Tragédia

ESTAS SÃO ALGUMAS das primeiras declarações feitas pelo Dalai Lama quando de sua chegada à Índia, subseqüentemente à invasão do Tibete pela China e após um mês de árdua jornada por inóspitas regiões cobertas de neve. Escoltado por trezentos e cinqüenta soldados tibetanos ele cruzou o Himalaia sob um frio glacial, enfrentando tempestades de neve e rios turbulentos pelo caminho. Atravessou mais de oitocentos quilômetros movendo-se em círculo, fazendo longos desvios por elevações, montanhas e vales inexplorados, evitando os caminhos mais conhecidos e trilhados de maneira a não ser encontrado por patrulhas inimigas. Em meio a severas rajadas de vento o grupo prosseguiu a temerária jornada, que no início foi feita principalmente à noite, por vezes alongando-se por dezoito horas com breves intervalos para descanso.

Próximo ao fim do percurso, após uma semana de violentas tempestades e vendavais, choveu sem parar durante a noite. A febre que acometera o Dalai Lama há já alguns dias transformou-se em grave disenteria. Incapaz de cavalgar, foi carregado às costas por um dzomo na última etapa de sua evasão para o território indiano. Este foi o final da épica fuga do profeta da paz e do amor, o Filho de Deus que carregou consigo a Cruz do sofrimento para livrar o espírito humano da escravidão.

Ele contava então apenas 24 anos. Apesar das duras e penosas experiências físicas e mentais por que passou, quando milhares de seus conterrâneos foram executados, aprisionados e submetidos a torturas impiedosas ele manteve compostura e serenidade, liderando os compatriotas exilados do abismo do desespero para a senda da sobrevivência e esperança. Seus pronunciamentos a partir de tão tenra idade dão conta de seu valor e coragem, e já evidenciam a visão e sabedoria que formam o núcleo de sua filosofia e pensamento iluminados. O pequeno e estável pavio já estava acesso então. Foi esta luz que mais tarde despontou e clareou os horizontes indianos.

Sem mais tardar ele resolveu iniciar uma campanha para contar a verdade sobre a tragédia do Tibete e apelar para a consciência das nações civilizadas e amantes da paz no sentido de conseguir seu apoio para a causa da justiça e liberdade do povo tibetano, e para criar um clima favorável para que seu povo pudesse se estabelecer amigável e pacificamente na Índia.


PRONUNCIAMENTO EM TEZPUR 1

É fato corrente que o povo tibetano é diferente do povo Han da China. Sempre houve um desejo muito grande de independência por parte dos tibetanos. Isso vem sendo reivindicado há longa data. Algumas vezes o governo chinês impõe sua suserania sobre o Tibete; noutras, o Tibete funciona como um Estado independente. De qualquer forma, em todas as ocasiões, mesmo quando o governo chinês impunha seu domínio, o Tibete tinha autonomia para tratar de seus assuntos internos.

Em 1951, sob pressão do governo chinês, um Acordo de Dezessete Pontos foi assinado entre a China e o Tibete. Neste acordo, a soberania da China foi aceita por não haver alternativa para o Tibete. Mas mesmo nesse Acordo ficou estabelecido que o Tibete gozaria de total autonomia. Embora o controle dos Assuntos Externos e Defesa passassem às mãos do governo chinês, foi decidido de comum acordo que o governo chinês não interferiria na religião e costumes tibetanos nem na administração interna do Tibete. Mas, de fato, depois da invasão do Tibete pelas forças chinesas, o governo tibetano não mais gozou de autonomia mesmo em assuntos internos, e o governo chinês passou a exercer plenos poderes quanto aos assuntos tibetanos. Em 1956 um Comitê de Preparação para o Tibete foi constituído, tendo o Dalai Lama como presidente, o Panchen Lama como vice-presidente e o general Chang Kuo Hua como representante do governo chinês. Mas mesmo esse conselho tinha pouco poder na prática, e todas as decisões importantes eram tomadas pelas autoridades chinesas. O Dalai Lama e seu governo tentaram ao máximo manter-se fiel ao Acordo, mas o governo chinês continuou interferindo.

No final de 1955 começou uma luta na Província de Kham, que assumiu sérias proporções em 1956. No combate que se seguiu, as Forças Armadas chinesas destruíram vários monastérios. Muitos lamas morreram, vários oficiais e monges foram levados para trabalhar em construção de estradas na China, e aumentou a interferência na prática religiosa.

As relações dos tibetanos com a China tornaram-se abertamente tensas a partir do início de fevereiro de 1959. O Dalai Lama havia concordado, com um mês de antecedência, em participar de um show cultural no quartel-general chinês, e a data foi subitamente fixada para 10 de março. O povo de Lhasa ficou preocupado que algum mal pudesse sobrevir ao Dalai Lama e, assim, cerca de dez mil pessoas agruparam-se ao redor de Norbulingka, o palácio de verão do Dalai Lama, e fisicamente o impediram de participar do show. Depois disso, o próprio povo decidiu montar uma guarda pessoal para a proteção do Dalai Lama. Multidões saíram às ruas de Lhasa para protestar contra o controle chinês sobre o Tibete. Dois dias depois, milhares de mulheres tibetanas protestaram contra a ocupação chinesa. Apesar dessas demonstrações populares, o Dalai Lama e seu governo procuraram manter relações amigáveis com o governo chinês e prosseguir as negociações com os representantes chineses sobre a melhor maneira de favorecer a paz no Tibete e amenizar a ansiedade do povo. Enquanto essas negociações se desenrolavam, reforços para as guarnições militares chinesas chegaram a Lhasa e outras regiões do território tibetano. No dia 17 de março duas ou três granadas foram atiradas na direção do palácio de Norbulingka. Felizmente os projéteis caíram num pequeno lago nas vizinhanças do palácio. Depois disso, os conselheiros despertaram para as ameaças à pessoa do Dalai Lama e, sob tais condições, tornou-se imperativo que tanto ele quanto sua família e os oficiais graduados deixassem Lhasa. O Dalai Lama gostaria de declarar categoricamente que deixou o Tibete e veio para a Índia por livre e espontânea vontade, e não sob coação.

Foi graças à lealdade e afetuoso apoio de seu povo que ele conseguiu trilhar o árduo trajeto de saída do Tibete. Tal rota compreendia cruzar os rios Kyichu e Tsangpo para chegar à região de Lhoka, ao vale Yarlung e aTsona Dzong antes de alcançar a fronteira com a Índia em Kanzen Mane, perto de Chuthangmu.

No dia 29 de março de 1959 o Dalai Lama mandou dois emissários cruzarem a fronteira indo-tibetana para pedir permisão ao governo da Índia para entrar no país e asilar-se ali. O Dalai Lama é extremamente grato ao povo e ao governo da Índia por sua espontânea e generosa acolhida, assim como pelo asilo concedido a ele e seus seguidores. A Índia e o Tibete têm vínculos religiosos, culturais e de comércio por mais de mil anos, e para os Tibetanos a Índia, berço do Senhor Buda, tem sempre sido encarada como a terra da iluminação. O Dalai Lama sente-se profundamente sensibilizado pelas cordiais saudações recebidas, quando de sua chegada à Índia, do Primeiro Ministro, Shri Jawarharlal Nehru2, e seus colegas de governo. O Dalai Lama já enviou resposta a essa mensagem de boas-vindas.

Desde que entrou na Índia por Kanzey Mane, perto de Chuthangmu, o Dalai Lama pode apreciar toda a dimensão do respeito e hospitalidade concedidos a ele pelo povo da Comarca Limítrofe de Kameng na fronteira noroeste da Índia, e gostaria de declarar que os funcionários do governo indiano lá sediados não pouparam esforços para tornar sua estada na região, e a viagem por esta área tão bem administrada do território indiano, tão confortável quanto possível. 

Agora o Dalai Lama seguirá para Mussoorie, onde espera chegar nos próximos dias. Ele pensará nos seus planos para o futuro e, se necessário, os trará a público assim que tenha tido a chance de descansar e refletir sobre os recentes acontecimentos. Seu país e seu povo estão passando por um período extremamente difícil e tudo o que o Dalai Lama deseja comunicar agora é o seu sincero pesar pela tragédia que se abateu sobre oTibete e seu mais ardoroso desejo de que esses problemas cessem brevemente, sem mais derramamento de sangue.

Como Dalai Lama e líder espiritual de todos os budistas tibetanos, sua principal preocupação é o bem-estar de seu povo, assim como assegurar o florescimento ininterrupto de sua sagrada religião e a liberdade de seu país.

Ao expressar mais uma vez seus agradecimentos por ter chegado a salvo na Índia, o Dalai Lama gostaria de aproveitar a oportunidade para comunicar a todos os seus amigos, adeptos e àqueles que lhe desejam bem na Índia e no exterior sua sincera gratidão pelas várias mensagens de simpatia e preocupação com que foi cumulado3


COMUNICADO À IMPRENSA 4

No dia 18 de abril fiz um pronunciamento em Tezpur. Eu não tinha a intenção de fazer outro pronunciamento por enquanto. No entanto, soube que a Agência Noticiosa Nova China divulgou um comunicado insinuando que o pronunciamento de Tezpur não era de minha responsabilidade. Quero deixar claro que tal pronunciamento foi publicado por minha ordem e indica o meu ponto de vista, e eu o mantenho. Estou fazendo esta breve declaração para corrigir a impressão errônea criada pela notícia divulgada pela Agência Noticiosa Nova China, e não pretendo declarar nada mais por ora. 


DECLARAÇÃO À IMPRENSA 5

Desde que cheguei à Índia recebo quase diariamente notícias tristes e angustiantes a respeito do sofrimento de meu povo e o tratamento inumano que vem recebendo. Tenho ouvido quase todos os dias, com o coração confrangido, de sua crescente agonia e aflição, do tormento e perseguição de que são vítimas e da terrível deportação e execução de homens inocentes. Tais fatos me fizeram perceber que chegou o tempo em que, pelo interesse de meu povo e minha religião e para livrá-los do perigo de uma eminente aniquilação, não mais devo manter silêncio e sim expor ao mundo, franca e abertamente, a verdade sobre o Tibete, e fazer um apelo à consciência das nações civilizadas e amantes da paz.

