Este trabalho tem como objetivo apresentar ao público de língua
portuguesa, Rennyo Shonin (1415-1499), uma das mais notáveis figuras na
História do Buddhismo nipônico. A bibliografia sobre Cultura Japonesa
disponível em nosso idioma é ainda escassa e Rennyo Shonin permanece
quase desconhecido aos leitores do idioma de Camões. Possa esta breve
apresentação servir de intróito à vida e obra de Rennyo Shonin,
ajudando a compreender seu legado e importância para o mundo contemporâneo.
O ser humano nunca é um fenômeno extemporâneo, desvinculado de seu
tempo e contexto. Nem por isso será pelo meio ambiente apenas
explicado. Homem e mundo interdependem. Somos seres situados,
interagindo com o contexto em que surgimos e no qual se desdobra nossa
existência. De nossas circunstâncias recebemos influência tanto
quanto também as transformamos. Isto sempre sucede mesmo quando somos
personagens obscuros e anônimos, o que não foi o caso de Rennyo
Shonin. Quinhentos anos depois dele, uma obra é editada reunindo
artigos redigidos em idiomas de povos que vivem em distintos
continentes, discutindo a importância de sua influência. Em algum
momento de sua vida teria ele imaginado tais conseqüências para sua
luta? Nem sequer eram conhecidos no Japão de seu tempo, alguns dos
locais e povos que hoje o reverenciam.
Rennyo Shonin teve um papel decisivo para o futuro da tradição
Buddhista fundada por Shinran Shonin (1171-1262), a Escola da Terra Pura,
Jodo Shinshu, que reúne hoje o maior número de adeptos no Japão. Esta
denominação abrange duas vertentes principais, Honganji-Ha e Ohtani-ha,
popularmente conhecidas como Nishi e Higashi Honganji. Juntas reúnem não
só o maioria da população Buddhista nipônica, como também o maior número
de Templos e monges dentre todas as escolas Japonesas. Estas gigantescas
instituições nasceram do espírito de devoção e empreendimento de
Rennyo Shonin, numa compreensão original da relação entre o sagrado e
o profano. Como veremos em mais detalhe adiante, a obra de Rennyo
consolida a manifestação do sagrado no tempo e expande seu alcance no
espaço através de um veículo, um "corpo" institucional. Numa
analogia livre, o Honganji seria qual o "Nirmanakaya" da doutrina da
libertação através do Nenbutsu do Outro Poder.
Mas a importância da obra de Rennyo não se restringe ao contexto do
Buddhismo nipônico. A pertinência e eficiência de sua visão da relação
entre sagrado e profano o insere num âmbito de questões que pertencem
a história das religiões. Sua proposta ultrapassa as vicissitudes da
cultura e sociedade Japonesa e discute um problema que diz respeito a
toda e qualquer tradição religiosa. O desafio de criar condições
para a continuidade e atualização de uma mensagem espiritual no curso
da história não se coloca apenas ao Buddhismo nem somente no Japão. É
na verdade questão que se põe à todas as religiões. E não se põe
apenas uma vez mas retorna como desafio constante, a cada e todo momento
no curso do tempo. Neste desafio, se revelam sempre em risco tanto a
instituição como a mensagem que ela veicula.
Na seção de Egito do Metropolitan Museum, em New York, há
uma pequena estatueta que só a legenda elucida ao visitante: "Bes,
Divindade cultuada no Egito Antigo". Ruiu um dia a instituição que
congregava aqueles que cultuavam esta Divindade, ruiu também a
sociedade em que esta tradição se inseria. Desapareceu para sempre a
mensagem que um dia deve ter animado um fervor análogo ao que hoje
inspira a chama que para nós ainda brilha. O "Nirmanakaya"
institucional possibilita que o "Dharmakaya" da mensagem perdure e
amplie seu alcance no mundo das formas e dos nomes.
Antes de Rennyo, o que conhecemos como Jodo Shinshu era uma doutrina
e vivência sem instituição expressiva que as sustentasse. Como não
se pode conhecer alternativa para a História já sucedida, é impossível
saber se e como esta mensagem poderia sobreviver caso não tivesse
ocorrido a consolidação, realizada por Rennyo, de um veículo
institucional como o Honganji. O que o sucedido nos assegura é que no
caso de Jodo Shinshu, a sobrevivência e expansão da mensagem, até
mesmo para além do Japão, se deu de fato através das atividades desta
instituição. O presente ensaio discute o significado da contribuição
de Rennyo Shonin no contexto da relação entre a ampliação de
alcance, no espaço e no tempo, da mensagem da Escola da Terra Pura (Jodo
Shinshu) e o suporte o veículo institucional a cuja consolidação ele
dedicou toda sua existência.
Este artigo está sendo redigido no Brasil, por autor nascido na
cidade do Rio de Janeiro, descendente de imigrantes portugueses há várias
gerações aqui radicados. Seu primeiro contato com Jodo Shinshu foi
através de um livro. O trecho de maior impacto na obra, era a narrativa
de episódios ocorridos no Japão, séculos atrás, com pessoas
iletradas que expressaram de maneira ímpar a experiência e vivência
Buddhista. Myokonin, (pessoa rara e maravilhosa) fora o termo cunhado no
passado para designá-las, à medida em que o fenômeno proliferava e
atraia a atenção de seus contemporâneos. Com base em depoimentos
transmitidos oralmente, episódios de suas vidas foram sendo compilados
e posteriormente editados.
O que chegou às mãos do jovem brasileiro eram fragmentos de um
cotidiano simples, vivido há muito, em vilas interioranas de um arquipélago
antípoda. A persistência destas memórias no tempo e sua propagação
no espaço não pareciam fatos irrelevantes. Ao contrário, intrigavam
cada vez mais, quanto mais contrastavam com tudo o mais que se perdeu,
desde aquela data remota até os nossos dias, de um dia a dia humilde
vivido nas aldeias simples daquele país distante.
Nas muitas madrugadas de leitura prolongada, entre tantas emoções
vividas nas descobertas que se abriam, aquele jovem brasileiro agradecia
a oportunidade inestimável de conhecer pessoas raras e maravilhosas
que se incorporavam à sua vida como amigos e estrelas guias. Pessoas
que viveram tão longe no espaço e no tempo, tornaram-se íntimos
companheiros.
Vezes e mais vezes o surpreendia a constatação da existência de
uma misteriosa ponte que ligou uma vila no interior do Japão medieval a
um adolescente na cidade do Rio de Janeiro na segunda metade do século
XX. Por esta ponte passaram as memórias que viriam a integrar e
transformar decisivamente toda uma vida. Como teria sido construída
esta ponte? E por quem? A maioria dos indivíduos que participaram desta
construção permanece anônima. Foram todos aqueles de quem os textos não
falaram mas que estiveram lá como participantes ativos no caminho de
u’a mensagem libertadora que se ia propagando. Imorredoura porém,
ficou a figura que os reuniu e organizou, que catalisou em torno de si
todos os que desconhecemos, desencadeando a história da instituição
que hoje nos abriga.
