Rev. Shaku Shogyo (Gustavo Corrêa Pinto)
De Volta às Raízes
O Buddhismo no Ocidente

Os filhos só se tornam adultos quando saem da casa em que nasceram e ousam seu próprio rumo e destino. Sob árvore frondosa não pode crescer aquela que almeja ver o céu. Nem pode prosperar o buddhismo no Ocidente se não buscar ser por si mesmo ele próprio. Hoje o constrange a tutela de formas que lhe são estranhas. A recriação que possibilitará sua assimilação exige o retorno à experiência que um dia deu origem à tradição de que é herdeiro. Ela é a fonte viva que precede aos textos e os fundamenta. Aqueles que buscam ser buddhistas no Ocidente terão de re-encontrar o Buddha que inspirou Gautama e todos os Patriarcas. Isso significa percorrer o caminho do coração, tal como o fizeram os Myokonins, aqueles maravilhosos sábios iletrados.

De que nos podem valer autoridades institucionais, eruditos em doutrina, se não soubermos ouvir ao Chamado Silencioso do insondável que se dirige a nós através de cada fato do cotidiano? De que serve acumular saber se não percebermos em nossas vidas a presença e ação da Sabedoria e Compaixão búddhicas?

Bahum pi ce sahitam bhasamano –
na takkaro hoti naro pamatto
Gopo’va gavo ganayam paresam –
Na bhagava samannassa hoti.

Quem fala muito e recita os textos sagrados mas não age consoante a eles, é um incauto semelhante ao vaqueiro que só conta o gado alheio. Não é um discípulo do Bem-aventurado.

(Dhammapada, I, 19)

Conhecer o Dharma é reconhecê-lo como harmonia subjacente aos acontecimentos. Todas as circunstâncias são azadas, todos os fatos precisos e as horas exatas. Não há acasos, só há sentido. O rio da existência corre sobre o leito do Dharma infalível conduzindo todos os seres rumo ao oceano inexorável da suprema libertação. É no desafio das situações concretas do cotidiano que o buddhismo acontece como vida espiritual.

A cultura acadêmica sobre buddhismo é um assunto mundano. Se não estiver enraizada numa busca espiritual, será uma carreira profissional como qualquer outra ou então alguns títulos semelhantes aos da antiga nobreza e uma montanha de apego que alimenta os egos ávidos por se afirmarem superiores. Ter vasta cultura acadêmica sobre buddhismo não torna ninguém buddhista, tal como (parodiando o versículo 64 do capítulo V do Dhammapada) a colher desconhece o gosto da sopa em que está imersa. buddhismo não é erudição. Não que seja de todo impossível ser buddhista e erudito. A erudição não impede a devoção. Shinran Shônin, assim como tantos Mestres de várias tradições buddhistas, é um exemplo de integração harmônica de um intelecto erudito e um coração devoto. Quanto àqueles seres mais endurecidos, aquelas criaturas hipercefálicas que vivem só a ruminar idéias, o inconcebível Poder do Voto de Amida é tão abrangente que pode salvar até mesmo eles, quando enfim a Compaixão consegue abrir seus corações freqüentemente blindados.

Simplesmente realizem o nascimento, evitando firmemente todo debate acadêmico. Eu recordo quando ouvi o Mestre Hônen dizendo ‘As pessoas da tradição da Terra Pura atingem o nascimento na Terra Pura tornando-se os seres tolos que são.’ Além disso, eu o lembro sorrindo e dizendo, ao ver pessoas humildes, sem nenhuma pretensão intelectual que vinham visitá-lo: ‘Sem dúvida o nascimento delas está assegurado.’ E eu o escutei dizer, após a visita de um homem brilhante em cultura e debate, ‘Eu me ponho a pensar sobre o nascimento dele.’”

(Shinran, Mattosho, The Collected Works of Shinran, p. 531)

O que então, significa, para nós Ocidentais, ser buddhista? É viver como um aprendiz e servo da Luz que nos chama. Somos crianças sendo educadas pelo Buddha, somos barro sendo por Ele moldado, trilhamos o caminho que nos leva. Nessa via da vida, tudo é sempre perfeito ao ensino à que se destina. Só aprender e servir é que importa. Alegria e dor, triunfo e fracasso, acerto e erro são fugazes quimeras humanas. Aprender sim, é real e transforma. O processo de nossa transmutação espiritual está sendo conduzido pelo Buddha desde sempre, através de tudo o que sucede.