Para bem entender e apreciar o significado e as implicações dos recentes e trágicos acontecimentos no Tibete, é necessário que nos reportemos aos principais eventos ocorridos no país desde 1950. Observadores autônomos reconhecem que o Tibete era virtualmente independente, desfrutando e exercendo todos os direitos de soberania, seja interna ou externamente6. Isto também foi admitido implicitamente pelo governo comunista da China, uma vez que a própria estrutura, os termos e as condições do assim chamado Acordo de 1951 mostram cabalmente que este foi um acordo firmado entre duas nações independentes e soberanas. Segue-se que, quando os exércitos chineses violaram a integridade territorial do Tibete, estavam cometendo um flagrante ato de agressão. O acordo que se seguiu à invasão do Tibete também foi imposto a seu povo e governo pela força das armas. Ele nunca foi aceito de livre e espontânea vontade. O consentimento do governo foi obtido sob coação de baionetas. Meus representantes foram compelidos a assinar o Acordo sob a ameaça de operações militares ulteriores dos exércitos invasores chineses contra o Tibete, o que levaria a uma total ruína e destruição do país. Mesmo o sinete tibetano que ratificou o Acordo não foi o de meus representantes, mas um falsificado pelas autoridades chinesas em Pequim, que desde então o mantêm em seu poder.

Embora eu e meu governo não tivéssemos aceitado o Acordo voluntariamente, fomos obrigados a concordar com ele e sujeitarmo-nos a seus termos e condições para poder salvar meu povo e meu país do risco de uma total destruição. No entanto, desde o início ficou claro que os chineses não pretendiam cumprir o Acordo. Embora tivessem prometido solenemente manter meu status e poder como Dalai Lama, não perderam nenhuma oportunidade de solapar minha autoridade e semear discórdia entre meu povo. De fato, eles me compeliram a demitir meus primeiros-ministros sob a ameaça de executá-los sem julgamento por terem eles, honesta e abertamente, resistido à injustificável usurpação de poder efetuada pelos representantes do governo chinês no Tibete. Longe de pôr em prática o Acordo, deliberadamente começaram a tomar um rumo político diametralmente oposto aos termos e condições que eles mesmos haviam estabelecido. Assim começou um reinado de terror com raros paralelos na história do Tibete. Trabalho forçado e extorsões compulsórias, perseguição sistemática de pessoas, pilhagem e confisco de propriedades pertencentes a particulares e monastérios, execução de líderes tibetanos, tais são as gloriosas façanhas do domínio do governo chinês sobre o Tibete! Durante todo o tempo, paciente e sinceramente me esforcei para tranqüilizar meu povo e acalmar seu ânimo, ao mesmo tempo em que dava o máximo de mim para persuadir as autoridades chinesa em Lhasa a adotar uma política de conciliação e amizade. Apesar dos repetidos fracassos, persisti nessa política até o último dia, quando se tornou impossível para mim servir a meu povo caso continuasse no Tibete. Foi assim que me vi obrigado a deixar meu país com vistas a poder livrá-lo de ulteriores riscos e fatalidades.

Quero deixar claro que estou fazendo tais acusações ao comando chinês no Tibete com pleno conhecimento de sua gravidade, porque sei que elas são verdadeiras. Talvez o governo de Pequim não esteja completamente ciente dos fatos, mas se eles não estiverem preparados para aceitar tais declarações, deixemos que peçam a uma comissão internacional que investigue o caso. De nossa parte, tanto eu quanto meu governo concordaremos com presteza em acatar o veredicto de uma junta imparcial.

É necessário acrescentar que, antes de eu ter visitado a Índia em 1956, já se havia tornado bastante claro para mim que minha política de amizade e tolerância fracassara totalmente em influir de alguma maneira no espírito dos representantes do governo chinês no Tibete. Na verdade, eles frustaram todas as medidas que adotei para eliminar o amargo ressentimento de meu povo e promover uma atmosfera de paz no Tibete de maneira a poder efetuar as reformas necessárias. Como me encontrava impotente para tomar qualquer medida em benefício de meu povo, quando vim para a Índia eu já havia praticamente me decidido a não voltar ao meu país enquanto não houvesse uma mudança perceptível na atitude das autoridades chinesas. Assim, procurei me aconselhar com o primeiro-ministro da Índia, que sempre me tratou com infalível gentileza e consideração. Depois de ter falado com o primeiro-ministro chinês, e baseando-se na garantia que lhe fora dada em nome do governo chinês, o senhor Nehru aconselhou-me a mudar de opinião. Segui seu conselho e retornei ao Tibete, confiando que a situação mudaria substancialmente para melhor. E não tenho dúvida de que minhas esperanças ter-se-iam concretizado caso as autoridades chinesas tivessem posto em prática as garantias que o primeiro-ministro chinês deu ao primeiro-ministro da Índia. No entanto, logo após meu regresso ficou dolorosamente claro que os representantes do governo chinês não tinham intenção de cumprir suas promessas. O resultado natural e inevitável foi que a situação foi piorando até se tornar impossível controlar a revolta espontânea de meu povo contra a tirania e opressão das autoridades chinesas.

Neste ponto eu gostaria de enfatizar que tanto eu quanto meu governo nunca nos opusemos às reformas necessárias aos sistemas social, político e econômico vigentes no Tibete. Não pretendemos dissimular o fato de que a nossa é uma sociedade antiga e que é urgente introduzir mudanças imediatas no interesse do povo tibetano. Na verdade, nos últimos nove anos eu e meu governo fizemos várias propostas de reformas que, apesar de solicitadas pela população, sempre encontraram tenaz oposição chinesa. Em conseqüência, nada foi feito para melhorar as condições sociais e econômicas do povo tibetano. Particularmente, era meu mais sincero desejo que o sistema de posse de terras sofresse uma mudança radical sem mais tardar, e as grandes extensões de terra fossem desapropriadas pelo Estado e distribuídas entre os lavradores. Mas as autoridades chinesas deliberadamente puseram entraves à maneira de conduzir tal justa e razoável reforma. Quero enfatizar o fato de que nós, firmes adeptos do budismo, acolhemos com alegria toda mudança e progresso compatíveis com a índole do nosso povo e a rica tradição cultural de nosso país, mas o povo do Tibete resistirá intrepidamente a qualquer defraudação, sacrilégio ou pilhagem feitos em nome de reformas, uma política que agora vem sendo adotada pelos representantes do governo chinês em Lhasa.

Tentei apresentar um quadro claro e real da situação no Tibete. Tenho me empenhado em contar a todo o mundo civilizado a verdade sobre o Tibete, a verdade que no fim deverá prevalecer, não importa quão fortes pareçam ser hoje as forças do mal. Também quero declarar que nós, budistas, acreditamos firme e persistentemente na paz, e desejamos viver em paz com todos os povos e nações da terra. Embora recentemente algumas atitudes e políticas adotadas pelas autoridades chinesas no Tibete tenham criado fortes e amargos ressentimentos contra o governo da China, nós tibetanos, tanto leigos quanto monges, não nutrimos nenhum sentimento de inimizade ou rancor contra o grande povo chinês. Nós queremos viver em paz, e pedimos paz e boa vontade a todas as nações do mundo. Eu e meu governo estamos, portanto, bem preparados para dar as boas-vindas a uma solução amigável e pacífica quanto à trágica problemática atual, contanto que tal solução garanta a preservação dos direitos e poderes que o Tibete gozou e exerceu sem nenhuma interferência antes de 1950. Também precisamos insistir na criação de um clima favorável, através da imediata adoção das medidas essenciais, como condição preliminar às negociações para um acordo pacífico. Pedimos paz e um acordo pacífico, mas também precisamos pleitear a manutenção do status e dos direitos de nosso país e do nosso povo.

Eu e meu povo temos um grande débito de gratidão para com vocês, jornalistas, por tudo que têm feito para nos ajudar na nossa luta pela sobrevivência e liberdade. A solidariedade e apoio de vocês nos deram coragem e fortaleceram nossa determinação. Confio em que vocês continuarão a emprestar o peso de sua influência à causa da paz e liberdade pela qual o povo do Tibete vem lutando. Senhores, agradeço a todos e a cada um de vocês, em nome de meu povo e em meu próprio nome.


DISCURSO EM RECEPÇÃO CÍVICA 7

 

Senhor Prefeito, Membros da Corporação de Delhi, Senhoras e Senhores:

Quando em 1956 tive a oportunidade de visitar este ilustre berço de cultura e civilização, fiquei vivamente impressionado com o zelo, o entusiasmo e o fervor patriótico do povo da nova República da Índia. Mas o que mais genuinamente me tocou foram os sentimentos de amizade e gentileza com fui cumulado durante minha estada em seu admirável país. A grande honra que vocês estão me concedendo nesta tarde é uma evidência clara do sentimento de amizade que todos vocês nutrem por meu povo, e por isso eu quero aqui expressar meu mais sincero agradecimento. O relacionamento entre meu povo e o povo indiano remonta aos primórdios da história e nós tibetanos temos uma grande dívida de gratidão para com o povo da Índia pela inspiração e encorajamento que recebemos de sua cultura, religião e tradição. Estamos passando por um período muito triste da história de nosso país, mas acredito firmemente que no fim a verdade prevalecerá. Como a venerável e nobre Escritura de seu povo afirma: Satyameva Jayate Na Anritam — a verdade deverá triunfar, e não a inverdade. Eu espero ardentemente que um dia, num futuro próximo, o povo do Tibete venha ter a oportunidade de desenvolver e incentivar as relações de afeição e amizade que sempre existiram entre nossos dois países. Mais uma vez agradeço a vocês, senhores e senhoras, pela grande honra que me concederam nesta tarde.


