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Ricardo
Mário Gonçalves Considerações sobre o Culto
Este trabalho tem como objetivo principal estudar um assunto pouco abordado até agora no Ocidente, ou seja, as idéias sobre o tempo e a história encontradas no pensamento religioso do Extremo-Oriente. Embora a maior parte dos trabalhos sobre a história da historiografia ou sobre a idéia da história se limitem ao estudo do Ocidente ou, quando muito, dediquem apenas umas poucas breves páginas ao Oriente onde são repetidos alguns lugares comuns sobre as doutrinas orientais, é vastíssimo o material a ser explorado na Ásia Oriental a respeito desse tema. Se na Índia, a preocupação pelo universal em detrimento do particular levou a um desprezo quase total pela história, exceção feita ao Budismo, na China encontramos uma atitude totalmente oposta, fruto do caráter pragmático do chinês, que tende a valorizar o particular e a desprezar o universal. É na história que o Confucionismo vai buscar exemplos e modelos éticos para governantes e governados, daí a extrema valorização das crônicas e anais na civilização chinesa. Em outros povos, como tibetanos e cingaleses, também encontramos uma historiografia e idéias originais sobre a história1. Devido à enorme extensão deste campo inexplorado de estudos que é a historiografia oriental, desde cedo percebemos a impossibilidade de nos lançarmos a um estudo sério e aprofundado da mesma em sua totalidade, mormente em nosso país, dada a extrema dificuldade de acesso às fontes e à bibliografia. Optamos, pois, por um setor apenas, o de estudo das idéias budistas sobre a história e, dentro desse campo, pelo Budismo Medieval Japonês e sua original Teoria da Decadência que já foi por nós abordada ligeiramente em uma comunicação apresentada ao I Colóquio Brasil-Japão promovido pela UNESCO em São Paulo, em 1965, trabalho que representou, aliás, nosso primeiro passo para a elaboração deste estudo2. Dentre as várias escolas japonesas da Idade Média que se ocuparam da Teoria da Decadência, focalizamos principalmente a Escola da Terra Pura, centralizada no culto de Amida, o Buda da Luz e da Vida Infinitas, pois é nela que o tema foi tratado com maior profundidade e por se tratar da escola que mais adeptos encontrou entre o povo japonês, sendo importantíssimo seu estudo, principalmente para a história social e política, dada sua vinculação com os movimento camponeses de rebelião contra as autoridades feudais, nos séculos XV e XVI. Dentre os vários patriarcas fundadores dos movimentos englobados pela Escola da Terra Pura, focalizamos especialmente a figura de Shinran, fundador do sub-ramo Shin da dita escola, a mais difundida entre a população rural do Japão, e entre os imigrantes japoneses radicados no Brasil, onde conta com duas importantes ramificações, o Templo Honpa Hongwanji e o Templo Nambei Honganji, com sede em São Paulo e núcleos regionais nos principais centros de colonização nipônica. Assim, fizemos, porque é com Shinran que a Teoria da Decadência foi mais aprofundada e teve seu tratamento mais original, passando de uma concepção da história para uma reflexão em dimensão existencial sobre a fraqueza e a maldade inatas no homem, possibilitando uma experiência religiosa que muito se aproxima das que encontramos no Protestantismo. Ao pesquisarmos a evolução da Teoria da Decadência e idéias correlatas desde sua origem na Índia, verificamos que elas atingem o apogeu de sua popularidade nas épocas de crise e inquietação. Surgida na Índia do Noroeste, no século VI de nossa era, quando a civilização budista indiana sofreu um rude golpe frente às invasões dos Hunos Brancos ou Eftalitas, encontrou ela ampla aceitação na China do mesmo período, fragmentada politicamente e assolada por profundas crises econômicas e sociais. Embora conhecida no Japão desde o século VIII, ela só despertou a atenção geral nos séculos XII e XIII, período crítico de profundas transformações na sociedade japonesa, com a