Ricardo Mário Gonçalves
Uma Obra de Ética Econômica Budista do Japão Pré-Industrial
Estudo sobre o Banmin Tokuyô de Suzuki Shôsan (1579-1655)


3° Capítulo: O Trabalho como Ascese no Banmin Tokuyô


1. A Posição do Budismo Indiano em Relação ao Trabalho

Nos textos do Budismo Original Indiano encontramos duas atitudes diferentes ante o trabalho. Aos monges, toda a espécie de trabalho e qualquer acúmulo de bens materiais são terminantemente proibidos:

“O Praticante do Caminho não deve pegar em dinheiro, ouro ou prata, deverá viver baseando-se apenas no presente.” (Therigatha 284)

“Se algum monge tiver tomado com suas mãos ouro e prata, ou tiver feito alguém tomar por ele, ou tiver entesourado, terá cometido falta.” (Nissaggiya Pacittiya 18)

“Se um monge se envolver na compra e venda de mercadorias, cometerá falta.” (Nissaggiya Pacittiya 19)

“Se um monge escavar a terra ou mandar alguém fazê-lo, cometerá falta.” (Pacittiya 10)

“Cortar plantas e árvores é falta.” (Shinbunritsu 12)1

Os monges deveriam se dedicar exclusivamente à contemplação e à pregação da Doutrina, devendo ser sustentados pelas ofertas de alimentos e roupas proporcionadas pelos leigos. Os terrenos e edificações dos mosteiros também eram obtidos através de doações feitas pelos leigos. Tal é ainda a norma de vida seguida nas comunidades monásticas conservadoras do Sudeste Asiático. Em um dos textos mais antigos das escrituras em língua páli, o Suttanipata, está registrado um curioso diálogo em que um brâmane que se dedicava à agricultura interpela o Buda, censurando-o por não se dedicar também a um trabalho produtivo. Buda replica-lhe dizendo que sua atividade de instrutor espiritual é a de um cultivador. O diálogo prossegue da seguinte maneira:

“(Disse o brâmane:)

– Vós afirmais que sois cultivador, mas jamais vos vi cultivar a terra. Explicai de que modo vós cultivais, para que eu possa entender.

(Respondeu o Buda:)

– A fé é a semente, o ascetismo é a chuva, a Sabedoria é minha enxada e meu arado. A autocrítica é a haste do arado, a vontade a corda que o amarra, o pensamento é a ponta do arado e a lâmina da enxada. Controlo o corpo e os pensamentos e sou moderado nas refeições. Com a verdade eu corto as plantas daninhas. Com a brandura eu solto os bois do arado. O esforço é o boi atrelado ao arado, que me conduz diretamente a um lugar seguro e tranqüilo, sem jamais retroceder. Quem cultiva desta maneira se liberta de todos os sofrimentos.”2

Embora negando aos monges a prática de atividades produtivas, Buda não deixa, porém, de compará-las com o trabalho de ascese espiritual. Em outro texto primitivo, o Dhammapada, encontramos outra comparação do mesmo gênero:

“O sábio a cada instante se aplica em eliminar pouco a pouco suas impurezas, assim como o metalúrgico purga a prata de suas impurezas.” (Dhammapada 319)

Os leigos, porém, são encorajados a se aplicarem ao trabalho com diligência, com o objetivo de acumularem bens:

“Se alguém, morando em lugar apropriado, aproximar-se de uma pessoa nobre e servi-la, sempre guardando intenções corretas e praticando o bem, acumulará alimento, fortuna, honra e paz.” (Anguttara Nikaya II)

“Ó monges, há comerciantes que não se esforçam nem pela manhã, nem pelo meio-dia, nem à tarde. Aqueles que assim fazem não obterão novos bens, nem multiplicarão os que já possuem... Há comerciantes que se esforçam pela manhã, pelo meio-dia e pela tarde. Aqueles que assim fazem obterão novos bens e multiplicarão os que já possuem.” (Anguttara Nikaya I)

Na literatura do Mahayana encontramos textos em que o trabalho ativo no mundo é valorizado como um dos caminhos para se chegar à Realização Búdica. O trecho seguinte do Saddharma Pundarika Sutra é constantemente citado pelos mestres sino-japoneses de tendências laicizantes:

“Nenhum dos ensinamentos pregados está em desacordo com o Real. Ainda que sejam pregados textos de natureza profana, ainda que sem emitidas opiniões sobre assuntos políticos, ainda que sejam ditas coisas referentes à economia, tudo isso está de acordo com a Lei Correta.”3

O Budismo Indiano encorajou bastante as atividades econômicas dos leigos, principalmente as de natureza mercantil, como veremos no próximo capítulo em que será analisada a ética comercial do Budismo. Entretanto, os monges sempre permaneceram desvinculados das atividades produtivas. Só na China, com o advento do Budismo Zen, o trabalho foi adotado pelos monges como uma forma de ascese.


1. NAKAMURA (Hajime) – Butten, vol. I, p. 78.
2. Esse texto e os que se seguem foram extraídos de NAKAMURA (Hajime) – op. cit., vol. I, p. 79.
3. NAKAMURA (Hajime) – op. cit., vol. II, p. 148.


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