Ao início eram amigos que se reuniam para compartilhar a Fé que
lhes fora transmitida. Os encontros ocorriam em suas casas. Só mais
tarde viriam os pioneiros, construindo os primeiros Templos. O número
de amigos era grande, somavam já vários grupos. As opiniões eram
numerosas, variadas e em muitos casos díspares. Tentando conservar viva
e íntegra a mensagem da libertação através do Nenbutsu do Outro
Poder e desejando transmiti-la a outras pessoas, eles tinham de se
organizar. Começava a se desenvolver uma instituição, o Honganji.
Não podemos também esquecer o caráter conturbado e com freqüência
ameaçador do contexto em que tudo isto sucedeu . Estamos falando de um
dos períodos mais sangrentos da história do Japão. Desde a morte de
Shinran em 1262 até a morte de Rennyo 1499, a luta pelo poder
incendiava o mundo nipônico em guerras constantes. As instituições
Buddhistas foram várias vezes atacadas, Templos foram incendiados, monges
eram assassinados. Veremos adiante como estes conflitos ameaçaram e
perseguiram Rennyo durante quase toda sua vida.
Apesar de todas as adversidades, ia se consolidando a organização
dos adeptos e seus Templos. Na vizinhança deles, vez ou outra
borbulhava, num episódio do cotidiano, uma expressão eloqüente da
experiência Buddhista em personagens humildes, iletrados. A memória
destes episódios ia sendo recolhida por contemporâneos, sensibilizados
pela expressão de compaixão e sabedoria que emanava daquelas pessoas
simples. Nestes Templos vinham orar muitos Myokonins. Entre os adeptos,
alguns narraram histórias do que ouviram ou presenciaram dos episódios
de vida daqueles homens humildes e sábios. A comunidade vinculada a
esta instituição, foi preservando as memórias destes seres anônimos
em seu tempo. Até que um dia, para que não fossem esquecidas, alguém
as redigiu. Mais tarde outrem as editou e por fim alguém as traduziu.
Estes livros levariam mensagens de vida mais longe que a voz. Inclusive
até ao Brasil.
O estudo de episódios de vida dos Myokonins levou aquele estudante
brasileiro, no começo da década de setenta, a buscar o arcabouço
doutrinário em que estavam inseridas aquelas vivências e ao qual davam
expressão. Uma experiência espiritualmente complexa e rica como a dos
Myokonins nascia no contexto de um corpo de idéias que o jovem
brasileiro sabia ignorar. O diálogo com estas pessoas simples ia
incitando indagações. O que é o Buddhismo da Terra Pura, território em
que se enraíza a experiência destas pessoas raras e maravilhosas?
Outra vez o caminho das respostas encontrava-se em livros, únicos
companheiros no Dharma para alguém que descobria o Buddhismo da Terra
Pura na cidade do Rio de Janeiro naquela época. À medida em que esta
bibliografia ia sendo percorrida, esclarecimentos surgiriam. Desde as
obras fundamentais até os muitos textos de comentários, a doutrina em
que se situavam os Myokonins ia sendo descortinada. A proposta
revolucionária de Jodo Shinshu, exposta por Shinran Shonin, sobrevivera
mais de setecentos anos. Nas obras em que o legado estava preservado, o
jovem brasileiro entrevia bem mais que as palavras de Shinran. Sozinhas,
elas não podiam explicar a sua própria sobrevivência. O fato de sua
sobrevivência e a travessia do mundo até chegar ao Rio de Janeiro
implicava em que muito mais sucedera, além do que os textos de Shinran
diziam e sua biografia narrava.
Desde aqueles que ouviram as palavras ditas por Shinran e
presenciaram suas atitudes e iniciativas, gerações sucessivas
discutiram o significado e as implicações de suas idéias e sua vida.
O fórum onde convergiam estes debates eram os Templos onde adeptos se
reuniam e onde monges pregavam. Fatos da biografia desses adeptos,
interpretações e novas concepções foram se somando à memória da
vida e obra de Shinran, na construção de uma herança de vivências e
idéias que exprimem uma peculiar compreensão da existência e do ser
humano.
Após a morte de Shinran, nem a doutrina da Terra Pura nem a sua
contraparte de vivência permaneceram estáticas. Para uma tradição
herdeira da noção de Annica (Impermanência) como modo próprio de ser
do real, a recriação contínua era a tendência mais natural. No curso
da História, ao mesmo tempo em que a doutrina formulada por Shinran
passava por interpretações e ampliações, também permanecia exposta
ao risco de desvios e distorções. Fruto de uma enorme diversidade de
opiniões, foi-se construindo um consenso sobre o sentido da proposta de
Shinran Shonin e o caminho da Terra Pura. Agregando todos estes
elementos, a vida da instituição acabou por formar uma tradição.
A experiência espiritual de Shinran e o conteúdo de suas obras
desencadearam um processo complexo e poderoso. A comunidade que se
formou, unida pela experiência que ele exemplificara e pelas idéias
que transmitira, acabará por se transformar numa Escola. E é
justamente neste processo de institucionalização que surgirá como
figura fundamental o Oitavo Patriarca, Rennyo Shonin. Seu papel, como
veremos, foi decisivo seja na formulação de uma unidade doutrinária,
seja desenvolvendo instrumentos de divulgação, regras de organização,
rituais, enfim transformando um incipiente agrupamento de pessoas numa sólida
e bem estruturada instituição. Estes fatores contribuíram de maneira
decisiva para que as palavras de Shinran chegassem até o adolescente
brasileiro.
A experiência que aquele jovem no Brasil espreitava através dos episódios
relatados e a doutrina que ele estudava, haviam percorrido toda uma
longa trajetória na qual o suporte material de sua sobrevivência foi
sempre uma instituição, o Honganji. A mesma ponte que ligara as vivências
de pessoas simples em vilas no interior do Japão a tantos lugares
distantes no mundo, transmitia também as idéias de alguns dos mais
importantes pensadores nipônicos. Uma ponte sustenta quem por ela
passa. Este foi o papel da institucionalização: possibilitou que o
espiritual se desdobrasse no tempo, perdurando, e ampliasse seu alcance
no espaço. Quando se procura entender como se deu a consolidação
deste "veículo institucional", diante do papel decisivo de Rennyo
neste processo, fica então clara a razão pela qual tantos autores o
consideram o "segundo fundador" da Escola da Terra Pura.
Tradicionalmente, Shinran Shonin é reverenciado como fundador de
Jodo Shinshu. O título de Shonin foi-lhe atribuído muito depois de sua
morte quando o movimento organizado por seus sucessores ganhou vulto. O
próprio Shinran não deixou indícios de que pretendesse estabelecer
uma nova instituição religiosa. Durante toda a sua vida, não
fundou Templos, não criou ritos, nem estabeleceu qualquer hierarquia
eclesiástica. Shinran foi um pensador com uma visão doutrinária do
Buddhismo de indubitável originalidade e profundidade. Seu carisma
pessoal e drama biográfico tiveram impacto na sociedade da época, o
que pode ser medido pelos numerosos grupos de seguidores que se formaram
em diferentes localidades do país, ainda durante sua vida. Com sua obra
escrita, Shinran abriu uma nova compreensão do Buddhismo. Com sua vida
legou um exemplo de espiritualidade. Ele só não fundou uma instituição
religiosa.
