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Ricardo
Mário Gonçalves III
Capítulo
É a partir do século X, quando começam a ocorrer no estado japonês as primeiras transformações que culminarão no advento da ordem feudal, que a idéia de Mappô passa a calar fundo nas consciências. Multiplicam-se as considerações a respeito da decadência. O Mappô passa a ser, não mais um mero elemento de uma teoria não apenas na literatura religiosa, mas também em obras profanas trazidas do estrangeiro, discutida e citada por alguns monges letrados mais por questão de erudição do que por qualquer preocupação concreta, mas sim como uma realidade terrível e desesperadora, como o único esquema capaz de explicar uma série de contradições e problemas insolúveis, como a única chave para a compreensão de uma avalanche de crises e catástrofes sucessivas. Veremos, em primeiro lugar, o desenvolvimento da idéia de Mappô na literatura sagrada para depois nos ocuparmos dos textos profanos. A idéia de Mappô começa a adquirir importância no século X, ligada ao desenvolvimento do Amidismo aristocrático. O Ôjôyôshû de Genshin foi a obra que mais contribuiu para a difusão dessa idéia, que correspondia plenamente às inquietações da pequena e média nobreza de Kyoto, cercada em suas aspirações pelo implacável domínio dos Fujiwara. Lemos no início do prefácio dessa obra:
Assim, logo no início do texto o Amidismo é apresentado como uma doutrina própria para o período do Mappô. Mais adiante, a mesma afirmação é feita:
O Mappô é poucas vezes citado textualmente nessa obra, que dele se ocupa diretamente. Entretanto, o livro se revela profundamente vinculado com essa idéia, dada a sua descrição viva dos tormentos infernais e das misérias humanas, nos capítulos iniciais dedicados à rejeição do mundo, que causaram mais repercussão do que as enfadonhas descrições da Terra Pura e de suas maravilhas, nas partes subseqüentes. Genshin tem consciência de viver numa época impura, marcada pelas “cinco imperfeições”, na qual o único caminho de salvação para o homem, carregado de culpas, está nas práticas amidistas. Não é de se admirar, pois, que o livro tenha se tornado bastante apreciado principalmente a partir de 1052, data apontada como o início do Mappô pelo monge Kôen em sua crônica Fûsôryakuki, publicada por volta de 10943. A difusão da idéia do Mappô vinculada com o Amidismo levou Kakuban a refutá-la, do ponto de vista de seu Nembutsu Esotérico. Diz ele em seu Gorin-Kuji-Hishaku (Tratado Secreto do Pagode de Cinco Estágios e das Nove Letras):
Em outro texto, o Amidabutsu-Hishaku (Tratado Secreto do Buda Amida) critica ele não só a teoria da decadência, mas também a doutrina da rejeição do mundo:
Hônen, o primeiro dos patriarcas reformadores do Budismo de Kamakura, apresenta o Mappô como um dos motivos que o levaram a optar pelo Nembutsu. No início do Senchaku-Hongan-Nembutsu-Shû (Coletânea sobre a Escolha do Nembutsu do Voto Original) são citados os textos do An-Lo-Chi em que Tao-Chao estabelece a distinção entre o Amidismo e as demais escolas do Budismo e mostra que o mesmo é a doutrina apropriada para o Mappô7. Nos comentários que faz ao mesmo, após citar os mestres chineses do passado que abandonaram outras doutrinas budistas para se dedicar ao culto de Amida, diz ele:
O sexto capítulo, destinado a mostrar que o Nembutsu é a única prática a subsistir quando todas as outras tiverem desaparecido durante o Mappô, é um comentário ao texto do Grande Sukhâvatîvyûha que promete a persistência do mesmo por cem anos depois da extinção das demais doutrinas. Mostra ele em primeiro lugar que a persistência do Sûtra outra coisa não é senão a do Nembutsu. Demonstra em seguida que Buda, em sua infinita compaixão, selecionou esse Sûtra entre todos os outros para subsistir após o Mappô justamente por ser o que contém a doutrina de salvação de todos os seres através do Voto Original de Amida. Afirma finalmente a validade do ensinamento do Nembutsu durante as três épocas9. No Wagô Tôroku (Relatos da Lâmpada na Língua do Japão), coletânea de pequenas exposições doutrinárias, cartas e diálogos de Hônen, encontramos vários textos referentes ao Mappô. O primeiro é o Nembutsu Tai-i (Idéias Gerais Sobre o Nembutsu), que se inicia com as seguintes palavras:
Mais adiante temos:
Temos ainda o texto do diálogo entre Hônen e Myôe:
