escritos citados no “Nihon-gi” a partir da época do Imperador Ginmei faz supor que a partir dessa época os escribas exercessem regularmente na Corte a função de cronistas e escreventes, que como a dos outros especialistas, era hereditária.21 Graças à atividade desses escribas, pouco a pouco a escrita chinesa começou a ser utilizada para escrever a língua japonesa. Embora os documentos fossem escritos em chinês literário, os nomes próprios japoneses apresentavam um grande problema quanto a sua grafia, que foi resolvido pelos escribas tomando-se uma série de ideogramas dos quais não se levava em conta o significado, mas apenas o som que representavam. É como se, para escrever a palavra “soldado” desenhássemos a figura de um sol seguida pela de um dado. Pouco a pouco particularidades da sintaxe japonesa também começaram a surgir nos textos escritos no Japão, não só pelo esforço consciente dos escribas, já conhecedores do japonês, no sentido de grafar essa língua, mas também pela própria falta de contato das comunidades de imigrantes com a terra natal, que provocou a desatualização e deturpação do chinês literário dos escribas22. Fenômeno semelhante, notamos na linguagem dos imigrantes japoneses estabelecidos no Brasil, apresentando influências da sintaxe portuguesa, conservando termos que caíram em desuso e ignorando outros de uso corrente hoje em dia no Japão. No século VI, nova vaga de letrados do continente, fortemente impregnados pela refinada cultura da China do Sul, suplantou os antigos escribas e formou os novos clãs de “Funa-no-Fubito”, “Tsu-no-Fubito” e “Shirai-no-Fubito”. Nos fins do mesmo século, a escrita chinesa deixou de ser monopólio dos escribas profissionais de origem estrangeira, começando a ser conhecida pelas camadas superiores da população japonesa, devido à progressiva implantação das instituições e doutrinas do Continente no Japão, cujo conhecimento só era possível através do domínio da escrita chinesa. A implantação da cultura continental no Japão foi bastante intensa durante o século VI, quando muitos letrados confucionistas, monges budistas, astrólogos e médicos coreanos e chineses se instalaram no Japão. Nos fins do século VI e inícios do VII já encontramos japoneses, como o Príncipe Shôtoku, escrevendo correntemente em chinês literário. A partir da Reforma Taika (645), que instituiu no Japão uma máquina governamental copiada da chinesa, tornou-se uma necessidade para os governantes japoneses conhecer profundamente o Confucionismo, base filosófica das instituições chinesas. A exigência de uma sólida educação confucionista para os candidatos à burocracia imperial data legalmente da Reforma Taika, mas só passou a ser observada na prática após a vinda dos refugiados de Kudara depois de Hakusuki-no-e23. A difusão da escrita chinesa entre a nobreza japonesa marcou o fim da era dos escribas de origem estrangeira e o século VIII assistiu ao desabrochar da Literatura Japonesa, com a publicação das primeiras crônicas e coletâneas de poemas escritas por japoneses em sua própria língua, ainda que em caracteres chineses.
Originando-se na Índia no século VI a.C., o Budismo ganhou a China através da Rota da Seda nos primeiros anos de nossa era, sendo reconhecido oficialmente no ano de 67. A princípio não despertou muito interesse, só conseguindo certo desenvolvimento em fins do século II. Após a queda do Império Han, continuou a se difundir pela China do Norte, dali passando para a Coréia. Kôkuri foi o reino coreano que primeiro adotou oficialmente o Budismo (372), seguindo-se-lhe Kudara (384) e Shiragi (527). Ao estudar detalhadamente através das crônicas coreanas o processo de introdução do Budismo nos reinos da Península, vemos que grosso modo ele pode ser decomposto em duas fases: a) O Budismo, pregado extra-oficialmente por missionários estrangeiros, obtém pouca repercussão e chega a ser alvo de perseguições; b) ganha o apoio dos governantes e se desenvolve rapidamente. Vemos também que a segunda fase coincide com o processo de fortalecimento do poder central nesses reinos, através da adoção das instituições do despotismo chinês. Isso leva a crer que a adoção do Budismo pelos governantes como religião oficial tenha sido realizada com o propósito de ajudar a fortalecer o poder central, enfraquecendo as velhas religiões tribais propícias à fragmentação ideológica e política e oferecendo a todos os súditos do reino um mesmo ideal de aperfeiçoamento moral e realização espiritual.24 O Budismo penetrou no Japão durante o século VI, a princípio trazido pelos imigrantes e logo depois reconhecido oficialmente pela Corte Imperial, ao receber o Imperador Ginmei em 538 uma embaixada de Kudara trazendo estátuas de Buda e coleções de textos búdicos. A introdução do Budismo por imigrantes antes desse reconhecimento oficial acha-se testemunhada por provas arqueológicas da prática da cremação, desconhecida no Japão antes da vinda do Budismo, em época anterior a essa data, e pelo “Hokken-ki”, crônica escrita por Yokigô (século X), que, citando