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Ricardo
Mário Gonçalves I
Capítulo
O desenvolvimento do Amidismo no Japão coincide com uma época em que a sociedade japonesa sofre profundas transformações: o período que se estende do século X até o século XIII em que assistimos a lente desagregação do despotismo nipônico liderado pela Corte Imperial e pela nobreza latifundiária, que dará lugar a uma ordem feudal, sob o domínio dos samurais ou buke, a classe guerreira japonesa. A análise das transformações ocorridas nesse período é indispensável para se compreender a atitude de rejeição do mundo e de reflexão sobre a História, que transparece nos vários pensadores da época, particularmente nos do Budismo Amidista. Nosso estudo se iniciará, pois, por um panorama dessa fase crítica da História do Japão, precedido de um breve apanhado da evolução histórica do Estado Japonês, para facilitar a compreensão do período. O problema da formação do Estado Japonês é muito discutido e ainda está longe de ser resolvido. O que sabemos com certeza é que o embrião do futuro Império do Sol Nascente surge na Planície de Yamato (região de Kyoto e Nara) por volta do século IV de nossa era, sob o impacto da cultura do continente que desde essa época passou a penetrar no arquipélago em uma escala muito maior que durante a Cultura Yayoi dos cultivadores de arroz (século III a.C. – século III d.C.). Tudo leva a crer que os próprios grupos dominantes desse estado primitivo procuraram ativamente assimilar elementos culturais diversos do continente que lhes permitiam maior dose de poder. A difusão das armas e utensílios de ferro nos fins do período Yayoi parece ter favorecido a formação do Estado, permitindo aos grupos mais fortes dominar áreas cada vez maiores. Várias são as hipóteses referentes ao processo de formação do Império Japonês. Uns falam numa idade heróica de características próximas a da Grécia dos tempos homéricos, como fase de transição entre a época das comunidades tribais dos cultivadores Yayoi e a forma primitiva do Império. Outros levantam a hipótese de uma invasão de nômades do continente. Não nos cabe aqui aprofundar essas questões. O que nos importa é que no século VI já encontramos no Japão uma forma primitiva de monarquia, em que o poder do soberano é contrabalançado pelos dos chefes das grandes famílias nobres, descendentes dos antigos chefes tribais que se submeteram ao domínio dos senhores da região de Yamato. Tanto a Coroa como os nobres controlavam as terras cultivadas e os camponeses, cuja condição era bastante próxima da escravidão. Havia também comunidades de artesãos cuja atividade era hereditária e que dependiam quer da casa imperial quer das famílias nobres, de que eram virtualmente escravos. Entre esses artesãos (ceramistas, ferreiros, tecelões, etc.) muitos eram os elementos vindos do continente, principalmente da Coréia, que tiveram bastante importância na difusão da cultura continental. Os nobres ocupavam na corte cargos hereditários, mais ou menos valorizados, segundo a importância de cada família. No século VI, duas grandes famílias, os Soga e os Mononobe, rivalizavam-se no controle do Estado, através da influência sobre o imperador. A escrita chinesa, a filosofia confucionista, a astrologia, o calendário, a medicina e as práticas advinhatórias baseadas na teoria do yin e do yang são alguns dos principais elementos culturais do continente postos à disposição dos grupos dominantes da época. A esses veio em breve se juntar o Budismo, cuja introdução oficial data de 538, segundo as crônicas palacianas. A difusão desses elementos no Japão foi favorecida não apenas pela imigração mencionada acima, mas pela presença de uma base territorial japonesa na Coréia desde a época de formação da monarquia de Yamato até 562 e pelas freqüentes intervenções da corte japonesa nos assuntos da península, que se prolongaram até 663. A introdução da cultura continental no Japão está associada ao processo de fortalecimento do poder monárquico através da adoção das instituições do despotismo chinês. Uma figura decisiva dentro desse processo foi a do Príncipe Regente Shôtoku (574-600). Juntamente com Soga-no-Umako, chefe da família Soga que havia eliminado os conservadores Mononobe, hostis ao Budismo e às instituições do continente, esse príncipe levou a efeito um notável programa de aproximação com a China, enviando embaixadas e estudantes encarregados de assimilar as instituições chinesas e as doutrinas búdicas. Estas últimas encontraram no Príncipe um entusiasta propagandista que não só promoveu a construção de templos, mas também realizou pregações na Corte. Atribui-se-lhe a autoria de três comentários de textos budistas fundamentais. Convém lembrar que a difusão do Budismo, na medida em que fazia empalidecer as crenças nacionais, marcadas por fortes diferenças regionais, favorecia a obra de consolidação do poder central. Na esfera política, o Príncipe criou uma primeira hierarquia de funcionários estatais, inspirada nas instituições chinesas, na qual procurou enquadrar a nobreza. Elaborou também uma espécie de ordenança ou estatuto para o uso dos mesmos, sob a inspiração dos princípios do Budismo e do Confucionismo, que, sob o nome de Jûshichijô Kempô (Ordenança dos Dezessete Artigos) celebrizou-se como a primeira lei escrita japonesa. A ação do Príncipe Shôtoku foi bastante importante para o fortalecimento do poder imperial, mas esteve longe de ser decisiva. Após a morte do mesmo, a pressão exercida sobre a família imperial japonesa pelos Soga representou um verdadeiro retrocesso. O passo definitivo foi dado em 645, através da chamada Reforma de Taika, levada a efeito pelo Príncipe Nakano Ôe-no-Ûji, futuro imperador Tenchi, auxiliado pelos estudantes que o Príncipe Shôtoku mandara à China e que já haviam regressado ao Japão, e por Nakatomi-no-Kamatari, chefe da família Nakatomi, rival dos Soga. A Reforma de Taika teve como prelúdio o golpe de estado representado pelo assassinato de Soga-no-Iruka chefe da família Soga e culminou na adoção de importantes medidas de natureza administrativa, econômica e social, visando criar um estado fortemente centralizado, sob o domínio do Imperador, tomando como modelo a China da época. Dentre as principais medidas, destacam-se:
Seguiu-se a promulgação de códigos escritos (ritsuryô), seguindo modelos chineses e regulamentando minuciosamente os itens acima, o Código de Taihô (Taihô Ritsuryô), de 700 e o de Yôrô (Yôrô Ritsuryô), de 718. O fortalecimento do poder imperial se expressou também na construção de uma capital em 710, a cidade de Nara, erigida com a capital chinesa de Chang-An como modelo, que veio substituir as toscas e provisórias construções de madeira que abrigavam a Corte, até então itinerante. Os senhores do Império não se esqueceram de fundamentar ideologicamente seu poderio. Em 712 e 720, sob o patrocínio da Corte, foram elaboradas as primeiras crônicas japonesas, o Kojiki (Crônica das Coisas Antigas) e o Nihon-gi (Crônica do Japão). Tais crônicas proclamavam a divindade do Imperador, considerado descendente da deusa solar Amaterasu-Ômikami e continham uma série de relatos mitológicos nos quais as divindades ancestrais da Casa Imperial triunfavam em suas lutas com os deuses protetores ou antepassados das grandes famílias nobres. Durante o século VIII, conhecido na História Japonesa como Período de Nara, considerado a época de apogeu do despotismo imperial japonês, a Coroa, mantendo-se fiel à tradição que remontava aos tempos da introdução do Budismo e do Príncipe Shôtoku, continuou a se afirmar como protetora da religião, promovendo a construção de gigantescos templos budistas como o Tôdaiji, em Nara, patrocinando a vinda de missionários chineses e submetendo os monges e monjas a um estatuto que virtualmente os transformava em funcionários estatais. A Corte Imperial afirmou-se também como patrona das letras e das artes, dando início a uma tradição que perdura até nossos dias, com publicação do Manyôshu (Coleção das Dez Mil Folhas), a primeira antologia oficial de poesia japonesa, por volta de 780. O século VIII representou o período áureo do poderio imperial, mas não podemos nos esquecer, por outro lado, que nele já se encontram claramente delineadas as contradições internas do regime, que prefiguram já a dissolução do mesmo através da crise que se delineia no século X e se precipita no XII. Para o estudo da referida crise é necessário procurar caracterizar esse regime em termos sócio-econômicos e analisar de maneira sucinta suas principais contradições. Muitos historiadores japoneses costumam definir o regime sócio-econômico do antigo Japão em termos de sistema de produção escravista1, o que é bastante criticável, por levar a uma série de confusões, já que as instituições japonesas de maneira nenhuma podem ser comparadas às da Antiguidade Clássica Ocidental e que o grupo social japonês mais próximo do escravo, tal como compreendido no Ocidente – o dos nui – representava uma pequena minoria que pouco ou nenhum papel exercia dentro do sistema2. Os defensores da teoria do sistema escravista podem argumentar que os chamados “lavradores livres” da Reforma Taika não passavam virtualmente de escravos da Coroa e que não obstante uma série de diferenças, as sociedades asiáticas da Antiguidade podem ser consideradas como variantes do sistema escravista clássico. Entretanto, a nós parece excessiva generalização englobar numa mesma categoria sistemas tão diferentes entre si como os da Antiguidade Clássica Ocidental e os dos antigos impérios despóticos orientais. Parece-nos oportuno, para caracterizar o sistema sócio-econômico do antigo Japão, recorrer ao conceito de sistema asiático de produção3. Este pode ser definido em rápidas palavras pela existência de uma monarquia despótica que dispõe de uma complexa máquina burocrática capaz de arrecadar eficientemente o produto do trabalho das comunidades camponesas, mas sem interferir diretamente na atividade produtiva das mesmas. A terra pertence teoricamente ao Estado, mas podem surgir formas de propriedade comunal. Eventualmente pode surgir a posse das chamadas obras hidráulicas (diques, canais, etc.) indispensáveis à agricultura, podendo portanto controlar a produção tão minuciosamente quanto no caso de não haver propriedade privada. A produção não visa fins comercias. Seu excedente é empregado na construção de cidades, palácios e templos para o uso do déspota e de sua burocracia e, eventualmente, para obras de regadio. O controle perfeito das comunidades rurais pela burocracia estatal facilita a mobilização de grandes massas de trabalhadores para tais obras. A escravidão ou a servidão podem existir, embora não constitua uma elemento fundamental do sistema4. Karl Wittfogel classificou o regime do antigo Japão como uma forma de despotismo asiático, o que nos parece exato5. O próprio processo de formação do Estado Japonês, resumido acima lembra a formação do sistema de produção asiático, tal como descrito por Maurice Godelier; as comunidades aldeãs são submetidas ao poder de uma comunidade superior, expressão da unidade real ou imaginária das comunidades particulares, poder esse que na origem tinha como raiz funções de interesse comum (religiosas, políticas e econômicas) e se transformou gradualmente num poder de exploração. A expropriação da terra das comunidades por parte do rei, personificação da classe superior, fenômeno freqüente segundo o mesmo autor, corresponde, no caso japonês, ao confisco das terras da nobreza efetuado na reforma de Taika6. A divindade do imperador, a presença de uma eficiente máquina burocrática, a distribuição da terra pública aos camponeses, tomando-se por unidade, teoricamente, os indivíduos, mas na prática um gokô ou grande família, o cadastro, a arrecadação de impostos, as corvéias, a construção de grandes templos e palácios como o Tôdaiji de Nara, com seu gigantesco Buda de bronze de mais de 16 metros de altura e os kokubun-ji (templos provinciais), tudo isso permite caracterizar o regime japonês como uma forma do sistema asiático de produção. Além disso, o fato de que a desagregação progressiva do despotismo japonês levou à formação de um sistema feudal parece confirmar a hipótese de Godelier de que o feudalismo pode surgir da dissolução do sistema asiático de produção7. Vejamos agora as condições que precipitaram o processo de dissolução do despotismo japonês. Mais uma vez cumpre dar razão a Wittfogel, que o classifica não como um exemplo típico do sistema asiático de produção, mas sim como uma forma sub-marginal8. Realmente, as características geográficas do Japão, destacando-se seu acidentado relevo, impediram que nele o regadio atingisse a importância que teve na China e favoreceram a relativa autonomia dos chefes locais e regionais, que facilitou o advento do feudalismo. Por outro lado, as autoridades japonesas não puderam simplesmente copiar o modelo