Vemos que Hônen reconhecia a não existência de preceitos no Mappô e que foi influenciado nesse ponto pelo Mappô-Tômyôki. É importante lembrar que a consciência que ele tinha de estar vivendo no quinto período de quinhentos anos, caracterizado pelo conflitos, está ligada às guerras entre as famílias Genji e Heike de que foi testemunha, embora não aprofunde no assunto. Hônen limitou-se a constatar o Mappô e a demonstrar a possibilidade de salvação nessa época sombria através do Nembutsu mas não explorou o tema da decadência até as últimas conseqüências, como o fez Shinran13. A posição deste último será examinada detalhadamente no próximo capítulo. Na obra de Eisai, também encontramos a consciência do Mappô e a influência do Mappô-Tômyôki, citado várias vezes em seu Kôzen-Gokokuron (Tratado sobre a proteção do país através da promoção do Zen). Considera-se vivendo no segundo século do quinto período de quinhentos anos e lembra profecias a propósito da difusão de uma profunda doutrina nos primeiros anos do Mappô, que ele identifica com o Zen14. Cita depois uma passagem do Mappô-Tômyôki referente à não existência dos preceitos no Mappô para refutá-la, insistindo na possibilidade de guardá-los mesmo em plena época da decadência15. Já na obra de Dôgen deparamos com uma negação radical da idéia de Mappô. Assim, lemos no Shôbô-Genzô-Bendowa (O Depósito do Olho da Verdadeira Lei – Palavras Sobre o Estudo do Caminho):
O mesmo ponto de vista é aprofundado no Shôbô Genzô Zuimonki (O Depósito do Olho da Verdadeira Lei – Relatos Conforme Perguntas):
Nota-se neste, como em outros pontos da doutrina de Dôgen, uma semelhança com o pensamento da escola Shingon exposto por Kûkai e Kakuban. Devemos mesmo considerar a possibilidade de ter havido alguma influência do esoterismo sobre a obra de Dôgen18. Lembremos ainda que, não obstante sua negação da idéia do Mappô, Dôgen não pode deixar totalmente de lado o problema do tempo, tendo vivido numa época em que a preocupação com a decadência era geral. Segundo o Prof. Kyoichi Kazue, as profundas reflexões filosóficas sobre o tempo que Dôgen expôs em seu Shôbô Genzô Uji (O Tesouro do Olho da Verdadeira Lei – Existência e Tempo) teriam sido suscitadas por sua preocupação em libertar seus seguidores da submissão ao Mappô, já que suas teorias a respeito da descontinuidade do tempo e o caráter absoluto do “Agora” se chocam frontalmente com a idéia da decadência na história, que supõe um tempo contínuo19. No pensamento de Ippen também está claramente presente a idéia de Mappô. Tendo alguém lhe perguntado se outras práticas que não o Nembutsu também conduzem ao renascimento na Terra Pura e se o Nome Santo seria superior ou inferior ao Sûtra do Lótus da Boa Lei, respondeu ele:
Na obra de Nichiren, nesta questão do Mappô, como em outras, é evidente a influência do pensamento de seu grande inimigo Hônen. Muitas de suas fontes são textos amidistas. A aceitação do Saddharmapundarikasûtra era por ele considerada a única via de salvação válida para o Mappô, tal como Hônen e os demais amidistas consideravam o Nembutsu. De todos os mestres da época, foi quem mais mencionou o Mappô, que é citado cerca de 625 vezes em sua obra. Segue ele a versão segundo a qual o Shôbô e o Zôhô têm mil anos e o Mappô dez mil anos de duração21. As obras em que mais ele desenvolveu a idéia de Mappô, são as seguintes, em ordem cronológica:
No Kyôkijikokushô procura mostrar ele que o Sûtra da Boa Lei é a essência do Budismo e a doutrina apropriada à natureza das pessoas, à época de decadência e ao Japão. Adverte que, embora no Mappô devam ser venerados os monges que não obedecem aos preceitos, isso não se aplica aos que atacam o Saddharmapundarikasûtra. A veneração de tal tipo de monges atrairia uma série de calamidades sobre o país. No Kanjin Honzonshô é também demonstrado que Saddharmapundarikasûtra será pregado no Mappô22. No Senjishô, Nichiren apresenta sua versão da história do Budismo: durante os mil anos do Shôbô o mesmo se desenvolveu na Índia e quinze anos depois de iniciado o Zôhô foi introduzido na China; 400 anos após o advento do Zôhô foi por fim introduzido no Japão. A atuação de Saichô teria correspondido ao 8º século do Zôhô, ao período em que predomina a construção de templos e torres votivas, segundo o Mahâsamnipâtasûtra. Nichiren considerava-se vivendo nos primeiro duzentos ano do Mappô e invoca o advento do império mongol, a conquista pelo mesmo da China e da Coréia e a primeira tentativa de invasão do Japão ocorrida no ano anterior à redação do texto, para justificar sua posição. Proclama ser chegada a era da difusão do Saddharmapundarikasûtra23. No Kangyô Hachimanshô, texto escrito um ano antes da segunda tentativa mongol de invasão do Japão, discute vários aspectos da história profana e religiosa do Japão, à luz da idéia do Mappô. Afirma que todo o Budismo do Japão nasceu do Saddharmapundarikasûtra, que todas as divindades nacionais são protetoras desse texto e que caem em erro todos os monges budistas e sacerdotes xintoístas que não aceitam esse fato. Censura Hachiman, o deus da guerra do samurais, por não ter protegido convenientemente sua pessoa de apóstolo do Saddharmapundarikasûtra