DISCURSO EM DELHI 8

Senhor Presidente, Senhoras e Senhores:

Esta é uma ocasião em que sinto a barreira do idioma como algo quase intransponível. Gostaria de ser capaz de me dirigir a vocês em sua própria língua, de modo a poder pô-los a para da exata dimensão de meus sentimentos. Tenho sabido do esplêndido trabalho que vocês vêm empreendendo para ajudar meu povo em sua atroz luta pela sobrevivência. Os esforços corajosos e o apoio e solidariedade irrestritos de todos vocês são fonte de inspiração e incentivo para povo do Tibete, que hoje sofre o drama de opressão e sofrimento insuportáveis. Eu e meu povo somos particularmente gratos a seu presidente e a outros membros do governo que tanto nos têm ajudado nesses dias negros de desespero e frustrações. Assim, aproveito esta oportunidade para transmitir a vocês nossos mais sinceros agradecimentos. A relação entre nossos dois países tem perdurado por vários séculos, e os laços de cultura e religião nos unem eternamente, seja em tempos de paz ou de pressão e perturbação. O nobre empenho de vocês em favor do povo tibetano é a mais clara evidência dessa ligação legendária. Não tenho dúvida de que, seja qual for nosso futuro, seja qual for o resultado dos esforços que vocês, eu, todos nós estamos fazendo hoje, a nossa ligação, os vínculos que existem entre nós sobreviverão a qualquer teste e provação.

Hoje não quero perturbá-los com declarações detalhadas a respeito da trágica situação do Tibete. Tudo o que desejo é deixar claro que, desde que meu país adotou o budismo, passamos a desposar a doutrina da paz e boa vontade. Por séculos vimos tendo relações amigáveis com todos nossos vizinhos. Não nutrimos ímpios desejos de expansão ou conquista. Temos vivido em paz, e nosso mais fervoroso desejo é viver em paz. O longo e inestimável relacionamento entre Índia e Tibete sempre foi amigável. Idéias e conceitos religiosos e culturais nos uniram e solidificaram nossa amizade. Também temos convivido em termos de amizade e cordialidade com o governo britânico na Índia. Temos, ainda, desenvolvido relações diplomáticas com o governo russo. Já em 1901 uma delegação do Dalai Lama foi recebida pelo presidente da Rússia. Laços culturais e religiosos sempre subsistiram entre o povo do Tibete e o grande povo russo. Portanto, não alimentamos nenhum sentimento de inimizade ou rancor contra nenhum país estrangeiro. Mesmo na atuais circunstâncias não queremos mal ao povo da China. É verdade, sem dúvida, que os recentes acontecimentos no Tibete deram ensejo a profundos sentimentos de animosidade e ressentimento contra as autoridades chinesas em Lhasa, mas persiste o fato de sermos um povo que ama a paz e não nutre má vontade ou ódio contra nenhum outro povo ou nação. Adotamos a política da paz, e hoje estamos lutando não apenas pela nossa liberdade, mas também pela paz do nosso país. Por isso, na declaração de 20 de junho deixei claro para o mundo que eu e meu governo estamos perfeitamente preparados para aceitar uma solução justa e pacífica para a questão do Tibete. Mas nosso apelo não recebeu resposta, e o povo tibetano segue sendo alvo de tortura e tratamento inumanos. Sob tais circunstâncias, e apesar do conselho que recebemos do governo da Índia, decidimos apelar para as Nações Unidas. Acalentamos a esperança e desejamos ardentemente que, seja qual for o resultado desse apelo, a verdade e o espírito humanitário venham a prevalecer.


DISCURSO NO CONSELHO INDIANO PARA ASSUNTOS INTERNACIONAIS 9

Senhor Presidente, Senhoras e Senhores:

Aprecio imensamente a honra que me fazem ao conceder-me esta oportunidade de falar brevemente a vocês sobre alguns aspectos do trágico problema do Tibete. Sr. Presidente, sou pessoalmente grato ao Senhor pelo frutífero interesse que tem demonstrado por este assunto e pelos diligentes esforços que vem empreendendo para mobilizar a opinião pública mundial. Não sou estadista nem político. Não sou um estudioso da lei internacional. Sou apenas um sacerdote dedicado ao dharma da paz e da liberdade e à causa do bem-estar de meu povo, um povo que foi confiado a meus cuidados pela Providência Divina. É dentro desse espírito que me proponho a fazer algumas ponderações a respeito da grave tragédia com que hoje se defronta o povo do Tibete. É desnecessário enfatizar que aqui venho movido puramente pelo desejo de auxiliar a causa que me fala ao coração; e se ao fazer estas considerações tiver de discordar das opiniões manifestadas por grandes e ilustres estadistas, será com grande lástima e toda humildade que o farei.

Senhores e Senhoras, é nossa firme convicção que o Tibete era um estado soberano e livre quando sua integridade territorial foi violada pelas forças armadas da China. Há vários argumentos de peso em favor deste ponto de vista. Em primeiro lugar, deve-se lembrar que a China não exerceu nenhuma autoridade ou poder sobre o Tibete entre 1894, quando o XIII Dalai Lama assumiu o poder, e 1950, quando as forças chinesas marcharam contra o Tibete sob as ordens do governo de Pequim. Tal fato foi manifestamente admitido pelo Governo Popular da China no preâmbulo ao Acordo de 1951, cuja minuta foi redigida pelo governo de Pequim e imposta ao Tibete sob ameaça de posteriores ações militares contra o povo tibetano. Foi claramente reconhecido neste preâmbulo que o Tibete e os tibetanos estiveram fora do âmbito da autoridade chinesa por várias décadas. Em nota de 16 de novembro ao governo da Índia, o governo de Pequim implicitamente endossou tal posição. Eles declararam: "Quando o governo chinês de fato exerceu seus direitos de soberania e começou a liberar o povo tibetano e expulsar forças e influências estrangeiras para assegurar que o povo tibetano ficasse livre de agressão e lograsse autonomia regional e liberdade religiosa, o governo indiano tentou interferir e obstruir o exercício do direito de soberania do governo chinês no Tibete."10 Esta declaração mostra claramente que o assim chamado direito de soberania reclamado pelo governo da China não havia sido exercido por eles anteriormente à invasão do Tibete. As autoridades chinesas, no entanto, não esclarecem qual a fonte de tais direitos de soberania, pois não existe nenhuma de onde possam ter derivado tão extravagantes alegações. No entanto, quaisquer que sejam as alegações da China, fica perfeitamente claro que durante este período o governo do Tibete não esteve sujeito a nenhum controle do governo chinês. Esta independência de fato efetivou-se legalmente quando em 1912 o XIII Dalai Lama emitiu uma proclamação declarando a completa independência do Tibete e denunciando a reivindicação chinesa à suserania. Entendemos que esta declaração teve o mesmo efeito em relação às leis internacionais que a declaração feita pela Bulgária em 1908 e que pôs termo aos direitos de suserania adquiridos pelo governo da Turquia. Embora unilateral, tal declaração foi aceita pelo mesmo concerto de nações que previamente havia reconhecido a suserania turca no Tratado de Berlim de 1878. Nosso posicionamento, portanto, é claro e inequívoco. Durante todo o citado período o Tibete esteve completamente independente e não sujeito a nenhum controle do governo da China.

Em segundo lugar, conforme as melhores informações a que tive acesso, um dos aspectos distintivos da soberania de uma nação é seu direito de assinar tratados com outras nações. Se este é um dos critérios que definem uma nação soberana, certamente o governo do Tibete estava em plena posse de soberania externa, pois naquele período foram assinados não menos de cinco acordos internacionais. O primeiro foi o tratado de 1856 com o Nepal, através do qual o governo do Nepal comprometeu-se a assistir o governo do Tibete em caso de este último ser invadido por forças estrangeiras. Com referência à China, o tratado declarava expressamente que "ambos os Estados continuam a honrar como antes o imperador da China". Em outra palavras, as partes contratantes reconheciam a suserania nominal chinesa como sempre aconteceu desde que o I Dalai Lama foi empossado. O segundo tratado, com a República Popular da Mongólia, reconheceu a independência e soberania das duas nações contratantes. Em 1904 foi assinada a Convenção de Lhasa entre a Grã-Bretanha e o Tibete. Esta Convenção falava expressamente das "relações de amizade e bom entendimento que sempre existiram entre o governo britânico e o governo do Tibete". Este foi de fato um reconhecimento explícito do status de soberania do Tibete naquela época. Também deve ser salientado que, de acordo com essa Convenção, não seria permitido a nenhuma potência estrangeira intervir em assuntos tibetanos, e nem a seus representantes ingressar em território tibetano, sem o prévio consentimento do governo britânico. Esta medida aplicava-se tanto à China quanto a outras potências estrangeiras. Portanto, mesmo que a suserania chinesa ainda vigesse quando da posse do XIII Dalai Lama, ela teria perdido sua efetividade após o término da Convenção. Deve-se também salientar que as cláusulas da referida Convenção foram aceitas pelo governo da China na Convenção de Pequim de 1906. 

Um importante acordo internacional subseqüentemente assinado pelo Tibete foi a Convenção de Simla em 1914. Pelo Artigo 1 dessa Convenção o governo britânico reconhecia a suserania da China e o governo da China comprometia-se a reconhecer a autonomia do Tibete. No entanto, foi deixado bem claro que a suserania da China não a autorizava a interferir na administração do Tibete ou converter o Tibete em uma província chinesa. Houve uma proibição ulterior ao governo da China: a de enviar tropas ao Tibete, de lá sediar comandos civis ou militares, ou mesmo estabelecer colônias chinesas no país. Esta Convenção também manteve as restrições impostas ao governo chinês pelas Convenções de Lhasa e de Pequim. Entretanto, embora sua abertura tivesse sido feita por um representante chinês, a referida Convenção não foi ratificada pelo governo da China. Assim, torna-se evidente que nenhuma pretensão à suserania, menos ainda à soberania chinesa, encontra respaldo nas cláusulas desta Convenção. Como o governo chinês não ratificou o acordo, o artigo que reconhecia a suserania da China tornou-se nulo, sem efeito. Não existe, portanto, nenhum acordo internacional em que o Tibete reconheça e valide a suserania da China. Isto foi deixado bem claro pelo secretário de Assuntos Estrangeiros da Grã-Bretanha em memorando enviado ao primeiro-ministro chinês em 1943, onde ele declara que o governo britânico estaria preparado para reconhecer a suserania da China sobre o Tibete apenas se a China, por sua parte, reconhecesse a autonomia do Tibete. Como tal reconhecimento não aconteceu, não existe nenhum acordo internacional válido que ratifique a suserania chinesa. No entanto, o ponto mais importante quanto à Convenção de Simla é que o representante do governo do Tibete foi reconhecido pelos governos britânicos e chinês como plenipotenciário, e a ele foi concedido o mesmo status que aos representantes dos outros dois governo. Isso foi amplamente confirmado no Preâmbulo da Convenção de Simla. Não pode haver mais clara e indubitável evidência do status internacional do Tibete. O Acordo Anglo-Tibetano que se seguiu tratava da regulamentação comercial. Também aqui o representante do governo do Tibete gozou da mesma posição e status plenipotenciário que o representante de Sua Majestade, o rei da Grã-Bretanha. Face a tão clara e completa evidência, é difícil entender como pode ser alvitrado que o Tibete não possuísse nem gozasse status internacional antes da invasão chinesa de 1950.