decadência da aristocracia latifundiária e da monarquia despótica constituída segundo o modelo chinês e o advento da sociedade feudal, liderada pela classe guerreira dos “samurais”, instauradora do Bakufu ou Xogunato (governo militar) de Kamakura. Essa coincidência nos levou a aventar a hipótese de que essas idéias, no Extremo-Oriente, tiveram a função de dar, nas épocas de crise, uma explicação para as incertezas e calamidades e de apontar aos indivíduos um caminho para sua superação. Pressupondo que é nas épocas de crise e incerteza que os homens começam a especular sobre o sentido de suas vidas e do mundo em que vivem, passando assim a refletir sobre a história, veríamos na Teoria da Decadência e particularmente no Amidismo, em que a mesma se acha inserida, um exemplo de consciência histórica no mundo extremo-oriental. Em nosso trabalho procuramos demonstrar essa hipótese através do estudo pormenorizado do caso japonês e da confrontação do mesmo com seus antecedentes indianos e chineses. Para isso, não pudemos limitar nossa análise aos textos dos mestres amidistas, tivemos de recorrer às mais diversas fontes japonesas, principalmente dos séculos XII e XIII, para verificar o clima de inquietação e incerteza que favoreceu a ampla difusão e aceitação da Teoria Budista da Decadência. Dentro dessa perspectiva, estudamos primeiramente o período da formação do Amidismo Japonês, a saber, a época da decadência da monarquia despótica e da ascensão dos militares (do século X ao século XIII), que corresponde ao início da Idade Média Japonesa, que, segundo a maioria dos autores, compreende o período que se estende da tomada do poder pelos militares (1185) até a reunificação do Japão no fim da época das guerras civis, por volta de 1600, procurando fazer o levantamento dos fatores econômicos, sociais, políticos e culturais que favoreceram a difusão da Escola da Terra Pura e a aceitação da Teoria da Decadência, examinamos depois a evolução do Amidismo, desde suas origens indianas até sua implantação no Japão, analisando suas vinculações com as demais correntes budistas e inserindo-o em seu contexto sócio-cultural; verificamos em seguida as origens e a difusão da Teoria da Decadência, analisando sua aceitação no Japão, suas ligações com o Amidismo, sua presença na literatura religiosa e profana do Japão até o século XIII e finalmente apresentamos um estudo detalhado sobre a obra de Shinran e as idéias do mesmo sobre a decadência. Nas conclusões, apresentamos considerações sobre o Amidismo e o pensamento de Shinran, em particular, como um exemplo de consciência histórica no Extremo-Oriente Medieval. Nosso estudo é ante de mais nada um trabalho de História das Religiões, porque, embora estejamos interessados na análise de uma concepção da história, ela se apresenta como parte de um sistema religioso e, particularmente no caso de Shinran, constitui importante elemento de uma profunda experiência espiritual. Não obstante a possibilidade de ser estudada em alguns de seus aspectos à luz da História das Idéias, da Sociologia do Conhecimento e outras disciplinas, guarda a Teoria Budista da Decadência um núcleo irredutível só captável pelas disciplinas que estudam o fenômeno religioso como tal. Assim, embora interessados na Teoria Budista da Decadência vista como uma concepção da história, não queremos perder de vista seu caráter de fenômeno religioso, daí nossa opção pela História das Religiões. Compreendemos a História das Religiões como o faz Mircea Eliade, isto é, como uma ciência-síntese que se utiliza de dados fornecidos por outras disciplinas, manipulando-os segundo seus métodos próprios e visando seus objetivos particulares. Assim, em nosso trabalho recorremos aos dados fornecidos pela História Econômica, Política e Social, pela Fenomenologia da Religião, pela Psicologia Analítica e outras disciplinas, sempre visando chegar a uma compreensão global da Teoria Budista da Decadência encarada como fenômeno religioso. Escassa é a bibliografia em