quando foi ameaçado de morte por seus inimigos e considera o ataque mongol de 1275 ao Japão e conseqüente incêndio do santuário de Hachiman em Kyushu como um castigo por essa falta de zelo do deus em defender o profeta da Verdadeira Doutrina24. Nota-se em Nichiren, mais do que em qualquer outro mestre budista, a preocupação de mostrar concretamente a relação entre o advento do Mappô e os acontecimentos da história profana, considerada sempre subordinada à sagrada. A preocupação com o destino do Japão e o empenho em denunciar os erros dos monges e autoridades de seu tempo conferem a seus textos um cunho racionalista e profético. Sente-se em sua obra uma firme convicção de que é possível restaurar a Verdadeira Lei nos dias do Mappô através da difusão do Saddharmapundarikasûtra25. Examinada a posição dos reformadores, vejamos agora a dos conservadores. Em textos de monges eruditos dos templos de Nara, encontramos muitas citações a respeito do Mappô, mas notamos aí apenas espírito de erudição e nenhuma preocupação em criticar ou restaurar a religião de seu tempo. Só na obra de homens como Jôkei (1155-1213) e Myôe (1173-1232) é que sentimos uma real preocupação em restaurar a prática correta do Budismo com todo o rigor e em promover a salvação dos seres nascidos na época das “cinco impurezas”26. Jôkei, também chamado Gedatsu Shônin, era monge do Templo Kôfukuji de Nara e foi um dos responsáveis pelo exílio de Hônen. Filho de um nobre que gozava de grande prestígio antes de cair em desgraça por ocasião da Revolta de Heiji, da qual foi um dos planejadores, dedicou-se ao estudo da filosofia Yogacara. Seus mestres tentavam restaurar a tradição de estudos doutrinários que caracterizava o Kôfukuji antes de sua decadência vinculada à sua participação nos conflitos políticos. Teve ocasião de ouvir os cursos sobre os Sutra da Terra Pura ministrados por Hônen em Nara. Passou depois um período nas montanhas próximas a Nara, entregue à prática da meditação e dedicou os vinte anos finais de sua vida à tentativa de restaurar o Verdadeiro Budismo do tempo de Sâkyamuni. Insistia sempre no culto ao fundador do Budismo, em franca oposição ao culto de Amida pregado por Hônen. Foi tocado pela influência do Nembutsu, que em seu caso consistia na invocação de Maitreya, o Buda futuro. Para ele, a salvação do homem do Mappô não estava no Voto Original de Amida, mas sim na invocação do nome de Maitreya, que lhe permitiria renascer no céu Tucita, morada do Buda. Praticou muitas técnicas de contemplação e no fim de sua vida se deixou tocar pelo Nembutsu amidista27. Myôe, monge da escola Kegon, também conhecido pelo nome de Kôben, tinha como ideal a restauração do Budismo de Sâkyamuni. Emprenhou-se na observância escrupulosa dos preceitos búdicos em sua divulgação e chegou a intentar uma viagem à Índia para entrar em contato direto com a terra da Lei de Buda. Oriundo de uma família de samurais, aplicava na ascese búdica toda a energia e desprendimento que os guerreiros dispensavam ao aprendizado das artes marciais. Em oposição ao Nembutsu amidista, pregava o Kômyô Shingon (Mantra da Luz) do Budismo Esotérico. Sua posição em relação ao Mappô lembra a dos mestres do Shingon e a de Dôgen: aquele que se empenha de corpo e alma ao trabalho ascético certamente alcança a iluminação, independentemente da época em que tenha nascido28. Em seus textos lamenta a decadência moral e o abandono dos preceitos em sua época, atribuindo essa degradação do Budismo ao advento do Mappô29. Resta ainda lembrar o Shaseki-shû (Coletânea de Areia e Pedras) de Mujû (1226-1312). Trata-se de uma antologia de pequenas narrativas de fundo budista, escritas em linguagem acessível ao povo. Embora seu autor fosse um monge Zen da escola Rinzai, trata-se de uma obra eclética, com abertura para as teorias e práticas das demais escolas budistas e também para o Xintoísmo e Confucionismo. Nota-se apenas uma crítica ao exclusivismo dos amidistas, que levava à rejeição do culto às divindades xintoístas, que é expressa num conto no qual o protagonista, um fiel amidista, é castigado por ter negligenciado o culto das divindades nacionais30. Nesse mesmo conto o Amidismo é apresentado como uma escola própria ao Mappô:
Em outro conto, novamente o Mappô é citado numa comparação entre o Nembutsu e o Esoterismo Shingon:
Em outra narrativa, o rei Asoka é lembrado como um soberano afortunado que reinou no Shôbô:
Temos ainda a exposição da idéia de que mesmo os monges do Mappô, que não recebem mais os preceitos, são dignos do respeito geral36. Vimos, pois, que nas principais obras de literatura religiosa dos últimos séculos do período Heian e do período de Kamakura revelam uma preocupação com o problema da decadência, quer seus autores sejam reformistas ou conservadores, de origem aristocrata, militar ou plebéia, que aceitem ou recusem a idéia da decadência, a reflexão sobre o Mappô é um denominador comum no pensamento de todos eles. Vejamos agora de que maneira a idéia da decadência está presente na literatura profana do mesmo período. Em primeiro lugar, consideraremos os diários dos nobres da corte, talvez os documentos mais importantes para acompanhar o desenvolvimento da consciência do Mappô na aristocracia de Kyoto. O Prof. Kyôichi Kazue elaborou um minucioso estudo sobre o assunto, cujo resumo apresentamos nas linhas que se seguem37. A fragilidade do sistema dos Shôen em que repousava o poderio dos Fujiwara, o advento dos samurais, a luta pelo poder dentro da própria família dominante, a anarquia nas províncias acentuavam um sentimento de inquietação no seio da nobreza, que se tornou mais intenso após a morte de Michinaga (1027), quando os conflitos recrudesceram. A estagnação cultural, o definhamento do espírito criador, a incerteza em relação ao dia seguinte, desenvolveram a idéia da impermanência, o enfado e a tristeza. A decadência do Budismo, cujos monges se mostravam cada vez mais atuantes nos conflitos econômicos e mais indiferentes à vida religiosa, a turbulência dos monges guerreiros, o desprezo pelos preceitos, constituíam um espetáculo que evocava em quem o contemplava as profecias do Mahâsamnipâtasûtra, sem falar dos incêndios, fomes e demais calamidades. Não é de se admirar, pois, que além dos religiosos, os nobres tenham demonstrado uma evidente consciência de um processo de decadência, nos textos de seus diários. Não só as teorias budistas, mas também as idéias confucionistas sobre a decadência influíram na formação dessa consciência. O Prof. Kyôichi Kazue elaborou um levantamento das catástrofes e calamidades mencionadas na literatura aristocrática, do século X ao XI. Temos assim, em Kyoto e arredores, dezessete incêndios de templos e palácios, três epidemias, seis desordens e conflitos causados pelos monges dos grandes mosteiros de Kyoto e Nara, duas secas, quatro inundações e um forte terremoto. Na primeira metade do século XI, temos dezenove incêndios, quatro epidemias, sete conflitos e duas secas38. Não estão incluídos nesse rol as calamidades da mesma natureza ocorridas nas províncias, nem as revoltas e distúrbios, nem as incursões de salteadores e piratas. Os diários de aristocratas de que dispomos para acompanhar a evolução da idéia de decadência nesse período são os seguintes:
Vejamos agora a consciência do Mappô na historiografia dos períodos Heian e Kamakura. Nos últimos séculos do período Heian a historiografia é representada pelo chamados Rekishi Monogatari ou narrativas históricas fortemente influenciados pelas narrativas de ficção. Escritos, em japonês, refletem a ascensão da aristocracia, que ocupa em suas páginas papel de destaque, em contraste com a historiografia oficial do período de Nara e primeiras fases do período Heian, escrita em chinês clássico e centralizada nos imperadores, de quem fazia a apologia. Essa velha historiografia palaciana, que nasceu em 712 com o Kojiki (Relato das Coisas Antigas) e se firmou com o Nihongi (Crônica do Japão) tinha como principal objetivo exaltar o poder imperial e seu caráter divino. Com a ascensão da aristocracia e o crescente desprestígio da coroa foi perdendo sua razão de ser a partir dos inícios do século X, após a publicação do Nippon Sandai Jitsuroku (Relato Verídico de Três Reinados do Japão) em 901, as crônicas oficiais passam para segundo plano, sendo sua redação abandonada totalmente décadas depois44. As origens dos Rekishi Monogatari estão na literatura feminina principalmente no Genji Monogatari. No capítulo do mesmo denominado Hotaru (Vagalume), sua autora Mirasaki Shikibu apresenta a sua concepção de Monogatari. Diz ela que embora se trate de narrativa de ficção, deve o Monogatari retratar fielmente a realidade. Se isso é conseguido, o Monogatari será superior à historiografia oficial, que só dá um retrato bastante superficial do mundo real. Dentro dessa concepção, o Genji foi planejado para retratar com relativa fidelidade o mundo de sua autora. A figura do protagonista Hikaru Genji foi construída a partir de modelos reais, principalmente Korechika e Michinaga. A estrutura da narrativa, desenrolando-se em ordem cronológica e abrangendo o reinado de quatro imperadores se apresenta como o protótipo de uma narrativa histórica. Assim, serviu o Genji de modelo e inspiração para a posterior redação dos Rekishi Monogatari45. O primeiro deles é o Eiga Monogatari (História da Glória e do Luxo), obra em quarenta rolos, que trata da ascensão dos Fujiwara e principalmente da vida de Michinaga e da descrição de sua glória e poder. Os trinta