Ricardo Mário Gonçalves
Uma Obra de Ética Econômica Budista do Japão Pré-Industrial
Estudo sobre o Banmin Tokuyô de Suzuki Shôsan (1579-1655)


1° Capítulo: Vida e Obra de Suzuki Shôsan


1. A Época

Suzuki Shôsan nasceu em 1579, quando Oda Nobunaga (1534-1582) batalhava pela reunificação do Japão com o objetivo de por fim à anarquia e à guerra civil endêmica que grassavam no país desde o enfraquecimento irremediável do poder político dos Xoguns Ashikaga por ocasião da Revolta de Ônin (1467), e morreu em 1655, quando já governava há quatro anos o Xogum Ietsuna, o quarto da Dinastia Tokugawa, que consolidara nos primeiros anos do século XVII um regime feudal fortemente centralizado pelo poder central, que conseguiu se manter até 1868, praticamente sem nenhuma oposição armada. Quando Shôsan nasceu, os Jesuítas, sob a proteção de Oda Nobunaga, de dedicavam, sem maiores entraves, à difusão do Cristianismo e o comércio externo florescia, com navios japoneses singrando os mares da Ásia Oriental e preparando a instalação de feitorias comerciais na Indochina, no Arquipélago Indonésio e nas Filipinas. Quando ele morreu, o Cristianismo japonês e o comércio exterior tinham recebido um golpe de morte com os éditos de 1639 do Xogum Iemitsu que, ao mesmo tempo que proibiam a prática e a difusão do Catolicismo, inauguravam o regime de sakoku ou isolamento, expulsando os estrangeiros, proibindo as viagens ao além-mar e impedindo o comércio exterior, com exceção de uns poucos contatos comerciais severamente controlados com os chineses e os holandeses, através do porto de Deshima, nas vizinhanças de Nagasaki. Na época do nascimento de Shôsan a sociedade japonesa apresentava suficiente mobilidade para permitir que um homem como Toyotomi Hideyoshi (1536-1598), filho de camponeses, pudesse atingir, pelo esforço pessoal e pela sorte nas armas, os mais altos escalões na nobreza militar. Na época de sua morte a sociedade nipônica se achava petrificada em quatro ordens hereditárias – guerreiros, agricultores, artesãos e comerciantes – minuciosamente controladas por estatutos especiais que tornavam a ascensão social totalmente impossível. Por tudo isso se vê que, antes de mais nada, Shôsan foi um homem de transição, que experimentou no decorrer de sua vida duas épocas brutalmente distintas. Nesse fato está talvez uma das explicações para as posições totalmente originais dentro da história do pensamento budista assumidas por Shôsan. É necessário, pois, antes de abordar a vida de Shôsan, fazer um breve apanhado da época conturbada em que ele viveu.

Vejamos primeiro os aspectos políticos, econômicos e sociais. A nobreza militar feudal assumiu o poder no Japão pela primeira vez em 1185, abolindo o domínio da aristocracia latifundiária e palaciana dos Fujiwara, último vestígio das tentativas de se instalar no Japão um sistema despótico e burocrático centralizado na autoridade imperial e copiado das instituições chinesas, tentativas essas iniciadas pela chamada Reforma de Taika em 645. O primeiro Xogunato ou Bakufu (governo militar feudal), estabelecido em Kamakura, na região leste, manteve-se até 1333, quando foi derrubado por um grupo de senhores feudais descontentes, reunidos em torno da figura do Imperador Godaigo, que sonhava com a restauração do antigo despotismo imperial, anterior à ascensão da classe militar. Em 1336, descontente com as tendências anacrônicas do Imperador Godaigo, o poderoso líder militar Ashikaga Takauji (1305-1358) revoltou-se contra o mesmo e fundou um novo Xogunato, conhecido como Xogunato Ashikaga ou Muromachi, nome do bairro de Kyoto, a capital imperial, onde foi instalada a sede do novo governo que se manteve até 1573.