chinês; muitas peculiaridades da sociedade e das instituições de antes da Reforma de Taika tiveram de ser levadas em conta e não poucas foram as concessões que acentuaram as contradições do sistema, acelerando sua dissolução. Assim podemos considerar em primeiro lugar o problema da terra. Se bem que o ideal da Reforma de Taika fosse transformar todo o solo japonês em terra pública, a pressão das grandes famílias aristocráticas levou a que, na prática, a propriedade privada sobrevivesse sob a forma de diversas concessões de terra aos nobres. Os grandes templos budistas também puderam conservar suas propriedades e servos. Por outro lado, as pesadas taxas exigidas dos cultivadores da terra pública faziam que os mesmos, desafiando as severas sanções previstas pela lei, abandonassem os lotes recebidos, buscando refúgio nas propriedades particulares dos nobres e dos templos, onde se tornavam servos permaneciam a salvo do controle da administração imperial. O serviço militar obrigatório e as corvéias a que os camponeses estavam sujeitos também contribuíam para o colapso do sistema, pois arrancavam à terra pública grande parte da mão-de-obra aproveitável, contribuindo para o maior empobrecimento das comunidades rurais. O sistema da terra pública também não estimulava o desbravamento de novas terras cultiváveis, que o crescimento da população e as necessidades cada vez maiores do Estado tornavam imprescindível. A administração imperial precisou tomar uma série de medidas que, estimulando o arroteamento de novas terras, contribuíam em última análise, para a desagregação do sistema. Assim, em 723 saiu a famosa lei Sanze-isshin (uma vida em três gerações) que concedia aos desbravadores de novas terras sua posse por três gerações sucessivas (filhos, netos e bisnetos). Mostrando-se essa medida ainda insuficiente, em 743 uma nova lei passou a admitir pura e simplesmente a propriedade privada de qualquer terra recém-desbravada. O efeito de tais leis não foi tanto o de transformar os cultivadores da terra pública em proprietários, já que os mesmos não dispunham dos recursos técnicos necessários, mas sim o de contribuir para aumentar a extensão das propriedades já existentes nas mãos dos nobres e dos templos. Dessa forma é que se constituíram os grandes domínios privados ou shôen, de que trataremos mais adiante. Na esfera política, também vemos que o ideal do poder absoluto também esteve longe de ser plenamente realizado, uma vez que as grandes famílias nobres jamais deixaram de representar um importante papel no governo. A própria Reforma Taika só se tornou possível graças à aliança da casa imperial com uma família rival dos Soga, os Nakatomi. Seu chefe, Nakatomi-no-Kamatari, em sinal de reconhecimentos pelos serviços prestados à Coroa, recebeu da mesma o sobrenome de Fujiwara, que daí em diante substituiu o de Nakatomi. Durante o século VIII, os Fujiwara estiveram presentes em uma série de intrigas e conflitos em que se digladiavam imperadores e príncipes de sangue. Os monges budistas também tentaram dominar a Corte e um dos mesmos, Dôkyô, chegou a tentar apossar-se do título de imperador, o que causou uma forte reação por parte dos Fujiwara e da família imperial. Durante o reinado do Imperador Kanmu, procedeu-se a construção de uma nova capital, Heian-Kyô (Kyôto), para libertar a Corte da influência dos monges dos grandes templos de Nara, proibidos de se transferirem para a nova sede do governo. Na nova capital a influência dos Fujiwara cresceu progressivamente até o ponto de dominarem completamente toda a administração, como veremos mais adiante. Assim vemos que de uma maneira geral, a tentativa de introduzir no Japão as instituições do continente não foi bem sucedida. A nobreza conseguiu conservar grande parte de suas tradições anteriores à Reforma Taika, o que, somado à desagregação do regime da terra pública, facilitou a marcha para o feudalismo. Durante o século IX e inícios do século X, não obstante os fatores enunciados acima, o despotismo imperial ainda conseguiu sobreviver, pelo menos na aparência. Durante as primeiras décadas que se seguiram à transferência da capital para Heian-Kyô em 794, o poder imperial conseguiu sobrepujar o dos Fujiwara e demais casas nobres e procurou-se reforçar a maior parte das instituições introduzidas pela Reforma de Taika e pela adoção da legislação de inspiração chinesa. Afastados da Corte os monges dos templos de Nara, a Coroa imperial prestigiou as novas ordens budistas Tendai e Shingon, trazidas da China em inícios do século IX pelos monges Saichô e Kûkai, zelando, porém, para que as mesmas não seguissem as pegadas de Dôkyô e outros intrigantes do período precedente. A administração imperial procurou controlar as autoridades provinciais e restaurar o regime da terra pública, o que só conseguiu em parte. A distribuição de lotes de terra pública teve de ser abandonada a partir de 902 e a própria família imperial se viu obrigada a constituir domínios privados para garantir uma fonte de renda, dado o colapso total do sistema de cobrança de taxas da terra pública e a impossibilidade de taxar as propriedades privadas, que haviam alcançado da Coroa os privilégios da imunidade fiscal (fuso) e administrativa (funyû). O serviço militar obrigatório foi extinto por volta de 792, sendo substituído pela organização de contingentes de soldados profissionais, na capital e nas províncias. Três coleções de leis complementares ao ritsuryô foram compostas, datando a última dos inícios do século X. O envio de embaixadas à China iniciado pelo Príncipe Shôtoku prosseguiu até 894, quando as relações oficiais com o continente foram suspensas e o Japão entrou em uma fase isolamento que se estendeu até fins do século XII. A redação de crônicas oficias, tradição iniciada com o Kojiki e o Nihon-gi prosseguiu até 892, data da compilação do Nihon Sandai Jitsuroku (Verdadeiro Relato de Três Reinados do Japão), a derradeira de uma série de seis crônicas iniciadas com o Nihon-gi, de nome Rikkoku-shi (Seis Crônicas do País). Em termos de história econômica e política, a história das primeiras fases do Período Heian9 guarda uma continuidade com a do Período Nara10: economicamente, temos, como vimos, a desagregação do sistema de terra pública e a implantação da propriedade privada da terra e politicamente o estabelecimento progressivo da preponderância da Família Fujiwara. Vamos analisar rapidamente a ascensão dos Fujiwara em termos de história