língua ocidental referente ao Amidismo e, em sua maior parte, não transcende o nível da informação de caráter geral. Assim, a maior parte da bibliografia utilizada em nosso trabalho é escrita em língua japonesa e a tradução dos textos originais citados é de nossa inteira responsabilidade. Nossa bibliografia poderá ser tida como incompleta e muitos apontariam uma lista de fontes originais que poderiam ter sido consultadas. Dada, porém, a extrema dificuldade em conseguir no Brasil material para realizar um estudo desta natureza, preferimos, ao invés de procurar fontes raras e não publicadas, restringir nossa pesquisa a fontes já editadas e bem acessíveis como as obras de Shinran e os clássicos da literatura japonesa antiga e medieval. Nossa originalidade estará nos métodos de abordagem próprios à História das Religiões e na tentativa de interpretação global da Teoria da Decadência, levando em conta seus antecedentes e paralelos indianos e chineses, coisa que ainda não foi tentada pelos especialistas japoneses, que geralmente têm aprofundado em suas monografias aspectos particulares da questão, sem terem ainda elaborado em síntese3. Poder-se-iam considerar supérfluas as informações de caráter geral sobre a história do Japão e o Budismo que constam de nosso trabalho, mas achamos conveniente incluí-las, não só para facilitar sua leitura aos leigos em estudos orientais, mas também para convertê-lo em um instrumento de trabalho útil aos estudantes interessados em se iniciarem na História da Ásia Oriental. A bibliografia e as notas, para maior comodidade do leitor, foram organizadas em volume à parte. O sistema empregado foi o usado pela coleção francesa L’Évolution de l’Humanité, em que as obras, grupadas por assunto, são precedidas por números de código em algarismos romanos, através dos quais são elas citadas nas notas, o que elimina repetições desnecessárias e evita eventuais confusões. Agradecemos a revisão da grafia dos termos em Sânscrito feitos pelos Profs. Yûshô Miyasaka e Kôshô Yamamoto. Quanto à transliteração do idioma japonês, empregamos o sistema Hepburn que, embora bastante influenciado pela ortografia inglesa, reproduz com relativa fidelidade os fonemas da língua japonesa. Convém lembrar ao leitor brasileiro que:
A exemplo do que fazem muitos especialistas ocidentais, os nomes de personagens históricos japoneses são escritos à maneira nipônica, isto é, o nome da família (sei) precedendo o nome do indivíduo (na), ao passo que os nomes dos autores modernos são grafados no sistema ocidental. Queremos agradecer aqui ao nosso orientador Prof. Dr. Eurípedes Simões de Paula, que nos animou a levar avante este trabalho: à Profª Maria Heloísa Fenelon Costa, do Departamento de Antropologia do Museu Nacional, à Drª Nise Magalhães da Silveira, diretora do Centro de Estudos C. G. Jung do Rio de Janeiro, ao Prof. Dr. Yûshô Miyasaka, da Universidade Kôyasan e ao Prof. Kôshô Yamamoto da Universidade Ryûkoku pelas valiosas críticas e sugestões recebidas; ao Bispo Ryûkei Kitajima, ao Rev. Shinshô Sasaki e a todos os missionários do Templo Honpa Hongwanji do Brasil, que colocaram todos os recursos de sua instituição a nosso disposição; aos Professores Murillo Nunes de Azevedo e Frei Raimundo de Almeida Cintra, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, ao Rev. Youmei Sasaki, do Templo Nippakuji de São Paulo, ao Rev. Ryohan Shingu da Comunidade Budista Sôtô Zenshû, e ao Sr. Koichiro Yahara, que generosamente nos franquearam o acesso a sua bibliotecas particulares, e, finalmente, ao Bispo Seytsu Takahashi e ao Rev. Eikan Ikeguchi, do Koyasan Buddhist Temple de Los Angeles pelo valioso apoio moral que sempre nos têm dispensado. Não poderíamos também deixar de mencionar a saudosa Mestra Eishin Yamamoto, do Templo Yakushiji, falecida a 17 de junho de 1972 e o inesquecível amigo Takuzen Hayashi, fundador do Templo Budista Kôyaji do Brasil, falecido a 23 de setembro de 1972.
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