O Período Muromachi se caracterizou por uma extrema fraqueza do poder central que favoreceu bastante os líderes militares provinciais, que freqüentemente pressionavam o Xogum e raramente se dignavam obedecer a seus éditos. Entretanto, os Xoguns Ashikaga conseguiram manter uma autoridade mais ou manos estável até 1467, quando duas poderosas famílias de líderes militares, os Hosokawa e os Yamana, imiscuindo-se num conflito referente à sucessão do Xogum, desencadearam uma terrível guerra civil, a Revolta de Ônin, que se estendeu até 1477. Depois dessa crise, o Xogunato Ashikaga nada mais fez do que controlar a cidade de Kyoto e suas vizinhanças, apoiando-se na autoridade carismática do Imperador, reduzido a mero líder religioso do Estado. Começou a era dos Sengoku Daimyô (Senhores das Províncias Combatentes), em que cada líder feudal se fortificou em sua província, passando a agir praticamente como um governante independente. Essa era de anarquia e guerra civil, também chamada Sengoku Jidai (Período das Províncias Combatentes), estendeu-se até 1573, quando, derrubados os Xoguns Ashikaga, novos líderes se lançaram à tarefa de reunificar politicamente o país.

Os Sengoku Daimyô viviam em estado de conflito permanente entre si, cada um desejoso de vencer seus vizinhos, fortalecendo-se militarmente para marchar sobre Kyoto, afastar do poder os enfraquecidos Ashikaga e criar um novo governo centralizado, sob a égide da autoridade carismática do Imperador. Nas províncias os conflitos internos também eram freqüentes e muitas vezes famílias tradicionais de líderes militares que dominavam uma região desde antes do século XIII foram suplantadas por antigos vassalos que, pela traição e pela força, firmaram-se como novos senhores. Assim começou o Gekokujô ou domínio dos vassalos traidores e rebeldes.

Em meados do século XVI poderosas famílias de líderes provinciais se rivalizavam na luta pelo poder supremo, como os Mori, os Hôjo, os Imagawa, os Uesugi, os Takeda, etc. Entretanto, o movimento vitorioso no longo processo de reunificação foi iniciado por um senhor que tinha de início pouquíssimas possibilidades de fazê-lo, Oda Nobunaga (1534-1582), líder do pequeno feudo de Owari, que corresponde à metade ocidental da atual Prefeitura de Aichi. Em 1560 começou a se firmar como caudilho militar, vencendo na Batalha de Okehazama o poderoso líder Imagawa Yoshimoto, senhor do feudo de Suruga (porção oriental da Prefeitura de Aichi), consolidou sua posição como senhor de Owari. Em 1567 apoderou-se do feudo de Mino (Prefeitura de Gifu), aniquilando a família Saito que dominava a região. No ano seguinte entrou em Kyoto, intitulando-se protetor do débil Xogum Ashikaga Yoshiteru. Daí por diante sua atuação se norteou exclusivamente no sentido de promover a unificação do país, combatendo tanto os Daimyô (senhores) independentes como as comunidades budistas que muitas vezes se constituíam em verdadeiras teocracias, dispondo de terras e de exércitos de monges guerreiros. Em suas lutas com os budistas, Oda Nobunaga se aliou aos Jesuítas que atuavam no Japão desde 1549. Estes, embora sabedores do agnosticismo religioso de Nobunaga, buscavam nele seu principal apoio para o trabalho missionário no Japão. Sua aproximação com os Jesuítas e os portugueses em geral lhe permitiram criar um excelente corpo de mosqueteiros, fator decisivo nas brilhantes vitórias militares que obteve. Em 1571 arrasou o mosteiro Enryakuji no Monte Hiei, nas vizinhanças de Kyoto, que dispunha de um forte exército de monges guerreiros. Em 1573 dominou Asai, senhor de Ômi (Prefeitura de Shiga) e Asakura, senhor de Echizen (Prefeitura de Fukui) e, descobrindo que o Xogum Yoshiteru conspirava contra ele, expulsou-o de Kyoto, liquidando assim com o Xogunato Ashikaga. Em 1575 venceu Takeda Katsuyori, senhor de Kai (Prefeitura de Yamanashi) e construiu o Castelo de Azuchi nas vizinhanças de Kyoto, que converteu em sede de sua administração. Em 1580 firmou a paz com a comunidade budista Honganji, com que vinha guerreando desde 1573. Em 1582, em meio a novas campanhas militares, foi traiçoeiramente assassinado por um general rebelde, Akechi Mitsuhide. Nobunaga abriu o caminho para a unificação política do Japão, não apenas através de suas vitórias militares, mas também graças a suas medidas de caráter econômico e administrativo: cadastro das terras cultivadas, extinção de barreiras alfandegárias – sekisho – que dificultavam a circulação de mercadorias entre os diferentes territórios, proteção aos comerciantes, incremento ao desenvolvimento urbano e confisco das armas em poder dos agricultores, visando uma nítida separação entre o campesinato e os bushi (guerreiros).