Gostaria de chamar sua atenção, Senhoras e Senhores, para uma questão extremamente importante relacionada a esta questão. O governo indiano sustenta que a fronteira entre o Tibete e a Índia foi finalmente estabelecida pela Linha McMahon, mas esta fronteira foi delimitada na Convenção de Simla, e esta Convenção só era válida e obrigatória entre o Tibete o governo britânico. Se o Tibete não gozasse de status internacional na época do término da Convenção, ele não poderia ter firmado tal acordo. Assim, torna-se evidente que, se vocês negam a condição independente do Tibete, estão negando a validade da Convenção de Simla e, portanto, a validade da Linha McMahon. Por outro lado, se a Linha McMahon é válida, a Convenção de Simla também o é. O corolário lógico é que o Tibete possuía status independente e internacional quando assinou a Convenção de Simla. E se em 1914 ele possuía tal status, nada aconteceu subseqüentemente que pudesse ter prejudicado esta condição.

Senhoras e Senhores, esta é, portanto, a posição ocupada pelo Tibete conforme acordos internacionais válidos e bem assentados. Poderia uma evidência tão incontestável ser descartada simplesmente porque o poderoso governo da China apresentou reivindicações infundadas? Acredito que a consciência das nações civilizadas do mundo não permitirá tal violação dos princípios universalmente aceitos de lei e justiça. Com referência a esse assunto, eu gostaria de chamar-lhes a atenção para outra questão de grande importância. Há uma considerável confusão na mente das pessoas com relação aos conceitos de soberania e suserania. Fui informado que existem diferenças fundamentais entre ambos. Soberania significa completo e absoluto controle. Suserania, por outro lado, não necessariamente implica a perda da personalidade internacional do Estado vassalo. Assim, por exemplo, a Bulgária gozou de todos os direitos de soberania externa enquanto sob suserania turca. Assim também o Marrocos e a Tunísia concluíram tratados com a República da França enquanto permaneciam sob suserania turca. Tal foi também a condição da Sérvia. Sustentamos o ponto de vista que a suserania chinesa chegou ao fim com a Declaração de Independência feita pelo XIII Dalai Lama. Mesmo que se considere, para efeito de argumentação, que a suserania chinesa subsistiu à esta Declaração, sem sombra de dúvida a Convenção Anglo-Tibetana destituiu completamente a suserania da China de qualquer efeito ou conseqüência legal; e os termos desta Convenção, como já esclarecemos, foram aceitos pela China na Convenção de Pequim de 1906. Além disso, o Artigo 1 da Convenção de Simla, que intentava reconhecer a suserania chinesa, não entrou em vigor porque tal Convenção não foi ratificada pelo governo chinês. Não havia, portanto, nenhum fundamento na alegação feita pela China de estar exercendo seus direitos soberanos quando suas forças armadas violaram o território tibetano.

Mas essa não é toda a história. Amplas evidências do status soberano do Tibete podem ser encontradas em outros fatos e circunstâncias inquestionáveis. Como aconteceu em 1942, por exemplo, quando o governo chinês pressionou a abertura de rotas de comunicação através do Tibete. Como na época era necessário fazer todo o possível para incentivar o moral chinês e as relações anglo-chinesas, o governo britânico uniu-se ao governo da China para pressionar o governo do Tibete. A proposta foi firmemente recusada pelo governo do Tibete, mas ulteriormente os tibetanos cederam à recomendação do governo britânico. No entanto, eles deixaram claro que só iriam permitir a passagem pelo Tibete de artigos não-bélicos provenientes da Índia para a China, de maneira a manter sua neutralidade numa guerra em que China e Grã-Bretanha estavam envolvidas. Esta posição foi aceita tanto pelo governo chinês quanto pelo britânico. Se o Tibete pôde então manter sua neutralidade, não resta dúvida que naquela época ele usufruia status internacional. Além disso, durante todo esse período o governo do Tibete manteve relações diplomáticas com várias potências estrangeiras. Em 1901 uma delegação diplomática do Dalai Lama foi recebida pelo Chefe de Estado russo. Também durante este período o Tibete assinou tratados com a Grã-Bretanha. O Tibete também manteve relações diplomáticas com a República Popular da Mongólia e com os Estados vizinhos do Nepal e Butão. É inconcebível que um Estado que não gozasse de status internacional pudesse ter mantido relações tão diretas com outros Estados. Além disso, em 1948 uma Delegação de Comércio tibetana visitou alguns países do Reino Unido, os Estados Unidos da América e a França, e os passaportes emitidos pelo governo do Tibete foram devidamente aceitos pelos governos desses países. O direito de emitir seus próprios passaportes só é prerrogativa de um Estado que possui status internacional, e tal fato por si só endossa a posição lograda pelo Tibete em acordos internacionais. Tais fatos nos dão a firme convicção de que o Tibete estava em plena posse de soberania externa e, portanto, usufruia status internacional quando sua integridade territorial foi violada pelas forças chinesas. A conclusão, portanto, é incontestável: a invasão chinesa do Tibete em 1950 foi um flagrante ato de agressão que desafia todos os princípios da lei e o concerto das nações

Entendemos que o ato de agressão do governo da China ainda não chegou ao fim. Pelo contrário, a área de invasão vem se expandido substancialmente e hoje praticamente todo o Tibete está sob o completo domínio das forças chinesas. As conseqüências são calamitosas. Um reinado de terror e opressão impera por todo o país. Homens, mulheres e crianças inocentes foram, e diariamente continuam a ser, massacrados em massa para que as autoridades chinesas possam atingir seu propósito de exterminar totalmente a raça tibetana. Crimes contra a humanidade são cometidos diariamente. Igualmente violentos são os crimes contra a religião. Milhares de monastérios foram arrasados, e imagens e objetos sagrados, rudemente destruídos. Apesar das atrocidades, eu e meu governo estamos preparados para aceitar um acordo justo e pacífico e, em minha declaração à imprensa em 20 de junho próximo passado, fiz um apelo claro e enfático por paz e justiça. Até agora meu apelo não obteve resposta. Nessas circunstâncias, não temos alternativa a não ser pedir às Nações Unidas que retome, antes da Assembléia Geral, a mediação ainda pendente sobre a questão tibetana11. Nossa decisão de apelar para as Nações Unidas tem recebido muita crítica. Eu gostaria de deixar bem claro que estamos e sempre estivemos preparados para aceitar qualquer outra solução viável, mas presentemente não temos outro caminho a seguir, e eu falharia com meu dever se não tomasse todas a medidas possíveis para socorrer meu povo em sua amarga e dolorosa luta pela sobrevivência. Argumenta-se que nosso apelo às Nações Unidas pode não produzir nenhum resultado prático ou imediato, mas isto não é, e nem poderia ser, justificativa suficiente para descartarmos este instrumento de paz idealizado pelas nações amantes da paz. Nessas circunstâncias, Senhoras e Senhores, faço um apelo fervoroso, a cada um de vocês em particular, e a todos em geral, para que apóiem nossa causa Também apelo aos povos e governos de todas as nações para que venham em socorro do torturado e oprimido povo do Tibete.


APELO AO SECRETÁRIO GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS 12

Sua Excelência,

Por favor, consulte as atas do Comitê Geral da Assembléia Geral das Nações Unidas de 24 de novembro de 1956, nas quais ficou decidido que a deliberação sobre o protesto de El Salvador contra "a invasão do Tibete por forças estrangeiras" deveria ser adiada de modo a dar oportunidade às partes de chegar a um acordo pacífico. É com o mais profundo pesar que venho informar que o ataque das forças chinesas ainda não terminou. Pelo contrário, as áreas de invasão vêm se expandindo substancialmente e, em conseqüência, praticamente todo o Tibete está sob ocupação das forças chinesas. Eu e meu governo fizemos diversos apelos em favor de um acordo amigável e pacífico, mas até agora esses apelos foram completamente ignorados. Em tais circunstâncias, e tendo em vista os crimes contra a natureza humana e a religião, e o tratamento inumano a que o povo do Tibete vem sendo submetido, solicito imediata intervenção das Nações Unidas e análise, pelo Comitê Geral, da questão tibetana que havia sido adiada. Neste contexto, eu e meu governo queremos enfatizar que o Tibete era um Estado soberano quando sua integridade territorial foi violada pelas Forças Armadas chinesas em 1950. Para confirmar tal asserção o governo do Tibete alega o seguinte:

Primeiro, nenhum poder ou autoridade foi exercido pelo governo da China no ou sobre o Tibete desde a Declaração de Independência feita pelo XIII Dalai Lama em 1912.

Segundo, o status de soberania que o Tibete usufruiu durante esse período fica definitivamente evidenciado pelo fato de o Governo do Tibete ter concluído não menos que cinco acordos imediatamente antes deste período e durante o mesmo.

Terceiro, o governo do Tibete defendeu seus direitos na Convenção Anglo-Tibetana de 1914, que reconheceu o status de soberania do Tibete e concedeu a seu representante a mesma posição plenipotenciária garantida aos representantes da Grã-Bretanha e China. É verdade que esta Convenção impôs certas restrições à soberania externa do Tibete, mas isto não influiu em sua posição internacional. Além do quê, tais restrições cessaram quando da transferência de poder na Índia.

Quarto, não existe nenhum acordo internacional válido e vigente em que o Tibete ou qualquer outra potência reconheça a suserania chinesa.

Quinto, o status soberano do Tibete também evidencia-se no fato de, durante a II Guerra Mundial, o Tibete ter insistido em manter sua neutralidade e apenas permitido a passagem, por território tibetano, de artigos não-bélicos provenientes da Índia para a China. Esta posição foi aceita pelos governos da Grã-Bretanha e da China.