documentos antigos hoje perdidos, menciona a ida de Shiba Tatto, imigrante chinês especializado na fabricação de selas, que teria chegado ao Japão em 522 e construído um pequeno santuário budista na localidade de Sakata-hara.25 A embaixada de Kudara responsável pela introdução oficial do Budismo foi um dos expedientes diplomáticos a que esse reino, ameaçado por uma invasão de Kôkuri, recorreu para obter ajuda militar nipônica. O Budismo despertou curiosidade e interesse na Corte, mas logo suscitou uma violenta querela, para cuja compreensão se fazem necessários alguns esclarecimentos sobre a situação política na época. O Japão também atravessava um processo de fortalecimento do poder central, no qual se achavam envolvidos a Família Imperial e os grandes clãs nobres, outrora independentes. De um lado, vemos a Família Imperial esforçando-se, com a ajuda de alguns clãs devotados a ela, para estabelecer um regime despótico. O principal clã com que a Coroa contava era o dos Mononobe, que tradicionalmente exercia funções militares, policiais e religiosas. De outro lado vemos o clã dos Soga, visando também o fortalecimento do poder central, com a diferença de que este seria exercido por uma confederação de clãs chefiada pelos Soga, ficando o Imperador reduzido a uma mera figura decorativa. Aparentados a várias famílias de imigrantes, principalmente aos Aya, os Soga, em seus esforços pela centralização do poder, estavam interessados em introduzir no Japão as instituições características do despotismo continental e em reformar a velha estrutura econômico-social do país, baseada nas comunidades de servos – “be” – e na nobreza hereditária constituída por chefes de clãs especializados em funções diversas. A introdução do Budismo foi o estopim que provocou um conflito entre os Soga e os Mononobe, os primeiros favoráveis e os segundos contra a adoção da nova doutrina. O “Nihon-gi” descreve com pormenores esse conflito, que terminou com a aniquilação dos Mononobe e a vitória dos Soga e do novo culto. Nesse relato está bem descrita a atitude tradicionalista dos Mononobe, para quem a introdução do Budismo constituía uma ofensa aos Ancestrais, adorados como deuses no Japão primitivo.26 O que nos interessa aqui é realçar o papel dos imigrantes nos primeiros tempos da difusão do Budismo no Japão. Os primeiros monges budistas vieram de Kudara, provavelmente com a embaixada de 538, e se destinavam mais a prestar assistência espiritual aos imigrantes do que a difundir o Budismo entre os japoneses27. Em fins do século VI, Soga-no-Umako, chefe do clã dos Soga, desejoso de instalar um templo budista em suas propriedades, mandou Shiba Tatto e Ikebe-no-Ataihita procurar conhecedores do Budismo e estes encontraram em Harima um imigrante coreano de nome Ebin, ex-bonzo, que se tornou mestre espiritual de Umako. Este fez Shima, filha de Shiba Tatto, ordenar-se monja com o nome de Zenshin-ni. Esta teve duas discípulas, ambas descendentes de imigrantes. Nasuna, filho de Shiba Tatto, também se ordenou monge e especializou-se na escultura búdica, assim como seu filho, o famoso escultor Tori Busshi. Por ordem de Umako, Zenshin-ni dirigiu-se a Kudara para estudar Budismo e ao regressar ao Japão, umas dez pessoas, na maioria imigrantes e seus descendentes, ingressaram na vida monástica. Assim, os primeiros monges e monjas budistas do Japão foram quase todos estrangeiros ou descendentes de imigrantes.28 Paralelamente à ordenação de monges em território japonês ocorreu a vinda de monges vindos do continente. Até a época da Reforma de Taika, mais da metade dos monges que entraram no Japão era oriunda de Kudara29. Em 577, o Príncipe Ôwake-no-Miko, de regresso de uma missa a Kudara, levou consigo para o Japão, três monges, uma monja, um escultor de imagens de Buda e um construtor de templos, fazendo-os residirem em seu templo particular em Naniwa. Em 588, nove monges, acompanhados por pintores, escultores e arquitetos vieram de Kudara. Em 598 mais dois monges de Kudara chegaram ao Japão. O Príncipe Shôtoku, que deu um extraordinário impulso à propagação do Budismo no Japão durante sua regência, teve como mestres espirituais monges coreanos. Mais tarde, monges chineses de elevada categoria como Ganjin (688-763) também chegaram se instalar no Japão. É importante notar também a importância das comunidades de imigrantes espalhadas pelas províncias no processo de difusão do Budismo no interior do país. Algumas delas contavam com monges, que sem dúvida ajudaram a espalhar o Budismo entre os japoneses. Essa difusão do Budismo nas províncias muito facilitou a construção dos “Kokubun-ji” (templos provinciais) por ordem do Imperador Shômu, em 741.30 A influência coreana na difusão do Budismo no Japão deixou sua marca inclusive no vocabulário budista japonês. As palavras “tera” (templo budista) e “Hotoke” (Buda) são por vários autores consideradas de origem coreana.31 A posição dos imigrantes e seus descendentes na sociedade japonesa – alguns exemplos
