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Os
filhos só se tornam adultos quando saem da casa em que nasceram e ousam
seu próprio rumo e destino. Sob árvore frondosa não pode crescer aquela
que almeja ver o céu. Nem pode prosperar o buddhismo no Ocidente se não
buscar ser por si mesmo ele próprio. Hoje o constrange a tutela de formas
que lhe são estranhas. A recriação que possibilitará sua assimilação exige
o retorno à experiência que um dia deu origem à tradição de que é
herdeiro. Ela é a fonte viva que precede aos textos e os fundamenta.
Aqueles que buscam ser buddhistas no Ocidente terão de re-encontrar o Buddha
que inspirou Gautama e todos os Patriarcas. Isso significa percorrer o
caminho do coração, tal como o fizeram os Myokonins, aqueles maravilhosos
sábios iletrados.
De que nos podem valer
autoridades institucionais, eruditos em doutrina, se não soubermos ouvir
ao Chamado Silencioso do insondável que se dirige a nós através de cada
fato do cotidiano? De que serve acumular saber se não percebermos em
nossas vidas a presença e ação da Sabedoria e Compaixão búddhicas?
Bahum pi ce sahitam bhasamano –
na takkaro hoti naro pamatto
Gopo’va gavo ganayam paresam –
Na bhagava samannassa hoti.
Quem fala muito e recita os textos
sagrados mas não age consoante a eles, é um incauto semelhante ao vaqueiro
que só conta o gado alheio. Não é um discípulo do Bem-aventurado.
(Dhammapada, I, 19)
Conhecer o Dharma é reconhecê-lo como
harmonia subjacente aos acontecimentos. Todas as circunstâncias são
azadas, todos os fatos precisos e as horas exatas. Não há acasos, só há
sentido. O rio da existência corre sobre o leito do Dharma infalível
conduzindo todos os seres rumo ao oceano inexorável da suprema libertação.
É no desafio das situações concretas do cotidiano que o buddhismo acontece
como vida espiritual.
A cultura acadêmica sobre buddhismo é um
assunto mundano. Se não estiver enraizada numa busca espiritual, será uma
carreira profissional como qualquer outra ou então alguns títulos
semelhantes aos da antiga nobreza e uma montanha de apego que alimenta os
egos ávidos por se afirmarem superiores. Ter vasta cultura acadêmica sobre
buddhismo não torna ninguém buddhista, tal como (parodiando o versículo 64 do
capítulo V do Dhammapada) a colher desconhece o gosto da sopa em que está
imersa. buddhismo não é erudição. Não que seja de todo impossível ser
buddhista e erudito. A erudição não impede a devoção. Shinran Shônin, assim
como tantos Mestres de várias tradições buddhistas, é um exemplo de
integração harmônica de um intelecto erudito e um coração devoto. Quanto
àqueles seres mais endurecidos, aquelas criaturas hipercefálicas que vivem
só a ruminar idéias, o inconcebível Poder do Voto de Amida é tão
abrangente que pode salvar até mesmo eles, quando enfim a Compaixão
consegue abrir seus corações freqüentemente blindados.
Simplesmente realizem o nascimento,
evitando firmemente todo debate acadêmico. Eu recordo quando ouvi o Mestre
Hônen dizendo ‘As pessoas da tradição da Terra Pura atingem o nascimento
na Terra Pura tornando-se os seres tolos que são.’ Além disso, eu o lembro
sorrindo e dizendo, ao ver pessoas humildes, sem nenhuma pretensão
intelectual que vinham visitá-lo: ‘Sem dúvida o nascimento delas está
assegurado.’ E eu o escutei dizer, após a visita de um homem brilhante em
cultura e debate, ‘Eu me ponho a pensar sobre o nascimento dele.’”
(Shinran,
Mattosho, The Collected Works of Shinran, p. 531)
O que então, significa, para nós
Ocidentais, ser buddhista? É viver como um aprendiz e servo da Luz que nos
chama. Somos crianças sendo educadas pelo Buddha, somos barro sendo por Ele
moldado, trilhamos o caminho que nos leva. Nessa via da vida, tudo é
sempre perfeito ao ensino à que se destina. Só aprender e servir é que
importa. Alegria e dor, triunfo e fracasso, acerto e erro são fugazes
quimeras humanas. Aprender sim, é real e transforma. O processo de nossa
transmutação espiritual está sendo conduzido pelo Buddha desde sempre,
através de tudo o que sucede.