Sexto, o status de soberania do Tibete também havia sido reconhecido por outras nações. Em 1948, quando uma Delegação de Comércio do Governo do Tibete visitou a Índia, a França, a Itália, o Reino Unido e os Estados Unidos da América do Norte, os passaportes emitidos pelo governo tibetano foram aceitos pelos governos desses países. Sua Excelência, eu e meu governo solicitamos imediata intervenção das Nações Unidas também por motivos humanitários. Desde a violação da integridade territorial do Tibete, as Forças Armadas chinesas têm cometido as seguintes ofensas contra as leis de conduta internacional universalmente aprovadas:

Primeiro, apropriaram-se das propriedades particulares de milhares de tibetanos e privaram-nos de seus meios de sobrevivência, levando-os, assim, à morte e ao desespero.

Segundo, homens, mulheres e crianças foram obrigados a trabalho forçado em construções militares, sem qualquer tipo de pagamento.

Terceiro, adotaram medidas cruéis e inumanas com o propósito de esterilizar mulheres e homens tibetanos tendo em vista o total extermínio da raça tibetana.

Quarto, milhares de inocentes foram brutalmente massacrados no Tibete.

Quinto, houve diversos casos de assassinato de líderes tibetanos sem nenhum motivo ou justificativa.

Sexto, todas as tentativas possíveis foram feitas para destruir nossa religião e nossa cultura. Milhares de monastérios foram arrasados, e imagens e objetos sagrados, completamente destruídos. A vida e a propriedade não mais estão a salvo e Lhasa, a capital do Estado, é hoje uma cidade morta. Os sofrimentos que meu povo vem suportando estão além de qualquer descrição e é absolutamente necessário que essa injustificável e brutal matança chegue imediatamente a um fim. São essas as circunstâncias que farão com que nosso apelo receba a consideração que merece.

Dalai Lama

DECLARAÇÃO À IMPRENSA 13

É muito gratificante para mim saber que meu apelo à Organização das Nações Unidas, referente aos terríveis acontecimentos no Tibete durante os últimos nove anos de ocupação chinesa e aos horrores que ali são perpetrados diariamente pelos invasores chineses em nome de liberdade e progresso, não foi ignorado pela Organização Mundial.

Quero expressar meus sinceros agradecimentos à Irlanda e à Malásia por terem abraçado a causa de meu país e tomado providências para inserir a questão do Tibete na agenda da Assembléia das Nações Unidas.

Também agradeço à Comissão Geral dos Trabalhos por ter votado pelo debate do problema, e aos distintos representantes das diversas nações que expressaram sua solidariedade e preocupação quanto aos acontecimentos em meus país.

Sou também imensamente grato à Assembléia Geral por ter aceito a recomendação da Comissão Geral dos Trabalhos e decidido levar a questão do Tibete à discussão. Estendo meus mais sinceros agradecimentos a todas as nações cujo apoio tornou tal fato possível.

Seria menos que humano de minha parte se eu não dissesse de minha esperança que o apelo que fiz, ao ser debatido pela Assembléia, seja integralmente considerado, e que a nobre Assembléia tome ou recomende medidas apropriadas para aliviar a terrível agonia do meu país e do meu povo, cuja sobrevivência encontra-se atualmente em perigo. 


A EDUCAÇÃO DOS TIBETANOS 14 

O governo da Índia responsabilizou-se inteiramente por todas as despesas de um plano educacional por ele proposto para implantar a educação tibetana simultaneamente com a educação moderna. Desde então temos seguido tal plano. Até agora o governo da Índia tem custeado os gastos das escolas tibetanas. Assim também, muitos amigos indianos, tanto homens quanto mulheres, tomaram a si a responsabilidade da educação de crianças tibetanas. Além disso, mesmo nas mais remotas áreas onde há assentamentos tibetanos, os professores indianos também resignaram-se às mesmas privações a que os tibetanos se submetem nesses povoados deficitários. Assim eles têm vivido e trabalhado juntos há muito tempo. Nesses locais deparamos com algumas dificuldades que nos impediram de executar aquilo a que nos propúnhamos, mas no geral os indianos foram generosos conosco. Tanto o governo da Índia, que subvenciona as despesas, quanto aqueles amigos indianos que ajudam nossas crianças têm sido úteis aos tibetanos. Essas são contribuições inestimáveis de que não podemos nos esquecer. No futuro lembraremos a ajuda que nos prestaram durante os difíceis e trágicos eventos de 1959, quando o povo tibetano esteve ameaçado de extinção. Foi neste período que o então primeiro-ministro Nehru estabeleceu uma comunidade autônoma, chamada "Sociedade das Escolas Tibetanas", que por seu turno organizou escolas independentes conhecidas como "Escolas Tibetanas".

Dalai Lama

DISCURSO NA CONFERÊNCIA EDUCACIONAL 15 

Diretores das escolas da ACET, administradores dos assentamentos e especialmente o Secretário da ACET, Shri S. P. Datta, aqueles de vocês que trabalham para o Departamento de Educação do nosso Governo no Exílio e todas as outras pessoas presentes. Estamos aqui reunidos para discutir sobre educação, um dos assuntos mais importantes na vida humana, um tema crucial na formação de uma nação.

Hoje estamos tendo a oportunidade de nos sentarmos juntos e isso me deixa muito feliz. Então, em primeiro lugar gostaria de cumprimentar a todos. Ao mesmo tempo, quero salientar que o encontro de hoje é um dos maiores e talvez o primeiro nesses moldes que conta com a presença de um considerável número de indianos e tibetanos envolvidos com a educação. Sendo assim, tenho certeza de que as deliberações se desenvolverão num clima de liberdade e sinceridade, e que vocês apresentarão sugestões concretas e encontrarão os meios e os recursos mais adequados para garantir um futuro melhor à educação.

Uma qualidade inata do ser humano é o seu grande poder de pensar. É da natureza do homem refletir sobre o futuro, tentar encontrar meios e recursos para lidar com ele. É por isso que um indivíduo, uma família ou uma comunidade pode conquistar novos horizontes e progredir na vida. É esta capacidade de pensar que, de fato, é a característica do ser humano. A informação e o conhecimento são elementos extremamente importantes para que o homem possa utilizar e desenvolver cada vez mais este poder inato de pensar sobre o futuro e planejá-lo. 

Assim sendo, desde que nos tornamos refugiados entendemos que, seja com relação ao futuro de nosso país, de um indivíduo, família ou comunidade tibetanos, uma de nossas prioridades é criar escolas a fim de suprir e aperfeiçoar a educação do nosso povo. Foi por esse motivo que já de início organizamos essas escolas. Uma vez que se trata da educação de nossas crianças e de torná-las perfeitos cidadãos tibetanos, o ensino da cultura tibetana é um imperativo. Se nossas crianças puderem ter esse tipo de instrução juntamente com a educação moderna, elas não perderão sua identidade tibetana. Seria benéfico ao Tibete se elas pudessem se instruir sem perder tais características.

Por outro lado, se não pudermos reter as características tibetanas, o simples fato de termos sido instruídos na educação moderna nos traria benefícios temporários e não teríamos muitos problemas. A longo prazo, no entanto, um tibetano que recebe educação tibetana de algum modo se sentirá mais feliz e certamente mais tranqüilo. Além disso, um tibetano privado da educação tibetana acabará por se tornar "um estranho no ninho". Seja qual for a sociedade em que viva, não poderá mudar seu corpo físico, que é feito de carne e sangue tibetanos. Assim, quando refletir a respeito de quem é, de onde ele e sua família vieram, mesmo que seus pais sejam naturais do Tibete ele não conseguirá encontrar nenhum traço característico tibetano em si mesmo e isto será desastroso para sua individualidade como ser humano, e ele não terá paz. Assim, a imersão na educação tibetana seria proveitosa e benéfica não apenas para a causa comum tibetana, mas também para a realização individual de nossos irmãos. 

Este foi o motivo de termos criado escolas independentes e tê-las chamado "Escolas Tibetanas". A criação da ACET deveu-se principalmente ao grande interesse e solidariedade demonstrados pelo então primeiro-ministro da Índia, Pandit Nehru. O governo da Índia responsabilizou-se inteiramente por todas as despesas de um plano educacional por ele proposto para implantar a educação tibetana simultaneamente com a educação moderna. Desde então temos seguido tal plano. Até agora o governo da Índia tem custeado os gastos das escolas tibetanas. Assim também, muitos amigos indianos, tanto homens quanto mulheres, tomaram a si a responsabilidade da educação de crianças tibetanas. Além disso, mesmo nas mais remotas áreas onde há assentamentos tibetanos, os professores indianos também resignaram-se às mesmas privações a que os tibetanos se submetem nesses povoados deficitários. Assim, eles têm vivido e trabalhado juntos há muito tempo. 

Nesses locais deparamos com algumas dificuldades que nos impediram de executar aquilo a que nos propúnhamos, mas no geral os indianos foram generosos conosco. Tanto o governo da Índia, que subvenciona as despesas, quanto aqueles amigos indianos que ajudam nossas crianças têm sido útil aos tibetanos. Essas são contribuições inestimáveis de que não podemos nos esquecer. No futuro lembraremos a ajuda que nos prestaram durante os difíceis e trágicos eventos de 1959, quando o povo tibetano esteve ameaçado de extinção. Foi neste período que o então primeiro-ministro Nehru estabeleceu uma comunidade autônoma chamada "Sociedade das Escolas Tibetanas", que por seu turno instituiu escolas independentes conhecidas como "Escolas Tibetanas". Milhares de crianças tibetanas têm recebido educação subvencionada pelo governo indiano. Isto é algo que as futuras gerações não podem esquecer.

Aproveitando a oportunidade desse encontro, eu agora gostaria de agradecer a pessoas como Nehru e o Dr. K. L. Shrimali, que na época era o ministro da educação do governo indiano. Ele participou de um almoço no qual, pela primeira vez, discuti a educação para os tibetanos com Pandit Nehru e então decidi estabelecer o TSS. Devemos sempre nos recordar de pessoas como ele e de outras do Ministério da Educação e do governo da Índia, e de todos os que trabalharam na ACET no passado e que, na seqüência, nos ajudaram. Assim também, aqueles que atualmente lá trabalham e detêm responsabilidades, como Shri Datta, os professores e todos os que aqui se encontram hoje. Eu estendo a todos vocês meus sinceros agradecimentos.