A obra de Oda Nobunaga foi desenvolvida e aperfeiçoada por Toyotomi Hideyoshi (1536-1598). Filho de camponeses do feudo de Owari, abandonou o lar paterno aos 15 anos de idade para tentar a sorte na carreira das armas. Após acompanhar vários líderes guerreiros, passou ao serviço de Oda Nobunaga, de quem se tornou um dos generais de maior confiança. Em 1582 vingou a morte de Nobunaga, perseguindo e matando o assassino Akechi. Isso lhe valeu a vantagem de ser reconhecido como herdeiro da obra iniciada por Nobunaga. Dessa data até 1590 sua carreira se constituiu numa série de campanhas militares vitoriosas contra os senhores independentes do Japão Meridional, Oriental e Setentrional. Ao invés de criar um Xogunato ou governo militar, teve de se contentar, por causa de sua origem plebéia, em exercer o poder com uma série de títulos conferidos pela Coroa Imperial, de quem se intitulou fiel defensor. Recebeu em 1585 o título de Kampaku (Ministro Regente) ao qual renunciou em 1591, quando passou a ser designado pelo título de Taikô (ex- Kampaku ). A partir desse ano desenvolveu um ambicioso projeto de conquista da China, cujo primeiro passo foi o envio de tropas à Coréia. Menos feliz em suas aventuras externas do que em sua obra interna de pacificação, envolveu-se numa série de infrutíferas campanhas na península coreana que se estenderam até o ano de sua morte, 1598, quando, em obediência a suas últimas determinações, as tropas japonesas regressaram à pátria.

Nos setores econômico e administrativo a atuação de Hideyoshi não foi menos importante do que no militar. Da mesma forma que Nobunaga, lutou pelo enfraquecimento e submissão das comunidades budistas, tão hostis à obra unificadora como os Daimyô independentes. Ao contrário de Nobunaga, porém, não apoiou as missões cristãs e foi responsável pelo primeiro édito de proibição do Cristianismo e pelas primeiras execuções de missionários e fiéis em 1594. No mesmo ano, ordenou um cadastro de terras que abrangeu todo o país e sistematizou a cobrança de impostos. Protegeu o comércio externo e interno e soube se rodear de grandes negociantes que lhe prestavam apoio financeiro. Em 1588 cunhou moedas vigentes em todo o Japão e realizou a célebre Katana-gari (caça às espadas), confiscando todas as armas em poder dos camponeses e limitando seu uso aos guerreiros. Assim foi dado um passo decisivo para o fim da mobilidade social que caracterizava o Japão do Período das Guerras Civis, da qual se beneficiara o próprio Hideyoshi.

Tokugawa Ieyasu foi o feliz herdeiro da obra de unificação realizada por Nobunaga e Hideyoshi. Filho de Matsudaira Hirotada, senhor do Castelo de Okazaki, no feudo de Mikawa, passou uma infância infeliz como refém nas mãos de Oda Nobuhide, pai de Nobunaga, e de Imagawa Yoshitomo. Libertado por Oda Nobunaga em 1560, quando da Batalha de Okehazama, aliou-se ao mesmo e iniciou um programa de conquista de Mikawa e das regiões vizinhas. Manteve relações pacíficas com Nobunaga e quando da morte deste, apoiou um dos filhos do mesmo contra Hideyoshi. Entretanto, em breve firmou a paz com Hideyoshi, passando a colaborar com sua obra de reunificação do Japão. Em 1590, quando Hideyoshi venceu a poderosa família Hôjo que dominava as planícies do leste do Japão, ordenou a Ieyasu que deixasse Mikawa e se instalasse no antigo território dos Hôjo. Ieyasu obedeceu e transladou-se para Edo (atual Tóquio), instalando-se no pequeno castelo já aí existente. Iniciou então, obras sistemáticas de ampliação do castelo e de construção de uma grande cidade a seu redor. Assim foram dados os primeiros passos para a construção de Edo, capital do Xogunato Tokugawa durante quase 300 anos antes de se tornar sede do regime imperial ocidentalizante iniciado com a Restauração Meiji com o nome de Tokyo (capital do Leste). Quando da aventura coreana de Hideyoshi, Ieyasu se esquivou habilmente de contribuir com tropas, procurando se fortalecer tanto econômica quanto militarmente. Em 1600, na famosa batalha de Sekigahara, enfrentou uma coligação de senhores capitaneada por Ishida Mitsunari que, na realidade de tutor nomeado por Hideyoshi, defendia os interesses de seu filho e herdeiro Hideyori, ainda menino. Depois dessa batalha, a derrotada família Toyotomi teve de renunciar ao domínio sobre o Japão, ficando restrito seu território à região circunvizinha do Castelo de Osaka, construído por Hideyoshi. Ieyasu se tornou o senhor incontestável do país e seu Castelo de Edo se tornou a sede de um novo Xogunato quando, em 1603, recebeu da Coroa Imperial o título de Xogum. Em 1605 transferiu o título para seu filho Hidetada, mantendo-se, porém, à testa do governo até sua morte em 1616. Em 1614 e 1615 eliminou a última ameaça ao poderio dos Tokugawa ao aniquilar em duas campanhas os remanescentes da família Toyotomi entrincheirados no Castelo de Osaka.

