Ricardo Mário Gonçalves
Considerações sobre o Culto de Amida no Japão Medieval


III Capítulo
A Idéia de Decadência no Budismo Japonês


a) A idéia de decadência no Budismo Chinês

No pensamento chinês tradicional anterior ao Budismo não faltavam alusões a um processo de decadência, o que deve ter predisposto os budistas chineses a aceitarem e desenvolverem as teorias do Mappô. Os clássicos chineses fazem várias referências a uma idade de ouro situada na origem da História, em que reinava a mais absoluta perfeição moral. Os confucionistas consideravam os estadistas dessa antigüidade remota como perfeitos modelos de virtude e a história antiga era, pois, vista como uma fonte de ensinamentos morais. Confúcio lamentava a decadência dos costumes e instituições de seu tempo e preconizava a volta ao espírito da época dos Reis Sábios do passado1. Uma das principais preocupações do pensamento confucionista está na preservação e transmissão correta do ritual e da etiqueta herdados do passado remoto. Confúcio insistia em dizer que nada ensinava de novo, limitando-se a transmitir as doutrinas antigas:

“Repito e não crio; apenas confio no antigo e o aprecio.” (Analectas VII: 1)2

Durante uma de suas peregrinações no exílio, Confúcio declarou aos discípulos:

“Há muito tempo não existe mais a ordem moral sob o céu.” (Analectas VIII: 24)3

Em outro texto, Confúcio descreveu o processo de decadência que culminou em sua época:

“Quando a ordem moral existe sob o céu, a etiqueta, a música e o domínio emanam do soberano; quando ela se perde, a etiqueta, a música e o domínio emanam dos príncipes; quando emanam dos príncipes, é raro que não se percam ao cabo de dez gerações; quando emanam da nobreza, é raro não se perderem ao cabo de cinco gerações; quando os súditos da nobreza se apoderam do mandato, é raro não se perderem em três gerações; quando a ordem moral existe sob o céu, o poder existe sob o céu, o povo não se entrega a discussões.” (Analectas XVI: 2)4

Esse texto reflete não só a anarquia e a fragmentação política que caracterizava a China do tempo de Confúcio, mas também uma espécie de nostalgia dos confucionistas em relação a um hipotético passado em que o soberano teria sido a fonte dos princípios éticos e de todo o ritualismo e etiqueta tão caros aos letrados chineses. O presente, comparado com esse tempo das origens é visto claramente como uma época de decadência moral.

A China do século VI de nossa era também apresentava uma situação anárquica e crítica favorável à difusão de idéias sobre a decadência. As invasões bárbaras que ocorreram no início do século III haviam posto fim à unidade política da China, que no século VI se apresentava desmembrada em vários reinos, setentrionais de origem bárbara e os meridionais de origem chinesa. O desmoronamento da unidade imperial e todas as calamidades que o acompanharam criaram nos intelectuais chineses desde o século II, época do início das crises que destruíram os Han, uma certa indiferença pelo moralismo confucionista. A mística individualista e escapista do Taoísmo passou a atrair a atenção dos letrados e já vimos como a difusão dessa doutrina facilitou a expansão do Budismo. No século VI, particularmente, as crises econômicas, políticas e sociais foram bastante agudas, causando um clima de inquietação geral. Rebeliões e massacres eram freqüentes e registraram-se mesmo perseguições ao Budismo, como a ocorrida em Chou Setentrional em 574. Gozava o Budismo da proteção de muitos poderosos, mas os monges tendiam a levar vida dissoluta e a imiscuirem-se em intrigas políticas visando o poder pessoal e a riqueza. Não é de admirar, pois, que as teorias da decadência enunciadas no Mahâsamnipâtasûtra tivessem despertado o interesse dos budistas chineses5.

O primeiro mestre budista chinês a escrever sobre o Mappô foi Hui-szu (515-577). Mestre de Chi-i, o fundador da escola Tien-T'ai, tomava como centro de sua doutrina o Saddharmapundarikasûtra . Parece ter sido também devoto de Amida e de Maitreya, o Buda do Futuro. Perseguido tanto por budistas como por taoístas, chegou a ser ameaçado de morte por duas vezes. A partir de 39 anos começou a escrever sobre o Mappô . Em seu Texto de Formulação de Votos , escrito em 558, ensina que o Shôbô durou quinhentos anos, o Zôhô mil anos e que o Mappô se estenderá por dez mil anos. Parece, pois, que o texto do Mahâsamnipatasûtra foi conhecido por ele antes de sua tradução por Narendrayasas6.