Nem mantras, nem mandalas, nem sutras nem rituais, nem zazen ou jejuns podem o que pode a vida, na perfeição da sabedoria que permeia os acontecimentos. Não há outro Mestre senão a Luz de quem Gautama foi discípulo e que nos instrui à toda hora, no desafio do que acontece. É na vida diária que estamos sendo treinados. O mundo inteiro é o lugar de prática do Dharma, o Dojo.

Dizem os textos que um Bodhisattva fez o Voto de salvar todos os seres que recitassem o seu Nome com Mente Confiante. Mas, nos livros, esse Voto Original está morto. Papel pintado não tem vida. Só através do coração humano pode a vida se manifestar através dele. O intelectualismo abstrato só encontra ali crença e erudição. Quem toma os textos como autoridade final, esquece que as escrituras surgem de experiências vividas e só imperfeitamente conseguem exprimi-las.

Livros? A maior autoridade em textos canônicos são as traças. Devoram sânscrito, pali, chinês, tibetano, nenhuma língua viva ou morta lhes é obstáculo. Para elas, nenhum texto é de difícil digestão. Para as traças, há vida nos livros e cada frase é alimento. Textos são um tesouro de Dharma, uma jóia viva para aqueles que estudam para nos ajudar a entender o caminho que tentamos seguir. Mas quando as traças são ambiciosos intelectuais eruditos, o que devoram os envenena com a soberba. Fazem-se Imperadores de palavras e esquecem dos gestos gentis. Arrogam-se autoridade pelo irrelevante que decoraram e já nem recordam o que importa. Porque sabem demais, ignoram a verdade simples.

De nada valem todos os textos canônicos se a mente não estiver aberta à luz da Compaixão. Por outro lado, quando o coração se abre, lê textos sagrados em toda parte, em livros, nas nuvens que passam no céu, nas pedras que restam na terra.

Nenbutsu? O Nenbutsu, o que urge recitar é o Namu Amida Butsu dos mudos. Para isso é preciso aprender a ouvi-lo com os surdos. Não foram eles salvos também? E como recitam os mudos? Como soa o Chamado aos surdos? É aí que mora o verdadeiro sentido do Nenbutsu. O Nome do Buddha não tem nenhuma sílaba, ainda que o chamemos de Namu Amida Butsu. Quem se atém ao som não percebe a salvação dos mudos e dos surdos. O sentido do Nome do Buddha está além do som. Qualquer papagaio amestrado pode repetir Namu Amida Butsu sem qualquer intenção e sem nem mesmo pensar. Mas os papagaios são salvos porque são só papagaios e não porque sejam fiéis adeptos afiliados ao Templo Hompa Hongwanji.

Doutrinas complexas são úteis se, à certa altura as transcendermos e nos abrirmos ao coração compassivo que nos é dado pelo Buddha.O gesto fraterno não precisa de explicação. A verdadeira linguagem do Dharma é universal, independe de idiomas e passa à margem de traduções. Onde a compaixão aquece o coração e move os atos, lá o verdadeiro buddhismo está sendo vivido. Pouco importa por quem e sob que forma.

Há buddhistas que nunca ouviram falar de buddhismo. Quando escutam o Dharma, logo o reconhecem pois já o tinham consigo. Homens e mulheres movidos por espontânea piedade, acudindo aos que sofrem, esses são os devotos da Sangha. Muitos chamam o Buddha por outros nomes, tal como nós chamamos de Buddha o que eles reverenciam com suas palavras. Afinal, o Dharmakaya está ou não além de nome e forma? Ao necessitado que recebe o dadivoso apoio, pouco lhe importa em nome de quem é feita a caridade. Quem se esquece de si e lembra o outro, esse é o verdadeiro buddhista. Nesse sentido essencial, o buddhismo transcende o buddhismo. Quanto ao que se restringe à tradição formal, sejam doutrinas, ritos, regras monásticas, etc., tudo isso é meio e não fim. E, enquanto meios, existem para serem transcendidos. Os aspectos formais da tradição buddhista são como degraus de uma escada, visam levar para além de si. Os que se aferram ao formalismo e passam a considerar buddhismo um conjunto de idéias, termos ou atitudes estereotipadas, montam moradia no degrau, esquecidos da finalidade do mesmo. Acreditam que o barco é a margem à qual ele deveria nos conduzir. A opção por formas institucionais de crença, prática ou devoção é fator secundário, regido pelo karma. Quem acolheu o coração compassivo logo distingue o acessório e o essencial.