O processo de consolidação das instituições do novo Xogunato fundado por Ieyasu prosseguiu sob o domínio de Hidetada e do terceiro Xogum Iemitsu (1604-1651), em cuja época o regime alcançou suas formas definitivas. Ao contrário de Nobunaga e Hideyoshi, que não conseguiram criar nenhuma instituição duradoura, os primeiros Tokugawa puderam criar um sistema administrativo que, com pequenas variações, manteve-se estável até o colapso do Japão tradicional em 1868. O Xogunato Tokugawa se caracterizava por ser um regime de tipo feudal, mas fortemente centralizado. Uma complexa burocracia secundava o Xogum na administração central e encabeçava os Hatamoto ou vassalos da família Tokugawa, a maior parte descendentes dos que seguiam Ieyasu desde Mikawa. Nas províncias pontificavam os Daimyô ou senhores, gozando de relativa autonomia, mas sujeitos a uma severa fiscalização e à prestação de uma série de serviços ao Xogunato, o que os impedia de alimentarem esperanças de rebelião. Os senhores aparentados com os Tokugawa e os que eram aliados de Ieyasu desde antes da batalha de Sekigahara gozavam de mais confiança e regalias do que os Tozama Daimyô ou “Senhores de Fora”, que só manifestaram fidelidade ao Xogunato na última hora.

A sociedade no Período Tokugawa era rigidamente hierarquizada, constituindo-se de quatro estamentos principais: Shi – os guerreiros, bushi ou samurai, que constituíam o grupo dominante: Xogum, Daimyô e respectivos vassalos; – os agricultores, teoricamente colocados logo abaixo dos guerreiros, mas na verdade submetidos a um controle vexatório, a uma exploração abusiva e vivendo em condições bastante precárias; – os artesãos e, finalmente, Shô – os comerciantes, formando o grupo considerado mais vil, embora tivesse uma importância cada vez maior na economia do país. Havia outros grupos sociais de menor importância, como os monges budistas, os sacerdotes xintoístas, os Kuge – aristocratas vinculados à Corte Imperial e, como os Imperadores, destituídos da menor importância política, embora gozando de certo prestígio como letrados e artistas, e os Eta – párias dedicados a profissões consideradas aviltantes como curtidores, açougueiros, carrascos, etc. Cada estamento era regulamentado por estatutos severos e minuciosos e a passagem de um grupo social para outro era quase que totalmente impossível.

A base econômica da sociedade Tokugawa estava na agricultura, daí o prestígio, pelo menos teórico, de que gozavam os camponeses. O Xogunato e os Daimyôs procuravam manter os samurais presos a um padrão de frugalidade e austeridade pelo qual eles se haviam regido durante os intermináveis séculos de lutas intestinas. Deviam eles se aplicar ao cultivo das artes marciais e evitar o luxo e os gastos supérfluos. Entretanto, a principal contradição do Período Tokugawa parece ter sido justamente a existência desse grupo de guerreiros voltados para ideais belicosos mas dirigindo um país completamente pacificado, com exceção de freqüentes mas domináveis rebeliões camponesas. Os samurais, desde o Xogum e os Daimyôs até os mais humildes vassalos eram pagos em arroz e a riqueza de um guerreiro era medida em número de koku ou medidas de arroz que lhe cabia como prebenda. Os samurais se viam obrigados a recorrer aos comerciantes para trocar o arroz que recebiam pelos produtos de que necessitavam e, com o passar dos anos, foram adquirindo hábitos de luxo que os tornaram cada vez mais endividados nas mãos dos comerciantes. Estes, considerados teoricamente praticantes de uma atividade vil e desprezível, com o passar do tempo passaram a ter nas mãos o controle de quase todas as atividades econômicas.