Estando o Tibete localizado entre a China e a Índia, naturalmente nos voltamos aos nossos vizinhos como um exemplo e, como sói acontecer nas relações humanas, deles recebemos muitas lições. Uma das mais importantes foi nos inteirarmos dos variados aspectos culturais da educação hindu, principalmente o budismo. Também no passado nossos professores eram indianos. Como eu sempre disse, nós tibetanos somos aprendizes de sábios indianos. O povo tibetano educou-se por ter podido contar com a benevolência desses estudiosos. Embora tivéssemos nossa própria cultura, uma cultura de tempos ancestrais, ela seguramente se desenvolveu e enriqueceu com o florescimento do budismo, que chegou ao Tibete através da Índia.

Assim também em tempos mais recentes, quando o Tibete passou por um período crítico, quando perdeu sua liberdade e teve de enfrentar muitos reveses, nossas crianças refugiadas mais uma vez se beneficiaram ao poder contar com a moderna educação proporcionada por nossos amigos indianos. Nos últimos trinta anos, milhares de crianças tibetanas refugiadas receberam educação na Índia. Atualmente, ao compararmos o padrão cultural de um tibetano que foi educado sob o domínio chinês e o de um refugiado tibetano cuja instrução se deu na Índia, verificamos que o padrão educacional hindu não é inferior, senão superior ao outro. Isto é um fato notório. Assim, as milhares de crianças tibetanas que foram educadas na Índia têm o potencial de contribuir para a educação do país que as acolheu e também de trabalhar para a reconstrução de seu próprio país. Acredito que tal oportunidade ainda há de chegar. Penso que as crianças tibetanas que foram educadas na Índia, com professores indianos, certamente encontrarão uma oportunidade de ser útil ao processo de reconstrução e modernização do Tibete. Assim, vemos quão importante foi a colaboração de nossos amigos indianos.

É importante compreendermos que a contribuição de vocês está sendo feita numa época em que uma nação deste planeta, que possui uma rica tradição cultural e religiosa, está passando por um período crítico -- um período de sobrevivência e morte. Assim, é importante que nossos amigos indianos e nossos professores saibam que, ao se responsabilizarem pelo ensino e educação das crianças tibetanas nas escolas tibetanas estarão prestando uma grande contribuição para a sobrevivência de uma nação e a preservação de sua cultura e identidade.

Ao lembrar com gratidão de suas ajudas anteriores, gostaria de pedir a vocês que continuassem trabalhando como antes, tendo sempre em mente esses objetivos tão amplos. Especialmente depois que o senhor, Shri Datta , assumiu o secretariado da ACET, temos conseguido resultados concretos e progredido em nosso caminho. Aqueles que consigo trabalham, sejam membros da equipe de nosso Departamento de Educação, seja os que atuam nas escolas, ou ainda funcionários dos assentamentos, todos têm demonstrado grande reconhecimento pela sua sincera dedicação e pelo êxito dos resultados obtidos. Por isso, quero deixar registrado meu especial agradecimento ao senhor.

Atualmente os professores tibetanos estão tentando um acordo para que seja dada mais responsabilidade aos administradores e funcionários dos assentamentos. Isso é muito bom. Seja como encarregados dos assentamentos, professores ou funcionários das escolas, nós tibetanos precisamos ampliar cada vez mais a nossa participação no ensino, porque esta é uma responsabilidade que cabe a nós. Como mencionei anteriormente, a maioria dos professores indianos está se esforçando e trabalhando muito; os professores tibetanos deveriam se esforçar e trabalhar ainda mais, pois o fazem por nossa própria causa. 

O número de professores tibetanos que atua nas escolas vem aumentado a cada dia, pois agora dispomos de mais professores treinados e capacitados. Isto é realmente louvável, e tal fato deveria nos alegrar. No entanto, não há porque nos orgulharmos de um mero aumento de número. O senso de responsabilidade dos professores é extremamente importante. É claro que a experiência e o treinamento também são importantes em qualquer trabalho que se empreenda. Mais importante ainda, no entanto, é a disposição e a vontade de servir aos outros. Qualquer que seja o trabalho que façamos ou a profissão que exerçamos, se sinceramente nos dispusermos a executar nossa obrigação com alegria e contentamento, progressivamente ganharemos em experiência. Mesmo que no início não tenhamos conhecimento suficiente, se nos empenharmos em seu trabalho acabaremos por obter a experiência necessária.

Tomemos meu próprio caso como refugiado neste país por 35 anos. Eu não tive uma educação moderna. Também não tive nenhuma experiência ou treinamento para dirigir uma nação, especialmente uma nação que perdeu sua liberdade. Na luta para reconquistar nossa liberdade temos de resistir aos chineses e enfrentá-los. Eu não tinha sido treinado, não tinha nenhum conhecimento de como fazer isso. No entanto, o povo tibetano depôs toda sua esperança em mim e, de minha parte, por acreditar que este era meu destino cármico, entendi ser minha responsabilidade trabalhar com afinco para atingir esse objetivo. 

Basicamente sou um praticante budista, um monge e um bhikshu. Verdade, honestidade e altruísmo são as minhas práticas religiosas e é com elas em mente que me dirijo às pessoas, inclusive aos políticos. Algumas vezes preciso discutir, e mesmo assim me mantenho otimista. Quando me reuno com a equipe de nosso governo eu os motivo, dou-lhes esperança e, se necessário, chamo-lhes a atenção. De qualquer maneira, quando temos motivação própria para dar o melhor de nós sem tergivesar e desanimar, e se continuamos a trabalhar persistentemente passo a passo, paulatinamente ganharemos experiência e acabaremos por aprender a lidar com as pessoas. Por outro lado, se nos falta aquilo que chamamos Lhagsam, "a motivação para servir aos outros", não importa que tenhamos uma educação superior ou excelentes qualificações, pois ocasionaremos desgraça e nos será difícil beneficiar os outros. Através de experiência própria observei que o mais importante é possuir a determinação, a energia e a motivação interiores que nos façam afirmar: "Decididamente, farei tudo o que estiver ao meu alcance." Se tivermos esse estímulo interno gradualmente adquiriremos a experiência necessária para fazer as coisas.

Assim, vocês professores tibetanos, bem como todos os outros membros de nossa equipe que estão envolvidos no projeto, devem entender que o mais importante é ter sempre em vista nosso objetivo comum e dar o melhor de nós para alcançá-lo. Isto é muito importante. Portanto, nossa equipe tem uma responsabilidade muito significativa nas escolas tibetanas. Algumas vezes ouço dizer que há alguns professores tibetanos que não demonstram preocupação pelas nossas crianças, que não se importam muito em educá-las. No passado houve alguns poucos professores indianos que não cumpriam seu dever conscienciosamente, dissipavam o tempo e recebiam salários por isso. Agora eu fiquei sabendo que entre os professores tibetanos também há alguns que fazem a mesma coisa. Isto é muito triste. É possível que haja alguns professores indianos dessa espécie; não podemos fazer nada a respeito. Mas é inimaginável saber da existência de tais professores entre os tibetanos.

Nós perdemos a nossa pátria e estamos passando por um período crítico. Sob tais circunstâncias, como podemos explicar aos outros que os tibetanos não prestigiam a causa de seu próprio país? Isto é muito vergonhoso, e uma indicação de desdém pela lei da retribuição. Assim, é importante que os professores tibetanos assumam sua responsabilidade com dedicação e compromisso inabaláveis. Isto é muito importante e um dos pontos fundamentais.

Outro item urgente é a implantação gradual da língua tibetana nas aulas em nossas escolas. Inicialmente, até a 5a série todas as matérias serão ministradas em tibetano. Tomamos esta decisão e já a estamos implementando. Isto é extremamente significativo. Inclusive, já havíamos discutido essa questão no início dos anos 60 durante a Primeira Conferência de Educação.

Quando estive na China visitei uma localidade chamada Yen-Phen, uma pequena região autônoma próxima à fronteira com a Coréia e cujos habitantes são coreanos. Lá observei que todas as matérias, até na universidade, eram ensinadas na língua coreana. É importante entender que a língua tibetana não é de maneira alguma uma língua pobre. O sânscrito, por exemplo, língua matriz do budismo, é considerada uma linguagem rica e uma das mais antigas do mundo. E toda a filosofia budista, cujos ensinamentos e conceitos nos foram legados por esta rica linguagem, são inteiramente ensinados em tibetano de uma maneira que, se não é mais clara que o sânscrito, também não é mais pobre. Daí podemos concluir que o tibetano é fundamentalmente um idioma rico. A língua tibetana escrita é considerada uma das dez mais antigas do mundo. Uma vez que nosso idioma não teve a oportunidade de ser avalizado para uso na maioria dos assuntos modernos, ele não se desenvolveu. 

Eu acredito que a língua tibetana tem o potencial de transmitir todos os conhecimentos modernos. Assim, colocamos em pauta torná-la o meio de transmissão de conhecimentos em nossas escolas. Alguns, no entanto, entenderam este seria um trabalho árduo e não prático e que, a menos que usássemos um idioma confiável como meio de instrução, ele acabaria por dificultar o ensino básico, que então não poderia ser ministrado eficazmente. Assim, a idéia não foi implantada. Recentemente, no entanto, as escolas das Aldeias Infantis tibetanas resolveram pô-la em prática e agora a ACET decidiu usar o idioma tibetano para ensinar outras matérias em todas as suas escolas, pelo menos até um determinado nível (isto é, no curso primário). Este é um gesto louvável e nos deixa muito orgulhosos. Era realmente indispensável que isso viesse a ocorrer.

Nós, tibetanos, não estamos aqui para passarmos nossa vida como refugiados. Nós somos refugiados políticos e, desde o dia em que nos tornamos refugiados nosso objetivo básico tem sido voltarmos ao lugar de onde saímos. Assim sendo, precisamos enriquecer a língua tibetana e nos esforçarmos por empregá-la em todos os nossos afazeres. Se fosse o caso de passarmos a vida inteira na Índia, não haveria necessidade de dar tanto relevo ao aprendizado do nosso idioma, mas como nosso objetivo é voltar para o nosso país, é extremamente importante que privilegiemos a língua tibetana. Por isso, é indispensável que possamos usá-la para ensinar outras matérias, exceto no caso de outras línguas, como o inglês, o hindi etc. Então, nós precisamos atingir o objetivo de promover o idioma tibetano, o que em troca nos ajudará a preservar e enriquecer a cultura tibetana e manter a identidade de nosso povo.

