|
Ricardo
Mário Gonçalves
Embora Shôsan tenha sido o primeiro autor japonês a formular sistematicamente uma doutrina laica, não é ele o primeiro a propor no Japão um Budismo Laico. Na realidade ele é o herdeiro de uma longa tradição de laicismo que remonta às próprias origens do Budismo Japonês. O primeiro apóstolo do Budismo Laico no Japão foi o Príncipe Regente Shôtoku (574-622). Entusiástico patrono do Budismo, promoveu a construção de templos e o envio de monges à China para estudar. Promulgou a primeira lei escrita japonesa, a Ordenança dos Dezessete Artigos (Jûshichijô Kempô), impregnada de influências budistas e confucionistas. Não se tornou monge, mas costumava envergar um manto de discípulo de Buda sobre suas vestes de burocrata letrado para fazer pregações budistas à família imperial e à nobreza. A ele é atribuída a redação de três comentários de Sutras do Mahayana, sendo interessante notar que os textos escolhidos são fundamentais para o Budismo Laico:
Nesses comentários atribuídos ao Príncipe Regente se nota uma nítida opção pela ação em detrimento da contemplação. Após sua morte, o Príncipe Shôtoku passou a ser venerado como Bodhisattva. Depois do Príncipe Shôtoku, o Budismo Japonês centrou-se quase que exclusivamente nas comunidades monásticas protegidas pelo Estado, mas houve algumas figuras que, no pensamento e na ação, deram mostras de alguma abertura para o Budismo Laico. Dentre estas, destacamos a figura de Kôbô Daishi ou Kûkai, introdutor no Japão da Escola Shingon de Budismo Esotérico (774-835). Kûkai apresentou o Budismo Esotérico Shingon como uma escola eclética que englobava em seu seio não só todas correntes do pensamento budista, mas também o Taoísmo, o Bramanismo e a filosofia laica do Confucionismo, considerando todas essas escolas como representativas de diferentes níveis de consciência. Embora vivendo como monge, Kûkai demonstrou grande abertura em relação ao mundo profano, atuando como conselheiro político dos imperadores, com calígrafo, poeta, educador e divulgador de conhecimentos técnicos e científicos. Fundou no Japão a primeira escola popular e gratuita, o Shugeishuchi-in, em que monges budistas e letrados confucianos leigos ministravam educação integral a jovens que demonstrassem especial pendor para o estudo, independentemente de sua posição social. Dirigiu em sua província natal de Sanuki, na ilha de Shikoku, a construção do açude de Manno para irrigar os arrozais da região. Dirigiu também um estaleiro imperial nas proximidades de Naniwa, atual Osaka. A exemplo de Gyôgi (668-749), venerado pelo povo como promotor de obras sociais, percorreu em peregrinação a maior parte das províncias japonesas, promovendo a construção de estradas e pontes e a abertura de poços e canais de irrigação. No campo especificamente religioso, concedeu a iniciação ao Budismo Esotérico a várias personalidades leigas. Seu contemporâneo Saichô (767-822), introdutor no Japão da Escola Tendai, também deu um importante passo em direção ao Budismo Laico ao planejar uma importante reforma para o sistema de ordenação de monges. Essa reforma consistia em substituir os preceitos monásticos tradicionais herdados das comunidades do Hinayana pelos chamados “Preceitos do Bodhisattva”, comuns a monges e leigos, propostos pelos Sutras do Mahayana. Essa reforma não deu frutos imediatos no sentido de promover um Budismo em que a distinção entre monges e leigos ficasse praticamente abolida porque a oposição que Saichô sofreu das comunidades budistas tradicionais o obrigou a uma proposta conciliatória segundo a qual os monges receberiam conjuntamente os dois tipos de preceitos. Entretanto, mais tarde essa reforma frutificou. Só com o advento das escolas reformadas dos séculos XII e XIII é que surgiram no Japão as primeiras formulações teóricas de um Budismo Laico, mas é importante notar que já entes dessa época existiam praticantes budistas denominados Ubasoku ou Hijiri, que não podem ser classificados nem como monges nem como leigos. Raspavam a cabeça e envergavam hábito monástico, entregando-se a práticas espirituais, mas muitas vezes constituíam família e se entregavam a profissões laicas. Os Hijiri influenciaram grandemente a formação do Budismo Reformado, bem como sua abertura para o laicato. As escolas reformadas refletem as importantes transformações sócio-políticas dos séculos XII e XIII que marcam o fim do antigo Estado Despótico Japonês dominado por uma aristocracia latifundiária associada com a Família Imperial, que é substituído por uma sociedade de tipo feudal dominada pelos samurais ou guerreiros profissionais. O advento das escolas reformadas se liga à insatisfação generalizada contra as velhas ordens monásticas degeneradas em meros instrumentos ideológicos de dominação a serviço da aristocracia decadente. As novas escolas correspondiam à expectativa dos samurais, comerciantes e camponeses, acenando-lhes com a possibilidade da realização espiritual na condição laica. As principais escolas do Budismo Reformado são:
