Ricardo Mário Gonçalves
Uma Obra de Ética Econômica Budista do Japão Pré-Industrial
Estudo sobre o Banmin Tokuyô de Suzuki Shôsan (1579-1655)


3° Capítulo: O Trabalho como Ascese no Banmin Tokuyô


2. A Valorização do Trabalho pelo Budismo Zen na China

É sabido que hoje em dia na China Popular e no Vietnã os monges budistas são considerados cidadãos como os demais, com o mesmo dever de trabalhar nos campos e nas fábricas. Há quem veja nisso simplesmente mais um exemplo das restrições à atividade religiosa tão freqüentes nos países de regime comunista, mas na verdade os modernos líderes socialistas do Oriente apenas estão retomando, conscientemente ou não, uma atitude assumida tradicionalmente pelos letrados confucianos frente ao monasticismo budista, que acabou por estimular os próprios monges a valorizarem o trabalho como uma forma de ascese, dentro da tradição do Budismo Zen.

O monasticismo mendicante, elemento tão valorizado e respeitado na cultura indiana, sempre foi visto com desconfiança pelos chineses. Desde os primeiros tempos da introdução do Budismo na China, os letrados confucianos criticaram os monges por seu celibato, que os desvinculava dos deveres da vida familiar, base da ética chinesa, e pela sua não-participação na agricultura e outras atividades produtivas. Em várias ocasiões os governantes chineses desencadearam perseguições contra o Budismo, obrigando os monges a voltarem ao status laico para se casarem e assumirem deveres profissionais. A maior dessas perseguições ocorreu sob a Dinastia Tang, no ano de 845.

Sob tais condições desenvolveu-se, dentro da tradição do Budismo Zen, um novo tipo de monasticismo que nada tinha em comum com as comunidades indianas de monges budistas.

O Budismo Zen é uma corrente budista chinesa resultante do encontro entre a atitude contemplativa do Budismo Indiano com a mentalidade prática, objetiva e até certo ponto antimetafísica que predomina na cultura chinesa. Reza a tradição que o Zen chegou à China trazido por Bodhidharma, monge indiano que chegou à região de Cantão por via marítima, por volta do ano 520. A China, não obstante ver-se a braços com uma séria crise de fragmentação política, estava atravessando um período de grande fermentação cultural e religiosa. Com base nos textos budistas trazidos da Índia e traduzidos para o Chinês, as escolas budistas se multiplicavam, com pleno apoio dos governantes. Mas esse Budismo era quase que exclusivamente livresco e teórico, e contra isso se revoltou Bodhidharma, que quis estabelecer na China um Budismo ao mesmo tempo contemplativo e prático, baseado exclusivamente na experiência de Iluminação vivida por Siddhartha Gautama. Como recomendasse a prática da meditação – dhyana em sânscrito, ch'an em chinês e zen em japonês – seus seguidores passaram a ser conhecidos como os membros da Escola Ch'an ou Zen, embora Bodhidharma não pensasse em fundar nenhuma seita ou escola nova, mas apenas em transmitir o verdadeiro espírito do Budismo: a prática da meditação – dhyana – e o despertar da Sabedoria Intuitiva – Prajna . Bodhidharma, que deixou apenas um discípulo, foi o primeiro de uma série de seis patriarcas responsáveis pela formação do Budismo Zen. No tempo do Quinto Patriarca Hung-Jen (605-675) surgiram os primeiros monastérios Zen destinados a abrigar grande número de discípulos. Contrariamente às ordens monásticas mais antigas, que à semelhança das comunidades indianas, dependiam do patronato do Estado ou de particulares leigos, os monges Zen tiveram a necessidade de trabalhar, principalmente na agricultura, pela sua sobrevivência. Com o tempo o samu ou trabalho manual, principalmente na agricultura ou na limpeza dos templos, passou a figurar como uma das práticas obrigatórias do dia-a-dia de um monge Zen. De mero expediente necessário para garantir a subsistência converteu-se em elemento fundamental da ascese budista, tão importante quanto a meditação para o despertar da Sabedoria Prajna.

O grande organizador das comunidades monásticas Zen da China foi Po-chan Huai-nai (749-814), conhecido no Japão como Hyakujô Ekai. Até sua época as comunidades monásticas Zen estavam associadas a organizações de outras escolas, mas Po-chan conseguiu criar grupos independentes, tendo ainda organizado um corpo de regras – Shingi – a serem obedecidas pelos praticantes do Zen. O Shingi de Po-chan, pela sua valorização do samu como complemento indispensável da prática da contemplação pode ser comparado à Regra de São Bento do monasticismo ocidental, com seu “ora et labora”. Na verdade, de todas as organizações monásticas do Oriente, só o Budismo Zen sino-japonês é comparável ao monasticismo ocidental, por sua ênfase no trabalho manual produtivo.

A literatura monástica Zen da China registra que o próprio Po-chan fazia questão de participar dos trabalhos agrícolas de sua comunidade, mesmo quando já tinha quase setenta anos de idade. Temendo por sua saúde, os discípulos o exortaram a deixar o trabalho. Foi em vão. Po-chan continuou a se dedicar ao trabalho e vendo que meras palavras seriam inúteis para convencê-lo, os discípulos esconderam sua enxada. O Mestre procurou-a por toda parte e não a encontrando, absteve-se de alimento naquele dia. Depois, dirigindo-se aos discípulos, pronunciou uma frase que ficou famosa nos anais do Budismo Zen:

“No dia em que não se trabalha, não se come.”1


1. Sobre a valorização do trabalho na tradição Zen, ver: NAKAMURA (Hajime) – Nippon Shûkyô no Kindaisei, p. 11-37.


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