Ricardo Mário Gonçalves
Uma Obra de Ética Econômica Budista do Japão Pré-Industrial
Estudo sobre o Banmin Tokuyô de Suzuki Shôsan (1579-1655)


3° Capítulo: O Trabalho como Ascese no Banmin Tokuyô


4. A Valorzação do Trabalho pelo Budismo Zen por Suzuki

A posição de Shôsan avança um passo além de tudo o que foi visto acima. Vimos como o Budismo encara o trabalho de uma maneira positiva, como algo que, longe de prejudicar a vida ascética, pode atuar como um elemento auxiliar da mesma. Entretanto, para Shôsan o trabalho já é a própria ascese . Diz ele ao samurai , no Bushi Nichiyô:

“A Lei Búdica e a lei profana são uma só. Buda disse que aquele que mergulhar no mundo profano e dominá-lo plenamente realizará a Lei de Buda com total perfeição. Tanto a Lei de Buda como a profana consistem apenas em retificar a vida, praticar a justiça e usar de honestidade.”

Dirigindo-se ao agricultor, adverte ele no Nônin Nichiyô que o homem não deve adiar a realização espiritual para uma hipotética vida futura, mas sim converter a faina agrícola numa ascese que permita alcançá-la aqui e agora:

É necessário enfrentar a faina penosa no frio e no calor extremos, e, com arados, enxadas e foices, enfrentar nossos inimigos, o corpo e a mente, onde crescem as ervas daninhas das paixões. Eles devem ser revolvidos, limpos e cultivados com a máxima atenção e o máximo cuidado. Quando o homem se distrai, as ervas daninhas das paixões crescem e aumentam. Quando, entregando-se à faina penosa, o homem com ela adestra seu corpo e sua mente, não haverá angústia em seu coração. O agricultor que se entrega a essa Prática Búdica durante as quatro estações ano não tem precisão de outras práticas... A cada golpe de enxada deverá ele recitar a invocação a Amida. Deverá integrar-se em cada golpe de foice, sem desviar os pensamentos. Desta forma, a roça se converterá na Terra Pura e os cereais em alimento puro, em um remédio que eliminará todas as paixões daquele que o comer.”

Em suas exposições aos artesãos no Shokunin Nichiyô, como já vimos, recorre ele às doutrinas místicas do Avatamsaka Sutra para mostrar que todas as profissões são emanações da Atividade Total e Uma do Buda Cósmico, cujo objetivo é beneficiar o mundo. Já em sua primeira obra, o Môanjo , Shôsan salientava a importância do trabalho e fazia uma crítica velada e discreta à sociedade feudal, que considerava certas profissões como vis e tornava bastante penosa a vida dos trabalhadores:

“Existem também os benefícios que recebemos dos seres viventes: benefícios recebidos dos agricultores, dos artesãos, dos alfaiates, dos tecelões e dos comerciantes. Devemos saber que todas as atividades se beneficiam, auxiliando-se mutuamente e por isso não devemos estabelecer discriminações entre as pessoas. Ao tratar como o amo, devemos compreender o coração do amo e tomar consciência da imperfeição de nossos atos. Ao tratar com as pessoas de condição inferior devemos compreender seu coração e perceber o quanto elas sofrem. Lembremo-nos que dia e noite elas enfrentam o calor extremo e o frio rigoroso, sem interrupção e sem descanso para suas mentes ou para seus corpos. Os camponeses dia e noite penam mental e fisicamente com sua faina, produzindo cereais para alimentar os habitantes do país. Dizem que cem mãos são necessárias para produzir uma pequena medida de arroz. Devemos ter em mente todo esse sofrimento. Além disso, com seu trabalho uma pessoa alimenta numerosos dependentes. Mal consegue o trabalhador garantir sua sobrevivência, o alimento é pouco e a preocupação é intensa. Pensemos com compaixão naqueles que, não dispondo do suficiente para pagar os impostos, são obrigados a vender suas esposas e, após uma despedida dolorosa, as vêm sendo conduzidas para províncias distantes. Pensem naqueles que foram derrotados pela vida: são incapazes de sustentarem esposa e filhos, mas não perdem as esperanças. Não os desprezemos ao vê-los recorrendo à lisonja, procuremos nos sentir na posição deles. Não é também digna de lástima a situação dos párias e dos pedintes, passando toda a sua vida atormentados pelo frio intenso e dormindo ao ar livre?”1

No texto biográfico Sekihei Dôjin Shisô (As Quatro Faces de Suzuki Shôsan) o discípulo Echû declara que o principal objetivo de Shôsan ao redigir os textos que formam o Banmin Tokuyô foi justamente demonstrar que o trabalho no mundo profano é uma ascese espiritual:

“A ascese está nas diferentes atividades profissionais do mundo profano. Shôsan, ao esclarecer esse ponto, tinha em vista o benefício geral de todo o mundo profano. Mostrou ele que a essência do Mahayana está na doutrina da inexistência de obstruções separando a Lei de Buda da Lei do mundo profano e que o Ensinamento do Pequeno Veículo que manda abandonar o mundo profano não passa de um ensinamento provisório. Esse ponto foi minuciosamente esclarecido nos textos sobre os preceitos diários para os diferentes profissionais. Particularmente em nosso país considera-se como Verdadeira Lei tudo o que auxilia o desenvolvimento da bravura militar. Shôsan declarou que os ensinamentos que levam ao enfraquecimento da coragem guerreira não pertencem à Verdadeira Doutrina. Tal é a essência da mensagem contida no Bushi Nichiyô. Reunindo o Shimin, o Shugyô Nengan e o Sambô Tokuyô, compôs ele um livro a que deu o nome de Banmin Tokuyô, que foi editado e amplamente divulgado. É o principal trabalho do Mestre.”2

Assim, a essência da mensagem de Shôsan está na santificação do trabalho, na conversão do dever profissional de cada um em uma prática ascética que conduz à perfeição espiritual. No Banmin Tokuyô dirige exortações minuciosas a esse respeito, a cada uma das principais categorias sócio-profissionais em que se divide a sociedade japonesa. Não é nossa intenção estudar a ética de cada grupo social, mas apenas a do comerciante, pois é nesse ponto que mais se destaca a modernidade do pensamento de Shôsan e sua provável contribuição para o desenvolvimento de uma mentalidade favorável ao Capitalismo no Japão. Assim, no próximo capítulo faremos uma análise do Shônin Tokuyô , à luz das doutrinas sobre a ética comercial que se encontram nos textos da tradição budista indiana.


1. MÔANJO in SUZUKI (Tesshin) – Suzuki Shôsan Zenshû , p. 53.
2. In SUZUKI (Tesshin), op. cit., p. 37.


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