política para depois nos determos mais longamente em seus fundamentos econômicos. A preponderância dos Fujiwara na Corte japonesa se firmou principalmente graças ao estabelecimento de laços de parentesco com a família imperial. Já antes do Período Nara, aproveitando-se do prestígio alcançado por sua atuação na Reforma de Taika, os Fujiwara deram o primeiro passo nesse sentido quando Fujiwara-no-Fubito (659-720) tornou sua filha esposa do Imperador Monmu (683-707), tendo nascido desse casamento, o Imperador Shômu (701-756). É o primeiro exemplo da obtenção, por parte dos Fujiwara, da categoria de gai-seki (literalmente “parentesco exterior”, atributo dado às famílias de onde saem as esposas imperiais), que mais tarde se tornou seu monopólio. Os filhos de Fubito se tornaram os ancestrais dos quatro ramos da família Fujiwara, Hoku-ke (Casa do Norte), Nan-ke (Casa do Sul), Shiki-ke (Casa do Cerimonial) e Kyô-ke (Casa da Capital). Desses quatro ramos foi o primeiro que conseguiu se impor politicamente, açambarcando os mais altos postos da hierarquia governamental e monopolizando a situação de gai-seki durante a maior parte do Período Heian. Em primeiro lugar, os Fujiwara trataram de afastar da Corte as famílias rivais. Os Tachibana, família poderosa dos primeiros tempos do Império já haviam entrado em decadência em meados do Período Nara. Restavam os Ôtomo e os Ki, que os Fujiwara conseguiram habilmente afastar da vida política aproveitando-se de uma tentativa de rebelião, o chamado “Incidente do Portão Ôten” (Ôtenmon-no-hen) ocorrido em 866. Ao mesmo tempo, não mediam esforços para alcançar os altos postos governamentais. Significativo é o fato dos Fujiwara terem se apossado do cargo de Sesshô ou regente, anteriormente só acessível aos príncipes de sangue. O precedente foi aberto por Fujiwara-no-Yoshifusa (804-872) que, valendo-se de sua situação de gai-seki, tornou-se, a partir de 858, regente durante a menoridade do Imperador Seiwa (850-880). Durante o reinado dos imperadores Uda e Daigo, nos fins do século IX, a família imperial tentou reagir ao predomínio dos Fujiwara promovendo o prestígio de um elemento estranho à mesma, Sugawara-no-Michizane (845-903), oriundo de uma família de letrados confucionistas sem grande projeção na corte. Em 901, porém, os Fujiwara, sob a liderança de Fujiwara-no-Tokihira (871-909), conseguiram afastá-lo dos altos postos que ocupava e confiná-lo na ilha de Kyushu. Durante o século X os Fujiwara se firmaram definitivamente na Corte, sendo significativo o fato de que, seguindo um precedente aberto por Fujiwara-no-Mototsune (836-891), os regentes continuaram a exercer o poder político mesmo depois de atingida a maioridade dos imperadores que tutelavam, adotando para esse fim o novo título de Kampaku. O poderio dos Fujiwara atingiu o ponto máximo na época do Kampaku Fujiwara-no-Michinaga (966-1027) e de seu filho Yorimichi (992-1074). Durante a velhice deste último começou a se esboçar por parte da Coroa uma reação contra o predomínio dos Fujiwara que culminou, posteriormente, com o estabelecimento do insei – governo dos “imperadores enclausurados” – de que falaremos mais adiante. As bases econômicas do poder dos Fujiwara estavam nos inúmeros shôen ou grandes domínio controlados pela mesma. O shôen, principal forma de propriedade rural nos fins da Antiguidade japonesa e nos primeiro tempos do feudalismo, já foi comparado por certos autores aos grandes domínios do Baixo Império Romano e do reino carolíngio11. Originaram-se das propriedades que os nobre e templos conseguiram conservar após a Reforma de Taika e cresceram graças à derrocada do sistema da terra pública e ao fato de inúmeros camponeses fugidos de seus lotes neles encontrarem guarida. A princípio as propriedades privadas também estavam sujeiras ao pagamento de taxas, mas como vimos acima, conseguiram uma série de imunidades. Os proprietários dos shôen na maior parte dos casos residiam em Kyoto e encarregavam administradores do controle dos mesmos. Nos séculos X e XI, muitos camponeses, residentes nos shôen ou no que restava da terra pública, conseguiram atingir a situação de virtuais proprietários das pequenas extensões de terras que cultivavam. A esses pequenos proprietários se dava o nome de myôshû, ao passo que a terra que ocupavam recebia o nome de myôden. Um shôen passou a ser constituído na realidade por um conjunto de myôden cujos myôshû entregavam parte de sua produção a título de taxa para os senhores do domínio. Os myôshû transformaram-se, com o passar do tempo, em uma verdadeira elite rural que se tornou o principal fator de transição para a sociedade feudal. As taxas, que teoricamente recaíam sobre os myôshû, passaram na realidade a pesar nos ombros dos sakunin, cultivadores de baixa condição sujeitos aos primeiros. Muitas famílias notáveis das províncias procuravam ampliar a extensão de suas propriedades, chocando-se muitas vezes com as autoridades provinciais nomeadas pela Coroa que freqüentemente invadiam as terras e arrebatavam à força o produto das mesmas, sob o pretexto de que se tratava de terras públicas devedoras de taxas. Para escapar a essas ameaças, os proprietários locais recorriam à doação de suas terras a algum poderoso nobre de Kyoto, via de regra um Fujiwara, o que dava às mesmas, estatuto de shôen, com as respectivas imunidades. O antigo proprietário continuava à testa de suas terras, agora como administrador, entregando parte da produção da mesma ao senhor a quem fizera a doação. O crescimento desordenado dos shôen enfraqueceu o poder do Estado, que por quatro vezes, em 902, 984, 1045 e 1055 emitiu decretos no sentido de tentar deter a expansão dos mesmos, o que não foi conseguido, uma vez que os principais proprietários, os Fujiwara, enfeixavam em suas mãos os postos-chave da administração, como os cargos de Dajô-Daijin (Grande Ministro), U-Daijin (Ministro da Direita) e Sa-Daijin (Ministro da Esquerda). Não obstante seu poder repousar sobre a produção dos shôen, os aristocratas não se interessavam diretamente pela administração dos mesmos, confiando-a a funcionários subalternos. Os nobres de alta categoria residiam em Kyoto, dividindo seu tempo entre intrigas políticas, aventuras amorosas e cerimônias mágico-religiosas. Não é de se espantar, pois, que o período de domínio dos Fujiwara tenha se caracterizado pela maior anarquia. Significativo é o fato de que, duas rebeliões eclodidas no século X em províncias distantes