Isto seria esboçado por seus descendentes estabelecendo uma linhagem
patriarcal e pelos adeptos construindo Templos, criando regras de
organização, constituindo a instituição que veio a ser conhecida
como Honganji. Este processo, que principia após a morte de Shinran,
quase dois séculos depois ainda claudicava. Tal como outras instituições
renovadoras que floresciam na época, assim como tantas anteriores e
posteriores, o Honganji nos meados do século XV permanecia a um passo
do desaparecimento. Apesar de abrigar a linhagem de descendência de
Shinran, permanecia pouco expressiva mesmo entre os grupos que se
pretendiam representantes do movimento da Terra Pura. Descrições da época
retratam um pequeno Templo de poucos adeptos, contrastando com a pujança
de outros Templos que também pregavam o caminho do Nenbutsu e mais
ainda quando se considera o poder e influência que tinham
as grandes instituições tradicionais da época como a Escola
Tendai ou a Escola Shingon, entre outras.
Será este frágil e inexpressivo Templo, Ohtani Honganji, no
distrito de Higashiyama em Kyoto, que em 1415 acolherá um menino
chamado Hoteimaru. Ele era descendente direto de Shinran na oitava geração.
Nós hoje o conhecemos por um nome posteriormente adotado, Rennyo.
Zonnyo, era o nome de seu pai. Em 1440 quando o avô de Rennyo falece,
Zonnyo, assume o cargo de guardião do Salão do Fundador e se
torna o líder do Honganji. A penúria da família sugere a incipiente
expressão que esta precária instituição possuía na época. Minor e
Ann Rogers ( "Rennyo", Asian Humanities Press, Berkeley, 1991, pag.
49) recorrem ao Jitsugo kyuki na descrição das dificuldades por que
passava Rennyo tanto durante sua juventude como já na maturidade: "Por
não poder dispor de uma lamparina de óleo, Rennyo lia os textos
tradicionais a luz de uma lareira cuidadosamente racionada ou muitas
vezes a luz da lua...algumas vezes passava dois ou três dias sem refeições."
Segundo os Rogers, no período anterior a Rennyo "...não há evidência
de que o Honganji tenha experimentado qualquer fase de crescimento
significativo em comparação com outros ramos de Shinshu." Ainda
na mesma página, citando o Jitsugo kyuki, os Rogers dizem: "Referência
específica menciona a ausência de visitantes e a solidão em que se
encontrava o recinto do Templo antes do nascimento de Rennyo, em
contraste com as "nuvens" de peregrinos que acorriam ao Bukkoji
situado nas vizinhanças." Estes dados indicam a
precariedade da instituição que Rennyo encontrou. Ohtani Honganji era
apenas um pequeno Templo desolado à sombra dos gigantes circundantes
como Shoren-in e Chion-in.
Este é o contexto em que se insere o pedido que Rennyo, ainda
adolescente, ouvirá de sua mãe: que ele recuperasse a mensagem de
Shinran e a divulgasse por todo o Japão. E isto, nós veremos, ele de
fato realizou. E como?
A obstinação inabalável de Rennyo na tarefa de expandir e
fortalecer o Honganji parece indicar que para ele a consolidação
institucional era o caminho para salvar a mensagem de Shinran e ampliar
seu alcance. Dois fatos em sua biografia servem como símbolo desta visão.
Sua luta, durante anos, procurando salvar a imagem do fundador nas
muitas fugas durante os ataques que o Honganji sofreu, para ao final da
vida entronizá-la no Templo em Yamashina. A imagem representava a
mensagem e o exemplo de vida de Shinran Shonin. O Templo que um dia a
abrigaria em segurança, era expressão da solidez que a instituição
deveria ter, para que não se perdessem, mensagem e exemplo.
Outro fato significativo é a ênfase que durante toda a sua vida ele
dará às obras que mais marcaram suas leituras de juventude,
Kyogyoshinsho, o Rokuyosho e o Anjin ketsujosho. Segundo Renjun (M. e A.
Rogers, obra citada, pag. 52) na releitura desta última, Rennyo
consumiu três exemplares. (Dizia-se que Confúcio três vezes
trocara a capa de couro de seu exemplar do I Ching, obra a cuja leitura
se dedicou ao longo da maior parte de sua existência.) O oitavo
Patriarca nunca perdeu de vista a importância vital da doutrina e legou
sua contribuição à compreensão da mesma nas Cartas. O Templo que
abrigaria a imagem do fundador, seria também o guardião da doutrina.
Assim, para Rennyo, uma instituição sólida e poderosa asseguraria a
sobrevivência e expansão da mensagem de que era herdeiro, o legado do
Nenbutsu do Outro Poder.
Esta tarefa era ainda mais crucial naquela segunda metade do século
XV dada a convulsão social em que estava mergulhado o Japão. Quando,
no século XII, com a ruína econômica do Império o governo passa às
mãos dos Samurai, o poder detido pelo primeiro mandatário torna-se
disponível à disputa. Antes ele era transmitido hereditariamente e por
isso permanecia inquestionável. Quando alguém que não era descendente
de Amaterasu torna-se governante, abre-se a todos a questão: "Por que
ele e não eu?" A espada empunharia a indagação e só ela daria a
resposta. Até a ascensão dos Tokugawa (1615) a paz sobrevive apenas
por breves hiatos para em seguida desaparecer ante a eclosão de um novo
conflito. Mas a violência não apenas rondava os Templos Buddhistas. Já
desde a época dos primeiros Sohei, as milícias de monges guerreiros,
que alguns Templos da escola Tendai recorriam às armas. Ao início para
se defender, depois para impor uma ordem, uma vontade ou por fim seus próprios
interesses.
Aqueles eram tempos terríveis, em que morrer vitimado pela violência
era um fato corriqueiro. E se isto valia para qualquer indivíduo, não
muito diferente era a condição de uma pequena e precária instituição
como o Honganji. Com a morte de Zonnyo em 1457, Rennyo assume como
sucessor. Oito anos depois, em 1465, quando seus esforços missionários
começam a frutificar, ocorrerá o primeiro ataque das milícias do
Enryakuji destruindo parte do Ohtani Honganji. Ainda no mesmo ano haverá
um segundo ataque, que arrasará todo o Templo. Em seguida haverá o
ataque aos seguidores do Honganji em Akanoi, Omi. A imagem do fundador
será transferida para Annyo-ji, depois para o Honpukuji, em seguida
para Otsu até finalmente ser entronizada em 1480 no Salão do Fundador
construído em Yamashina. Estes poucos dados já evidenciam o grau de
riscos a que estava exposto o Honganji na época. Só uma liderança de
rara habilidade e cautela possibilitaria a sobrevivência e a
expansão do Honganji num período de tão forte turbulência. Aqueles
críticos que pretendem reduzir Rennyo a uma figura de importância mais
política que espiritual parecem esquecer que o espiritual que enaltecem
talvez tivesse perecido não fora a habilidade por eles menosprezada.