Cumpre notar ainda que a história dos primeiros tempos do Período Tokugawa se caracterizou por um crescente endurecimento em relação às atividades missionárias dos espanhóis e portugueses e por uma desconfiança cada vez maior em relação ao estrangeiro que levou, nos tempos de Iemitsu, ao estabelecimento de uma política de isolamento quase completo, acompanhada por uma feroz repressão ao Cristianismo. Nos primeiros anos do Xogunato, Ieyasu teoricamente manteve de pé as restrições ao Cristianismo impostas por Hideyoshi, mas na medida em que se mantinha disposto a promover o desenvolvimento do comércio exterior, fazia vistas largas às atividades dos missionários, já que os portugueses e os espanhóis condicionavam as relações comerciais à permissão, por parte das autoridades japonesas, de estabelecimento de missões cristãs. Entretanto, já Hideyoshi desconfiava que as atividades missionárias encobriam planos de conquista militar, ou pelo menos de intromissão nos assuntos internos nipônicos por parte dos europeus e os Tokugawa herdaram essa desconfiança. A partir de 1600 navios holandeses e ingleses também começaram a freqüentar os portos japoneses demandando comércio e, na medida em que, ao contrário dos ibéricos, não misturavam comércio com religião, foram muito bem recebidos por Ieyasu. Por outro lado, as rivalidades comerciais incitavam os ingleses e holandeses a reforçarem a desconfiança dos nipônicos em relação aos ibéricos católicos. Em 1612 Ieyasu reforçou o édito de proibição do Cristianismo e em 1615, tendo alguns líderes cristãos combatido os Tokugawa ao lado dos Toyotomi, a hostilidade do Xogunato em relação aos católicos aumentou ainda mais. Em 1619 e 1628 tiveram lugar severas perseguições contra os cristãos e, em 1637, os camponeses de Shimabara e Amakusa, no Japão Meridional, levantaram-se em armas contra seus senhores, por causa da terrível exploração a que eram submetidos. Entre os rebeldes eram numerosos os cristãos e à testa do movimento foi colocado um jovem líder messiânico, Amakusa Shiro Tokisada. O movimento foi sufocado com muita dificuldade e as tropas do Xogunato tiveram de pedir o auxílio a navios holandeses que bombardearam o castelo em que se entrincheiravam os rebeldes.

Tais incidentes ligados às missões cristãs provocaram uma série de medidas restritivas do comércio com os católicos. Em 1624 foi proibido o comércio com a Espanha. Em 1623 Iemitsu proibiu as viagens comerciais ao exterior, com exceção dos navios que tivessem uma autorização especial do Xogunato. Em 1635 foram proibidas todas as viagens ao ultramar e até o regresso ao Japão dos japoneses que no momento se encontravam comerciando no exterior se tornou impossível. Em 1637, pouco depois da Revolta de Shimabara, os portugueses foram definitivamente expulsos e em 1639 Iemitsu promulgou o Édito do Sakoku (fechamento do país), pelo qual só a Holanda, a China e a Coréia ficavam autorizadas a manter relações comerciais com o Japão debaixo de severas restrições e através de um único porto, Deshima. A perseguição ao Cristianismo e o fechamento do país tiveram importantes conseqüências nos campos religioso e cultural, que passaremos a examinar agora.

Não é nossa intenção fazer um estudo exaustivo da cultura e da religião do Período das Guerras Civis e da época dos primeiros Tokugawa, mas simplesmente realçar alguns aspectos cujo estudo se mostra indispensável para a análise da obra de Suzuki Shôsan. No campo da cultura em geral cumpre destacar o encontro dos japoneses com a civilização ocidental trazida pelos comerciantes e missionários portugueses e espanhóis e, no campo especificamente religioso, a progressiva secularização da sociedade japonesa.