rolos iniciais, principal parte da obra, foram compostos por volta de 1030 pela dama Akazome-Emon, provavelmente com a colaboração de seu marido Ôe Masahira, ex-historiógrafo da corte. A autoria dos dez rolos finais ainda não foi definitivamente esclarecida pelos especialistas46. A obra, escrita em ordem cronológica, abrange o período de 946 (reinado do Imperador Murakami) até 1028 (reinado do Imperador Go-Ichijô). Apresenta-se como uma obra escrita em continuação à última crônica oficial. Trata-se, antes de mais nada, de uma crônica laudatória dos Fujiwara, que atinge o seu clímax ao retratar o apogeu da carreira política de Michinaga. Escrita posteriormente ao falecimento deste, numa época em que já se sentiam os prenúncios da decadência do poderio dos Fujiwara, reflete um certo saudosismo em relação aos anos de maior fastígio e esplendor dessa família. Não obstante seu caráter, não faltam nela reflexões sob a impermanência das coisas e a consciência do Mappô. Na narração dos acontecimentos do ano de 1006, após mencionar um incêndio no palácio imperial, diz o texto:
No rolo denominado Utagai (Dúvida), centralizado na vida religiosa de Michinaga, após o relato da peregrinação feita por este ao santuário do Monte Kôya em 1023, encontramos menções ao Zôhô, em um trecho de louvor à piedade do Kampaku:
No final do rolo denominado Tsuru-no-Hayashi (Bosque das Cegonhas) a morte de Michinaga é comparada à de Buda, após a qual o mundo entrou numa era sombria:
Vemos que no Eiga Monogatari ainda é bem tênue a consciência da decadência. As imagens budistas da mesma são evocadas principalmente como figuras de retórica, em trechos de exaltação de Michinaga. Já no segundo dos Rekishi Monogatari, o Ôkagami (O Grande espelho) o sentimento de declínio se mostra bem mais acentuado. Composto em fins do século XI ou inícios do século XII por autor ainda não determinado, o Ôkagami revela uma visão da história bem mais crítica do que a do Eiga Monogatari. À semelhança deste, seu tema é o poderio dos Fujiwara, especialmente o de Michinaga, mas seu autor vai buscar suas raízes num passado bem mais longínquo. Abrange o período que vai do reinado do Imperador Montoku (850-857) até 1025. Ao contrário das crônicas até então escritas no Japão, que seguiam exclusivamente a ordem cronológica, o Ôkagami inaugura um novo estilo de redação histórica inspirado na historiografia chinesa, o Kiden-tai ou estilo biográfico. Esse estilo, inaugurado por Ssuma Tsien (século II a.C.), autor do Shi-chi (Memórias Históricas) consiste em alinhar uma série de biografias, em primeiro lugar as dos imperadores, em seguida as de grandes signatários e funcionários, além de várias monografias sobre assuntos diversos53. Dos seis rolos que compõem o Ôkagami, o primeiro é dedicado a biografias dos imperadores e os cinco restantes a personagens ilustres da família Fujiwara, sendo que a vida de Michinaga ocupa lugar de destaque, em que velho de idade de 190 anos que se apresenta como testemunha dos acontecimentos comenta os mesmos com um grupo de personagens. A consciência de Mappô do Ôkagami se revela bem mais profunda que o do Eiga Monogatari principalmente por ter sido escrito já no período do Insei, em que já era mais evidente o declínio dos Fujiwara e já se faziam sentir os primeiros sinais da dissolução do estado antigo, com a anarquia crescente e a presença cada vez mais atuante dos samurais. O autor sente que o processo de decadência começou quando o poder político escapou definitivamente das mãos da Coroa a partir da era Tenryaku (947-956), no reinado do Imperador Murakami:
O Ôkagami assimilou a concepção cíclica budista dos Kalpas e a idéia de que a decadência moral é acompanhada pela diminuição progressiva da vida humana. No rolo final, o velho contador de histórias diz o seguinte:
Depois do Ôkagami, temos o Imakagami (Espelho do Agora), crônica escrita em fins do século XII por autor ainda não determinado. Foi concebido como uma continuação do Ôkagami e deste copia a forma, mas por seu espírito, está mais próximo do Eiga Monogatari. Abrange o período que vai do reinado do Imperador Go-Ichijô (1016-1035) ao do Imperador Takakura (1168-1179). À semelhança das crônicas anteriores, concentra-se na vida da família imperial e da nobreza e ignora quase totalmente os importantes conflitos de Hôgen e Heiji e a conseqüente ascensão da família Taira. Insiste principalmente no relato de aspectos da atividade literária da nobreza56. Conserva do Ôkagami a idéia da diminuição progressiva da vida humana na época da decadência. Referindo-se ao reinado do Imperador Horikawa (1086-1106) diz que é muito raro que soberano dos tempos finais permaneça no poder por 21 anos57. Saudosista em relação ao passado, ao elogiar algo do presente, compara-o