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A Escola da Terra Pura (chin. Ching-t'u-tsung)
do buddhismo Mahayana, também conhecida como Escola do Lótus, foi
fundada na China em 402 pelo monge Hui-yüan
(334/6-416). Ele era um erudito nos textos do confucionismo
e do taoísmo. Posteriormente, foi para o sul
da China e se tornou discípulo do monge buddhista Tao-an (312-385). No
monte Lu-shan da província de Kiangsi — lugar freqüentado por mestres
buddhistas e confucionistas —, Hui-yüan convidou eruditos como Tao
Yuan-ming e Li Yi-min para fundar a Sociedade do Lótus Branco. Hui-yüan
não pretendia fundar uma escola, mas apenas incentivar as as pessoas a
gerar o voto renascer na Terra Pura. Os textos fundamentais desta tradição
são os dois Sukhavati-vyuha Sutras (um menor e outro maior) e o Amitayur-dhyana
Sutra.
A
versão menor do Sukhavati-vyuha Sutra é mais conhecida como o Sutra
de Amitabha (jap. Amidakyô) ou o Pequeno Sutra (jap. Shôkyô).
A versão maior também é conhecida como o Sutra da Vida Imensurável
(jap. Muryôjûkyô) ou o Grande Sutra (jap. Daikyô),
sendo considerado uma forma abreviada do Sutra do Lótus do Dharma
Maravilhoso (sânsc. Saddharma Pundarika Sutra). O Amitayur-dhyana
Sutra, mais conhecido como o Sutra da Contemplação da Vida
Infinita (jap. Kanmuryôjûkyô) ou Sutra da Contemplação
(jap. Kangyô), teria sido ensinado pelo Buddha Shakyamuni à
rainha Vaidehi, esposa do rei Bimbisara de Magadha. Às vezes, o último
capítulo do Buddha Avatamsaka Sutra, que trata das práticas e
votos do Bodhisattva Samantabhadra, é considerado o quarto texto
fundamental da Terra Pura.
De acordo com estas escrituras, um
monge chamado Dharmakara fez 48 votos diante de Lokeshvara-raja, o 53°
Buddha. Este monge se tornaria o dhyani-buddha Amitabha
("o buddha da vida e luz infinitas", chin. O-mi-t'o, jap.
Amida), que então assumiu o compromisso
de salvar todos os seres sencientes e de levá-los a uma Terra Pura
(sânsc. buddha-kshetra, chin. ching-t'u, jap. jôdo)
localizada no ocidente.
O 18° voto assumido por ele seria o de não atingir o estado de
liberação a não ser que ele pudesse levar todos os outros seres ao
mesmo estado. Este é conhecido como o voto original (sânsc. purvanidana, jap.
hongan), um meio hábil para liberar os seres do samsara. Já que o voto original transcende o pensamento, Amitabha teria criado o
nome sagrado (sânsc. namadheya, jap. myôgô) para ser fácil de manter e recitar; é o próprio chamado de Amitabha.
Seu paraíso, a Terra da
Bem-Aventurança (sânsc. Sukhavati), seria um lugar
completamente livre do sofrimento, onde todos teriam as condições ideais
para praticar o Dharma e alcançar a iluminação. O nascimento ou ir-nascer (jap.
ôjô) na Terra
Pura seria espontâneo, dentro de um lótus, isto é, sem a necessidade de
gestação. Ao contrário do reino dos deuses (sânsc. deva-loka),
a Terra Pura estaria fora da existência cíclica (sânsc. samsara)
e, portanto, nela não haveria qualquer tipo de sofrimento ou delusão. Os
seres poderiam permanecer lá até atingir o despertar, sem o perigo de
regredir a um estado inferior. Este paraíso seria adornado por flores, jóias
e ouro, maravilhosamente permeado por perfumes e música celestial. A
natureza da Terra Pura é ilusória, assim como a natureza de todos os fenômenos.
Diz-se que muitos praticantes zelosos tiveram muitos sinais auspiciosos no
momento da morte, incluindo o aparecimento de fragrâncias e música
celestial, nuvens, flores e visões.
O Buddha Amitabha também é
chamado de Amitayus, neste caso enfatizando o aspecto da longevidade. Ao
contrário de Shakyamuni, o Buddha Amitabha não é considerado um
personagem histórico — pelo menos não desta era. O mítico Buddha
Amitabha representa o Dharma como luz (sabedoria) e vida (compaixão)
infinitas, oferecendo uma salvação incondicional. Há cerca de 290
textos indianos sobre o Buddha Amitabha e, de acordo com estas escrituras,
Amitabha teria aparecido em uma era passada, tendo se tornado o 54°
Buddha após Dipankara, o primeiro Buddha de todos os tempos. O Buddha de
nossa era, Shakyamuni, teria sido o 78° Buddha após Dipankara e o 4°
Buddha da era atual.