Por outro lado, a crítica se funda numa dissociação entre o
espiritual e o temporal da qual Rennyo escapou. E por fim, quando se
estuda a contribuição doutrinária de Rennyo através de seus
escritos, fica evidente que a crítica está longe de lhe fazer justiça.
A principal fonte para um estudo sobre Rennyo são as suas
Cartas
(Gobunsho). Sua leitura ritualística é parte integrante do
cotidiano nos Templos, além de fonte de estudo e referência para os
adeptos da Escola da Terra Pura. Foram compiladas pelo neto de Rennyo,
Ennyo (1491-1521). Nelas se pode ver tanto a complexidade da obra a que
Rennyo se devotou, como a personalidade inusitada que a possibilitaria.
Nestas cartas, o sagrado e o profano dialogam sem cessar. Um tecido vai
montando sua trama com fios variados. Questões organizacionais, dúvidas
doutrinárias, problemas pessoais, dos adeptos ou do próprio autor, as
pressões políticas do momento, etc., em todos os assuntos Rennyo vai
aclarando a compreensão da mensagem da Terra Pura ao mesmo tempo em que
extrai, da mesma seqüência de raciocínio, a necessidade e importância
do fortalecimento da instituição, guardiã do legado.
Tomemos um exemplo dentre tantos disponíveis. Um mal-estar físico
do próprio autor, num cansaço que se prolongava:
I-6
"Não sei porque, mas ultimamente (ao longo deste verão) tenho
sentido muita sonolência. Quando me pergunto por que estou tão letárgico,
sinto que, sem dúvida, o momento da morte que nos conduz ao
nascimento (na Terra Pura) pode estar próximo. Este pensamento me
entristece e sinto em especial a dor de partir. E no entanto, até este
dia de hoje tenho me preparado sem descuido, pensando sempre que o
momento da morte pode ser iminente. Tudo o que mais desejo, dia e noite,
em relação a isto, é que após a minha morte não haja retrocesso
naqueles dentre os visitantes deste Templo cuja Mente Confiante esteja
decisivamente consolidada. Tal como as coisas estão agora, não deveria
haver dificuldades caso eu morresse. Mas cada um de vocês tem se
descuidado na reflexão sobre o nascimento. Enquanto vocês viverem,
devem procurar ser tal como lhes descrevi. Sinto-me insatisfeito com o
que cada um de vocês compreendeu. Nesta vida, até o amanhã é incerto
e, independente do que dissermos, nada é de qualquer valia quando a
vida finda. Caso nossas dúvidas não forem com clareza dissipadas
durante esta vida, sem dúvida lamentaremos. Espero que vocês mantenham
isto em mente.
Respeitosamente,
Isto é confiado aos que se reúnem do outro lado das portas de
correr. Nos anos vindouros, por favor levem para fora e leiam."
Minor e Ann Rogers,
"Rennyo", Asian
Humanities Press, Berkeley, 1991, pag. 154
|
Como dissemos, o tema inicial escolhido por Rennyo é um mal-estar físico,
o cansaço que o vem acometendo, neste verão de 1473. Qualquer leitor
de então ou de agora, poderá sem dúvida identificar-se no que o autor
descreve. A todos nós também isto nos sucede vez ou outra.
Porém, ao invés de recorrer apenas a um remédio, Rennyo aproveita
esta circunstância para relembrar a doutrina. A morte nunca se sabe
quando virá, mas sem dúvida pode ser agora. Mas ao mencioná-la,
Rennyo de imediato acrescenta "que nos conduz ao nascimento (na Terra
Pura)". O nascimento na Terra Pura só é possível na morte pois aqui
estamos presos a limitações e paixões, não nos podemos tornar Buddhas,
permanecemos inexoravelmente humanos e imperfeitos. Se assim é, então
ante a possível iminência da morte deveríamos estar tranqüilos e
confiantes.
Mas Rennyo afirma que se entristece e sofre em especial a dor de
partir. Ressalta ainda que no entanto, até aquele momento ele sempre se
preparou, sem descuidos, pensando que o instante do nascimento pode ser
iminente. Ou seja, de nós nunca se aparta o apego. Qual a sombra que
acompanha o corpo iluminado, também esta fundamental ilusão e erro
permanece conosco, ainda que nos esforcemos. É então em vão nossa
luta? Não. Logo em seguida Rennyo irá admoestar seus companheiros por
se descuidarem do esforço a que ele se dedicava.
Relembremos o mito grego em que os Deuses condenam Sísifo a rolar
uma pedra para o alto de uma montanha. A pedra sempre outra vez cairia,
o homem sempre outra vez haveria de recomeçar sua labuta sem fim.
Não se pode ser humano sem lutar, mas não é aqui que se vence.
Aqui apenas se pode lutar. A acomodação ao apego arrasta-nos a um
sofrimento ainda maior. Lutando contra esta acomodação, nem por isto
seremos só e sempre felizes. O fato de nos entristecermos pelo apego
que persiste, também não nos impede de sermos felizes. É só para
Aristóteles e seus seguidores que "uma coisa não pode ser e não-ser
ao mesmo tempo e do mesmo modo". O Buddhismo, já desde de Nagarjuna que
formulou uma lógica das contradições. Graças a ela, o Myokonin
Asahara Saiichi (1850-1932) pode dizer:
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"O miserável coração da tristeza...
O grato coração da alegria...
O Namu Amida Butsu da tristeza e da alegria!"
Em seguida Rennyo então dirá que
" Tudo o que mais desejo, dia e
noite, em relação a isto, é que após a minha morte não haja
retrocesso naqueles dentre os visitantes deste Templo cuja Mente
Confiante esteja decisivamente consolidada." Sua maior preocupação
começa se revelar. É com aqueles que visitarão o Templo depois que
ele se for. Que não sofram nenhum retrocesso espiritual. Para isto é
necessário que a Mente Confiante esteja irreversivelmente consolidada.
Ele olha em torno de si e vê que isto não está sucedendo. "Mas cada
um de vocês se tem descuidado na reflexão sobre o nascimento. Enquanto
vocês viverem, devem procurar ser tal como lhes descrevi. Sinto-me
insatisfeito com o que cada um de vocês compreendeu." A angustia de
Rennyo é por cada um, como indivíduo. É a percepção do Bodhisattva
de que o outro é alguém como nós. Sua errância é nosso vagar. Sua
dor é também um nosso sofrer. Mas este outro não é apenas aquele que
ali estava e a quem Rennyo conhecia. Eram tantos que viriam depois. Eram
aqueles que viveriam no futuro e viriam ao Templo, lugar em que se
compartilha a dádiva e a gratidão. Caso não esteja irreversivelmente
consolidada neles a Mente Confiante, o Templo ruirá e a mensagem poderá
se perder. Um Templo depende da mente de seus adeptos. A instituição
vive da chama de devoção dos adeptos. Sem isso, ela morre. E sem a
instituição como poderão saber, os que virão depois, o que um dia se
revelou? De um seu mal-estar, da sonolência excessiva, Rennyo nos vai
conduzindo a um mergulho no Dharma, a um encontro com a Sangha no
compromisso com uma instituição que possa ser abrigo aos que viverão
depois, permanecendo guardiã da mensagem que o Buddha da Luz e Vida
Infinitas destinou a todos os seres. Também para o mal-estar
passageiro, ao final o tríplice refúgio, o Buddha, o Dharma e a Sangha.