da Capital, a de Taira-no-Masakado (940) no Japão Leste e a de Fujiwara-no-Sumitomo, na região do Mar Interior de Seto, no Japão Oeste, foram sufocadas por notáveis locais que proclamaram sua fidelidade à Coroa e não por enviados especiais mandados por ela. A única preocupação da nobreza no tocante às províncias era a arrecadação das taxas que lhe permitiam levar uma vida luxuosa. Por volta de 1019, um grupo de população nômade dos Jurchen, oriundos da Sibéria, via Coréia, atacou o norte da ilha de Kyushu, sendo repelido pelos elementos da região. Fujiwara-no-Michinaga se manteve indiferente e o fato nem sequer foi mencionado nas crônicas palacianas redigidas na época. As províncias eram administradas por governadores nomeados pela Coroa, conforme o determinado pelos códigos ritsuryô, mas na época do predomínio dos Fujiwara os membros da família imperial e os elementos da alta aristocracia faziam de certas províncias Chigyô-koku, isto é, tornavam-nas sujeitas a um regime especial pelo qual parte das rendas das mesmas revertia para quem obtinha tal privilégio. Os detentores de Chigyô-koku conseguiam a nomeação de seus apaniguados para o cargo de governadores dessas províncias, explorando ao máximo a situação. A corrupção se tornou tamanha que foi registrado o caso de nomeação de governadores-fantasmas para certas províncias. Os governadores, conhecidos pelo nome de zuryô, eram oriundos da média e da pequena aristocracia e na maior parte dos casos tratavam de fazer de seu cargo um caminho para o enriquecimento fácil, explorando impiedosamente a população das províncias para onde eram designados. Seus subalternos entravam freqüentemente em choque com os proprietários locais ou com funcionários dos shôen, conflitos esses que levavam muitas vezes à doação das terras acima descrita. Não obstante tal situação caótica, a partir do século X a posição dos myôshû foi se tornando cada vez mais sólida, tendo os mesmos, sob seu controle, a massa camponesa submetida a um regime que lembra o da servidão da Idade Média Ocidental. Todos esses fatores sócio-econômicos devem ser levados em conta ao estudarmos o processo de formação da nova classe militar dos bushi, buke ou samurai. Os freqüentes conflitos entre proprietários e funcionários da Coroa e a situação anárquica propícia à proliferação de salteadores e piratas levavam muitos Myôshû e funcionários administrativos dos shôen a se armarem para a defesa e a transformarem os cultivadores sob seu controle em rôdô ou homens de armas. Os laços de parentesco eram um importante fator de consolidação de tais grupos de homens armados, cujos chefes foram se tornando senhores de territórios cada vez maiores. Muitos pequenos funcionários a serviço dos governadores provinciais também seguiam o mesmo caminho. Pequenos e médios aristocratas cujos projetos de ascensão na Corte eram bloqueados pelos Fujiwara também preferiram às vezes ir para as províncias e se tornarem capitães de bandos armados. Um caso quase idêntico era o de certos príncipes de sangue sem a possibilidade de terem acesso ao trono e que se tornavam cabeças de uma nova família de aristocratas que, sem chances de sucesso na Capital, procuravam fazer a vida nas províncias. Assim surgiram as duas principais famílias de militares, os Taira ou Heike e os Minamoto ou Genji. A primeira, descendente do Príncipe Takamochi, que em 889 recebeu o nome de Taira, dominou primeiramente no Japão Leste, transferindo-se depois para as províncias do Oeste, passando o Leste a ser controlado pelos Minamoto, cujo primeiro chefe, Minamoto-no-Mitsunaka (912-997), também descendia de príncipes de sangue. No século XI, muitos myôshû e chefes de bandos armados foram arregimentados sob o comando das famílias Taira e Minamoto, cujos cabeças receberam o título de tôryô ou líder dos guerreiros. Na segunda metade do século XI os Minamoto consolidaram seu domínio no Japão Leste, aniquilando seus rivais, as famílias Abe e Kiyohara. O chefe Minamoto-no-Yoshie (1041-1106) passou a receber doações de terra, tornando-se protetor de grande número de proprietários. O poder dos Taira no Oeste se consolidou de maneira semelhante. O recurso à força e a formação de bandos armados caracterizaram também as comunidades religiosas. Os grandes templos budistas como o Kôfukuji de Nara e o Enryakuji, próximo a Kyoto, criaram a partir da segunda metade do século X, milícias de monges guerreiros ou sôhei, para sufocar levantes camponeses em seus domínios ou para enfrentar as autoridades provinciais nos freqüentes conflitos pelo controle das terras. Tornavam-se comuns os choques armados entre os diversos templos. A influência política dos monges tendeu a aumentar e não raras vezes os sôhei, portando símbolos religiosos que os preservavam de uma reação armada pelo supersticioso temor que inspiravam, invadiam a Capital para exigir favores da Corte, entregando-se então à toda sorte de tropelias. Além do surgimento da classe dos guerreiros e de seu crescente poder econômico, outros fatores no século XI vieram solapar o domínio dos Fujiwara. Várias filhas de chefes Fujiwara se tornaram esposas de imperadores, mas não deram à luz a varões que pudessem herdar o trono. Em 1068 subiu ao trono o imperador Gosanjo, que não tinha laços de parentes com os Fujiwara. Muitos zuryô e outros elementos contrários ao monopólio do poder pelos Fujiwara cerraram fileiras em torno desse imperador, planejando a regulamentação dos shôen. Entretanto, o protocolo da Corte e os inúmeros laços que ligavam o imperador aos altos dignatários – todos Fujiwara – dificultavam tal empresa. Assim, o imperador seguinte, Shirakawa (1053-1129), após 13 anos de reinado, resolveu abdicar e retirar-se para um palácio à parte, onde montou uma nova máquina administrativa, réplica da burocracia imperial, aproveitando os zuryô e outros elementos hostis aos Fujiwara. Assim teve início a curiosa instituição do Insei governo dos In (Imperadores abdicados). A instalação do Insei criou a paradoxal situação de dois governos rivais administrando simultaneamente o mesmo país: de um lado o imperador e os Fujiwara, do outro os In e seus partidários. A administração do In não diferiu, porém, da exercida por seus rivais. A anunciada regulamentação dos shôen consistiu simplesmente em arrebatar o maior número de shôen e Chigyô-koku do partido contrário, para que o In e seus partidários pudessem rivalizar com os Fujiwara em riqueza e luxo. Os sucessores de