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Ricardo
Mário Gonçalves
Shôsan é um pensador bastante original cujas atitudes contrastam vivamente com as da maior parte dos pensadores budistas do Japão tradicional. Deixando para expor suas idéias sobre a ética laica mais adiante, ao tratar do Banmin Tokuyô, em que encontraremos sua principal realização dentro da História do Pensamento Budista, trataremos aqui de maneira breve e sucinta dos principais tópicos do pensamento de Shôsan1. Cumpre notar em primeiro lugar a atitude anticonvencional e contrária ao tradicionalismo própria ao pensamento de Shôsan, que o levou a elaborar uma doutrina eclética que contrasta sobremaneira com o sectarismo dos principais expoentes do Budismo Japonês. O sectarismo é uma das principais características do Budismo Nipônico, principalmente se considerarmos suas correntes mais recentes, posteriores ao século XII. Dentre os pensadores mais antigos, encontramos elementos ecléticos como Saichô (767-822) e Kûkai (774-835), introdutores no Japão das Escolas Tendai e Shingon, respectivamente, autores que intentaram fazer de ambas as escolas movimentos ecléticos que englobassem as diferentes tendências e práticas budistas vigentes na China e no Japão. Entretanto, as novas escolas que se formaram no Japão nos séculos XII e XIII (Budismo de Kamakura ou Reformado) se constituíram como movimentos sectários e exclusivistas, optando por uma única prática ou doutrina, com exclusão de tudo o mais. Os amidistas, adeptos das doutrinas devocionais de Hônen (1133-1212) e Shinran (1173-1262) consideravam totalmente inúteis as práticas ascéticas e virtuosas das velhas escolas e ensinavam uma doutrina de salvação dependente inteiramente da fé. Os adeptos do severo e contemplativo Budismo Zen, introduzido no Japão por Eisai (1141-1215) e Dôgen (1200-1253) olhavam com desprezo o Budismo devocional, considerando-o uma forma decadente de Budismo própria para pessoas fracas, amigas dos prazeres mundanos e avessas às práticas ascéticas. Nichiren (1222-1282) fulminava com a mais radical condenação todos os que não seguissem sua Doutrina baseada no Saddharma-Pundarika-Sutra (Sutra do Lótus da Lei Excelente) e era, por sua vez, condenado por todas as escolas. Os Tokugawa, em sua política religiosa, por sua vez também encorajaram a divisão sectária. Shôsan escapa a esse sectarismo. É considerado um Mestre Zen da Escola Sotô trazida ao Japão por Dôgen, mas se ordenou como um Mestre da Escola Rinzai e se aperfeiçoou com mestres da Escola Ritsu, de quem aprendeu as regras monásticas. Critica o Mestre Dôgen, Patriarca Fundador de sua Escola, dizendo que ele estava longe de ter alcançado a Verdadeira Iluminação e, por outro lado, não esconde suas simpatias por Hônen, o Patriarca Fundador da Escola Devocional da Terra Pura, a quem louva como sendo um dos poucos verdadeiros iluminados do Japão. Ensina o Zen aos guerreiros e aos nobres e o Nembutsu ou invocação devocional aos camponeses e pessoas simples, preconizando um ecletismo entre o Budismo Contemplativo e o Devocional muito comum na China, na Coréia e no Vietnã, mas totalmente estranho à índole do Budismo Nipônico. Ensina também a recitação de mantras e dharanis fórmulas mágicas próprias do Budismo Esotérico (Escolas Tendai e Shingon). Embora fosse um Mestre Zen, não ensinava nem a simples meditação sentada (shikan-taza) preconizada por Dôgen, nem a meditação sobre paradoxos (kôan) ensinada pela Escola Rinzai, mas sim um método totalmente seu, que parece inspirado nas práticas do Budismo Esotérico, compreendendo a contemplação de imagens búdicas e esculturas representando divindades de aspecto marcial e terrível e o controle rítmico da respiração com auxílio das sílabas mântricas A e Hum. Na fase final de sua vida chegou a repudiar totalmente o Budismo Monástico tradicional e a preconizar um Budismo totalmente laicizado, como veremos ao analisar o Banmin Tokuyô. Sua doutrina, ao contrário dos ensinamentos da maioria dos budistas japoneses, não é centrada na figura dos Patriarcas das Escolas, mas sim em Sâkyamuni, o Fundador do Budismo. Seu racionalismo crítico está presente não apenas nas observações que faz em relação aos Patriarcas das Escolas Sino-Japonesas, mas também na crítica feita às teses cristãs dos Jesuítas. Em alguns pontos, entretanto, segue fielmente a tradição nipônica. Sua atitude basicamente ascética e seu amor à coragem, ao desapego, à renúncia e à fidelidade mostram que, embora tornado monge, continuou a ser um samurai, um típico guerreiro feudal japonês, educado para dar a vida a qualquer momento em prol de seus senhores. Concordou fielmente com a submissão do Budismo ao Estado, preconizada pelos Tokugawa. Entretanto, em muitos pontos não deixou de criticar a moral feudal de sua época, como veremos com detalhes ao tratar do Banmin Tokuyô.
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