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Ricardo
Mário Gonçalves IV
Capítulo
Shinran é um dos patriarcas do Budismo japonês mais estudado por historiadores e especialistas em pensamento budista. Paradoxalmente, é um dos mestres cuja biografia é menos conhecida. Fora algumas biografias escritas muitos anos após sua morte, repletas de narrações de autenticidade duvidosa, apenas dispomos de algumas cartas e de breves passagens autobiográficas de seus tratados para tentar reconstituir sua agitada existência. As fontes de que dispomos para o estudo da vida de Shinran são as seguintes:
Além das cartas escritas pelo próprio Shinran, de que trataremos mais adiante ao analisar sua obra, uma das mais importantes fontes para o estudo da vida desse Patriarca é a coleção de dez cartas escritas por Eshin-ni, esposa de Shinran e Kakushin-ni, a filha mais nova de ambos. Foram descobertas em 1921 pelo Prof. Kyôdô Washio nos arquivos do Templo Nishi Honganji de Kyoto e vieram lançar nova luz sobre muitos pontos obscuros da vida de Shinran. As duas primeiras cartas estão datadas de 1257, algum tempo depois de Eshin-ni deixar Shinran e Kakushin-ni em Kyoto, retirando-se para Echigo, sua terra natal. As cartas restantes foram escritas após a morte de Shinran, entre 1263 e 12686.
Shinran pouco escreveu a respeito de sua vida. Em seus tratados e hinos encontramos muitas reflexões sobre seus conflitos interiores, mas pouquíssimos dados autobiográficos objetivos. Os poucos dados que nós temos consistem no seguinte:
O caráter laudatório e pouco objetivo do Hôonkôshiki, do Shinran Den-e e demais textos biográficos e a inexistência de outras fontes, exceto breves referências autobiográficas nos textos referentes a Shinran, fizeram com que os primeiros historiadores científicos do Japão, nos fins do século passado e nos inícios deste, formados numa linha positivista de crítica sistemática aos documentos, colocassem em dúvida tudo o que a tradição dizia sobre o mesmo. Foi rejeitada, por exemplo, a genealogia de Shinran contida no Hôonkôshiki, no Shinran Den-e e outras fontes, que o apresentam como descendente de um ramo da família Fujiwara. Alguns, como o historiador marxista Shisô Hattori procuravam mostrar Shinran como sendo de origem camponesa. Autores mais extremados chegaram mesmo a negar a existência histórica de Shinran, considerando-o um personagem imaginário criado por Kakunyo para dar maior peso às doutrinas amidistas por ele pregadas. A descoberta das cartas de Eshin-ni lançou novas luzes sobre as pesquisas em torno de Shinran. Nos trabalhos surgidos recentemente, devidos a especialistas como Kazuo Kasahara10, Saburo Ienaga11, Toshihide Akamatsu12, Kyôshô Hayashima13 e outros, notamos que, se ainda muitos pontos da vida de Shinran ainda permanecem obscuros, muitos problemas já foram suficientemente esclarecidos. Determinados pontos, afirmados pela tradição e negados pelos primeiros pesquisadores positivistas, são hoje confirmados pelas modernas pesquisas. De acordo com os trabalhos mais recentes, o que sabemos a respeito de Shinran se resume no seguinte: Shinran nasceu em 1173, em Kyoto, filho de Hino Arinori, um aristocrata de baixa condição, descendente de um ramo colateral da família Fujiwara. Em 1181, ano da morte de Taira-no-Kiyomori, ordenou-se monge na qualidade de discípulo de Jien, o erudito autor do Gukanshô. A partir dessa época, estudou no mosteiro do Monte Hiei, onde segundo uma das cartas de Eshin-ni, desempenhou a função de Dôsô, isto é, de monge encarregado de marchar em torno da estátua de Amida recitando continuamente seu nome, no Jôgyô-Zanmai-Dô. Tal função era exercida por monges de baixa categoria, o que mostra que