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A comemoração do O-Higan
celebra o advento da Primavera. À cada ano, quando as sementes germinam,
quando desabrocham as flores, quando a vida renasce após o inverno, a
natureza evoca ao ser humano uma reflexão sobre nossa breve e frágil
existência aqui.
Mas o que é este aqui? Onde é que
estamos vivendo agora? Respondemos estas perguntas todos os dias, todos os
momentos, com nossos pensamentos, nossas palavras e ações. Nós, seres
humanos, não vivemos só no mundo em que nascemos. Vivemos cada vez mais
no mundo que coletivamente construímos. E o vemos a consumir-se nas
chamas dos nossos ódios cegos, das nossas paixões egocêntricas, enfim
este mundo arde no fogo ateado por nossa insensata destrutividade. A
semana que amanhã finda principiou com uma tal horrenda calamidade, num
atentado premeditado, calculado e executado visando o assassinato do maior
número possível de vítimas. O inferno com freqüência é aqui e por
obra nossa. É nesta margem de trevas e loucura que nascemos, este é o
Saha, mundo de sofrimentos inenarráveis ao qual as criaturas cegas que
somos se aferram tenazmente. Deste Saha tememos sair pois nele está
ancorado o nosso apego, fruto direto da mais profunda ignorância. Vez ou
outra um oásis de claridade irrompe em meio à escuridão e a paz
Compassiva do Buddha da Luz Infinita e da Vida Eterna abre um vislumbre da
outra margem, bem como a compreensão do sentido que explica esta. Nem é
fortuito o inferno que criamos, nem é em vão que padecemos. Causas e
condições vêm desde um longínquo passado determinando uma tortuosa
aprendizagem, bem como preparando uma decisiva descoberta, de conseqüências
felizmente irreversíveis.
| Há uma outra margem. Há um
mundo de Luz para além das trevas que vemos. Há uma paz que
transcende os conflitos de que somos prisioneiros. Há um mundo para
além do sofrimento em que nos debatemos. Não é aqui, nunca o será,
mas estamos aqui para sermos encaminhados para lá. Em lugar das
nossas cegas paixões, lá impera a sabedoria Compassiva do
Tathagata. Na outra margem não havendo mais a ignorância, não há
apego. Não havendo apego, não há mais desejo. Não havendo mais
desejo não há sofrimento. A outra margem é a Terra do Buddha
Amida, em contraste com este sombrio mundo só dos seres humanos. |

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A outra margem é a meta. Tudo aqui
é passageiro, relativo e ilusório. Esta margem pertence ao tempo e dele
não pode escapar. Aqui tudo são miragens vãs. Quem nelas deposita suas
esperanças, se encaminha à frustração. Por isso Gautama Buddha
comparou este mundo à um casa incendiando-se, isto é, um lugar onde só
um louco intentaria ficar. Em geral somos este louco. Amida está nos
conduzindo para fora do incêndio através do Chamado, do Namu Amida
Butsu. Por isso, nada do que suceda aqui importa, desde que confiemos
em Amida.
Daqui passaremos um dia, apesar de
toda a nossa resistência. Se confiarmos, seremos então infalivelmente
acolhidos e salvos por um Poder que transcende a nossa possibilidade de
compreensão. Só precisamos confiar. E porque não conseguimos faze-lo
por nós mesmos, este Poder vem semeando a confiança em nossos corações
dúbios. Desde sempre as sementes vêm sendo plantadas. Um dia, quando
chega a Primavera, elas germinam e nós enfim sorrimos. Neste dia,
saberemos que estamos sendo conduzidos infalivelmente à outra margem e
que portanto está garantido o que de fato importa. Tudo o mais é então
percebido como irrelevante.
Quando este despertar das sementes
acontece enquanto ainda estamos aqui, Amida transforma a qualidade de
nossa vida. A confiança nos dá serenidade frente à todas as tormentas
pois sabemos que o destino do oceano está garantido à água do rio. Não
importa por onde ele corra, não importa a queda que o penhasco lhe
imponha, nem que seja tortuoso o rumo. Nunca falha onde ele deságua. Ao
fim, é sempre no mar, aonde ele chega. E o oceano, ao recebê-lo
transforma-lhe o sabor, o faz igual a si, tal como nos fará Buddhas
adiante, o Buddha que aqui nos conduz. Quem o descobre enquanto é rio, já
nada teme nem lamenta pois sabe ser tudo caminho para onde importa chegar,
que é só onde se chegará. Outro destino não há.
Quando este despertar sucede ao fim
desta existência, somos libertados em definitivo do Saha, somos
diretamente conduzidos à Terra Pura para de lá ajudarmos a que confiem
todos os que ainda aqui se debaterem. Dissolvem-se instantaneamente
quaisquer medos remanescentes, dissipam-se todas as fantasmagorias,
descobre-se que a verdadeira vida é Eterna e que à ela todos se
destinam. Portanto, no que chamamos de morte é que reside a autêntica
vida.