Shirakawa, Toba, Sutoku e Goshirakawa seguiram seu exemplo, tornando-se In. Os conflitos entre os diversos grupos foram se agravando e a situação tornou-se cada vez mais confusa. Seguindo o exemplo dos Fujiwara, que desde a época do auge de seu poder empregavam os Minamoto e seus guerreiros a seu serviço, o In Shirakawa havia formado uma guarda especial (Hokumen-no-Bushi) com elementos da família Taira. O poder dos sôhei aumentava. Os Taira e os Minamoto a princípio combatiam em prol de seus senhores aristocratas, mas logo tomaram consciência de sua força e passaram a lutar pelos seus próprios interesses. Em 1156, os partidários do In Toba e de seu filho, o imperador Goshirakawa entraram em conflito com o grupo do In Sutoku. A esse choque de interesses somou-se a rivalidade do Kampaku Fujiwara Tadamichi e seu irmão mais novo, o Sa-Daijin Yorinaga. Morrendo o In Toba, o partido do In Sutoku, a que se juntou Yorinaga convocou os chefes guerreiros Taira-no-Tadamasa, Minamoto-no-Tameyoshi e seu filho Tametomo para atacar o imperador e o Kampaku. Estes por sua vez recorreram a Minamoto-no-Yoshitomo, também filho de Tameyoshi e ao futuro autocrata Taira-no-Kiyomori (1118-1181). Foi a famosa Revolta de Hôgen, que terminou com a vitória do partido imperial, o confinamento do In Sutoku na província de Sanuki, na Ilha de Shikoku, a morte de Yorinaga em combate e a execução de Tameyoshi e Tadamasa pela mão de seus próprios parentes. Mais do que uma vitória do partido imperial sobre o do In, a Revolta de Hôgen representou o primeiro passo para o estabelecimento da supremacia efetiva da nova classe guerreira sobre a velha aristocracia. Kiyomori, apoiado pelo imperador Nijo e por Goshirakawa, agora In, aumentou rapidamente seu poder, ganhando o descontentamento de Yoshitomo que, que em 1159, aproveitando-se da ausência de Kiyomori que deixava Kyoto para fazer uma peregrinação, tentou dar um golpe de estado, aprisionando o imperador e o In. A pronta reação de Kiyomori fez com que Yoshitomo e seus partidários fossem destroçados. Foi a Revolta de Heiji, que assegurou a supremacia dos Taira na política japonesa. Yoshitomo, tentando fugir para a região Leste, foi morto e seus filhos pequenos confinados em províncias distantes. Oito anos depois Kiyomori recebeu o cargo de Dajô-Daijin e todos os seus familiares obtiveram altos postos. Assim, os Taira se tornaram os substitutos dos Fujiwara na Corte. A primeira medida de Kiyomori ao se tornar Dajô-Daijin foi assegurar a posição de gai-seki, promovendo a elevação ao trono do filho da irmã de sua esposa com o In Goshirakawa (Imperador Takakura) e casando sua filha com ele. As bases econômicas de seu poderio estavam em cerca de 500 shôen espalhados pelo Japão Ocidental e em mais de 30 Chigyô-koku que ele e seus familiares obtiveram como altos dignatários da Corte. O domínio dos Taira representou um período de transição entre a preponderância da aristocracia e o estabelecimento do primeiro governo feudal ou bakufu pela classe guerreira. A administração de Kiyomori se caracterizou pela nomeação de notáveis provinciais como governadores de Chigyô-koku e pela colocação em certos shôen pertencentes à nobreza de guerreiros fiéis aos Taira, na qualidade de jitô ou delegados responsáveis pela gerência desses domínios, com direito a parte da renda dos mesmos. Além disso, Kiyomori incrementou o comércio com a China, que a família Taira iniciara tempos atrás tendo por base a ilha de Kyushu. Para esse fim, reformou ele o porto de Wada-no-Tomari, próximo à atual Kobe, para que os navios chineses nele pudessem aportar. Em outros aspectos, porém, os Taira mostravam-se conservadores. Ao invés de criar novas instituições, mantiveram-se fiéis às estruturas aristocráticas, enfeixando nas mãos todos os privilégios e todas as riquezas possíveis, o que generalizou o descontentamento entre os remanescentes dos Minamoto e demais famílias guerreiras, sem falar do In Goshirakawa, da família imperial, da aristocracia e dos grandes templos como o Kôfukuji e o Enryakuji. Em 1177 os Taira descobriram uma conspiração de monges e aristocratas, prendendo todos os responsáveis. Dois anos depois, Goshirakawa tentou reagir com Kiyomori e acabou aprisionado no palácio. Em 1180, um remanescente dos Minamoto, Yorimasa, recorreu a um príncipe de sangue, Mochihito, filho de Goshirakawa, para que expedisse aos Minamoto dispersos pelas províncias uma ordem de um levante geral contra os Taira. Aliando-se aos monges de Nara e Kyoto, levantou-se em armas, mas foi facilmente vencido por Kiyomori. Este planejou transferir a capital de Kyoto para Fukuhara, no litoral, para onde se mudou com seus familiares e com o imperador Antoku, seu neto, de apenas três anos de idade. Pela mesma época, Yoritomo (1147-1199), um dos filhos de Yoshitomo, confinado na península de Izu no Japão leste desde a época da Revolta de Heiji, levantou-se em armas contra os Taira auxiliado por seu sogro Hojo Tokimasa. Derrotado numa primeira batalha em Ishibashiyama, recebeu o apoio de muitos chefes de bandos armados e conseguiu vencer um grande exército Taira nas margens do rio Fuji. Após a vitória, instalou seu quartel-general em Kamakura, à beira mar, onde recebeu a submissão de muitos bushi do Japão leste, pequenos ou grandes proprietários, que se tornavam seus gokenin ou vassalos, controlados por um órgão especial denominado samurai-dokoro. Esses gokenin lideravam grupos grandes ou pequenos de homens armados, formados por seus familiares e dependentes. Muitos, como os Chiba e os Miura eram grandes proprietários, ao passo que outros eram myôshû que controlavam apenas pequenas extensões de terra. Deviam acorrer ao chamado do Kamakura-dono (“Senhor de Kamakura”, epíteto aplicado a Yoritomo) para lutar sob suas ordens e em troca recebiam do mesmo benefícios (go-on): garantia da posse de suas terras e eventuais recompensas em propriedades ou em cargos, quando se distinguissem no campo de batalha. Kiyomori voltou a Kyoto e tentou reorganizar as forças dos Taira e recuperar o domínio da situação. Ordenou a destruição dos templos Kôfukuji e Tôdaiji, em Nara, mas Yoshinaka, um primo de Yoritomo que vivia em Shinano, no Japão Centro-Leste, revoltara-se também contra os Taira e marchava sobre Kyoto. Por todo o país estalavam levantes armados, muitas vezes sem qualquer ligação com os Minamoto. Tais agitações eram mais do que um conflito entre Taira e Minamoto, representavam um movimento geral dos