Muitos textos do buddhismo
Mahayana, como o Pratyutpanna Samadhi Sutra, o Pei-hwa-ching,
o e o Maha-ratnakuta Sutra apresentam o significado e a meta da prática
da Terra Pura. Segundo o Maha-ratnakuta Sutra, o próprio Buddha
Shakyamuni teria pedido a seu pai e a 60.000 pessoas do clã Shakya que
fizessem a aspiração de renascer na Terra Pura. O ensinamento da Terra
Pura seria destinado a todos os seres, sem exceção, independente do seu
nível de prática espiritual. A Terra Pura seria a nossa própria mente;
Amitabha seria a nossa própria natureza verdadeira. De acordo com estes
mesmo ensinamentos, concentrar-se sobre Amitabha é concentrar-se sobre
todos os Buddhas; renascer em Sukhavati é renascer em todas as Terras
Puras. Aqueles que têm fé em Amitabha — sejam santos ou não, ricos ou
pobres, homens ou mulheres —, que recitam seu nome de forma concentrada,
que contemplam suas qualidades e o visualizam-no em sua Terra Pura,
estariam garantindo o seu renascimento na Terra Pura.
Em seu Tratado sobre o Despertar
da Fé no Grande Veículo (sânsc. Mahayana Shraddotptada Shastra),
o poeta e filósofo Ashvaghosha também recomenda que os praticantes
recitem o nome de Amitabha pare renascer em sua Terra Pura. Em suas obras,
Nagarjuna escreve um capítulo e doze seções sobre o assunto, enquanto
Vasubandhu escreveu o Discurso sobre a Terra Pura (jap. Jôdoron). Neste
tratado, Vasubandhu afirma que existem cinco "portões" para
alcançar o renascimento na Terra Pura de Amitabha: [1] a veneração, reverenciar
o Buddha; [2]
o louvor através da repetição do nome de Amitabha; [3] o voto ou aspiração de
renascer em sua Terra Pura; [4] a contemplação das virtudes de Amitabha e de sua
Terra Pura; [5] a dedicação ou transferência do mérito adquirido por estas práticas
para todos os seres sencientes.
Desenvolver a
bodhichitta é precisamente procurar o estado búddhico. Procurar o
estado búddhico é desenvolver a mente de resgatar os seres sencientes.
A mente de resgatar os seres sencientes não é outra senão a mente que
reúne todos os seres e os ajuda a atingir o renascimento na Terra Pura.
(Vasubandhu)
Recite o nome de Buddha
enquanto estiver caminhando. Recite o nome de Buddha enquanto estiver
sentado. Até mesmo quando estiver ocupado como uma flecha, sempre
recite o nome de Buddha.
(Su
Tung-p'o)
Uma única recitação
do nome de Buddha, se feita corretamente, contêm as três mil atitudes
auspiciosas e as oitenta mil condutas sutis. Todos os vários enigmas do
Zen e os meios mais expeditos dos estudos dos sutras também estão
incluídos.
(Ou-i)
É como acender fogo em
cima do gelo. Conforme o fogo se intensifica, o gelo derrete. Quando o
gelo derrete, o fogo é extinto. Também é assim como a recitação [do
nome] de Buddha. No final, o praticante atingirá o reino do não-nascimento
e verá o fogo do renascimento desaparecer espontaneamente.
(T'ao-ch'o)
Bem agora, você deve
simplesmente recitar o nome de Buddha com pureza e iluminação. Pureza
significa recitar o nome de Buddha sem quaisquer outros pensamentos.
Iluminação significa refletir novamente enquanto você recita o nome
de Buddha. Pureza é shamatha, "parar". Iluminação é
vipashyana, "observar". Unifique sua atenção do
Buddha através da recitação do nome de buddha, e tanto o
"parar" quando o "observar" estarão presentes.
(Chu-hung)
Hoje as pessoas pensam
no Dharma da Terra Pura como um ensinamento expediente. Pouco fazem para
perceber que ele também é um Dharma maravilhoso. Por exemplo, o
bodhisattva Samantabhadra, cujo corpo do dharma [sânsc. dharmakaya]
abarca todo o reino do Dharma [sânsc. dharmadhatu]; ele fez dez
grandes votos direcionados à Terra Pura. O patriarca Ashvaghosha contou
sobre cem seções dos sutras Mahayana para escrever o Tratado sobre a Fé
[no Mahayana, sânsc. Mahayana Shraddhotpada Shastra], mostrando
aos seres sencientes o caminho para a Terra Pura.