Por outro lado, se não explorarmos a língua tibetana e deixarmos para empregá-la apenas em nossas conversas diárias, quando precisarmos tratar de assuntos importantes acabaremos seremos compelidos a usar outros idiomas, pois a língua tibetana não se terá desenvolvido satisfatoriamente. Isto seria realmente vergonhoso, e nossa língua acabaria por se deteriorar e degenerar. Na realidade, se o tibetano não for atualizado, não importa o quão enfaticamente apregoemos a importância da nossa cultura, o resultado final será insatisfatório. Portanto, o programa de vernacularização do ensino é de suma importância. Os professores tibetanos, em particular, têm um papel importante a desempenhar e uma responsabilidade muito especial a assumir, pois é chegado o tempo de ensinar todas a matérias em língua tibetana, em nosso próprio idioma.

Assim, chegou a ocasião em que vocês, superintendentes dos assentamentos, precisam assumir uma responsabilidade especial, porque vocês estão em contato direto com as escolas tibetanas de várias localidades e por isso se tornaram um valioso fator de ajuda. Vocês precisam estar constante e especialmente atentos às áreas de sua jurisdição que apresentam problemas e falhas. Quando os encontrarem, não devem apenas falar sobre eles, mas empenhar-se para resolvê-los imediatamente a nível local. Isto é muito importante.

Assim também os pais tibetanos devem agora ficar especialmente atentos a esse trabalho. Eles certamente já estão fazendo isso, pois essa é a responsabilidade de cada um. Ainda assim, eu gostaria de fazer um apelo veemente a eles para que prestem uma atenção muito especial a esse assunto.

Em segundo lugar, há crianças tibetanas que abandonam os estudos, sem completá-los, mesmo quando já atingiram um certo grau de educação nas escolas. Algumas vezes elas são mantidas em casa e arranja-se-lhes um casamento às pressas, o que faz com que não retornem à escola. Isso é um grande infortúnio. Termos a oportunidade de educar nossas crianças e não a aproveitarmos é desfavorecer inclusive a causa comum tibetana.

Por um lado, dizemos alto e bom som que a ocupação chinesa de nossa pátria causou uma grande dilapidação em nosso idioma e cultura, com efeitos desastrosos sobre a situação geral da educação dos tibetanos. Por outro lado, seria realmente muito triste que nós, que estamos tendo a oportunidade de receber educação, desistíssemos voluntariamente de aproveitá-la. Por isso, os pais, os membros das famílias, os parentes e os amigos devem unir-se e arcar com a responsabilidade de assegurar a conclusão da educação de nossas crianças. Isso é importante.

Uma vez que precisamos nos esforçar para preservar a identidade tibetana através da preservação cultural, criamos um cargo especial, a que denominamos Choe Ge (instrutor espiritual), já no início dos anos sessenta, quando as escolas tibetanas foram criadas. O objetivo de um instrutor espiritual não é, de maneira alguma, ensinar recitação e memorização de orações, mas sim promover uma educação baseada na cultura tibetana. O que entendemos por ensinar a cultura tibetana? Mesmo na China comunista, em algumas escolas tibetanas ensina-se Pramana, ou lógica budista. Assim, o ensino de Pramana não é considerado uma instrução religiosa, o que é verdade. Portanto, devemos procurar incorporar o estudo da lógica budista etc. nas nossas escolas tibetanas. Isso vem a ser muito importante. É preciso avaliar a quais matérias esse estudo deve ser incorporado e como chamá-lo. Seria muito proveitoso se, em nossas escolas, pudéssemos contar com eruditos das universidades monáticas, versados em filosofia budista e Pramana, quer os chamemos de Choe Ge ou não. É importante introduzir os princípios essenciais da cultura tibetana nas nossas escolas. 

Quando nos referimos a ensinar o budismo tibetano, de maneira alguma entendemos que seja suficiente que as crianças aprendam apenas a recitação das orações e saibam-nas de cor. Isto por si só não constitui o ensino, aprendizagem e compreensão do budismo tibetano. Mesmo que se possa recitar centenas e milhares de slokas, ou versos, se não houver compreensão é como se apenas se tocasse um gravador, o que seria totalmente inútil. Portanto, é muito importante que encontremos pessoas que possam introduzir a cultura tibetana, principalmente o budismo, em nossas escolas. Seria conveniente que tais pessoas fossem escolhidas dentre aquelas graduadas pelas universidades monásticas dos Sakya, Kagyud, Gelug, Nyingma, e também dentre as dos Bon que sejam treinadas nos ensinamentos filosóficos tibetanos. 

A memorização e recitação dos textos filosóficos básicos, feitas pelos monges nos moldes curriculares das universidades monásticas, tem uma outra acepção. Embora no começo eles não entendam seu significado, gradualmente vão aprendendo e estudando os textos, e a memorização que empreenderam é uma contribuição notável para relembrá-los e compreender seu sentido. Isso é um assunto inteiramente diferente. A mera memorização e recitação das orações não é de muita utilidade. Há uma exortação muito importante a fazer a todos aqueles que ensinam a cultura e o budismo tibetano: inteirem-se do propósito tanto de uma quanto do outro e estejam a par dos meios para alcançá-lo. A responsabilidade fundamental pela preservação e transmissão da religião e da cultura é da família, a nível de comunidade que incorpora e leva avante tais princípios.

Eu acho que isto também acontece entre os tibetanos. Por exemplo, quando uma criança recebe uma influência positiva da família, naturalmente tal experiência se manifestará em sua personalidade e fará parte de seus hábitos, refletindo-se em uma maneira polida de falar, uma conduta cortês etc. Por outro lado, se uma criança, que é adotada por pais que não têm boa educação nem conduta moral adequada, mais tarde se tornar malcriada e não souber senão ser grosseira ao tratar com as pessoas, não é ela que deve ser culpada por sua conduta. Desde a mais tenra idade ela se viu privada de bons exemplos, de procedimentos corretos e disciplinados que lhe servissem de modelo; ela não encontrou um ambiente propício nem oportunidades para criar bons hábitos e desenvolver boas maneiras. Não estou me referindo à mera falta de instruções verbais, mas sim à falta de bons modelos, o que impede a criança de adquirir bons hábitos. Mais tarde, se na escola aprender com seus colegas apenas expressões impolidas, mesmo depois de se formar continuará a fazer uso delas. Provavelmente isto se deve às condições precárias em que se desenvolveu.

É de conhecimento geral que quanto mais carinho, amor e afeição uma criança receber de seus pais, melhor ela se tornará, certamente será mais alegre e terá uma boa conduta moral. A criança que dos pais recebe amor e afeição sadios possui fortes sentimentos filiais e está mais apta a responder aos outros com amor e afeição. Por outro lado, vejamos uma criança que teve pais indiferentes ou que se tenham divorciado, e que tenha sido atendida quanto às necessidades básicas de sobrevivência, como alimento e roupas, mas privada de amor e afeição humanos; tal criança será mentalmente fraca ou perturbada e terá problemas de desenvolvimento físico. Uma criança como essa, quando cresce e começa a participar da vida em sociedade, por ter sido privada de amor e afeição não conseguirá responder com amor e afeição aos outros. Assim, quando conhece outras pessoas torna-se cautelosa, desconfiada, ou sente-se amedrontada, ou as encara como adversários. Tal pessoa não entende que os seres humanos dependem de amor e afeição para viver e sobreviver. 

Que o amor e a afeição são indispensáveis para a sobrevivência é fato aceite por muitas pessoas, inclusive cientistas ocidentais que estudam o comportamento humano. Assim, é extremamente importante que valores morais como gentileza, respeito pelos outros etc. sejam ensinados dentro da própria família. Portanto, se pudermos organizar melhor a aprendizagem escolar, as crianças terão mais chance de absorver os hábitos e modo de vida tibetanos no convívio familiar. O caso seria completamente diferente fossem os pais mal-educados. Se, além de receber amor e afeição dos pais dentro do lar, a criança também receber uma educação completa na escola, que enorme benefício isso seria. Por outro lado, se as crianças são apartadas de seus pais e lares quando ainda bebês e não têm quem lhes possa dar amor na infância, então o contrário é que se provaria verdadeiro.

Basicamente os professores deveriam ser os substitutos dos pais na escola e, ao mesmo tempo em que ensinam, responsabilizar-se pela criança e interessar-se por ela. Durante as aulas, os professores precisam tomar muito cuidado com suas atitudes, a maneira como se dirigem às crianças, o modo de cumprimentá-las no começo e no fim do período escolar. Eu acho que estas são coisas extremamente importantes. Por outro lado, se o professor se comportar de maneira desprezível, não souber falar suavemente e não for polido, as crianças ficarão ansiosas pelo término da aula. Um professor que não sorri, que é carrancudo, de pouca conversa e parece estar sempre brabo, não se responsabiliza nem se interessa pelo bem-estar e educação das crianças, e que além do mais apresenta uma performance insatisfatória ao lecionar -- este é um problema muito sério.

Enquanto trabalha com as crianças na sala de aula o professor deve não apenas apresentar-lhes verbalmente os valores de amor, afeição, gentileza etc., mas também dar-lhes o exemplo de tais valores através de sua conduta pessoal. Por outro lado, quando as crianças vivem com seus pais e parentes em seus lares e são criados com amor e desvelo, e quando valores morais são instilados em suas mentes, então podemos esperar que venham a se tornar verdadeiros tibetanos, herdeiros de todas as características próprias do nosso povo. Se não pudermos conseguir isso, então tudo será mais difícil.