Como um dos elementos para o estudo da situação dos imigrantes na sociedade japonesa seriam de extraordinário interesse dados estatísticos sobre a imigração, mas infelizmente eles não existem e ignoramos o número dos imigrantes e a porcentagem que eles representavam na população japonesa. Só sabemos que no Período de Nara mais ou menos metade das famílias residentes nas províncias próximas à Capital eram de origem estrangeira32. Quanto à posição social dos imigrantes, temos felizmente dados numerosos. A maior parte dos imigrantes, constituída por técnicos em atividades pouco difundidas e mesmo desconhecidas no Japão, passou a integrar a nobreza pequena e média. Muitos autores chegam a dizer que os imigrantes não foram simplesmente enquadrados numa hierarquia já existente, mas que sua própria presença e atuação ajudou a criar essa hierarquia.33 Após a batalha de Hakusuki-no-e, os imigrantes tiveram função destacada na reorganização do Estado Japonês abalado pela derrota. Encontramos muitos deles ocupando altos postos. Nas escolas oficiais destinadas à formação de funcionários, muitos eram alunos ou professores. Parece também que tiveram destacado papel na elaboração de códigos de leis e crônicas históricas. Os médicos do Imperador Tenmu e da Imperatriz Jitô (fins do século VII) foram estrangeiros. No Período de Nara, muitos técnicos de origem estrangeira foram convocados para trabalhar na construção do Grande Buda.34 Também dispomos de dados sobre a assimilação dos imigrantes. Ao chegar ao Japão, eram logo instalados em uma determinada localidade e inscritos no cadastro de contribuintes. Recebiam nomes de famílias japoneses. É curioso notar que durante o Período de Nara, em que se fazia sentir a necessidade de especialistas em atividades diversas, muitos monges imigrantes voltavam à vida laica e passavam a desempenhar importantes tarefas em outros setores. Notamos também que os imigrantes estabelecidos nas províncias integravam-se rapidamente na vida loca, conseguindo alguns deles o posto de “gunshi” (prefeito). O governo aproveitava imigrantes agricultores para a colonização de terras incultas.35 Do Período de Nara em diante notamos uma progressiva queda na posição social dos imigrantes. No Período de Nara os Aya e os Hata perderam toda a influência política, conservando prestígio apenas nas províncias. Durante o reinado do Imperador Kanmu, cuja mãe descendia de imigrantes, experimentaram eles ainda um novo período de prestígio, mas à medida que o Japão foi diminuindo seus contatos com o continente, sua posição foi decrescendo. Nessa época de desprestígio dos imigrantes, muitas famílias de origem estrangeira tenderam a se apresentar como descendentes de famílias imperiais chinesas. Nos inícios do século IX, os poucos imigrantes que entraram foram impedidos de se estabelecerem próximos à Capital e foram mandados para o norte do país. Em 820, imigrantes de Shiragi estabelecidos nas províncias de Tôtomi e Suruga revoltaram-se contra a atitude discriminatória tomada contra eles pelo governo. Em 830 a imigração foi definitivamente proibida. A essa atitude discriminatória contra os imigrantes correspondia, no plano diplomático, a tendência a tratar as embaixadas coreanas como representações de países tributários. Pode explicar tudo isso como tentativas feitas pelo Japão para reafirmar internacionalmente seu prestígio. Como resultado, tivemos o fechamento do país em 894 e o nascimento de uma xenofobia que tendeu a crescer com o passar dos séculos.36
Além das figuras já citadas no decorrer desse trabalho, outros ainda podem ser enumerados como exemplo da contribuição estrangeira em diversos setores da Cultura Japonesa:
Acreditamos ter conseguido mostrar a extraordinária importância da imigração coreana para a formação do Japão. A atuação dos imigrantes foi assim relevante em primeiro lugar pela facilidade com que uma cultura mais rica se impõe sobre outra mais pobre e em segundo lugar pelo próprio esforço despendido pelos japoneses no sentido de se igualarem em nível cultural aos países do Continente, esforço que os levou a buscarem a cooperação dos imigrantes. É obvio que o progresso do Japão não foi devido apenas à imigração, mas também ao envio de estudantes à Coréia e à China, os quais voltaram para o Japão imbuídos de novos conhecimentos e idéias indispensáveis para o aprimoramento das instituições do Império. Sem a imigração, porém, é provável que a assimilação da cultura continental pelos japoneses tivesse sido mais lenta. É significativo o fato do Japão, uma vez conquistado um nível de civilização em nada inferior a de seus vizinhos, ter se fechado à imigração: isso mostra que o que o Japão mais procurava através do incremento da vinda de estrangeiros era a elevação de seu nível cultural. Em suma, tivemos um exemplo de como a imigração estrangeira pode afetar o desenvolvimento cultural de um povo. Num país como o nosso, jovem, ávido de enriquecer sua cultura e recebedor de grandes contingentes de imigrantes, não será de todo inútil, pensamos, procurar meditar sobre casos como o que estudamos.
