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O Namu Amida Butsu que dizemos é, na
verdade, um eco do Namu Amida Butsu que o Buddha da Luz e Vida Infinitas diz
por nós. Só que ressoamos pouco e mal. Amida repete por nós, sem
cessar, ininterruptamente, Namu Amida Butsu. Mesmo quando
dormimos, Ele continua nos chamando.
Mas não ouvimos a maioria dos Nenbutsu
que Ele diz buscando nos despertar. Na caverna que somos, a voz
de Amida é abafada pelo alarido de nossos estridentes desejos vociferando
quereres. Só deixamos que ressoem alguns poucos, dentre todos os "Namu
Amida Butsu" que Ele recita. Faz-se o eco, quando Amida consegue
acalmar nosso ego atarefado ou entretido, quando adormece ao menos um
pouco a ânsia que nos tem cada dia. Todos os outros chamados se esvaem em
nossa desatenção.
Observando-me no cotidiano, percebo
que escuto poucas vezes por dia o Chamado de Amida. Só nessas ocasiões
me lembro de recitar o Nenbutsu. Quando penso que Yokan (1032-1111)
respondia ao Chamado 60.000 vezes por dia, me dou conta de que vivo muito
esquecido de Amida. É terrível esquecer assim de meu melhor amigo. Ninguém
faz tanto por mim quanto Ele e eu me esqueço de agradecer-lhe. Quero ser
como Genza San que murmurava sem cessar "muito obrigado, muito
obrigado" mas logo em seguida me esqueço de faze-lo. Um pensamento
qualquer, alguma tolice insignificante ocupa minha consciência e um véu
denso oculta em mim o único desejo sensato, justo aquele que o Buddha me
deu. Quando me dou conta de que isto ocorreu, já nem sei quanto tempo se
passou. Arrependo-me mais uma vez de minha ingratidão, desejo corrigir-me
mas sempre acabo esquecendo de novo. Todos os dias é assim. Ó, Namu
Amida Butsu, dê um jeito em mim porque eu não consigo me dar um jeito!
Noto também quantas coisas me
aborrecem só porque não me lembro de que a única coisa que importa é
nascer na Terra Pura e isto já me foi assegurado pelo Voto. Nas inúmeras
ocasiões em que esqueço que já fui salvo, aborreço-me por coisas que
então me parecem importantes. As mentiras, mesquinharias, falsidades ou
traições de que todos somos com freqüência alvos, os meus próprios
erros, tanto os grandes quanto os pequenos, tudo isto me enraivece quando
lhes atribuo primazia na minha atenção. Os textos sagrados já me
ensinaram que todas as condições que permeiam a existência são fruto
de causas e condições do passado e vêm ao presente para aprendermos o
que só assim nos pode ser ensinado. Sei, portanto, que nada há a
lamentar, nem pode algo ser desfavorável já que nos ensina o necessário.
Tudo isto eu compreendi e percebi como verdadeiro. Mas quando surge o que
chamam de problema, escorrego de volta às interpretações estereotipadas
do passado e me esqueço do que aprendi. Nos momentos raros de lucidez em
que me lembro de Amida, as nuvens se desvanecem e nada do que foi antes um
problema resta como tal. Ah, que tristeza eu me esquecer do Namu Amida
Butsu! Por outro lado, que maravilha extraordinária quando escuto Amida
me lembrando que já fui salvo!
Há também muitas coisas que me
preocupam só porque me esqueço da Confiança que Amida está sempre
tentando incutir nesta minha mente insegura. Preocupo-me com o meu próprio
futuro. Preocupo-me mais ainda com o passado, o presente e o futuro dos
meus filhos, com as pessoas que amo, com a sobrevivência da nossa Missão
no Brasil, com tantas coisas cujo rumo que tomarão ignoro. Mas se me
preocupo, é porque em algum lugar de mim mesmo persiste escondido um
temor de que algo possa dar errado, de que algum mal possa me suceder ou
ao que amo. Preocupo-me, portanto, por pura falta de confiança em Amida.
Fomos salvos para a Eternidade e o mundo de ilusão em que sonhamos
acordados não tem nenhuma consistência. Namu Amida Butsu!
Quando paro e penso nisto, todos os
meus temores revelam-se infundados, ridículos. Lembram-me o medo que
sentiu um menino chamado Gustavo, quando uma tênue réstia de luz deitava
à parede do quarto, à noite, o que ele não sabia ser só a sombra de um
prosaico paletó pendurado no cabide. Volta-me, vívida, a imagem de minha
mãe atendendo ao choro assustado do filho e secando-lhe as lágrimas com
a luz que dissipava toda fantasmagoria. Creio-me adulto mas vejo-me ainda
o mesmo menino. Mudaram só as sombras, permanecem os infundados temores.