Os japoneses, que no decorrer de sua longa história só conheciam o mundo chinês, através de contatos comerciais e culturais, e o mundo indiano, através dos textos budistas, passaram a conhecer no século XVI um novo e fascinante universo: o mundo europeu cristão, que lhes foi apresentado pelos comerciantes e missionários portugueses e espanhóis. Os contatos com o mundo cristão mostraram aos nipônicos que o mundo era muito mais vasto do que eles podiam sequer haver sonhado até então. Além do Cristianismo, que só penetrou em meios restritos, os europeus introduziram no Japão novos usos e costumes, aceitos entusiasticamente por comerciantes e senhores feudais envolvidos com o comércio exterior. Introduziram novas técnicas e ciências, como a Astronomia, a Matemática, a Medicina e, principalmente, as técnicas de construção naval e navegação do Ocidente, que deram aos japoneses uma oportunidade para uma expansão comercial e marítima muito mais ampla do que a possível até então com as técnicas tradicionais nipônicas. Não obstante os conflitos e os mal-entendidos de parte a parte em relação ao Cristianismo e sua difusão missionária tenham limitado o diálogo e levado o país a uma situação de isolamento quase total, assim mesmo se formou entre pelo menos alguns círculos de letrados japoneses uma tradição de crítica racionalizante e de curiosidade pela ciência que se manteve durante todo o Período Tokugawa e foi, sem dúvida, um dos fatores que facilitaram a rápida modernização do país. As escolas fundadas pelos Jesuítas divulgaram línguas européias (latim, português, espanhol) e difundiram no Japão obras sacras e profanas da literatura ocidental. Mais tarde, alguns eruditos japoneses passaram a estudar o holandês com os comerciantes de Deshima para ter acesso aos textos científicos e literários do Ocidente. Embora não exista nenhuma documentação capaz de nos permitir afirmações categóricas, não parece ser de todo impossível que o espírito crítico e a racionalidade de que dá mostras Suzuki Shôsan estejam relacionados com a difusão da cultura ocidental. Por outro lado, a extrema importância conferida por Shôsan ao comerciante pode também estar relacionada com o esplendoroso e próspero comércio exterior anterior ao Édito do Sakoku.

Entretanto, também é certo afirmar que Shôsan está inserido em um clima de laicização e secularização da sociedade nipônica que nada deve às influências externas, mas que resulta do próprio desenvolvimento da sociedade e da cultura japonesa. Podemos dizer que a história japonesa, desde suas origens até o século XV, esteve centralizada exclusivamente em valores e ideais de natureza religiosa. Até o século XIII a religião esteve quase que inteiramente voltada para ideais monásticos de rejeição do mundo. A perfeição através da ascese búdica demandava uma rejeição radical dos interesses e valores mundanos. A partir do século XIII, porém, esboça-se uma religiosidade leiga, embora o mundo continue a ser olhado com suspeita. No século XV a situação se modifica. Nas duas principais correntes em que se divide o Budismo da época, o Amidismo devocional e o Zen contemplativo, a vida laica passa a ser cada vez mais valorizada como uma opção tão boa como a vida monástica para alcançar a suprema realização espiritual. Tal atitude transparece claramente nos textos do líder Amidista Rennyo (1415-1499) e do Mestre Ikkyû (1394-1481). Os religiosos participam cada vez mais da vida profana e seus interesses; os monges Zen atuam como conselheiros diplomáticos dos Xoguns Ashikaga em seus projetos de relacionamento comercial e cultural com a China dos Ming e incrementam no Japão o estudo da filosofia laica do Confucionismo. No Período das Guerras Civis a laicização se acentua. O agnosticismo pragmático de um Nobunaga que habilmente se aproveita dos Jesuítas para enfraquecer as comunidades religiosas que dificultam a unificação contrasta vivamente com a religiosidade ingênua dos líderes guerreiros dos séculos XII e XIII como Minamoto no Yoritomo (1147-1199), que partia para as batalhas defendido por amuletos budistas e xintoístas após ter humildemente orado pela vitória no Santuário de Hachiman, o Deus protetor dos guerreiros. A religião passa a ser cada vez mais um instrumento de dominação das massas manejado habilmente pelos detentores do poder, mas merecendo dos mesmos, apenas a indiferença e o desprezo. Os Tokugawa adotam como filosofia oficial o Neo-Confucionismo chinês, escola laica e hostil à religiosidade e ao monasticismo dos budistas. Sob os primeiros Tokugawa é fundada uma academia oficial de estudos confucianos, sob a direção de Hayashi Razan (1583-1657). Daí em diante, embora subsista entre as massas uma religiosidade popular e arcaica, carregada de elementos mágicos, juntamente com um culto budista imposto pelas autoridades e quase sem vida, os valores laicos e agnósticos darão o tom predominante na cultura da Era Tokugawa, liderada pelos samurais e pelos Chônins (comerciantes urbanos)1.