Temos depois a doutrina do Mappô em Hsin-Hang (540-594) e sua Religião dos Três Estágios. Esta foi um movimento de tendência messiânica em grande parte motivado pelas crises da época. Apresentava idéias de crítica social e foi bastante difundida entre as massas, mas foi perseguida e proibida pelos governantes. Partia de uma crítica à tendência geral das escolas budistas chinesas da época, que selecionavam em meio à vasta literatura budista determinados textos para a fundamentação teórica e escolhiam no panteão búdico uma determinada divindade como objeto de veneração. Hsin-Hang considerava essas escolas como válidas para o “primeiro e segundo estágios”, isto é, o Shôbô e o Zôhô , mas totalmente ineficazes no “terceiro estágio” ou época atual, isto é, o Mappô . Para esta última época Hsin-Hang preconizava a “Lei Universal”, isto é, a veneração de todas as divindades do panteão e a adoção de todas as doutrinas e práticas de todas as escolas. Segundo ele, após quinhentos anos de Shôbô e mil de Zôhô o mundo entrara na era do Mappô , caracterizada pelas “cinco impurezas”. Graças a sua influência a idéia de Mappô tornou-se muito difundida vindo a penetrar no Amidismo. Tão profunda foi a repercussão da idéia de Mappô que por sua inspiração os Sûtras budistas foram gravados em pedra em fins do século VI, para evitar que eles se perdessem totalmente quando se verificasse a extinção do Budismo7.

A teoria do Mappô foi ligada ao Amidismo por Tao-Chao, que seguindo um esquema de pensamento paralelo ao de Hsin-Hang, considerava a crença no Voto Original de Amida como o único caminho de salvação possível na era da corrupção. Diz ele no primeiro capítulo do An-lo-chi:

“Em primeiro lugar cumpre tornar clara a origem da doutrina e sua adequação às pessoas, para fazê-las tomar a Terra Pua como refúgio. Se a doutrina for apropriada à época e às pessoas, fáceis serão sua prática e a obtenção da iluminação. Se ela não estiver de acordo com a época e as pessoas, difíceis serão a prática e a realização. Por isso, é dito no “Sutra do Pensamento Correto” que quando o praticante busca seriamente o Caminho deve sempre considerar a época e os meios apropriados à transmissão da mesma. Se ele não captar a época, os meios não serão alcançados e isto é um fracasso e não uma vitória. Aquele que corta madeira verde e procura obter fogo não o conseguirá, por não ser a época apropriada. Seria também como cortar lenha seca para obter água, o que não seria conseguido.”8

Seguem-se as citações do texto do Mahâsamnipatasûtra referente aos cinco períodos de quinhentos anos e de outro trecho do mesmo Sûtra em que são enumerados os vários caminhos de salvação existentes no Budismo entre os quais a recitação do nome dos Budas. Em seguida, continua o autor:

“Calculando, vemos que os seres viventes do presente se encontram no quarto período de quinhentos anos depois de Buda ter deixado o mundo. São, pois, seres de uma época em que se deve praticar a confissão, exercitar-se na busca da felicidade e recitar com afinco o nome de Buda. Se o nome de Amida for recitado com plena concentração por uma vez, as culpas de oito bilhões de Kalpas de nascimentos e mortes serão totalmente eliminadas. Se uma única recitação produz esse efeito, quão imenso será o daquele que se mantiver em concentração constante! Equivale ao de uma confissão contínua.”9

Num dos últimos parágrafos de sua obra, Tao-Chao apresenta sua cronologia, em meio a uma passagem referente ao Grande Sukhâvatîvyûha:

“Discorrendo em terceiro lugar sobre a persistência e a extinção do Sûtra, vemos que é dito que o Shôbô do Buda Sâkyamuni se estende por quinhentos anos, o Zôhô por mil e o Mappô por dez mil. Esgotados todos os nascimentos futuros, todos os Sûtras se extinguirão. O Buda, compadecido desses seres viventes sofredores, fez com que este Sûtra permaneça por mais cem anos.”10

À semelhança de seu mestre, Chan-Tao também escreveu sob a influência do Mappô. Temos no segundo rolo do seu Kuan-ching-chu (Comentário ao Amitâyur-dhyâna-sûtra) extensas considerações sobre os sofrimentos da “era das cinco impurezas” que se segue à morte de Buda11. Em sua obra encontramos, porém, preocupações cronológicas, mas apenas a consciência de que o homem carrega um pesado Karma pecaminoso, sendo incapaz de se libertar pelo seu próprio esforço. Caberá ao Amidismo Japonês reunir a idéia do processo histórico da decadência que encontramos em Tao-Chao e a da corrupção do homem que encontramos em Chan-Tao numa única doutrina12.


1. CLXXIII p. 15-16, 29.
2. XX p. 159.
3. XX p. 104.
4. XX p. 325.
5. CLXXXIV.
6. CLXXXIV, CLXXXIX, III p. 56.
7. CXLIV p. 130-134, CV p. 97-98, 108-110, CLXXXIX p. 24-35, CLXXXIV-A p.193-282, 547-592.
8. XVIII p. 72.
9. XVIII p. 72-73.
10. XVIII p. 128.
11. XVII p. 204-205.
12. CLVVVIV p. 33-34.


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