Nesse sentido então, se é buddhista no Ocidente tal como no Oriente. Tanto lá como aqui, para ser buddhista basta acolher o alegre coração dadivoso que nos é oferecido pela Grande Compaixão. Esse coração nos mostra que não há nada a lamentar, que é dádiva, o quanto ocorre, que tudo instrui e é sempre só tal como deve ser. Pois nem poderíamos nós sermos senão como somos, nem outra vida haveria à viver senão aquela que nos é dado viver, sendo quem somos. É assim que o Buddha nos está salvando e conduzindo à Terra Pura.

Para que o Buddhismo da Terra Pura floresça no Ocidente é preciso desenterrá-lo de sob os escombros e entulhos que séculos de erudição, formalismo, burocracia e política institucional foram acumulando. É preciso uma radical faxina. Tal como as formalidades ritualísticas, os termos técnicos e os conceitos doutrinários, são com, freqüência, um descaminho. Podem funcionar como frases feitas que se usa sem precisar pensar. Servem como moeda de troca no bazar das vaidades intelectuais. E o que é pior, dão à quem os decora, a ilusão de que sabem alguma coisa.

O que falta ao Buddhismo da Terra Pura, no Ocidente, é o caminho do coração. Ele é simples e nunca esteve distante. Nele, tudo o que vemos nos é familiar, ainda que radicalmente novo. Voam os pássaros, nadam os peixes e vagam os homens. Mas estes não vagam em vão pois em seu vagar tudo é caminho. Aprouve ao Céu que o viandante, sem que o soubesse, nunca do rumo se afastasse. Só ele, que nada sabe do caminho que não falha, é que teme se perder e anseia se achar. Quando os pássaros voam, os peixes nadam e os homens vagam, estão sendo levados por quem sabe e tudo conduz, condizente com o que é. Nós o chamamos de Buddha, tal como a criança estende a mão tentando pegar uma estrela no céu.

A natureza búddhica não é senão o Tathagata. Esse Tathagata perpassa os mundos incontáveis; preenche os corações e as mentes do oceano de todos os seres. Assim, plantas, árvores e a terra, todos tornam-se Buddhas.

(Shinran, Yuishinsho mon'i, The Collected Works of Shinran, pag. 461)

Sempre houve buddhismo no Ocidente, tal como em toda parte onde viveu gente que, tendo sido acordada da hipnose do eu e se descoberto una com tudo, viu-se inundada por infinita compaixão para com todos os seres. O sorriso dos Buddhas iluminou rostos de todas as raças desde sempre, naqueles que, desatentos de si, acudiram, amaram, se doaram ao outro, sem sequer pensar que o faziam. A bondade espontânea não tem dono e onde se manifesta é uma só e a mesma.

É de dentro de nós mesmos que tem de nascer o buddhismo no Ocidente. Nem pode vir de fora nem deve soar estranho. Ou o re-encontramos ou nunca será nosso. Ou nos reconhecemos nele ou nunca nos será natural. Ou o re-aprendemos ou nunca o saberemos.

Para praticar o buddhismo hoje no Ocidente, há algo mais importante do que sentar em meditação profunda, recitar incessantemente mantras ou o Nenbutsu, ler bibliotecas de textos canônicos, freqüentar Templos, ouvir pregações e cumprir regras. Tudo isso é bom mas secundário. O essencial é aprender a agradecer e ajudar. Agradecer o que? Nada menos que tudo. Ajudar à quem? À quem quer que encontremos.

Quando Shakyamuni ia entrar no Nirvana, ele disse aos bhikshus, 'De hoje em diante, confiem no Dharma, não em quem o ensina. Confiem no sentido, não nas palavras. Confiem na sabedoria, não nas construções intelectuais.'

(Shinran, Kyo Gyo Shin Sho, VI, 71, The Collected Works of Shinran, pág. 241)

[Palestra proferida na XI Conferência Bienal da Associação Internacional
de Estudos de buddhismo Shin
, em Berkeley, EUA em 14/08/2003]

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