Ao mesmo tempo em que luta por consolidar a identidade e estrutura
institucional da Escola da Terra Pura, Rennyo evita o sectarismo e
apresenta uma visão abrangente das várias correntes Buddhistas:
III-2
"Os ensinamentos das várias Escolas diferem mas como foram todos
expostos durante o período de vida de Sakyamuni, eles são de fato a
Doutrina incomparável. Por essa razão não há dúvida alguma de que
as pessoas que praticam estes ensinamentos tal como é prescrito,
atingirão a Iluminação e se tornarão Buddhas. (...)"
Minor e Ann Rogers,
"Rennyo",
Asian Humanities Press, Berkeley, 1991, pag. 196
O respeito e reconhecimento que Rennyo demonstra para com as
demais Escolas Buddhistas ganha ainda maior relevância quando atentamos
ao fato de que este trecho data de 1474. Desde 1465, quando atacaram e
destruíram Ohtani Honganji, que Rennyo e a Escola da Terra Pura vinham
sofrendo perseguições violentas por parte principalmente das milícias
do Enryakuji, Templo da Escola Tendai.
Numa de suas últimas cartas, IV-15, Rennyo reflete sobre a construção
de um Templo em Osaka:
"Após ver Osaka pela primeira vez, construí logo um Templo simples,
em estilo tradicional, em virtude, com certeza, de alguma ligação com
aquele lugar no passado. A construção começou ao final do outono no
quinto ano de Meio. Três anos já se passaram. Sinto que tudo isto
resulta de condições profundas emanadas do passado.
A minha fundamental razão para estar neste local então, nunca foi para
usufruir da minha vida em tranqüilidade, nem para buscar riqueza ou
fama ou regozijar-me com a beleza das flores e dos pássaros, o vento e
a lua. Meu único anseio é que os praticantes em quem a Mente Confiante
esteja decisivamente consolidada floresçam e que os companheiros
praticantes que recitam o Nenbutsu venham em busca da Suprema Iluminação.
Além disso, se existirem pessoas que tenham preconceito (para conosco)
ou se dificuldades surgirem, renunciarei a meu apego a este lugar e de
imediato me retirarei. Assim sendo, se (todos) — independentemente de
serem nobres ou de origem humilde, monges ou leigos — puderem ser
encaminhados a um decisivo estabelecimento da Mente Confiante que seja
firme e adamantino, isto estará em verdadeiro acordo com o Voto
Original do Tathagata Amida e em particular, em conformidade com a
fundamental intenção do Mestre Shinran.
É extraordinário que, com o presente ano, este velho homem tolo tenha
já alcançado a idade de oitenta e quatro anos. E como esta vida talvez
tenha de fato estado em acordo com o significado do Dharma em nossa
tradição, eu não poderia ter maior satisfação. Mas tenho
permanecido doente desde o verão deste ano e no momento não há sinais
de recuperação. Sinto, enfim com certeza, que não falharei em alcançar
meu tão longamente acalentado desejo de nascer na Terra Pura
durante o próximo inverno. Tudo que eu anseio, seja dia ou noite, é
que a Mente Confiante se estabeleça decisivamente em todos ainda
enquanto estou vivo. Ainda que isto dependa de boas (condições) do
passado, não há um só momento em que (esta preocupação) não esteja
em minha mente. Além do mais, isto talvez se deva ao fato de eu ter
vivido aqui durante três anos. De todo modo então, deixem que a
Mente Confiante se estabeleça decisivamente neste período de sete dias
durante os ofícios de agradecimento, para que todos possam realizar o
sentido fundamental (do Dharma), o nascimento na terra da suprema
alegria.
Respeitosamente,
Esta carta deve ser lida, inicialmente no vigésimo primeiro dia do décimo
primeiro mês de Meio 7 (1498) para que todos alcancem a Mente
Confiante.
Minor e Ann Rogers,
"Rennyo", Asian
Humanities Press, Berkeley, 1991, pag. 239
Ao final de sua vida, referindo-se a um pequenino Templo simples
que há pouco construíra, Rennyo nos responde também porque construíra
todos os demais Templos, porque dedicara sua vida a transformar grupos
dispersos de pessoas que recitavam o Nenbutsu, numa sólida unidade
organizacional. O espírito empreendedor estava, como tudo nele, a serviço
da realização espiritual de todos os seres.
Logo ao início Rennyo sugere que Templos não nascem da mera vontade
dos homens. Estão em jogo ligações que vêm de um passado remoto e
permanecem sempre na penumbra de um insondável mistério. Os Templos
surgem em lugares nos quais ressoa uma correspondência antiga. E talvez
se construam a si mesmos através de nós. Existem para que os adeptos
tenham um abrigo que os acolha cada vez que se encontrarem para discutir
o Dharma e exprimir sua gratidão ao Buddha Amida.
Deste evento, descrito no primeiro parágrafo do texto, ele amplia o
horizonte de sua reflexão para explicar-nos como via o sentido de sua
existência neste mundo. Ele era alguém que não viera ao mundo para
usufruir nem da tranqüilidade, nem do conforto ou da beleza. Sua
palavras nos recordam a passagem em que o grande poeta português
Fernando Pessoa diz:
"Não conto gozar a minha vida
Nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
Ainda que para isso tenha de ser
O meu corpo e a minha alma
a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade
Ainda que para isso tenha de a perder como minha."
Pessoa, Fernando, "Obra Poética", Ed. Aguilar, Rio de Janeiro
1972, pag. 15
Em Rennyo, assim como para Pessoa, era preciso dedicar sua vida a todos
os seres.
"Meu único anseio é que os praticantes em quem a Mente Confiante
esteja decisivamente consolidada floresçam e que os companheiros
praticantes que recitam o Nenbutsu venham em busca da Suprema Iluminação."
Se necessário fosse, ele abriria mão de seu apego ao lugar estimado,
nos diz em seguida, num sentido que parafraseia as duas últimas
estrofes da poesia lusitana citada. Seu anseio constante, vezes e mais
vezes repetido ao longo de várias outras cartas e reiterado ainda ao
final desta, é que todos "pudessem realizar o sentido fundamental (do
Dharma), o nascimento na terra da suprema alegria." Este é o centro
para onde converge toda a sua existência. Tudo o que ele buscou
realizar, só por isto se explicava e justificava. Para isto era preciso
preservar a mensagem da Escola da Terra Pura, tal como fora transmitida
por Shinran Shonin. Para preservá-la era preciso construir uma instituição-guardiã
sólida e bem estruturada. Ela não poderia sê-lo sem a força da vivência
espiritual da Mente Confiante consolidada em seus adeptos. Os Templos
eram, para Rennyo, um lugar onde as pessoas se reuniriam na busca de
compartilhar suas dúvidas e descobertas, para ouvindo o Dharma,
deixarem a Mente Confiante se estabelecer decisiva e irreversivelmente.