A política adotada pelo Xogunato Tokugawa em relação ao Budismo visava dois objetivos:

  • Colocar as comunidades budistas sob um regime de severo controle governamental.

  • Utilizar o Budismo para as perseguições aos cristãos e o controle da população.

Para concretização do primeiro objetivo tratou-se em primeiro lugar de expurgar os monges que colocavam em dúvida a supremacia do Estado sobre as comunidades budistas e condenar as respectivas doutrinas. Depois, foi feito o levantamento minucioso dos templos existentes no país, proibiu-se a construção de novos e organizou-se os existentes por seita, em torno das abadias centrais ou Honzan, uma para cada seita. As abadias centrais gozavam de autoridade absoluta sobre os templos menores deles dependentes e a cada seita foi imposto pelo Xogunato um estatuto especial, regulamentando a administração interna, as relações com as autoridades e o povo, a carreira monástica, a conduta pessoal dos monges, etc. Os templos menores em hipótese alguma poderiam se opor às decisões da abadia central ou desligar-se da mesma. Ficavam dessa forma proibidas as cisões das seitas já existentes em sub-seitas, bem como a criação de novas organizações religiosas. Por outro lado, o Xogunato se aproveitou habilmente das dissensões existentes no seio da cúpula dirigente do Honganji, a mais poderosa das organizações budistas, anteriormente ligada a inúmeras insurreições camponesas, que nem Nobunaga pudera esmagar pela força das armas, para cindi-lo em dois movimentos (Nishi Honganji e Higashi Honganji) e assim enfraquecer-lhe o poder.

Para a realização do segundo objetivo, o Xogunato principiou exigindo das pessoas certificados – terauke – passados por templos budistas atestando seu possuidor não ser cristão. Essa medida foi tomada pela primeira vez em Kyoto em 1613, para acabar com os cristãos da cidade e, por ocasião da revolta de Shimabara, foi ampliada a todos os territórios administrados diretamente pelo Xogunato – Tenryô. Em 1657 uma lei tornou a medida obrigatória em todo o Japão. Todas as famílias foram obrigadas a se registrarem como fiéis de determinado templo, tornando-se os bonzos do mesmo responsáveis pelo registro dos nascimentos, óbitos, casamentos, etc., bem como pela emissão de terauke e salvo-condutos para viagens.

Assim, transformados em funcionários do Estado, os bonzos dele recebiam estipêndios, ainda que insuficientes para proporcionar uma base econômica estável ao Budismo. Isso levava os monges a obrigar as famílias registradas em seus templos a oferecer certas contribuições aos mesmos e a se utilizarem exclusivamente deles para os funerais e cerimônias periódicas do culto aos antepassados, condição sine qua non para a concessão dos certificados. O resultado de tudo isso foi uma decadência quase geral do Budismo, uma vez que, garantidos economicamente por esse regime, poucos bonzos se preocupavam em exercer seriamente suas funções originais de líderes espirituais, reduzindo suas atividades religiosas à manutenção dos cemitérios e aos ofícios fúnebres. Grande parte do povo se mantinha ligada aos templos apenas por obrigação, estando espiritualmente dissociada do Budismo, o que é documentado muito bem pela literatura antibudista dos letrados confucianos e outros pensadores da época. Poucos foram os monges como Shôsan, que escaparam à mediocridade geral e produziram idéias originais, atuando como verdadeiros líderes religiosos.


1. Sobre a secularização no Período Tokugawa, consultar:
FURUTA (Shôkin) – Nippon Bukkyô Shisôshi (História do Pensamento Budista Japonês), Tokyo, Kadokawa, 1960, p. 159-189.
MINAMOTO (Ryôen) – Tokugawa Shisô Shôshi (Pequena História do Pensamento Tokugawa), Tokyo, Chuô Kôron, 1973.


Templo Budista Apucarana Nambei Honganji
Travessa Dorizon, s/n
86802-265 — Apucarana — Paraná
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(0xx43) 3423-0315
Monge Responsável:
Rev. Wagner Bronzeri (Sh. Haku-Shin)
E-mail: honganji@dharmanet.com.br

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