(Han-shan
Te-ch'ing, Meng-yu-chi)
O Shurangama Sutra
afirma, "As várias montanhas, rios e continentes, até mesmo o
espaço vazio fora do nosso corpo físico, são todos reinos e fenômenos
dentro da maravilhosa e brilhante mente verdadeira". Também afirma
que "Os fenômenos que surgem são todos manifestações da mente
apenas". Portanto, onde você poderia encontrar uma terra búddhica
fora da mente? Assim, o conceito de Terra Pura da Mente Apenas refere-se
à Terra Pura dentro da mente nossa verdadeira. Isto não é diferente
do oceano, no qual aparece um número incontável de bolhas; nenhuma
delas está fora do oceano. Também é como as partículas de poeira no
solo; nenhuma delas não é o solo. Do mesmo modo, não há terra búddhica
que não seja mente. [...] Se a mente for poluída, o reino será poluído;
se a mente for pura, o reino será puro. O Vimalakirti [Nirdesha]
Sutra afirma, "Para renascer na Terra Pura, primeiro você
precisa purificar sua mente; quando a mente é pura, as terras búddhicas
são puras também." A porta do Dharma da Terra Pura é um método
maravilhoso para atingir a pureza da mente.
(T'ien-ju
Ch'an-ssu, Ching-t'u Huo-wen)
A principal característica
do buddhismo da Terra Pura é a recitação do nome de Buddha, invocando
Amitabha através do cântico do seu nome. Através da recitação do
nome de Buddha, as pessoas focalizam sua atenção sobre o Buddha
Amitabha. Isto promove a atenção sobre o Buddha, também conhecida
como lembrança do buddha [sânsc. buddha-nusmriti]. Em que
sentido o buddha é "lembrando"? Buddha é o nome para aquela
realidade subjacente em todas as formas do ser, assim como um epíteto
para aqueles que testemunham e expressam essa realidade. De acordo com o
ensinamento buddhista, todas as pessoas possuem uma natureza verdadeira
inerentemente iluminada, que é a sua identidade real. Portanto,
tornando-se atento ao Buddha, as pessoas estão apenas obtendo novamente
sua própria identidade. Elas estão se lembrando de sua própria
natureza búddhica.
(J. C.
Cleary, Pure Land, Pure Mind)
O buddhismo da Terra
Pura, que historicamente tem sido a forma mais popular de buddhismo no
leste asiático, centraliza sua prática em torno do Buddha Amitabha.
Falando de modo geral, o buddhismo da Terra Pura coloca mais ênfase no
poder do Buddha Amitabha — para ajudar o praticante — do que outras
práticas buddhistas fazem. O buddhismo Zen e o T'ien-t'ai, por exemplo,
geralmente colocam mais ênfase na autoconfiança e no insight do próprio
praticante. Renascer na Terra Pura do Buddha Amitabha é uma meta maior
dos praticantes da Terra Pura. Para alguns praticantes, a Terra Pura de
Amitabha é concebida como sendo um lugar físico real, enquanto para
outros é um estado mental realizado mais perfeitamente. A característica
mais importante da Terra Pura de Amitabha é que ela é um reino búddhico
onde é relativamente fácil fazer progresso rápido para a iluminação.
Todos os seres sencientes lá são muito dignos e as condições são
perfeitas para aprender o Dharma.
(Hsing Yün,
Only a Great Rain)
[As escolas Terra Pura e
Zen] complementam-se muito bem, dado que a primeira ensina a humildade
de depender do Buddha e a segunda ensina a sabedoria de depender de si
próprio.
(Hsing Yün,
Budismo)
O Zen
sempre foi uma tradição relativamente aristocrática, atraindo primeiro a
nobreza e, depois, os líderes da classe guerreira (samurais). Ele
enfatiza o empenho para se atingir a iluminação, quer pela meditação,
quer pela profunda introspecção. [...] O buddhismo Terra Pura, em
contraste, ensina uma prática simples, acessível a qualquer um: a
recitação do nome do Buddha. Se, por um lado, o Zen enfatiza o esforço
espiritual, o buddhismo Terra Pura enfatiza a fé. O Zen ensina que cada
pessoa é um Buddha e deve alcançar sua iluminação. O buddhismo Terra
Pura ensina que o Buddha Amitabha, que já atingiu a iluminação, existe
para salvar qualquer um que invoque o seu nome com fé sincera. Como
resultado, o buddhismo terra Pura atrai seguidores entre os homens
comuns.