Os ofícios eram momentos de expressão da nossa gratidão ao Buddha
Amida, pela vida e pela morte. Na carta IV-13 "Reflexões ao início
do verão" ele inclusive citara Honen que dissera: "Os praticantes que aspiram a Terra Pura enchem-se de alegria quando
adoecem" pois é sinal de possibilidade mais próxima do nascimento na
Terra Pura. Na carta em que faz esta citação, no primeiro dia do meio
do verão de 1498, Rennyo ainda lamenta que não sinta assim e considera
deplorável seu sofrimento com a doença. Logo a seguir, na carta IV-15
a nuvem se dispersara e a luz de Amida brilha plena, quando ele já pode
dizer em plena serenidade:
"Sinto, enfim com certeza, que não falharei em alcançar meu tão
longamente acalentado desejo de nascer na Terra Pura durante o próximo
inverno."
Séculos depois de Rennyo, o escritor português Félix Bermudes, ao seu
referir a leucemia que o acometia, diz poucos dias antes de
morrer: "Estou vivendo uma experiência maravilhosa, fruto das colheitas
enceleiradas na minha jornada de otimismo, respigando ensinamentos
espirituais, através de uma longa existência sem vazios, nem
desfalecimentos, sem descrenças."
Bermudes, Félix, "A conquista do eterno", Ed. Civilização
Brasileira, 1974, pag. IX
A mensagem da Luz e Vida Infinitas transcende forma e nome. Por isso não
se circunscreve a fronteiras culturais. Ao contrário, inscreve-se na
natureza humana e se manifesta independente de informações exteriores,
conceitos codificados ou vínculo institucional. O Sr. Félix Bermudes,
até onde sabemos, não tivera contato com a literatura da Escola da
Terra Pura e, no entanto, seu texto poderia ser assinado por algum
Myokonin nipônico. A Mente Confiante é de fato a Mente da verdade. E
como tal, certamente se manifesta fora do mundo Buddhista e de suas
instituições. Mas quando o faz, o faz sob outra forma e linguagem, usa
um outro veículo. A instituição preserva o veículo formal e
conceitual. Rennyo sabia a importância da contribuição que Shinran
trouxera com o modo peculiar e inovador com que reinterpretou o Buddhismo.
Com ele se estabelecera um novo veículo que conduziria muitos,
inclusive Rennyo à realização da Mente Confiante. O esforço de
Rennyo para fortalecer o Honganji como instituição, visava salvar o
modo pelo qual esta manifestação chegara a ele como a tantos outros.
Assim como a correspondência com os locais, a que se referira no caso
do Templo em Osaka, assim também há uma correspondência entre o
praticante e uma forma que lhe veicula o sem-forma. Recorrendo outra vez
à analogia dos Kayas, Rennyo queria salvar o "Nirmanakaya" que
Shinran Shonin expressara e que fora o veículo através do qual o "Dharmakaya" do Poder libertador da Luz e Vida Infinitas se lhe
revelara. Não nos é possível chegar ao "Dharmakaya" do conteúdo
da mensagem senão através da mediação do "Nirmanakaya" de uma
forma através da qual o conteúdo é indicado. É através de palavras
que podemos nos abrir ao que transcende a palavra. Por isso, na Escola
da Terra Pura se ressalta a importância de "Ouvir o Dharma". Era
esta também a razão pela qual Rennyo insistia em que os adeptos se
reunissem para discutir o Dharma.
Carta I-12. "Os encontros são ocasiões em que, mesmo sendo só uma
vez ao mês, aqueles que praticam o Nenbutsu devem ao menos se reunir no
local de encontro e discutir sua (experiência) da Mente Confiante, bem
como a dos outros. ... Concluindo, definitivamente é preciso que de
hoje em diante se discuta a Mente Confiante nas reuniões. Pois é assim
que atingiremos o nascimento na verdadeira e real terra da suprema
bem-aventurança."
Para Rennyo, o caminho espiritual não era solitário e sim solidário.
Já Shinran no capítulo VI do Tannisho definira a sua relação com os
adeptos como de amizade e companheirismo. Este sentido de fraternidade e
diálogo para compartilhar o caminho determina que, no caso da Escola da
Terra Pura, a institucionalização se tornasse uma decorrência necessária.
Em Shinshu, a vida espiritual é também social. Com o rompimento da
exigência do celibato para aqueles que optavam pela vida monástica,
Shinran insere o cotidiano religioso no mundo leigo. Monges e monjas
casam, têm filhos. Agora os monastérios teriam de ser construídos nas
cidades. O sagrado e o profano coexistem no espaço, compartilham um
mesmo mundo e uma semelhante existência diária. A vida social supõe o
estabelecimento de regras de convívio e toda comunidade acaba por ter
de organizar-se. A via da Terra Pura difere fundamentalmente do caminho
do asceta hindu, meditando no silêncio recluso de uma caverna. Para ele
talvez a instituição seja apenas mais um véu de Maya. Mas ele é um só
e seu apenas é o caminho que trilha. Sua meta é libertar-se. A de
Shinran e Rennyo é que libertemo-nos todos e juntos.
O pedido de sua mãe, Rennyo sem dúvida realizou. É inegável que ele
conseguiu recuperar a mensagem de Shinran e a divulgou por todo o Japão.
A instituição que ele viu como meio de realizar a preservação e
expansão desta mensagem, sobrevive já quinhentos anos após sua morte
e ultrapassou o arquipélago do Sol Nascente, tendo levado o chamado do
Buddha da Luz e Vida Infinitas para o continente Asiático, as Américas,
a Europa e alcançou já à última fronteira, a África. Há que
comemorar, hoje mais que ontem a obra de nosso oitavo Patriarca.
Sempre quando se comemora, somos chamados ao passado, para reverenciá-lo
e agradecer. Mas todo passado revisitado, indaga ao presente pelo
futuro. Os desafios que hoje enfrentamos são muito diferentes daqueles
que enfrentava em seu tempo o Oitavo Patriarca. Mas lá, no
Gobumsho, nas Cartas, e na vida de quem as escreveu, há indicações
que nos ajudam a encontrar soluções para as nossas atuais
dificuldades. Para que a mensagem que nos chegou sobreviva pelo futuro e
não termine como u’a imagem numa sala de museu com texto indicativo
de data e região ao lado, Rennyo nos pode ainda orientar. O Honganji,
nos cinco séculos que nos separam de Rennyo, tornou-se uma instituição
vasta e poderosa. Já não a ameaçam perigos externos como acontecia
naquele tempo. Mas os perigos internos continuam muito semelhantes aos
que o Oitavo Patriarca também enfrentou. Sua palavras e advertências
guardam por isso a mesma pertinência.
Lembremos sempre de sua atitude em relação ao Templo em Yoshizaki, tal
como nos relata na carta I-8:
"(Nestes três anos) monges e leigos, homens e mulheres têm vindo em
grande número para cá. Mas como isto parece não ter nenhum objetivo,
eu este ano proibí seu ir e vir. Para mim, a razão fundamental para se
estar aqui é que, tendo recebido a vida na condição humana e tendo já
encontrado o Buddhismo, o que é difícil, é de fato vergonhoso que se
caia, em vão, no inferno. Por isso eu concluí que pessoas que não estão
preocupadas com o estabelecimento decisivo da Mente Confiante do
Nenbutsu e com o nascimento na terra da suprema Bem-aventurança não
deveriam se reunir neste lugar. Esta atitude se deve ao fato de que para
nós o fundamental não é renome ou ganho pessoal mas apenas a iluminação
na outra vida. (...)"