Prof. Eurípedes Simões de Paula (FFCL da USP): Pergunta: Os Ainus, raça branca ainda hoje existente em solo nipônico, teriam vindo ou não, na sua migração rumo ao Japão, através da Coréia? Prof. Ricardo Mário Gonçalves: Disse que os Ainus constituem hoje um mistério para os historiadores e etnólogos japoneses. Não se sabe ao certo a sua origem, mas provavelmente chegaram ao Japão vindos da Sibéria, através da Península Kamtschatka e das ilhas Kurilas. Na Antigüidade espalharam-se por toda a ilha de Honshu, a principal do Japão, mas a medida que o Estado Japonês foi aumentando de extensão, foram sendo repelidos para o norte. Prof. Jaime Pinsky (FFCL de Assis – SP): Diz que o Autor na página 113 afirma que os governadores japoneses adotaram o Budismo para fortalecer o poder central. Ora, se essa religião penetrou no Japão no século VI, trazida por imigrantes (da Coréia e da China) que se constituíram numa espécie de grupo à parte, em termos de cultura e tecnologia; pergunta, pois: não teria sido a adoção do Budismo motivada, não apenas por razões de fortalecimento do poder central, mas também e ainda pela necessidade de integração de grupos técnica, cultural e economicamente superiores? Prof. Ricardo Mário Gonçalves: Afirma que não pode dizer que o Budismo tenha servido para a assimilação dos imigrantes à cultura japonesa, pois ele foi até o século XII uma religião restrita à classe dominante, à qual os imigrantes foram assimilados, classe que apresentava características culturais totalmente diferentes da massa campesina, cuja religião era uma forma de xamanismo. Os imigrantes que não foram enquadrados na classe dominante, ao invés de guardarem o Budismo, foram, absorvidos pelo xamanismo local. Profª Josephina Chaia (FFCL de Marília – SP): Diz que uma vez que Autor afirma que foram os escribas coreanos que levaram os elementos constitutivos para a escrita japonesa, pergunta: até que ponto a educação chinesa teria influenciado a educação japonesa? Qual a influência resultante do estabelecimento dos monges budistas que se refugiaram no Japão no século XIII ao XVII? Prof. Ricardo Mário Gonçalves: Respondeu que a civilização chinesa influenciou bastante a japonesa. As primeiras escolas, criadas no século VIII para a formação de letrados e funcionários, foram organizadas segundo o modelo chinês e nelas eram ensinados os clássicos confucionistas. Além disso, os monges budistas chineses que entraram no Japão em diversas épocas foram responsáveis pela divulgação de novas idéias sobre a educação. Prof. Sebastião Romano Machado (FFCL de Franca – SP): Pergunta: Se a Coréia foi tão determinante na formação do Japão Antigo, como o Autor explica a estratificação japonesa em um período estático tão dilatado? Prof. Ricardo Mário Gonçalves: Disse que embora o Japão estivesse virtualmente fechado sobre si mesmo numa grande parte de sua história, isso não significa que ele tivesse permanecido estático, numa “escura Idade Média”. Mesmo sem levar em conta os séculos XVI e XVII, em que o Japão teve contatos com o Ocidente antes de fechar os seus portos, só abertos no século XIX, notamos profundas transformações na sociedade e na cultura japonesa. Até o século XII encontramos um Estado centralizado, dominado por uma aristocracia latifundiária ligada à Corte Imperial e a partir dessa época forma-se uma ordem feudal. Cada uma dessas fases é caracterizada por grandes realizações culturais, como por exemplo a literatura feminina na primeira, a reforma budista, o teatro Nô, o Ikebana (arranjo floral), a Cerimônia do Chá, os poemas Haikai na segunda.
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