sua posição no grande mosteiro Tendai não era das melhores. Provavelmente, seu interesse pelas doutrinas amidistas foi despertado pelo exercício dessa função. Em 1201 abandonou ele o mosteiro e, segundo uma das cartas de Eshin-ni que confirma tradições registradas por Kakunyo e outros biógrafos, realizou um retiro de cem dias no Rokkaku-dô, pequeno pavilhão de Kyoto dedicado ao culto de Kannon e do Príncipe Shôtoku. No fim desse retiro teria tido um sonho no qual o Príncipe Shôtoku lhe teria revelado que ele encontraria seu caminho junto ao Mestre Hônen. Parece ainda que o conteúdo desse sonho está relacionado com a posterior renúncia de Shinran ao celibato monacal, já que uma tradição associa a um verso no qual Kannon anuncia que se manifestará como mulher para ser por ele desposada. Até 1207, data de seu confinamento, permaneceu ele em Yoshimizu, nos subúrbios de Kyoto, como discípulo de Hônen. Em 1204 assinou juntamente com os demais discípulos de Hônen o manifesto que este lançou para acalmar seus perseguidores. No ano seguinte obteve de Hônen permissão para pintar seu retrato e copiar o Senchaku Hongan Nembutsu Shû, o que mostra que o mestre o tinha em alta consideração. Desconhecem-se as razões pelas quais Shinran foi confinado juntamente com Hônen. Alguns autores acreditam que tal castigo se deu ao fato de Shinran ter se casado publicamente, o que não é de todo impossível. A questão do casamento de Shinran permanece bastante obscura e as opiniões dos diferentes pesquisadores divergem. A tradição registrada por Kakunyo e outros biógrafos relata que, obtendo de Hônen a permissão de demonstrar publicamente através da prática, a doutrina de que a salvação através do Nembutsu independia da obediência aos preceitos monásticos como o celibato, teria ele desposado a princesa Tamahi, filha do Kampaku Kujô Kanezane. Tal tradição é hoje recusada unanimemente, visto que as tábuas cronológicas da família Kujô não registram nenhuma filha do mesmo com esse nome. É provável, porém, que Shinran já estivesse casado em Kyoto por ocasião do exílio ou com uma mulher cujo nome se perdeu, ou com a própria Eshin-ni. Esta, nascida em 1183, era filha de Miyoshi Tamenori, rico senhor de terras da província de Echigo, no Japão Noroeste, onde Shinran foi confinado em 1207. Se muitos autores admitem que o casamento de Shinran com Eshin-ni data da época do confinamento em Echigo, o Prof. Toshihide Akamatsu admite que o mesmo se tenha realizado anteriormente em Kyoto, já que sabemos que Eshin-ni viveu nessa época na capital com o nome de Chikuzen. Quando de seu exílio em Echigo, Shinran foi obrigado a retornar à condição de leigo, tendo lhe sido dado o nome de Fujii Yoshizane. A partir dessa época passou a declarar-se Hisôhizoku (nem monge nem leigo), atribuindo-se o epíteto de Gutoku (tonsurado ignorante):
Em 1211 Shinran recebeu anistia, mas ao invés de regressar a Kyoto decidiu se dirigir ao Japão Oriental para se dedicar à difusão do Nembutsu entre o povo. Em 1214, de passagem pela província de Kozuke, sentiu-se tentado a iniciar a prática de ler mil vezes os Três Sutras da Terra Pura, em benefício dos seres viventes, mas logo desistiu de tal idéia, considerando-a fruto de resquícios da idéia de salvação através do próprio esforço, própria do Budismo não amidista. Dirigiu-se depois para a província de Hitachi, fixando-se na localidade de Inada, no Município de Kasama, onde redigiu a maior parte de seu tratado monumental Kyôgyô Shinshô. Shinran desempenhou intensa atividade missionária no Japão Leste até 1232, data de seu retorno a Kyoto. Iniciou nessa região cerca de 44 discípulos, que se tornaram líderes de comunidades amidistas. Segundo uma das cartas