Nem mantras, nem mandalas, nem sutras
nem rituais, nem zazen ou jejuns podem o que pode a vida, na perfeição da
sabedoria que permeia os acontecimentos. Não há outro Mestre senão a Luz
de quem Gautama foi discípulo e que nos instrui à toda hora, no desafio do
que acontece. É na vida diária que estamos sendo treinados. O mundo
inteiro é o lugar de prática do Dharma, o Dojo.
Dizem os textos que um Bodhisattva fez o
Voto de salvar todos os seres que recitassem o seu Nome com Mente
Confiante. Mas, nos livros, esse Voto Original está morto. Papel pintado
não tem vida. Só através do coração humano pode a vida se manifestar
através dele. O intelectualismo abstrato só encontra ali crença e
erudição. Quem toma os textos como autoridade final, esquece que as
escrituras surgem de experiências vividas e só imperfeitamente conseguem
exprimi-las.
Livros? A maior autoridade em textos
canônicos são as traças. Devoram sânscrito, pali, chinês, tibetano,
nenhuma língua viva ou morta lhes é obstáculo. Para elas, nenhum texto é
de difícil digestão. Para as traças, há vida nos livros e cada frase é
alimento. Textos são um tesouro de Dharma, uma jóia viva para aqueles que
estudam para nos ajudar a entender o caminho que tentamos seguir. Mas
quando as traças são ambiciosos intelectuais eruditos, o que devoram os
envenena com a soberba. Fazem-se Imperadores de palavras e esquecem dos
gestos gentis. Arrogam-se autoridade pelo irrelevante que decoraram e já
nem recordam o que importa. Porque sabem demais, ignoram a verdade
simples.
De nada valem todos os textos canônicos
se a mente não estiver aberta à luz da Compaixão. Por outro lado, quando o
coração se abre, lê textos sagrados em toda parte, em livros, nas nuvens
que passam no céu, nas pedras que restam na terra.
Nenbutsu? O Nenbutsu, o que urge recitar
é o Namu Amida Butsu dos mudos. Para isso é preciso aprender a ouvi-lo com
os surdos. Não foram eles salvos também? E como recitam os mudos? Como soa
o Chamado aos surdos? É aí que mora o verdadeiro sentido do Nenbutsu. O
Nome do Buddha não tem nenhuma sílaba, ainda que o chamemos de Namu Amida
Butsu. Quem se atém ao som não percebe a salvação dos mudos e dos surdos.
O sentido do Nome do Buddha está além do som. Qualquer papagaio amestrado
pode repetir Namu Amida Butsu sem qualquer intenção e sem nem mesmo
pensar. Mas os papagaios são salvos porque são só papagaios e não porque
sejam fiéis adeptos afiliados ao Templo Hompa Hongwanji.
Doutrinas complexas são úteis se, à
certa altura as transcendermos e nos abrirmos ao coração compassivo que
nos é dado pelo Buddha.O gesto fraterno não precisa de explicação. A
verdadeira linguagem do Dharma é universal, independe de idiomas e passa à
margem de traduções. Onde a compaixão aquece o coração e move os atos, lá
o verdadeiro buddhismo está sendo vivido. Pouco importa por quem e sob que
forma.
Há buddhistas que nunca ouviram falar de
buddhismo. Quando escutam o Dharma, logo o reconhecem pois já o tinham
consigo. Homens e mulheres movidos por espontânea piedade, acudindo aos
que sofrem, esses são os devotos da Sangha. Muitos chamam o Buddha por
outros nomes, tal como nós chamamos de Buddha o que eles reverenciam com
suas palavras. Afinal, o Dharmakaya está ou não além de nome e forma? Ao
necessitado que recebe o dadivoso apoio, pouco lhe importa em nome de quem
é feita a caridade. Quem se esquece de si e lembra o outro, esse é o
verdadeiro buddhista. Nesse sentido essencial, o buddhismo transcende o
buddhismo. Quanto ao que se restringe à tradição formal, sejam doutrinas,
ritos, regras monásticas, etc., tudo isso é meio e não fim. E, enquanto
meios, existem para serem transcendidos. Os aspectos formais da tradição
buddhista são como degraus de uma escada, visam levar para além de si. Os
que se aferram ao formalismo e passam a considerar buddhismo um conjunto de
idéias, termos ou atitudes estereotipadas, montam moradia no degrau,
esquecidos da finalidade do mesmo. Acreditam que o barco é a margem à
qual ele deveria nos conduzir. A opção por formas institucionais de
crença, prática ou devoção é fator secundário, regido pelo karma. Quem
acolheu o coração compassivo logo distingue o acessório e o essencial.