Vejamos, por exemplo, o caso dos tibetanos recém chegados; a maioria deles é digna de respeito. São pessoas que viveram sob a baioneta dos inimigos e indomitamente os enfrentaram e desafiaram. Os tibetanos que vivem no Tibete, especialmente os mais jovens, são nossa principal fonte de esperança para atingirmos nosso objetivo comum. O espírito e o coração dos que moram no Tibete são realmente louváveis. No entanto, o comportamento e os hábitos de alguns deles são bem desagradáveis. Entre os que chegaram aqui recentemente, alguns são bastante irascíveis, e por bobagens tendem a discutir e brigar, e até mesmo usar suas facas. Tudo isso indica um declínio nos valores morais dos tibetanos. Assim também, alguns professores, com experiência nas escolas tibetanas e familiarizados com seus alunos, me disseram que atualmente os valores morais das nossas crianças parecem estar decaindo aos poucos. Essas são questões que nos preocupam muito e a que urge atendermos.

Até agora vimos asseverando com orgulho que a cultura tibetana é única, que nossos costumes e características são especiais. Isso é mesmo verdade e não, como os chineses comunistas proclamam, algo forjado. Muitos nos dizem que nós tibetanos possuímos características e costumes singulares. Até agora isso tem sido verdadeiro. O bom comportamento do povo tibetano é a nosa riqueza, a nossa preciosa herança. Saber que este legado está degenerando nos deixa muito preocupados. Assim, todos vocês precisam prestar uma atenção muito especial a esses assuntos e tentar descobrir onde estão as falhas. Como se faz em um tratamento médico, vocês devem diagnosticar a origem da doença e então passar a tratar dela com muita atenção e cuidado, com vistas a curá-la. Vocês, como educadores, são mais experientes que eu. Por muito tempo vocês vêm trabalhando no campo educacional e com isso ganharam muita experiência. Vocês estão a par do que está ocorrendo, da situação atual. Para resumir, está nas suas mãos pôr em prática o que falei aqui. 

No início dos anos 50 e 60 muitos de nós não tínhamos conhecimentos e não conseguíamos entender as coisas devidamente. Nesta época, posso admitir que, até certo ponto, eu tinha um pouco mais de conhecimento que vocês. Desse modo, tive de tratar de vários assuntos e tomei esse encargo como minha responsabilidade pessoal. Nas atuais circunstâncias, não consigo entender como as pessoas podem alegar estarem desinformadas. Mas o que realmente interessa é saber se se está ou não fazendo bom uso dos conhecimentos que se tem. Vocês agora têm muito mais conhecimento que eu em várias áreas de atividade. Agora compete a vocês pôr em prática este conhecimento com perseverança e contínuos esforços até que o nosso derradeiro objetivo seja alcançado. Assim, cada um de nós precisa entender que temos uma grande responsabilidade para com uma causa comum, que temos uma carga bem pesada sobre os ombros e que o nosso objetivo é importante e significativo.

No âmbito espiritual, trabalhar numa conjuntura dessas é muito importante para acumular grandes méritos. De um ponto de vista mundano, estamos comprometidos com a tarefa de proteger uma raça e um rico patrimônio cultural que tem o potencial de salvar a humanidade. Secularmente, temos a responsabilidade de contestar os chineses que subjugaram à força o Tibete. Nós também devemos enfrentá-los com lógica e sabedoria, sem abandonar os princípios básicos da bondade amorosa. Para isso, precisamos de educação. Sem ela não podemos desafiar os chineses. Mesmo que não tenhamos educação, se não formos altruístas e nos deixarmos tomar pela cólera, não poderemos enfrentar os chineses. O fogo não pode ser extinguido pelo fogo; o fogo só pode ser extinguido pela água. Esta deve ser a nossa maneira de desafiar os chineses. Nossos oponentes estão tomados por ganância, ciúme, raiva, cobiça, competitividade e ignorância. Como conseqüência disso, somos atacados, capturados e oprimidos. No entanto, a nossa abordagem deve ser baseada em sabedoria, sinceridade, honestidade, compaixão e preocupação pelos outros e, acima de tudo, paciência. Abraçando tais princípios sem dúvida nos tornaremos capazes de enfrentar os chineses.

Por exemplo, o número de nossos partidários dentro da comunidade chinesa vem crescendo. Eu soube recentemente que em Shangai 54 eruditos e sérios chineses entregaram um memorando assinado a Qiao-Shi, presidente do Congresso Nacional Popular, no dia 23 de março. Há 19 ítens sendo pleiteados. O 15o trata das comunidades minoritárias chinesas, como os chineses normalmente as reconhecem ser. O item enfatiza a importância de conceder real autonomia a tais comunidades, e em particular eles recomendam que uma autêntica autonomia de fato e de direito seja conferida ao Tibete, para o que seria sumamente importante contatar diretamente o Dalai Lama. Assim vemos que, dentro da própria China, um grupo de pessoas, quer sejam eruditos ou uma organização que trabalha pela liberdade e democracia, apresentou um memorando com tais propostas. Isto parece indicar que, se tivéssemos desafiado ou enfrentado os chineses, nossos inimigos figadais, sem nenhuma compaixão e o menor interesse pelo seu bem-estar e para isso tivéssemos usado da violência e tentado matar todo chinês que aparecesse em nosso caminho, tal consideração não teria sido demonstrada. 

Por outro lado, se continuarmos nossa luta até mesmo considerando os chineses como nossos amigos e desejando realmente poder ajudá-los no futuro, então não é senão natural que os chineses também reajam favoravelmente a nós. Esta é uma tendência natural do ser humano, com exceção de uns poucos indivíduos iníquos. Se prejudicamos os outros e esperamos que eles nos ajudem, é claro que isso não acontecerá, e isso também vai contra a lei da causalidade. Por nossa abordagem ter sido até o presente momento sábia e sincera, há agora um número crescente de chineses que demonstram interesse e preocupação em relação a nós. Assim, devemos enfrentar os chineses com uma combinação de inteligência, educação, sinceridade e senso de responsabilidade. Portanto, seja da perspectiva de um único indivíduo ou de nossa causa comum, de uma abordagem religiosa ou secular, o papel de vocês no processo de educar nosso povo é extremamente importante, e vocês estão tendo uma significativa e rara oportunidade. Cabe a vocês a decisão de utilizá-la construtiva ou destrutivamente, não é mesmo? Vocês todos devem dar o melhor de si mesmos. Obrigado. Tashi Delek. 


1. 18 de abril de 1959.

2. Quando chegou a Bomdila, o Dalai Lama foi saudado pelo seguinte telegrama do Pandit Nehru: "Meus colegas e eu damos-lhe as boas-vindas e enviamos nossos cumprimentos pela sua chegada à salvo na Índia. Ficaremos felizes em oferecer tudo o que for necessário para que o senhor, sua família e comitiva possam residir na Índia. Aqueles que o têm em alto apreço certamente honrarão sua pessoa com os tradicionais votos de estima e consideração. Cordiais saudações." 

3. Em Lok Sabha, em 27 de abril de 1957, Pandit Nehru declarou: "Eu gostaria de deixar claro que o Dalai Lama foi totalmente responsável por este pronunciamento, assim como pelo breve comunicado feito por ele em Mussoorie. Nossos funcionários não tiveram participação nenhuma na redação ou preparação de tais declarações."

4. Mussoorie, 22 de abril de 1959.

5. Mussori, 20 junho de 1959.

6. De acordo com registros oficiais do governo da Índia, o Tibete gozava a seguinte condição desde o século XVII: "Durante os 300 anos anteriores a 1950 o Tibete, qualquer que tenha sido seu status, teve o direito de assinar tratados e negociar questões de fronteira diretamente com seus vizinhos. Os tratados assinados pelo Tibete com Ladakh em 1684 e 1842, e o tratado assinado com o Nepal em 1856 confirmam o fato de que o Tibete estava em posição de, por si próprio, conduzir negociações com potências estrangeiras. O Tratado Nepal-Tibete de 1856 esteve em vigor por todo um século até ser explicitamente revogado pelo Tratado Sino-Nepalês de 1956. Em 1890 o governo tibetano protestou contra a conclusão de um tratado entre Grã-Bretanha e China concernente ao Tibete e sucessivamente desafiou seu cumprimento. Assim, a Grã-Bretanha viu-se obrigada a assinar um acordo com o Tibete em 1904. Longe de se opor a todas essas negociações diretas empreendidas pelo Tibete, a China prestou ajuda nas transações. Também é bem conhecido o fato de que, em 1911, o Tibete emitiu uma Declaração de Independência. Tudo isso mostra que, qualquer que seja o conceito teórico da relação da China com o Tibete, houve períodos recorrentes em que o Tibete desfrutou plenos poderes para tratar com outros países."

7. Delhi, 3 de setembro de 1959.

8. 5 de setembro de 1959.

9. Em Nova Delhi, 7 de setembro de 1959.

10. Em 7 de dezembro de 1950, Pandit Nehru declarou no parlamento indiano: "Não é correto que uma nação fale de soberania ou suserania sobre uma região fora de seu alcance imediato. Ou seja, uma vez que o Tibete não é a mesma coisa que a China, em última análise deveriam prevalecer os desejos do povo do Tibete, e não quaisquer argumentos legais ou constitucionais. Acredito que esta é uma idéia válida. Se o povo tibetano é ou não forte o suficiente para garantir seus direitos é uma outra questão. Se nós somos fortes o suficiente, ou se qualquer outro país é forte o suficiente para assegurar que isso seja efetivado também é outra questão. Mas é correto e próprio dizer, e eu não encontro dificuldade em fazê-lo ao governo chinês, que, embora eles possam ter suserania ou soberania sobre o Tibete, de acordo com quaisquer princípios, sejam os que eles proclamam ou os que eu apóio, certamente a última voz em relação ao Tibete deve ser a voz do povo do Tibete e a de ninguém mais."

11. Vide próximo capítulo.

12. Em Hyderabad House, Nova Delhi, 9 de setembro de 1959.

13. Nova Delhi, em 13 de outubro de 1959.

14. Introdução ao Capítulo X do livro The Spirit of Tibet: Universal Heritage. A primeira parte deste capítulo, "Discurso na Conferência Educacional", foi traduzida por Mara Rejane Ruschel e está disponível acima.

15. Discurso dirigido aos delegados e diretores dos estabelecimentos de ensino da ACET (Administração Central das Escolas Tibetanas) por ocasião de sua Sétima Conferência Anual que teve lugar em Dharamsala em 5 de maio de 1994.