Takashi Hirose
O Caminho do Discípulo


A invisível corda de cabelos

Certo dia, fugindo do prolongado calor de uma tarde de verão, passei alguns tranqüilos momentos no Templo Higashi Honganji, no centro de Kyoto. Talvez porque o dia estivesse no seu final, não havia muita gente no recinto do templo. Tudo estava tão calmo que esqueci completamente que estava cercado pela pressa e rapidez de uma cidade grande. Quando a sós, sentei-me à frente da estátua de Shinran no Pavilhão do Grande Mestre e senti-me tomado por uma grande tranqüilidade. Momentos de quietude como esses são mais gratificantes que qualquer outra coisa. Poucas pessoas sabem que um lugar de tal tranqüilidade existe exatamente no meio da cidade. Atualmente, mesmo os subúrbios de Kyoto são tão apinhados de turistas que é impossível encontrar um lugar tranqüilo. Independentemente do que acontecia naquele dia, naquele lugar calmo, aconteceu um pequeno fato que me fez pensar novamente no significado da devoção e da reverência em nossas vidas.

Enquanto eu passava pelo canto sudoeste do Pavilhão do Grande Mestre, em direção ao Pavilhão de Amida, percebi uma grande redoma de vidro com uma nova tabuleta de avisos, em madeira, em frente a ela. Vi que a famosa “corda de cabelos” do Templo Higashi Honganji havia sido posta nessa redoma de vidro. Continuei meu percurso, pois esta corda não era novidade para mim. Mas, alguma coisa escrita na nova tabuleta me chamou a atenção e eu fiquei ali por alguns instantes lendo-a. Talvez porque a intenção fosse dar uma explicação aos estudantes visitantes, nela estava claro e concisamente escrito:

Quando a reconstrução do Pavilhão do Grande Mestre e do Pavilhão de Amida foi iniciada em outubro de 1880, surgiram dificuldades devido ao grande peso das toras de madeira que estavam sendo usadas. Elas eram tão pesadas que as cordas usadas para içá-las sempre se rompiam, retardando enormemente o trabalho da construção. Quando esse fato tornou-se conhecido, devotas de todo o Japão, espontaneamente, cortaram seus cabelos em reconhecimento ao ensinamento de Shinran (1173-1262). O cabelo foi coletado, trançado em cordas e estas, doadas ao templo. Ao todo formavam 53 cordas. Essas cordas, trançadas em muitas posições com o pensamento único de devoção, foram capazes de levantar as gigantescas toras e assim, a construção dos dois pavilhões foi finalmente completada.

Enquanto eu lia essa tabuleta, quatro ou cinco mocinhas, aparentemente turistas, aproximaram-se da redoma de vidro. Calmamente, elas começaram a ler a explicação. Após um momento, uma delas exclamou com surpresa: “essa corda inteira é feita de cabelo humano”. Ela olhou, buscando dentro da redoma, como se esperasse ver algum objeto de aparência estranha. Suas amigas olharam curiosamente para a corda, da mesma maneira. Seguiu-se a seguinte conversa:

“Deve ter sido difícil coletar tanto cabelo.”
“Mas, eu gostaria de saber se todo esse cabelo foi doado somente por virtuosas devotas, como diz esta tabuleta.”
“Não pode ser verdade! Esta tabuleta não é senão publicidade para esse templo.”

Curiosamente, enquanto falavam, cada uma delas inconscientemente tocava seus próprios cabelos como se temessem que alguém os cortassem. Essa conversa acabou com a conclusão de que a corda era algo “grotesco”.

Ouvindo a conversa delas somada às suas reações, não pude ajudar em nada, apenas percebi a superficialidade espiritual de era atual.

A partir de uma perspectiva intelectual imparcial, há provavelmente muita verdade naquilo que aquelas jovens diziam. Exatamente como elas suspeitavam, é duvidoso que todo o cabelo dessas cordas, cada uma com 228 pés (75,24m) de comprimento e pesando aproximadamente uma tonelada, tenha sido doada por virtuosas devotas que “prazeirosamente cortaram seus cabelos em reconhecimento ao Ensinamento de Shinran”. Entre as doadoras houve certamente, um número de mulheres forçadas a doar seus cabelos por causa da pressão de vizinhos ou sogras desnaturadas. Assim, essas cordas devem conter alguns cabelos descoloridos por lágrimas relutantes e elas provavelmente contribuíram para os conflitos domésticos.

Quando pensamos em fatos como este não podemos negar que existe muita tristeza e conflito na história destas cordas. Entretanto, mesmo admitindo que isso seja verdade, será que podemos negar o fato de que as cinqüenta e três cordas assim produzidas, foram instrumento na construção do Grande Templo e de seus Pavilhões, construções essas que significam para nós um lugar para momentos de tranqüilidade e devoção?