bushi no sentido de invadirem os shôen e terras da Coroa, para aniquilar o que restava da velha ordem aristocrática herdada pelos Taira e estabelecer um novo sistema por eles liderado. Em 1182, Kiyomori morreu doente, o que representou uma grande perda para os Taira. No ano seguinte, Yoshinaka invadiu Kyoto e os Taira fugiram para o Oeste, levando consigo o imperador Antoku. Em Kyoto, outro imperador, Gotoba, subiu ao trono. O In Goshirakawa provocou a inimizade entre Yoritomo e Yoshinaka, tentando se aproveitar da situação, mas o que ocorreu foi que Yoritomo, preferindo permanecer em Kamakura para consolidar seu poder, enviou para o Oeste tropas chefiadas por seus irmãos Noriyori e Yoshitsune para bater Yoshinaka e os Taira. Em 1184 criou Yoritomo em Kamakura um órgão de nome Kumon-jo, mais tarde Mandokoro, destinado a administrar as finanças e a controlar os documentos relativos à posse de terras e a arrecadação de taxas, além de um tribunal de nome Monchu-jo, destinado a julgar as pendências dos gokenin relativas à posse das terras. Em 1185 as tropas de Yoshitsune destroçaram Yoshinaka e se lançaram em perseguição aos Taira, que ao cabo de sucessivas derrotas, foram totalmente aniquilados em Dan-no-ura, na extremidade ocidental da ilha Honshû. O imperador Antoku lançou-se ao mar com dois símbolos sagrados da casa imperial japonesa, a espada Kusanagi-no-Tsurugi e a jóia Yasaka-no-Magatama, sendo que a espada não foi jamais encontrada, o que representou para os teóricos posteriores um sinal da decadência do poder imperial. Após a vitória, surgiram divergências entre Yoritomo e Yoshitsune, estimuladas pelo In Goshirakawa que mais uma vez tentava tirar partido da situação. Yoshitsune, censurado por Yoritomo por ter recebido cargos da Corte imperial em recompensa pelas vitórias, contrariando suas ordens, recebeu de Goshirakawa ordem de combater Yoritomo. Ninguém, porém, se pôs a seu lado e ele teve de fugir para o norte e buscar refúgio entre seus amigos, os Fujiwara, senhores de Hiraizumi, que não devem ser confundidos com a família dominante na Corte. Yoritomo enviou a Kyoto seu sogro Hojo Tokimasa, que censurou o In por sua atitude dúbia e o obrigou a expedir uma ordem de prisão contra Yoshitsune. Sob o pretexto de perseguir e capturar o irmão rebelde, Yoritomo fez o In conceder-lhe o direito de nomear funcionários denominados shugo e jitô. Os primeiros, um para cada província, eram encarregados de reprimir os revoltosos e assassinos e de controlar os gokenin da região. Só guerreiros que gozavam da absoluta confiança de Yoritomo foram nomeados para esse cargo. Os jitô, originalmente funcionários administrativos dos shôen tornaram-se por iniciativa de Yoritomo delegados encarregados das atividades policiais e de fiscalizar a arrecadação de taxas, que nos shôen quer nos domínios da Coroa. Além disso, Yoritomo conseguiu em Kyoto que um simpatizante da causa dos guerreiros, Kujo Kanezane (1149-1207), ascendesse ao cargo de sesshô. Em 1191 obteve da Corte o cargo de Sei-i-Taishôgun (General em chefe contra os bárbaros), Shôgun na forma abreviada, título que a partir dessa época passou a ser usado por todos os chefes do Bakufu ou governo militar. Nos primeiros tempos havia um equilíbrio de poderes entre o Bakufu instalado em Kamakura e a Corte de Kyoto. Só pouco a pouco o domínio do Bakufu foi consolidado em todo o país. Em 1189, Yoshitsune e seus partidários, os Fujiwara de Hiraizumi foram liquidados, o que encerrou um período de dez anos de guerras contínuas. O regime instalado por Yoritomo diferia da dominação anterior dos Taira pelo fato de haver uma máquina administrativa que controlava diretamente as massas produtoras e pela arregimentação dos proprietários que dispunham de força militar no sistema de gokenin. Contrariamente aos Taira, que pilharam sistematicamente o país, colocando a maior parte das terras sob o controle de membros da família, o que causou indignação e revolta geral, Yoritomo não só garantiu a posse de suas terras a todos que a ele se submetiam, como também distribuiu propriedades e títulos aos que se distinguiam nos campos de batalha, além de ter criado um tribunal cuja principal função era regular pendências relativas à posse de terras. Assim, Yoritomo pode contar com a lealdade da maior parte dos gokenin. Entretanto, não se sentia suficientemente forte para desafiar abertamente o poderio da Coroa imperial e da aristocracia, daí o fato de ter ele tido todo o cuidado de obter a aprovação do In para as medidas que tomou quer na guerra quer na paz e de ter feito do Bakufu um governo que, se bem que independente da Coroa e das instituições aristocráticas, não se opunha às mesmas e em última análise era escudado por seu prestígio, uma vez que o cargo de Shôgun dependia de nomeação imperial. Após a morte de Yoritomo, estalaram rivalidades e conflitos entre os principais gokenin, dos quais Hojo Tokimasa se aproveitou habilmente. Ambos os sucessores de Yoritomo, Yoriie (1182-1204) e Sanetomo (1192-1219) foram assassinados, o que extinguiu a linhagem dos Shôguns Minamoto, passando o controle do Bakufu à família Hojo, cujos líderes governaram sob o título de Shikken ou regente até o fim do Bakufu de Kamakura em 1333, tendo o cuidado de nomear Shôguns títeres escolhidos entre a aristocracia, arregimentando suas forças em torno do In Gotoba, tentaram eliminar o Bakufu e declararam guerra ao Shikken Hojo Yasutomi (1183-1242). Foi a chamada Revolta de Jôkyû, que terminou com a derrota total do partido aristocrata, o confinamento do In numa ilha remota e a instalação em Kyoto de uma guarda especial sob o comando de um funcionário militar o Rokuhara-tandai, encarregado de fiscalizar os movimentos da Corte. Muitas terras pertencentes a aristocratas e a monges foram confiscadas pelo Bakufu e o regime dos jitô foi definitivamente consolidado. A partir dessa época os jitô tiveram direito a ocupar para seu uso uma parcela do shôen que fiscalizavam, parcela essa, isenta de quaisquer taxas. O domínio dos samurais se consolidou ainda mais com a promulgação, em 1232, de um novo código destinado a atender os interesses dos mesmos, o Código Jôei (Jôei Shikimoku ou Goseibai Shikimoku). Contrariamente aos antigos códigos ritsuryô, redigidos em chinês clássico, a nova lei era escrita em japonês, numa linguagem acessível aos samurais, em sua maioria semi-iletrados. Composto de 51 artigos, principiava recomendando a reforma dos templos e santuários, o