de Eshin-ni, viveu uma experiência, em 1231, de profunda importância, viu em sonho diante de seus olhos o texto dos Três Sutras da Terra Pura que intentara ler mil vezes anos atrás. Shinran interpretou esse sonho como resultado da persistência do egoísmo e da idéia de salvação através do próprio esforço, mesmo depois de sua conversão à doutrina da salvação através do Voto de Amida, há tanto tempo atrás. O regresso de Shinran a Kyoto se deve possivelmente ao fato das perseguições ao Nembutsu desencadeadas pelo mosteiro do Monte Hiei a partir de 1224 repercutirem no Oriente do país. Regressando a Kyoto, mandou Eshin-ni para Echigo, conservando junto a si a filha Kakushin-ni. Viveu a última fase de sua vida na capital, graças ao auxílio da família e às contribuições enviadas por seus discípulos do Leste, com quem se correspondia freqüentemente. Seus últimos anos, dedicados à redação da maior parte de sua vasta obra, foram abalados por um triste acontecimento: tendo surgido uma série de divergências entre os fiéis da região Leste, motivadas pela difusão de opiniões errôneas sobre o Nembutsu, Shinran enviou seu filho mais velho Zenran para esclarecer a situação. Este, porém, aproveitou-se da oportunidade para firmar-se como líder, difamando os fiéis seguidores de Shinran e proclamando ter recebido de seu pai um ensinamento secreto que o tornava o único e legítimo propagador do Nembutsu. Tal atitude forçou Shinran a deserdá-lo por intermédio de uma carta escrita em 1256. A morte de Shinran se deu em fins de 1262, sendo seus ossos sepultados no mausoléu de Otani, em Kyoto, onde mais tarde foi erigido o Templo Honganji, sede do principal ramo da escola constituída sobre os ensinamentos do mestre, liderado por seus descendentes em linha reta. A obra escrita de Shinran, bastante vasta, pode ser dividida, segundo o Prof. Fumio Masutani, em cinco partes: 1) Monrui ; 2) Mon-i ; 3) Wasan ; 4) Shôroku ; 5) Cartas.16
Uma obra de Shinran que não entra em nenhuma das categorias anteriores é o Gutokushô (Notas de um Tonsurado Ignorante)29, trabalho em que, depois de elaborar a classificação de sua doutrina em função das outras correntes do Budismo, Shinran expõe seus pontos principais tomando por base o tratado sobre o Amitâyur-Dhyâna-Sûtra de Chan-Tao. Devemos mencionar também as compilações de palavras de Shinran elaboradas postumamente, das quais a mais importante é o Tannishô (O Tratado de Lamentação das Heresias)30, redigido por seu discípulo Yuien. É um dos textos amidistas mais lidos, por ser escrito em linguagem facilmente compreensível, isenta dos inúmeros termos técnicos tão comuns nos tratados budistas e também por representar uma dramática confissão das experiências interiores de Shinran, mais eloqüente talvez que a de seus tratados, hinos e cartas. Compreende duas partes: na primeira encontramos diversas considerações de Shinran a respeito de sua salvação através do Voto Original de Amida e na segunda, são refutadas as principais opiniões heréticas sustentadas por alguns de seus seguidores. A essência da doutrina de Shinran se encontra exposta em seu principal trabalho, o Kyôgyô Shinshô, onde ele expõe, através de citações de Sutras e Tratados, acompanhados de breves comentários sua busca e o encontro final com a salvação através do Voto de Amida. Não intentava ele proclamar uma doutrina própria, dizia-se um fiel seguidor das doutrinas de Hônen, mas na realidade, em muitos pontos passou ele além de seu mestre. Vejamos os principais pontos de sua doutrina:
A principal característica da doutrina de Shinran é sua rejeição, no pensamento e na ação, do Budismo monástico tradicional. Não só tomou ele como modelo inspirador a figura do Príncipe Shôtoku, em seu aspecto de pregador laico do Budismo, como também viveu, na prática, a condição de religioso laico, rejeitando os preceitos e contraindo publicamente matrimônio, ao passo que outros mestres amidistas como Hônen e Ippen contentaram-se em expor teoricamente a doutrina da salvação dos leigos, continuando, na prática, a reger suas vidas pelos preceitos monásticos tradicionais.31
Para Shinran, a salvação não depende da recitação do Nembutsu em si, mas sim de uma experiência interior da fé. O crente está salvo quando sente uma crença inabalável na eficácia salvadora do Voto de Amida. O Nembutsu que realmente conta para a salvação é o recitado nesse momento fundamental em que o coração do fiel se abre para a fé salvadora. Os Nembutsu recitados posteriormente são simplesmente uma expressão da alegria e da gratidão do fiel que se sente salvo e uma prática compassiva destinada a beneficiar os demais seres através da divulgação do Nome Salvador. Afirmando que a salvação se define em um único instante de conversão à Verdadeira Fé, Shinran se aproxima bastante da doutrina do Ichinen, embora dela se afaste ao insistir na prática do Nembutsu de gratidão. Declara-se ele um pobre ignorante incapaz de qualquer esforço para sua própria salvação, nada mais podendo fazer do que abandonar-se a uma fé incondicional, como declara no seguinte trecho do Tannishô:
Aproxima-se bastante da doutrina cristã da Graça ao declarar que própria fé não é o resultado de um esforço humano, mas sim que ela é colocada no coração do homem pela Compaixão Salvadora de Amida. Os trechos seguintes do Tannishô são bastante ilustrativos desse ponto:
Assim, para o Amidismo a fé não é apenas um sentimento experimentado pelo homem. É também uma dádiva de Buda aos seres viventes, que a experimentam sob dois aspectos: a crença na salvação ofertada por Buda, propriamente dita e a consciência por parte do fiel da incapacidade absoluta de qualquer esforço por sua salvação36. Shinran considerava esse tipo de fé bastante difícil de ser vivenciado, devido à persistência da idéia de que o homem é capaz fazer alguma coisa para sua salvação. Sua experiência pessoal desse ponto pode ser percebida através do episódio da leitura dos Três Sutras da Terra Pura por mil vezes que citamos acima. Na 6ª parte do Kyôgyô Shinshô descreve sua experiência de fé como tendo se desenrolado em três fases correspondentes a três diferentes votos de Amida (Sangan Tennyô). A primeira fase, corresponde ao 19º Voto de Amida, corresponderia à fase em que o homem ainda tem a pretensão se salvar através de seu próprio esforço. A segunda corresponde ao 20º Voto, representa o encontro do homem com o Voto Salvador de Amida, mas nela permanecem resquícios da primeira fase: o homem ainda vê o Nembutsu como uma prática que ele executa graças a seu próprio esforço. Shinran dizia que os que permaneciam nessas fases não renasciam na Verdadeira Terra Pura de Amida, mas sim numa espécie de limbo destinado aos que conservam quaisquer ilusões a respeito de suas capacidades em promover a própria salvação ou quaisquer dúvidas quanto à eficácia do Voto Salvador. Só na terceira fase, correspondente ao 18º Voto de Amida, em que o homem renuncia de maneira racional a qualquer esforço próprio, tornando-se receptivo à fé que lhe é oferecida por Amida é que o homem alcança a verdadeira experiência de salvação37. Confessa ele:
Pelo que foi exposto, o leitor poderá concluir um pouco apressadamente que a fé amidista de Shinran é semelhante à do Cristianismo. Se bem que certas posições de estudiosos cristãos do Budismo como Raimundo Panikkar apresentem atualmente a tendência de aproximar a fé cristã da budista42, nunca é demais insistir em mostrar as diferenças, para evitar generalizações apressadas. No Cristianismo sempre permanece uma diferença essencial entre Deus e Suas criaturas, ao passo que no Amidismo de Shinran o homem se torna num Buda semelhante a Amida e como ele começa a exercer uma atitude compassiva visando a salvação dos demais seres viventes. Sendo o Prof. Kunitoshi Oka, no Budismo teríamos sempre uma transcendentalização da existência do homem (o homem tornando-se Buda) ao passo que no Cristianismo sempre temos uma interiorização da transcendência pelo homem, através da Graça43. Vários textos de Shinran falam no Gensô Ekô (Dádiva do Regresso), oposta ao Ôso Ekô (Dádiva do Ingresso). Esta última é a dádiva que Buda oferece ao homem através do 18º Voto, permitindo-lhe o ingresso na Terra Pura, ao passo que a primeira é a dádiva que o homem salvo e renascido na Terra Pura, tornado semelhante a Buda, faz aos seres viventes, regressando a este mundo e trabalhando pela salvação dos mesmos. A respeito desse ponto, lemos no Kyôgyô Shinshô:
Shinran faz no Tannishô a paradoxal afirmação de que a salvação dos maus é mais certa do que a dos bons:
Essa doutrina da salvação dos maus – Akunin Shôki – é uma das mais discutidas e controvertidas idéias de Shinran. No texto acima fica bem patente a importância da fé como único fator de salvação, no pensamento do mesmo. Para Shinran, os “bons” são os que, não obstante manifestarem a crença no Voto Salvador de Amida, ainda se julgam capazes de realizarem por si mesmos obras que auxiliam a salvação. Já os “maus”, para Shinran são os verdadeiros e legítimos receptáculos da compaixão salvadora de Amida, são aqueles que têm a exata consciência da fraqueza da natureza humana e renunciaram totalmente a qualquer esforço próprio, confiando inteiramente no Poder Externo, isto é, na eficácia do Voto de Amida. Para Shinran é a fé que salva, e não as obras. A idéia do Akunin Shôki tem como precursores certas coletâneas de biografias de místicos amidistas dos fins do período Heian que se referem à salvação de monges que violaram determinados preceitos e em algumas palavras de Hônen46. O Prof. Saburo Ienaga procura vinculá-la com o despertar da consciência religiosa entre a nova classe dos samurais, cuja ocupação guerreira lhes fechava definitivamente o caminho da salvação nos termos do Budismo tradicional47. Os Profs. Enchô Tamura e Hajime Nakamura consideram-na uma idéia isolada em toda a história do pensamento japonês, em que pouco ou nenhuma consciência há do problema do mal vinculado à natureza ou a atividade humana, chegando o primeiro a lançar a hipótese de que tal doutrina tenha sido elaborada por Yuien, já que ela não aparece em outros textos além do Tannishô48. Entretanto, encontramo-la sugerida no seguinte versículo do Jôdo Wasan:
Pode-se vincular a doutrina do Akunin Shôki com a conotação toda peculiar que toma a idéia de Karman na doutrina de Shinran. De uma maneira geral, toma-se a idéia de Karman no Budismo para expressar a idéia de que o homem se faz a si próprio, através de seus pensamentos, palavras e ações. Difere do fatalismo puro e simples porque, se o presente do homem é resultado de seu Karman passado, isto é, dos pensamentos, palavras e obras que ele realizou no passado, poderá ele modificar sua situação futura através de sua atuação presente. Para Shinran, porém, a idéia de Karman tem um sentido completamente diferente. Vejamos novamente o Tannishô:
Assim, Shinran admite que nossas ações estão pré-determinadas pela nossa herança kármica (shukugô). Não tem ele forças para superá-la e praticar qualquer ato, bom ou mau, exceto os condicionados pela mesma, que são sempre maus. Em outras palavras, tudo isso significa que os pensamentos, palavras e ações do homem pertencem ao plano do limitado, do contingente e do relativo, sendo incapazes de atingir o Absoluto. Só resta ao homem renunciar a qualquer esforço, abrindo-se numa atitude receptiva de fé para que o Absoluto nele se manifeste. As palavras seguintes do pensador cristão Raimundo Panikkar sobre a experiência religiosa no Budismo Primitivo se aplicam perfeitamente à religião de Shinran:
O Amidismo anterior a Shinran era uma religião voltada quase que exclusivamente para a vida depois da morte. Rejeitava-se este mundo e buscava-se avidamente renascer na Terra Pura de Amida depois da morte. Já vimos como certas linhas amidistas valorizavam o Raigô – visão da figura de Amida e seus acólitos na hora da morte. Já a religião de Shinran apresenta uma conotação diferente. A salvação é obtida não como a morte, mas no instante em que o indivíduo se abre totalmente à fé doada por Buda, que faz dele um Genshô Shôjôjû, um homem cuja salvação está garantida e que jamais poderá retroceder. Assim, a religião de Shinran não acena ao homem como uma salvação para depois da morte, mas sim o faz viver, graças a fé, com a certeza de que ele já está salvo53. Que significa então a Terra Pura para Shinran? Uma expressão para tornar compreensível ao homem o Absoluto, que está além de toda forma, de toda a conceituação, além da vida e da morte. O renascimento na Terra Pura é a realização do Nirvana, da Suprema Perfeição, da Plenitude da Compaixão e Sabedoria:
A essência da religião de Shinran está contida no Jinen Hônishô (Texto Sobre a Naturalidade), passagem do Shôzômatsu Wasan escrita em 1258, onde se lê:
Depois dessa rápida visão dos principais pontos da religião de Shinran, cumpre dizer algumas palavras a respeito do back-ground histórico-social da mesma. O Prof. Saburo Ienaga procura mostrar que a mensagem de Shinran se dirigia principalmente aos samurais, por causa da doutrina do Akunin Shôki, ao passo que o Prof. Toshihide Akamatsu procura vinculá-la aos comerciantes e artesãos em ascensão no período de Kamakura56. Entretanto, sem negar a existência de samurais, artesãos e comerciantes nas comunidades amidistas criadas em torno de Shinran, demonstrada por esses autores, a associação de sua doutrina com os camponeses, que notamos em toda a posterior evolução histórica da mesma demonstra de sobejo que a sua mensagem se dirigia principalmente aos mesmos, como mostram os estudos de Shisô Hattori57, Kazuo Kasahara58 e Kenkô Futaba59. Os trabalhos dos referidos autores, vem como os estudos de Enchô Tamura60, mostram que na medida em que o Nembutsu libertava os camponeses de sua escravidão à religião tradicional associada aos proprietários de terras e aos Jitô, e que proporcionava aos mesmos uma oportunidade de se organizarem, atraía a repressão, facilitada pelo fato de haver muitos abusos por parte de fiéis que se entregavam a todos os excessos, sob o pretexto de terem sido salvos pelo Voto Original. A posição tomada por Shinran era de deplorar esses abusos, causas das perseguições, e de aconselhar os fiéis a se mudarem para regiões onde estivessem ao abrigo das mesmas. Embora não pregasse a revolta violenta contra as autoridades, mantendo-se assim fiel aos ideais de não-violência do Budismo Original, Shinran não quis se associar às mesmas, como fazia o velho Budismo aristocrático. Recomendava aos fiéis que recitassem o Nembutsu em intenção da conversão dos poderosos61. Entretanto, nos séculos posteriores, freqüentemente as organizações amidistas da linha de Shinran se associaram aos Ikki ou revoltas camponesas contra as autoridades feudais62.
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