Se confiássemos mais em Amida, faríamos
como Shinran Shonin que ao receber a notícia da morte de seu discípulo
Bennem exultou por sabe-lo salvo na Terra Pura. O mesmo exemplo vemos
quando da morte do grande cabalista Simon ben Jochai. Seus amigos mais próximos
deram uma festa, com música e alegria, para comemorar sua união com
Deus. Este episódio, tal como tantos outros na História das mais
diversas culturas e civilizações, nos demonstra que o que chamamos de
Mente Confiante (Shinjin), não é um privilégio do Buddhismo. Nem
Amida salvou apenas os Buddhistas. Aliás, não nos esqueçamos de que em
sua derradeira instância, o Absoluto transcende nome e forma. Afinal, não
é esse o sentido do que chamamos de Dharmakaya? Nesta dimensão que
transcende as palavras e as formas de representação, convergem todas as
religiões quando se libertam das respectivas teologias, sectarismos,
formalismos e deságuam na experiência de uma inexplicável e inquestionável
confiança no único Absoluto. Esta confiança é a essência da atitude
religiosa, frente à vida e frente ao que chamamos de morte.
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O mundo contemporâneo necessita
urgentemente que nos libertemos das gaiolas de nossos
"bairrismos" religiosos e busquemos num diálogo maduro e
fraterno o nosso ponto de convergência no essencial. Por se pretenderem
uns certos e outros errados já se cometeram toda sorte de barbáries,
inclusive a mais recente. Estamos certos só quando nos reconhecemos
errados. Ser humano é ser errado. Todo acerto que nos possa ser atribuído,
na verdade se deve sempre e só à Compaixão do Absoluto quando nos
inspira o que nos transcende. A história evolui quando nós, seres
humanos, conseguimos perceber, graças à ação do Absoluto que chamamos
Amida, as besteiras que estávamos cometendo para delas então nos
libertamos para nos dedicarmos a besteiras mais sutis. Da tolice não
escapamos enquanto somos ainda humanos, por isso Shinran nos definia como Bombunins.
Só não precisamos ficar sempre repetindo as mesmas besteiras. Sejamos
pelo menos tolos criativos. E a tolice nova é sempre menos enfadonha que
a rotina da mesmidade.
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Creio que já não há mais lugar
no mundo contemporâneo para a arrogante pretensão de superioridade de
qualquer Religião sobre as demais. Vivemos tempos de exigência democrática
em todos os âmbitos da vida humana. Vivemos tempos de exigência de
compartilhamento respeitoso das diferenças. Temos de buscar o que nos une
para escaparmos de continuar nos matando pelo que nos diferencia. Não nos
vangloriemos pelo fato do Buddhismo ao longo de sua História não ter se
dedicado a perseguir ou assassinar adeptos de outras Religiões. Basta que
este problema exista em alguma Religião para que seja nosso. Afinal, não
é isso o que significa a nossa doutrina da interdependência de todos os
fenômenos?
As Religiões têm uma grande
responsabilidade frente aos desafios do mundo contemporâneo. Só num espírito
de união fraterna e respeitosa poderemos trazer a contribuição que nos
cabe. O mundo precisa do legado que recebemos mas só conseguiremos
transmiti-lo se soubermos exemplificar entre nós, a união que pregamos.
Com todas as nossas loucuras, com
todas as tragédias que lamentavelmente causamos, com todo o sofrimento
que geramos, ainda assim a existência tem um sentido. Ele transcende a
nossa compreensão, ainda quando se nos revela. Este sentido explica o
inexplicável e integra num sentido libertador mesmo os absurdos de nossa
insensatez. Só com a visão da outra margem podemos compreender a existência
nesta margem. Só com a visão da outra margem podemos viver nesta com
serenidade. Só com a visão da outra margem podemos nascer na outra
margem, ao morrermos aqui. E é a outra margem que nos propicia aqui a visão
da outra margem.
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Mas por que falamos desta margem e
da outra margem nesta comemoração do O-Higan? É porque a verdadeira
Primavera é o despertar da Mente Confiante. Cada vez que germinam as
sementes, que desabrocham as flores, que a vida renasce na natureza,
busquemos ouvir o que nos está sendo indicado.
A Mente Confiante está
nos dizendo que é lá, na outra margem, não aqui, que tudo se solve. Mas
ela também nos diz que é aqui que precisamos ouvi-lo, é aqui que
precisamos receber a Confiança. Afinal, foi para isso que nascemos neste
mundo e é só para isso que ainda estamos aqui, para recebermos a Confiança
que nos salva e liberta.
Namu Amida Butsu.
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