(Ob. cit., pag. 157)
Relendo hoje este trecho do Gobunsho, devemos nos perguntar o que
sucederia se Rennyo visitasse cada um e todos os nossos Templos pelo
mundo afora. Poderíamos mesmo recebê-lo sem temor de sua avaliação?
Será que a nenhum de nossos Templos ele desejaria hoje fazer o mesmo
que fez em Yoshizaki? Será que nestas construções que atendem pelo
nome de Templo Honganji, nos reunimos, monges e leigos, homens e
mulheres, para buscar intensamente a consolidação irreversível da
Mente Confiante e o nascimento na Terra Pura? Falando apenas do que
observo no Templo da cidade em que moro, São Paulo, devo admitir que
com mais freqüência o que nos traz ao Templo, monges e leigos, homens
e mulheres, é a obrigação de um ofício memorial. Aos monges pelo
Ofuse ou por um "dever de ofício", aos leigos por uma obrigação
social ou um vago medo supersticioso. Ouvindo atentamente tudo o que se
conversa entre monges ou leigos, homens e mulheres, nem sempre o mais
freqüente assunto é o Dharma. Nos ofícios memoriais, bem como nos
casamentos, ao fundo do salão do Hondo, os assuntos já nem se prendem
à memória do morto ou as núpcias que se celebram. Nestes recantos, em
voz baixa, não é tanto o Nenbutsu o que ressoa. São comentários
sobre a política nacional ou internacional, sobre os negócios ou a
vida alheia. Ao final dos ofícios, quando nós monges nos reunimos,
infelizmente devo admitir que aos mesmos assuntos que conversavam os
leigos nos dedicamos. Pelo menos lá no nosso Templo eu não receberia
uma visita de Rennyo Shonin sem temer o que ele concluiria de suas
observações.
Outra vez tremo ao ler o trecho da carta IV-12 quando ele diz:
"Qual a razão de se realizarem reuniões duas vezes por mês? Estas
reuniões visam a realização da Mente Confiante que conduz ao
nascimento na terra da suprema Bem-aventurança e nada mais. Apesar de
serem realizadas "reuniões" em toda parte a cada mês, desde o
passado até agora, não tem havido nada que possa ser chamado de uma
discussão sobre a Mente Confiante. Nos últimos anos especialmente,
quando ocorrem reuniões (onde quer que se realizem) todos ao final vão
embora sem levar nada mais que o que beberam ou comeram — saquê, arroz
e chá."
(Ob. cit. pag. 236)
Talvez a principal diferença hoje é que o cardápio é bem mais
diversificado. Estes problemas ocorrem de maneira idêntica na
atualidade tal como no passado porque a nossa ignorância
espiritual persiste. Continuamos sujeitos aos mesmos egoísmos, atraídos
pelas mesmas fantasias ilusórias e paixões cegas que ao longo da história
mantiveram-nos prisioneiros de erros e sofrimento. Mas nossas atitudes
comprometem não apenas nosso destino individual como também o futuro
da instituição da qual somos membros. Um velho provérbio Hindu afirma
que "Para que a floresta seja verde, basta que as árvores sejam
verdes." Na época de Rennyo, o futuro do Honganji estava em risco
tanto pela ameaça de seus inimigos e detratores como de seus próprios
adeptos. Livramo-nos dos primeiros, continuamos conosco mesmos.
Ouçamos o trecho, na carta I-2, em que Rennyo fala sobre a decisão de
tornar-se monge:
"O princípio fundamental do Mestre Shinran em nossa tradição não
é que nos tornemos monges aspirando nos tornar Buddhas, nem que
renunciemos a família e nos separemos dos vínculos mundanos. É que,
quando ocorre o despertar do momento-percepção do refúgio em Amida, a
Mente Confiante do Outro Poder se estabelece decisivamente, sem distinção
alguma entre homem e mulher, idoso ou jovem. O Sutra Maior descreve o
estado do atingir desta Mente Confiante como "imediatamente alcançando
o nascimento na Terra Pura e habitando o estado do não-retrogredir. Num
comentário, T’an-luan diz: "Com o despertar do pensamento único do
confiar, entramos na companhia daqueles cujo nascimento está
verdadeiramente estabelecido." Isto então é o que se quer dizer
quando se fala em "sem esperar que Amida venha ao nosso encontro no
momento da morte" e "completando a causa do nascimento na vida
comum."
(Ob. cit. pag. 145)
Este trecho demonstra que para Rennyo, a ordenação e a entrega à
Mente Confiante são inseparáveis. Em outras palavras, alguém se
ordena porque o chamado do Buddha é percebido como o centro de sua existência.
O processo espiritual do despertar para o Outro-Poder e a formalização
do rito de ingresso na comunidade de religiosos são para ele como as
duas faces de uma só e mesma moeda. Por isso ao falar de porque nos
ordenamos, o Oitavo Patriarca discute apenas o despertar para a Mente
Confiante. O que pensaria Rennyo de um fato muito freqüente no Japão,
quando alguns de nós monges, nos ordenarmos porque somos o filho mais
velho de um proprietário de Templo, sendo hábito e expectativa, tanto
da família como da sociedade, que sejamos o sucessor e não ousamos
contrariá-los? Ou, em algum outro caso, quando herdeiros de um Templo,
nos ordenamos não porque tenhamos receio de contrariar família e
sociedade, e sim porque sendo o dito Templo pródigo em adeptos, a renda
do monge-responsável é atraente? Precisamos admitir que, dado o
sistema de propriedade particular da maioria dos Templos no Japão, com
a tradição do filho mais velho homem ser o herdeiro e sucessor
na sua direção, estas duas hipóteses não podem ser descartadas como
absurdas. Aliás, dificilmente algum membro do Honganji com alguma
familiaridade com a nossa comunidade no Japão poderia dizer que isto
nunca acontece ou mesmo que desconhecemos um caso semelhante. Além
disso, a precedência do filho, em detrimento da filha, é já um
absurdo e uma contradição doutrinária, considerando o que nos disse
acima Rennyo "sem distinção entre homem e mulher". Todos
igualmente sabemos que, no caso em que a filha tenha de herdar o Templo,
(seja porque não exista um filho ou porque exista um inusitada e
improvavelmente rebelde a ponto de renunciar ao suposto "dever") a
solução freqüentemente preferida é que ela se case com um monge,
para que ele, agora marido, assuma a direção do Templo. Ou que o
marido se ordene para assumir o Templo. Tudo isto, como podemos ver nas
afirmações de Rennyo sobre a mulher, nada tem a ver com o Buddhismo da
Terra Pura. Reflete isto sim, o machismo que ainda domina a sociedade
nipônica (que aliás nisto está acompanhada pela esmagadora maioria
das sociedades contemporâneas, seja no Oriente, seja no Ocidente) e que
foi absorvido pela nossa comunidade. Especificamente no Honganji não
seria necessário ir muito longe para se concluir que lamentavelmente o
preconceito, além de ter sido absorvido, subsiste intocado. Basta nos
perguntarmos por que não há nem houve ainda u’a mulher ocupando o
cargo de Sotyo, em nenhum dos países onde o Honganji possui Missão com
esta função, como é o caso do próprio Japão, dos Estados Unidos, do
Canadá, do Havaí ou do Brasil? Por que, entre os Ministros que dirigem
o Honganji (e que são eleitos por um mandato) não há nem houve ainda
uma única presença feminina?