respeito aos deuses nacionais e às divindades búdicas, e a assiduidade ao culto. Seguiam-se disposições relativas aos diretos e deveres dos gokenin, dos shugo e dos jitô, bem como aos detalhes da administração. Os jitô e shugo eram advertidos no sentido de não abusarem de seus poderes junto aos proprietários dos shôen e dos funcionários da Coroa, coisa que se tornara freqüente desde a Revolta de Jôkyû. Significativo é o fato dos Minamoto e dos Hojo, ao invés de se instalarem em Kyoto, como os Taira, terem permanecido na distante Kamakura. Isso foi bastante vantajoso para o Bakufu, não só porque o tornou mais tolerável à Corte e à aristocracia, por sua distância, mas também porque o colocou ao abrigo dos conflitos e intrigas da vida palaciana e das tentações de uma vida luxuosa e fútil. Em Kamakura os samurais puderam permanecer fiéis a seus princípios de simplicidade e frugalidade na vida cotidiana e entregues ao contínuo adestramento nas artes militares. As características econômicas e sociais do Japão Lestes também foram favoráveis à consolidação do Bakufu. Contrariamente às regiões do Japão Centro-Oeste, próximas à sede do poder político, o Japão Leste, de ocupação mais recente, era ainda uma região pobre e subdesenvolvida. No Centro-Oeste, a antiguidade da exploração da terra e a complexidade do desenvolvimento sócio-econômico faziam com que as propriedades não fossem compactas, mas sim formadas de pequenas porções intercaladas entre terras públicas ou de outros proprietários. Assim, os myôden de um mesmo shôen não só eram bastante pequenos mas distantes entre si. Isso acarretava uma enorme complexidade nas relações de produção, sendo freqüente o caso de camponeses vizinhos estarem sujeitos aos mais diversos regimes de trabalho e pagamento de taxas. O enfraquecimento da aristocracia e sua progressiva diminuição do controle sobre os shôen permitiram que dessas propriedades fragmentadas pouco a pouco surgisse uma classe de pequenos e médios proprietários, muitos dos quais, nos séculos XIII e XIV passaram a se aplicar ao comércio e ao artesanato. Já no Leste, como no Nordeste, as propriedades eram extensas e compactas e seus senhores gozavam de uma independência muito maior em relação à Corte. Com a implantação do Bakufu de Kamakura, os camponeses dessa região permaneceram muito mais fortemente dominados pelos gokenin e pelos jitô e grandes myôshû, sendo o crescimento de uma classe de pequenos e médios proprietários muito mais lento e penoso do que nas demais regiões. Ao contrário do que acontecia no Centro-Oeste, os próprios proprietários dirigiam a exploração de suas terras. A unidade de exploração da terra era o zaike, conjunto formado pela mansão muitas vezes fortificada do proprietário, pelas terras cultiváveis e pelos servos presos à mesma. No Centro-Oeste, a fragmentação das propriedades favorecia o desenvolvimento do comércio, ao passo que no Leste os shôen conseguiram se manter por muito mais tempo auto-suficientes. No Leste, os senhores formavam um grupo bastante unido, contrariamente aos camponeses que, submetidos a um controle rigoroso, não podiam se unir para opor uma resistência eficaz aos freqüentes abusos de autoridade dos jitô e demais membros da classe dominante. Na maior parte dos casos a única reação possível aos camponeses era a fuga12. O estudo das contradições internas do regime de Kamakura e dos outros fatores responsáveis pela sua dissolução não cabe aqui, uma vez que nosso objetivo é apenas mostrar o background histórico da formação do Amidismo até a época da atuação de Shinran, em meados do século XIII. Rematando este breve retrospecto histórico cumpre notar que o processo de formação do Amidismo japonês, que será estudado no próximo capítulo, coincide com o da formação da sociedade feudal, que Shô Ishimoda13, Shimpachiro Matsumoto14, Kiyoshi Inoue15 e outros historiadores admitem ter se iniciado no século X, época do primeiro grande autor amidista no Japão, Genshin (942-1017). Realmente, é nesse século e nos fins do anterior que vemos a eclosão de uma série de fatores que atestam o início processo de desagregação do despotismo japonês, a saber: a consolidação do poder dos Fujiwara e do regime dos shôen, a anarquia nas províncias atestada pelas revoltas de Masakado e Sumitomo e outros eventos responsáveis por um clima de inquietação e desespero que predomina até o século XIII, propício à difusão de idéias de rejeição do mundo como as encontradas no Amidismo e de uma visão pessimista da História. Isto é válido não só para o caso da família imperial, que vê o poder fugir progressivamente de suas mãos e para o caso da pequena e média nobreza, que vê cerceadas pelos Fujiwara suas possibilidades de ascensão na Corte, como também pelos próprios Fujiwara, cujo poder, bastante precário, repousava em última análise na preservação dos laços de parentesco com a Coroa. A instalação do Insei e a explosão da violência a partir das Revoltas de Hôgen e Heiji ainda mais acentuaram tais sentimentos. Após vários séculos de paz, pelo menos na Capital onde a pena de morte, prevista nos códigos ritsuryô, nunca fora aplicada desde a época da fundação de Kyoto, tornaram-se parte do dia-a-dia os choques armados e a exibição das cabeças cortadas aos chefes vencidos. As guerras impediam o livre trânsito dos víveres e Kyoto se via assolada pela fome e pelo banditismo, sem contar as tragédias invitáveis dos incêndios, que sempre eram de vastas proporções, graças à fácil propagação do fogo nas construções de madeira que caracterizam a arquitetura japonesa, dos terremotos e dos tufões. Mas teria sido o período que vai do século X ao XIII realmente uma época de decadência? Se encararmos a História exclusivamente do ponto de vista da ordem antiga, representada pela Corte e pela aristocracia, somos tentados a pensar que sim. Se analisarmos, porém, o processo do ponto de vista da sociedade japonesa tomada como um todo, veremos, que pelo contrário, foi uma época de progresso. Se Kyoto e o modo de vida a ela associado entrou em decadência, nas províncias a produção agrícola e artesanal tendeu a aumentar, assegurada pelo surgimento de novas técnicas, novos centros urbanos como Kamakura começaram a florescer, as estradas se animaram, surgiram feiras e mercados, as relações comerciais com a China se intensificaram e a economia monetária começou a se impor com a importação de moedas chinesas16.
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