a algo da Antigüidade. Um poema é louvado no sentido de ser de uma beleza rara nos tempos finais58. Lamenta a morte do jovem imperador Nijô (reinou de 1158 a 1164) atribuindo-a à era da decadência, em que pessoas de boas qualidades têm vida breve59. Antes de falar no Mizukagami (Espelho da Água), o Rekishi Monogatari que se segue ao Imakagami, cumpre tratar do Fusoryakuki (Relato Abreviado do Japão), crônica na qual o mesmo se baseia. Composto em chinês pelo Ajari60 Kôen (...? – 1169) é uma crônica em ordem cronológica que vai desde o lendário Imperador Jinmu até o Imperador Horikawa. Hoje só resta uma versão abreviada da mesma. Pode ser considerada uma história do Budismo japonês, tal é a importância que nela é dada aos fatos religiosos. A história japonesa é sempre situada em função da cronologia da história budista. O autor admite a progressiva decadência da doutrina e anuncia o advento do Mappô no 7º ano da era Eijô (1025)61. O Mizukagami pouco mais é do que uma tradução para o japonês do Fusoryakuki. Composto em inícios do século XIII por autor ainda não determinado, abrange o período que vai do reinado de Jinmu até o Ninmei (833-849). Incorpora a teoria cíclica dos Kalpas e ao contrário da crônica precedente não se mostra saudosista em relação ao passado: prosperidade e declínio são vistos como fases diferentes de um ciclo que se repete indefinidamente62. A última crônica da série é o Masukagami (Espelho Aumentado), que não diz respeito ao nosso estudo, uma vez que sua elaboração é posterior a 1376. Passemos agora ao estudo do Gukanshô (Miscelânea de Visões Pessoais de um Tolo), a mais importante produção da historiografia aristocrática do período de Kamakura. Seu autor Jien (1155-1225), que por várias vezes ocupou o cargo de Tendai Zasu (Grão-Mestre da Escola Tendai) era irmão de Kujô Kanezane e teve uma ação muito destacada não só na vida religiosa mas também nos círculos políticos e literários de seu tempo. Deixou numerosas poesias. Ao contrário de seu irmão, não aceita a doutrina de Hônen, da qual emite uma opinião bem pouco lisonjeira em sua obra, Entretanto, não era totalmente indiferente ao Amidismo, no qual buscava sua salvação pessoal. Fiel à tradição Tendai, encarava o Budismo como estreitamente vinculado ao Estado, cuja prosperidade dependia da perfeita observância da doutrina, principalmente em seus aspectos mágicos63. O Gukanshô foi escrito pouco antes da Revolta de Jôkyû (1219) com um propósito bem definido: convencer o In Gotoba e seus assessores a desistir de seu plano de uma rebelião armada contra o xogunato de Kamakura. À semelhança de seu irmão Kanezane, preconizava uma política de cooperação harmoniosa entre a aristocracia de Kyoto e os dirigentes militares de Kamakura. Para demonstrar sua tese, faz o retrospecto de toda a história do Japão, desde o legendário Imperador Jinmu até a época de Gotoba. O Gukanshô se compõe de sete partes, sendo que as duas primeiras consistem em simples tábuas cronológicas e genealógicas dos imperadores. Nas quatro partes que se seguem, toda a história do Japão é analisada e na última, o autor apresenta suas conclusões gerais. Jien admite que a marcha da história é regida por um princípio a que dá o nome de Dôri (razão) ou Mono-no-dôri (razão das coisas). Essa razão não é imutável, modifica-se conforme as características de cada época. Fortemente influenciadas pelas teorias cíclicas do Budismo e pela idéia do Mappô vê ele a manifestação do dôri como um processo progressivo de degradação do poder imperial, que atinge seu ponto crítico quando o governo passa definitivamente para as mãos dos samurais. Entretanto, para ele a decadência não é irreversível, mas apenas um momento de processo cíclico, seguido por uma fase de renovação e prosperidade que corresponderia concretamente a uma era de cooperação entre guerreiros e aristocratas. Embora sua obra esteja profundamente impregnada de idéias mágico-religiosas próprias ao sincretismo búdico-xintoísta e à doutrina Tendai, sua concepção de Mappô é mais política do que religiosa64. Critica os Rekishi Monogatari por se limitarem a narrar os acontecimentos “felizes”, abstendo-se de contar os trágicos eventos que principiaram com a Revolta de Hôgen65. Usa poucas vezes a palavra Mappô, que parece evitar propositadamente, preferindo as expressões sinônimas Matsudai e Yo-no-sue de menor conotação religiosa. Identifica o início da era da decadência com a morte de Yoritomo66. Apresenta uma tentativa de periodização da história do Japão, que é inserida dentro da teoria cíclica dos Kalpas. Divide-a em sete fases caracterizadas por uma decadência progressiva da razão (dôri) que culmina em seu total desaparecimento na derradeira fase, em que o autor escreve67. O advento do poder dos samurais é interpretado como fenômeno da era da decadência:
O desaparecimento da Espada Sagrada, uma das Três Jóias da Coroa Imperial Japonesa, que se perdeu no mar por ocasião da batalha de Dan-no-Ura é visto como símbolo do fim do poder militar do imperador, que passou definitivamente para as mãos dos guerreiros cujo advento é visto como uma substituição do tesouro perdido69. Além das crônicas propriamente ditas, podemos considerar as narrativas épicas do período de Kamakura como parte da literatura historiográfica, como faz o Prof. Taro Sakamoto70. A mais representativa epopéia da época é o Heike Monogatari (Romance dos Heike), que narra a guerra entre os Minamoto e os Taira, insistindo na descrição da desgraça desses últimos. O Heike Monogatari se compõe de um conjunto de baladas que eram cantadas ao som da biwa (espécie de guitarra) por menestréis cegos, os biwa-bôshi. Existem numerosas versões dessa epopéia, que não pode ser atribuída a um único autor e se compõe de uma série de episódios independentes, alinhavados entre si por diversos redatores em épocas diversas. A redação de um núcleo inicial da epopéia é atribuída a Shinano Zenji Yukinaga, pequeno nobre a serviço de Kujô Kanezane e discípulo de Jien. Realmente, embora o Heike Monogatari se ocupe dos conflitos entre famílias guerreiras que marcaram o advento do xogunato de Kamakura, reflete ele uma ideologia conservadora e pessimista típica da aristocracia da época. Suas idéias dominantes são impermanência e a rejeição do mundo própria do Budismo da Terra Pura. Sua visão pessimista se reflete na própria escolha do tema: ao invés de focalizar as vitórias dos Minamoto e a fundação do xogunato, prefere se concentrar nas derrotas e na destruição final dos Taira71. No texto do Heike Monogatari não faltam alusões diretas à idéia de Mappô. Assim, no segundo capítulo, em que se narra que Taira-no-Tadamori, pai de Kiyomori compareceu armado a uma festa na Corte, menciona-se que muitos se inquietaram com esse fato, prevendo graves conseqüências por ele ter ocorrido no Mappô72. No décimo capítulo, vemos o In Goshirakawa atribuir o orgulho de Kiyomori ao Mappô73. No penúltimo capítulo, embora não haja menção direta ao Mappô, está bem presente a idéia de rejeição do mundo típica do Amidismo em um longo texto em que Kenreimon-in relembra as vicissitudes dos Taira e sua derrota final, comparando-as a uma peregrinação pelos seis planos de existência impermanente e dolorosa pregados pelo Budismo74. Uma outra tendência historiográfica se reflete no Azuma Kagami (Espelho do Leste), crônica oficial do xogunato de Kamakura que abrange os acontecimentos ligados ao mesmo, no período de 1180 a 1268. Nesse, como em outros textos devidos à nova classe dominante, como as cartas de Yoritomo e o Código Jôei, ao invés da idéia de decadência, nota-se que é dada ênfase à idéia de construção ou criação de uma nova era, expressa principalmente pela expressão Tenka Sôsô (Início da Dominação). Embora não se possa afirmar que a idéia de Mappô inexista totalmente entre os guerreiros, cumpre notar que ela se liga principalmente à velha aristocracia em declínio e não aos samurais em ascensão. Se em textos como o Gukanshô predomina uma atitude pessimista, saudosista e negadora da realidade, no Código Jôei, por exemplo, nota-se uma atitude totalmente oposta, otimista em relação ao futuro, construtiva e afirmadora da realidade75. Para terminar esta análise da historiografia, resta examinar os primórdios do pensamento xintoísta medieval. Xintoísmo, que se desenvolve no século XIII devido principalmente à importância do culto das divindades nacionais entre os guerreiros e ao despontar do sentimento nacionalista frente à ameaça representada pelos mongóis, representa uma das soluções apresentadas para o impasse colocado pelo advento do Mappô. Ressurgem as idéias da divindade do imperador e da sacralidade da terra japonesa, que haviam sido totalmente esquecidas durante o domínio dos Fujiwara. Mesmo em certos meios budistas existe a idéia de que o imperador, através de uma política correta, poderá, com seu poder divino, afastar os males do Mappô. Também se admite que rituais budistas podem agir sobre os deuses nacionais, incitando-os a auxiliar o imperador na tarefa de proteger o país. A idéia de Mappô faz que se invertam os termos do antigo sincretismo búdico-xintoísta em certos autores: os deuses nacionais, outrora considerados mera emanações das divindades búdicas, passam para o primeiro plano. É como se o Budismo, aniquilado pelo advento do Mappô, readquirisse sua eficácia graças ao poder divino do imperador e dos deuses nacionais. Nichiren, Myôe, Ippen e Muju refletem em seus escritos esse prestígio crescente das idéias xintoístas entre os budistas. No