Precisaríamos ler e reler Rennyo, inspirando-nos nas suas palavras, não
só na passagem acima citada, mas também quando ele diz, na
carta V-3:
"As mulheres que renunciaram ao mundo enquanto permanecem na vida
leiga, bem como todas as demais mulheres que seguem a vida comum,
deveriam realizar, sem acalentar qualquer dúvida possível, que a
libertação é para todas as pessoas que simplesmente confiarem em
profundidade (de todo coração e com firmeza) no Buddha Amida e
entregarem-se ao Buddha para que as salve, conduzindo-as à condição de
Buddha na outra vida."
(Ob. cit. pag. 244)
Ou ainda na carta seguinte V-4:
"Aqueles que carregam um profundo mau karma, sejam homens ou mulheres,
precisam perceber que mesmo confiando-se aos votos compassivos dos vários
Buddhas, é extremamente difícil serem salvos pelo poder destes Buddhas,
pois estamos no período do mundo maligno da última Era. Assim sendo,
aquele que reverenciamos como Amida Tathagata, sobrepassando todos os
outros Buddhas, fez o grande Voto de salvar mesmo os que cometem o mal nas
dez transgressões e nas cinco graves ofensas. Realizando seu Voto,
tornou-se o Buddha Amida."
(Ob. cit. pag. 244)
Em todos estes trechos citados, Rennyo enfatiza a igualdade entre homens
e mulheres no mais crucial e supremo aspecto da realização humana, o
nascimento na Terra Pura. Se não há "distinção alguma entre homem
e mulher" no estabelecimento decisivo da Mente Confiante, quanto mais
absurda não há de ser a discriminação que arroga ao homem privilégios
e regalias em assuntos de menor monta, como cargos na nossa hierarquia
administrativa do Honganji.
Imagino que você, leitor lusófono, que talvez esteja travando um
primeiro contato com a tradição da Terra Pura através deste texto,
possa estar surpreso ou perplexo ante o que, nos parágrafos
precedentes, lhe pareçam críticas contundentes à instituição a que
pertenço, o Honganji, e à nossa comunidade, tanto de leigos como de
monges. Não se assuste. Nós, membros da Escola da Terra Pura, somos
assim, estamos sempre buscando nos conscientizar de nossas falhas e
desejosos de as discutirmos. Acreditamos que o ser humano erra muito e
quando esconde de si as suas faltas, erra ainda mais. Nem pense que
critico os meus amigos no Dharma por me imaginar mais correto que eles.
Lendo com atenção o trecho em que me refiro especificamente à nós
monges, no comentário à carta I-8 sobre o Templo em Yoshizaki, você
poderá perceber que me sei parte do problema. Para a Escola da Terra
Pura, somos todos muito errados, maus, e inútil é tentarmos distinguir
o melhor do pior. Quando critico-nos, critico-me. E o faço na esperança
de que, conscientizando-nos destes nossos erros que creio perceber,
possamos superá-los. Isto nos libertará para podermos cuidar de outros
erros que então descobriremos. Não creio que possa existir uma
comunidade humana em que não se cometam falhas. Temo, isto sim, por
aquelas que se recusam a perceber e discutir abertamente as suas culpas.
Por fim, creio que nosso Oitavo Patriarca foi bem mais rigoroso nas críticas
que fez à comunidade do seu tempo do que eu soube ser em meu texto.
Uma obra como a realizada por Rennyo Shonin só é possível através de
uma personalidade que reúna qualidades díspares, raramente encontradas
num só indivíduo. Rennyo manifestava a devoção profunda e a compaixão
que a Mente Confiante inspira na verdadeira realização espiritual,
como o demonstra a vida inteira dedicada ao chamado do Buddha por todos os
seres, bem como sua atitude ímpar frente à morte. Neste sentido, o
Oitavo Patriarca se sobressai como líder espiritual de rara grandeza.
Possuía o intelecto crítico e a cultura apurada de um
scholar
como se evidencia de suas análises doutrinárias.
Reunia ainda a visão e habilidade política de um Estadista, como se
pode perceber na sua liderança de uma comunidade cada dia mais
numerosa, num ambiente politicamente adverso e violento.
Por fim, era sem dúvida dotado de um espírito empreendedor que hoje
reconheceríamos como "um executivo realizador", como comprova o
crescimento vertiginoso que o Honganji teve sob sua direção,
considerando o aumento do número de adeptos e os inúmeros Templos que
foram construídos por sua iniciativa, bem como o desenvolvimento
organizacional através, entre outras coisas, dos rituais que criou, das
regras que estabeleceu, etc.
Ao fundar o Honganji que hoje conhecemos, ele se fez, de fato,
co-fundador de Jodo Shinshu. Não é sem razão que nos altares do
Honganji, à esquerda da imagem do Buddha Amida há uma pintura com
Shinran e à direita uma pintura com Rennyo.
O jovem brasileiro que depois viria a se ordenar na Escola da Terra
Pura, só pode conhecer a mensagem de que o Buddha Amida o libertara, graças
à Shinran Shonin. Ele só pode conhecer o que ensinou Shinran Shonin,
graças à obra de Rennyo Shonin. Foi através do Honganji, a cujo
fortalecimento o Oitavo Patriarca dedicou sua vida, que ele pode um dia
conhecer seus amigos Myokonin e com eles conviver apesar da distância
no espaço e no tempo; Saiichi, Genza e tantos outros que trouxeram
confiança, alegria e a gratidão à esta existência confusa. Mais uma
vez, foi através do Honganji que ele pode ter acesso à doutrina que o
ajudaria a entender quanto se lhe esclareceu de um caminho extraordinário,
no qual sua própria vida, assim como a de todos os seres, vai sendo sábia
e infalivelmente conduzida à Plenitude, ao nascimento na Terra em que
toda ignorância e sofrimento são superados e onde enfim despertamos
como Buddhas.
Quinhentos anos depois, vemos que a obra do Oitavo Patriarca frutificou,
num alcance maior do que se poderia imaginar em seu tempo. Em cinco
continentes o Nenbutsu é entoado. Nestes distantes rincões todos do
planeta, pessoas das mais diversas raças expressam sua gratidão nos ofícios
em memória de Rennyo Shonin. Oxalá saibamos cumprir a parte que nos
toca, encaminhando rumo ao futuro o legado que ele nos deixou. Que
estes primeiros quinhentos anos sejam relembrados daqui a quinhentos
anos, no ofício comemorativo do primeiro milênio de Rennyo Shonin. Namu
Amida Butsu.
In
"The Rennyo
Shonin reader", Hongwanji International Center, Kyoto, 1998.