A Luz, hoje noutra dimensão, volta a dissolver o que amedronta. Basta
abrir os olhos mas tantas vezes nem percebo que os tenho cerrados. Quando
Amida consegue me fazer ver, sei que o realmente importante já de há
muito está resolvido! Já fomos salvos! Estamos sendo levados para a
Terra Pura pelo próprio Buddha Amida! Quando abro os olhos, eu sei isto! Não
tenho nenhuma dúvida! O problema é que logo depois, ante um fato
qualquer, a memória do que vi se apaga e volto a crer em dramas e tragédias,
temo, sofro, sem notar que retomei as ilusões. Que lástima! Namu Amida
Butsu!
Já de há muito percebi que Amida
não habita só numa Terra Pura incalculavelmente distante, na direção
do Oeste. Ele está também presente, como ação poderosa e contínua,
neste mundo ilusório. É aqui que Ele nos está conduzindo à Terra Pura,
inspirando-nos a Mente Confiante. Seus Bodhisattvas, emissários da
Compaixão, são incontáveis e estão em toda parte, velando por cada
ser, tal como a mãe amorosa cuida do filho que sofre. O que me surpreende
é que eu consiga perder de vista esta monumental verdade e ainda recaia
no absurdo de supor que algum evento escape ao plano que Amida concebeu e
executa para me salvar. Não sei como consigo reincidir tanto na ignorância
da qual eu próprio já ri. Tento vencê-la e acabo sempre vencido por
ela. Namu Amida Butsu!
Quando constato esta minha
capacidade de recair em ilusões, descubro também quão persistente é
Amida! Até hoje não desistiu de me salvar de mim mesmo! Que incrível!
Dou-lhe tantas razões para concluir que eu não tenho mesmo jeito mas Ele
não se deixa convencer. É extraordinário! Há quantas vidas Ele vem
insistindo comigo? E eu continuo teimosamente aferrado às minhas ilusões.
Nem assim Ele desanima. Felizmente devo admitir que Amida é mais teimoso
do que eu. Se não desistiu até hoje, não desistirá mais. Ele vai me
salvar! Felizmente agora vejo que não escaparei. Serei levado, apesar de
mim, para a Terra Pura! Ou melhor, é por ser como sou, que Amida não
teve outro jeito senão vir até aqui para me salvar! Namu Amida Butsu!
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Muito obrigado, ó Buddha, por não
teres desistido deste tolo que é o Gustavo. Que alívio, que alegria,
saber que há um Buddha ainda mais capricornianamente obstinado do que eu,
decidido a me salvar sem nem dar trelas à minha resistência.
Seu Poder é tal, que Ele consegue até mandar recados Seus às pessoas ao
meu redor, usando este tolo para transmitir Sua sabedoria. Até isso Ele
consegue: fazer com que um estafeta trapalhão como eu, entregue Sua
correspondência no endereço certo e na hora exata. Namu Amida Butsu!
Para o Poder de Amida, nem mesmo a
minha ignorância é impedimento. Deve ser por isso que os textos Sagrados
o chamaram de "O Buddha da Luz Livre de Impedimentos". Os
antigos Chineses que assim traduziram o Sutra, deviam ser clarividentes
que lá do passado deram-se conta de que um dia ainda existiria um
insensato renitente como eu mas que nem a minha completa escuridão
impediria Amida de clarear o mundo. Namu Amida Butsu!
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"Ó, Gustavo, neste seu Sermão
você me fez um pedido quando disse Namu Amida Butsu, dê um jeito
em mim porque eu não consigo me dar um jeito". Confie! Faz muito
tempo que eu já dei um jeito em você! Fiz um Voto de só me salvar se
pudesse salvar você. Eu já me salvei, já o salvei. Mas como sei que você
tem dificuldade de confiar, não se preocupe. Eu lhe darei a confiança!
Com isso, está tudo resolvido. Agora você pode viver tranqüilo. Tudo o
que você não conseguia fazer, eu já fiz por você. Aproveite bem a sua
vida aí no mundo da ilusão. Procure por mim e você me verá escondido
nas cores da aurora e do poente, na face do dia, no rosto da noite, na
alegria de cada sorriso, na compaixão por cada pranto. Conte à todos que
aí estão junto com você, que eles também foram salvos. Diga-lhes que
eu os ajudarei a confiar nisso. E quando o tempo necessário para esta sua
vida se completar, eu trarei você direto para o coração do Nirvana, que
é a Terra Pura da Suprema Realização. Muitas vezes você me fez esse
pedido. Ouça com atenção: Este seu anseio pelo Nirvana, fui eu quem lhe
dei, para poder libertá-lo. Agora, para comemorarmos, diga junto comigo:
Namu Amida Butsu, Namu Amida Butsu, Namu Amida Butsu.

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