Nesse sentido então, se é buddhista no
Ocidente tal como no Oriente. Tanto lá como aqui, para ser buddhista basta
acolher o alegre coração dadivoso que nos é oferecido pela Grande
Compaixão. Esse coração nos mostra que não há nada a lamentar, que é
dádiva, o quanto ocorre, que tudo instrui e é sempre só tal como deve ser.
Pois nem poderíamos nós sermos senão como somos, nem outra vida haveria à
viver senão aquela que nos é dado viver, sendo quem somos. É assim que o
Buddha nos está salvando e conduzindo à Terra Pura.
Para que o Buddhismo da Terra Pura
floresça no Ocidente é preciso desenterrá-lo de sob os escombros e
entulhos que séculos de erudição, formalismo, burocracia e política
institucional foram acumulando. É preciso uma radical faxina. Tal como as
formalidades ritualísticas, os termos técnicos e os conceitos
doutrinários, são com, freqüência, um descaminho. Podem funcionar como
frases feitas que se usa sem precisar pensar. Servem como moeda de troca
no bazar das vaidades intelectuais. E o que é pior, dão à quem os decora,
a ilusão de que sabem alguma coisa.
O que falta ao Buddhismo da Terra Pura, no
Ocidente, é o caminho do coração. Ele é simples e nunca esteve distante.
Nele, tudo o que vemos nos é familiar, ainda que radicalmente novo. Voam
os pássaros, nadam os peixes e vagam os homens. Mas estes não vagam em vão
pois em seu vagar tudo é caminho. Aprouve ao Céu que o viandante, sem que
o soubesse, nunca do rumo se afastasse. Só ele, que nada sabe do caminho
que não falha, é que teme se perder e anseia se achar. Quando os pássaros
voam, os peixes nadam e os homens vagam, estão sendo levados por quem sabe
e tudo conduz, condizente com o que é. Nós o chamamos de Buddha, tal como a
criança estende a mão tentando pegar uma estrela no céu.
A natureza búddhica não é senão o Tathagata. Esse Tathagata perpassa os
mundos incontáveis; preenche os corações e as mentes do oceano de todos os
seres. Assim, plantas, árvores e a terra, todos tornam-se Buddhas.
(Shinran,
Yuishinsho mon 'i, The Collected
Works of Shinran, pag. 461)
Sempre houve buddhismo no Ocidente, tal
como em toda parte onde viveu gente que, tendo sido acordada da hipnose do
eu e se descoberto una com tudo, viu-se inundada por infinita compaixão
para com todos os seres. O sorriso dos Buddhas iluminou rostos de todas as
raças desde sempre, naqueles que, desatentos de si, acudiram, amaram, se
doaram ao outro, sem sequer pensar que o faziam. A bondade espontânea não
tem dono e onde se manifesta é uma só e a mesma.
É de dentro de nós mesmos que tem de
nascer o buddhismo no Ocidente. Nem pode vir de fora nem deve soar estranho.
Ou o re-encontramos ou nunca será nosso. Ou nos reconhecemos nele ou nunca
nos será natural. Ou o re-aprendemos ou nunca o saberemos.
Para praticar o buddhismo hoje no
Ocidente, há algo mais importante do que sentar em meditação profunda,
recitar incessantemente mantras ou o Nenbutsu, ler bibliotecas de textos
canônicos, freqüentar Templos, ouvir pregações e cumprir regras. Tudo isso
é bom mas secundário. O essencial é aprender a agradecer e ajudar.
Agradecer o que? Nada menos que tudo. Ajudar à quem? À quem quer que
encontremos.
Quando Shakyamuni ia entrar no Nirvana,
ele disse aos bhikshus,
'De hoje em diante, confiem no Dharma, não em quem
o ensina. Confiem no sentido, não nas palavras. Confiem na sabedoria, não
nas construções intelectuais.'
(Shinran, Kyo Gyo Shin Sho, VI, 71, The Collected Works of Shinran,
pág. 241)
[Palestra
proferida na XI Conferência Bienal
da Associação Internacional
de Estudos de buddhismo Shin, em Berkeley,
EUA em 14/08/2003]

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