Examinaremos rapidamente os elementos laicizantes nas escolas devocionais amidistas, uma vez que elas não deixam de ter uma certa relação com o pensamento de Shôsan que, como vimos, propunha uma síntese entre o Zen e o Amidismo.1 O Amidismo se baseia na teoria escatológica do Mappô (Época do Fim da Lei, ou seja, da extinção do Budismo). Segundo os mestres amidistas, o Budismo tradicional havia chegado a seus últimos dias, com o advento de uma era de decadência e corrupção da natureza humana que tornava totalmente ineficazes as práticas ascéticas preconizadas por Buda e os antigos doutores budistas. Nessa época corrupta a única possibilidade de salvação acessível ao homem seria um ato de fé incondicional em Amida, o Buda da Vida e da Luz Infinitas, cuja grande compaixão pela humanidade corrompida e sofredora o levara a enunciar o Voto Original (Hongan), juramento de salvar todos os seres que invocassem seu nome com sincera devoção. Para o Amidismo era irrelevante qualquer distinção entre monges e leigos, o que importava era a prática do Nembutsu (invocação do Nome de Amida) feita com e sinceridade. O Mestre Hônen viveu toda sua vida fiel aos votos monásticos que pronunciara na Escola Tendai, mas declarava que qualquer pessoa, independentemente de sua profissão ou situação social, poderia praticar o Nembutsu, não sendo necessário renunciar ao mundo para fazê-lo. Por outro lado, Hônen aconselhava que se tornassem monges aqueles que sentissem que a vida monástica representasse para eles uma condição fundamental para a prática do Nembutsu. Disse ele em uma de suas pregações:
Shinran, discípulo de Hônen, levou mais adiante essa abertura para o laicato. Perseguido juntamente com Hônen pelas antigas ordens monásticas, foi expulso de sua ordem e banido para uma província distante da capital. Constituiu família, mas não abandonou a pregação budista nem despiu o hábito. Intitulou-se Hisô-hizoku (nem monge nem leigo). Ensinou que pessoas de quaisquer profissões, mesmo daquelas consideradas vis e pecaminosas pelo Budismo monástico (pesca, caça e qualquer atividade que implique na destruição de seres vivos) poderiam alcançar o Renascimento na Terra Pura da Suprema Alegria, isto é, a salvação através da fé no Nembutsu. O Tannishô (Tratado de Lamentação das Heresias), trabalho composto por Yui-En, discípulo de Shinran, registra as seguintes palavras de seu mestre:
Encontramos aqui uma importante declaração a respeito da igualdade de todos os seres humanos, independentemente de sua profissão ou condição social. Em uma das cartas do Patriarca Rennyo (1415-1499), um dos líderes do Honganji, a mais poderosa organização dos adeptos de Shinran, encontramos instruções de natureza ético-religiosa dirigidas às diversas profissões que representam um prolongamento dessas idéias e já são uma prefiguração da ética econômica de Shôsan:
No período Tokugawa, essa atitude de valorização positiva das atividades profissionais foi herdada pelos Myôkônin, místicos amidistas leigos dedicados ao comércio, artesanato, agricultura e outras atividades.3 No Zen encontramos tendências laicizantes no pensamento de Ikkyû (1394-1481), contemporâneo de Rennyo, mas só na Era Tokugawa encontramos autores, contemporâneos de Shôsan ou posteriores a ele, que propõem um caminho ético-religioso de realização para os leigos, como Takuan (1573-1645), Hakuin (1685-1768), etc.4 Outras escolas apresentaram tendências laicizantes nessa mesma época, como as escolas Nichiren e Shingon. Nesta última cumpre destacar a atuação do Mestre Jiun (1718-1804), pioneiro dos estudos de filologia sanscrítica no Japão e autor de vários trabalhos em língua popular de ética budista para leigos, como o Jûzen Hôgo (Sermão sobre os Dez Preceitos Morais) e Hito to naru Michi (O Caminho para a Humanização). Na verdade, podemos concluir que a laicização foi uma tendência geral do Budismo da Era Tokugawa, em parte como reflexo do processo de secularização que marcou todos os aspectos da cultura da época, em parte como uma reação dos budistas à crítica dos confucionistas que condenavam o Budismo como uma doutrina escapista, incompatível com os deveres e solicitações da vida profana.5
|
||