campo da historiografia, a superação definitiva da idéia de Mappô foi realizada no século XIV por Kitabatake Chikafusa (1293-1354) em seu Jinnô Shôtôki (Crônica da Legítima Linhagem de Imperadores Divinos), trabalho de inspiração xintoísta que procura explicar a história do Japão em função da origem divina de seus imperadores. Entretanto, cumpre notar que já no século XIII tivemos trabalhos históricos de inspiração xintoísta, como o Shaku Nihon-gi (Interpretação do Nihon-gi), composto por Urabe Kanebumi, sacerdote do santuário de Hirano, entre 1267 e 1277. Essa obra tem muitos pontos em comum com a historiografia aristocrática: escrita numa época de mudanças e crise, reflete um saudosismo em relação à Antigüidade, que é pintada como uma idade de ouro. Lamenta a decadência do poder da aristocracia e encontra consolação no estudo dos clássicos da Antigüidade, particularmente nas tradições mitológicas ligadas à origem divina do império. Criticam-se, porém, as idéias de decadência, particularmente a crença bastante difundida nos fins do período Heian e no período de Kamakura de que o império se extinguiria ao chegar a dinastia imperial do centésimo soberano76 Lembremos que na historiografia a idéia de Mappô difere da encontrada nos textos dos líderes budistas pelo fato de vir inserida na doutrina cíclica dos Kalpas, abrindo perspectivas para uma regeneração, o que não encontramos na literatura religiosa. Encontramos menções ao Mappô também nas coletâneas de contos de temas religiosos e profanos elaborados no período que nos ocupa. Assim, no Konjaku Monogatari (Contos de Hoje e Antanho), antologia elaborada por autor indeterminado na época do início do Insei, encontramos, na parte dedicada aos contos budistas, cerca de nove alusões ao Mappô77. Na maior parte dos casos, trata-se de relatos portentos e milagres que o redator se admira de terem ocorrido em pleno Mappô, mas temos também alusões à inobservância dos preceitos na era da decadência e à eclosão de epidemias. Também se recomenda a devoção ao Buda Amida e ao Bodhisattva Jizô como um caminho de salvação própria para o Mappô. No Ujishui Monogatari (Contos de Ujishui), outra coletânea de autor desconhecido, elaborada entre 1212 e 1221, encontramos três referências ao Mappô, duas ligadas a milagres78 e uma em que o incêndio do Tôdaiji por Taira Shigehira em 1180 é apresentado como evento típico da era da decadência79. Para terminar este inventário da idéia de Mappô nos textos literários, resta-nos tratar da chamada “literatura dos retirados” (Inton Bungaku), que caracteriza a primeira fase da Idade Média japonesa. Deve-se a uma série de personagens que “retiram-se do mundo” (Inton) tomando hábito de monge budista, mas sem se deixar envolver pela vida religiosa, permanecendo como observadores críticos dos acontecimentos mundanos e dedicando-se à prosa e à poesia. Temos em primeiro lugar o Hôjôki (Crônica de uma Cabana de Monge), pequeno ensaio em prosa escrito em 1212 por Kamo-no-Chômei (1153-1221), “retirado” oriundo de uma família de sacerdotes xintoístas. O autor, que viveu grande parte de sua vida em Kyoto, relata nesse livro uma série de catástrofes (incêndios, fomes e terremotos) que se abateram sobre a cidade de Kyoto na época da guerra entre os Taira e os Minamoto. Não se refere diretamente à idéia de Mappô, mas o tema tratado e o tom pessimista fazem desse livro um exemplo típico da literatura da decadência. As palavras da introdução sintetizam a visão de mundo do autor:
Temos também o poeta Saigyô (1118-1190). Oriundo de uma família de samurais, chegou a ocupar cargos na corte, mas com 23 anos abandonou a família e a posição, tornando-se monge errante. Notabilizou-se como poeta, mantendo relações com Jien e outros grandes letrados de seu tempo. Ema alguns de seus poemas denuncia a crise política e social de seu tempo, lamenta a época de decadência em que vive81 e as numerosas mortes causadas pela guerra entre Taira e Minamoto82. Em dois poemas menciona claramente a idéia de Mappô83. Entre seus temas, está também o sofrimento dos condenados no inferno, elemento associado ao Amidismo e à idéia de decadência desde a época de Genshin84. No mesmo grupo temos ainda Yoshida Kenkô (1282-1350), que em seu Tsurezure-gusa (Páginas do Lazer) também mencionou a idéia de decadência, mas não nos ocuparemos dele, visto se tratar já da literatura do século XIV. Finalizando, cumpre lembrar que a idéia de Mappô está presente também na música e nas artes plásticas do período, principalmente nas pinturas do inferno (Jigoku-hen) e nos rolos ilustrados (Emakimono) referentes aos planos dolorosos de existência (Rokudo-e), importantes elementos da produção artística do período de Kamakura85.
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