Se começássemos a analisar as circunstâncias de cada mulher que doou o seu cabelo, não iríamos longe e certamente encontraríamos vários conflitos e mal entendidos. Entretanto, teríamos em mente que não foram esses conflitos que produziram as cordas de cabelo ou construíram os majestosos locais de devoção. Ao invés disso, foi a inspiração conjunta do espírito humano, transcendendo todas as diferenças individuais de pensamentos e emoções, que tomou forma nestas gigantescas cordas de cabelos humanos e atuou como uma expressão de gratidão e devoção do ser humano. Esse acontecimento inacreditável é algo que provavelmente o intelecto jamais estará apto a compreender. Todavia, certamente há um nível intuitivo, espiritual, no qual a verdadeira base disto pode estar contida, sem a necessidade de uma explicação racional.

Parece-me que uma das mais desafortunadas características do ser humano é a sua falta de habilidade para sentir o sopro vivo da história por trás da vida que o sustenta no dia-a-dia. A história não é uma mera sucessão de longínquos eventos a serem arbitrariamente explicados e interpretados pelo homem moderno. A história vive e respira nas nossas existências diárias como se fosse o acúmulo progressivo das camadas de uma árvore. Somente aqueles que podem sentir este sopro vivo permeando o momento presente sentem a plenitude da vida. Penso que muito da alienação e do vazio da vida moderna são causados por uma visão totalmente voltada para o presente, um presente separado das suas raízes na história. Como esta visão está desligada de seus próprios fundamentos, em verdade ela abandonou a fonte de sua própria existência.

Em japonês há duas expressões indispensáveis à vida diária. São elas okagesamade e arigato.

Okegesamade significa ”Graças a você” ou “Eu devo muito a você”. Arigato é usado no sentido de “Obrigado”, mas seu significado original é “Raro”, “Algo difícil de acontecer” ou “Não é sempre que isso acontece”. Estas duas palavras, sempre me parecem uma preciosa herança que nos foi deixada por nossos ancestrais. Quando entendemos e aceitamos a nossa existência presente, como algo “Raro”, brota em nós uma gratidão espontânea, advinda da dádiva imensurável do nosso passado pessoal. A história, “à qual nós devemos muito”, é a mesma fonte de nossa “Rara existência”.

Entretanto, eu gostaria de saber se nós , homens modernos, não estaríamos indiferentes ao abandono de nossa maravilhosa herança histórica. Se assim for, isso é trágico. Se impensadamente entregamos nossas vidas ao mundo do acaso, tornamo-nos pouco mais que insignificantes objetos físicos, não sentindo nem gratidão pela nossa existência, nem aflição causada pela nossa extinção.

A mente reverente é uma expressão da intuição do homem que busca a origem do seu próprio ser, e disto surge a nossa ilimitada gratidão à história que nos fez aquilo que somos. É este o espírito que diferencia o homem de todas as outras criaturas que vivem apenas de acordo com aquilo que é ditado pelo instinto.

Nossos ancestrais deixaram muitos templos para nós, seus herdeiros e descendentes. Estes templos existem em muitas formas e com diferentes denominações, mas são todos idênticos, pois são lugares de reverência. São locais onde o espírito humano pode redescobrir sua verdadeira natureza. Como símbolo disso, mesmo o mais simples e despojado templo ostenta uma imagem budista em seu altar, como objeto de veneração. A imagem representa o mundo sagrado que só pode ser conhecido por uma mente reverente. Por isso, penso que, através da redescoberta da sua verdadeira natureza, o homem desperta para a sacralidade e a dignidade do ser humano. Assim sendo, a tarefa mais urgente com a qual nos defrontamos, é a retomada de consciência de nossa verdadeira natureza, em nossa vida diária.

Minha palestra fugiu bastante do tema original, as cordas de cabelos. Essas gigantescas cordas são o símbolo da mais séria e esperançosa intenção, dirigida a nós pelos nossos ancestrais, pois foi com essas cordas que foram construídos os majestosos pavilhões de reverência, a nós legados por nossos ancestrais. Entretanto, se deixarmos de lado o espírito de devoção, estas cordas perdem todo seu significado. Podemos estar nestes pavilhões que elas ajudaram a construir e olhá-las como nada mais que “grotescas” relíquias do passado. Não sei quantos templos há no Japão, nem se eles são famosos ou não, mas é certo que todos eles foram construídos com “invisíveis cordas de cabelos”. Estes templos estão chamando o homem moderno para recuperar o espírito de devoção. Isso porque, somente através deste espírito é que o homem pode redescobrir quem verdadeiramente ele é.


Templo Budista Apucarana Nambei Honganji
Travessa Dorizon, s/n
86802-265 — Apucarana — Paraná
Telefone/Fax:
(0xx43) 3423-0315
Monge Responsável:
Rev. Wagner Bronzeri (Sh. Haku-Shin)
E-mail: honganji@dharmanet.com.br

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