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Ricardo
Mário Gonçalves
O Prof. Hajime Nakamura observa com razão que, se Rennyo e outros autores laicizantes anteriores a Shôsan se limitavam a mostrar que não existe contradição entre a vida laica e a realização religiosa, este vai muito mais longe, pois converte a vida laica em caminho de realização espiritual1. A leitura da terceira parte do Banmin Tokuyô nos mostra claramente que, para Shôsan, nem o guerreiro, nem o agricultor, nem o artesão, nem o comerciante precisam se preocupar em empreenderem a prática de exercícios espirituais. Para ele a própria atividade profissional, seja ela qual for, dever ser vivida como uma ascese que conduz à realização espiritual. Diz ele ao agricultor que “o trabalho agrícola já é a própria Prática Búdica” . Ao artesão observa que “todas as atividades profissionais são a própria Prática Búdica” , e que “os homens deverão se realizar como Budas através de suas próprias atividades no mundo”. Hônen e outros se limitavam a tolerar as atividades profanas quando elas não interferissem com as práticas espirituais e a encorajá-las, quando elas agissem como elementos auxiliares dos exercícios religiosos. Para Shôsan, porém, “é um erro pensar que precisamos de horas livres para pensar na Vida Eterna”, uma vez que o próprio trabalho no mundo profano já é uma ascese. A santificação do trabalho é, pois, a principal característica do laicismo de Shôsan. É esse o aspecto de seu pensamento que passaremos a estudar no próximo capítulo, à luz das reflexões sobre o trabalho elaboradas dentro da tradição budista.
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