(Hiroyuki
Itsuki, Tariki)
A escola da Terra Pura
ensina a recitação de Buddha — a repetição do nome do Buddha
Amitabha. Porém, ela não ensina simplesmente recitar com a boca, como
um papagaio gritando palavras desatentamente. A recitação de Buddha
centrada na mente é a verdadeira recitação de Buddha. Conforme
afirmam os sutras, "a mente, os buddhas e os seres sencientes são
indiferenciados e iguais". Fora da mente não há buddha, fora do
buddha não há mente. Buddha é mente, mente é Buddha. Se um
praticante recitar o nome de Buddha desta maneira, ele gradualmente
chegará ao estágio onde não há nem mente como sujeito nem Buddha
como objeto. E não há nem um sujeito nem um objeto de recitação.
Este é o estágio antes do surgimento de um único pensamento. Isto é
o hua-t'ou [da escola Zen, jap. watô] e isto é a nossa
própria face original.
(Da
introdução de Lok To em Pure Land of the Patriarchs)
O buddhismo, como uma
das principais religiões e como um modo de vida, é assunto de
numerosos livros e comentários. Porém, o cerne de seus ensinamentos
pode ser expresso em dois conceitos principais: pureza da mente e prática.
Os ensinamentos tradicionais da Terra Pura enfatizam três elementos —
fé [no compromisso de Amitabha], votos [aspiração de renascer na
Terra Pura] e prática (recitação de Buddha) — como as condições
essenciais para o renascimento na Terra Pura, na Mente Pura. Esta
abordagem é apresentada como o caminho mais fácil e mais expediente
para a maioria das pessoas nestes dias e nesta era.
Estes ensinamentos estão
em harmonia com outras tradições da Terra Pura, como a Jôdo Shinshû,
na qual o shinjin, fé, é definitivamente definido como a mente
— a verdadeira mente, abarcando os votos e a prática (jap. sanshin
isshin). A Terra Pura também está alinhada com o Zen, que vê
todos os ensinamentos como expedientes, "dedos apontando para a
lua" — a lua sendo a mente verdadeira, a mente da talidade,
sempre brilhante, pura e imutável. Do mesmo modo, o Dhammapada,
um texto chave da escola Theravada, sumariza os ensinamentos do Buddha
com as palavras "Não faça o que é mau, faça o que é bom,
mantenha sua mente pura." Porém, a pureza da mente não pode ser
atingida pelo estudo e verbalização apenas; só pode ser atingida
através da prática. [...]
Enquanto um praticante
está ocupado visualizando o Buddha [Amitabha] ou recitando o nome do
Buddha, ele não pode cometer transgressões ou violar os preceitos
buddhistas; portanto, ele efetivamente realiza a perfeição [ou
treinamento superior] da disciplina [sânsc. shila]. Do mesmo
modo, recitando o nome do Buddha com uma mente completamente focada é
nada menos que a realização da perfeição da concentração [sânsc. samadhi].
Uma vez que a concentração seja atingida, a mente do praticante
torna-se vazia e calma, conduzindo ao surgimento de sua sabedoria inata
— a sabedoria [sânsc. prajna] dos buddhas.
(Thich
Thiền Tâm, Pure Land Buddhism)
Em alguns dos sutras,
lugares como o reino puro do Buddha Amitabha são enfatizados. Porém,
estes são efetivamente ensinamentos simbólicos. Se formos capazes de
seguir o Dharma corretamente, bem aqui, onde você está sentado, pode ser
transformado na terra pura de Amitabha. O conceito de céu em outras
religiões é totalmente diferente do conceito buddhista da terra pura de
Amitabha. Em outras religiões, o céu é considerado uma entidade
solidamente verdadeira e externamente existente. No buddhismo, as terras
puras são um conceito de percepção individual.
(Dzongsar
Khyentse Rinpoche, Motivação, Fixação e Meditação)
O trabalho iniciado
pelo monge Hui-yüan foi continuado por T'an-luan, Chi-che, Tao-ch'o,
Shan-tao, Chin-liang e Yung-ming. Os monges Chang-lu, T'ien-i, Yuen-hao,
Ta-t'ung, Chung-feng, T'ien-ru, Chu-shih e K'ung-ku integraram a prática
da Terra Pura com a da escola Ch'an (jap. Zen),
à qual pertenciam. Na dinastia Ming, o monge Lien-chih foi introduzido à
prática da Terra Pura por Hsiao Yen-chih e também incorporou-a na prática
Ch'an, o que foi seguido por Ou-i, Chih-liu, Hsing-an e Meng-tung.
No Buddha Avatamsaka Sutra, há uma seção sobre os dez grandes
votos do bodhisattva Samantabhadra para orientar os seres sencientes para
a Terra Pura. Por isso, Samantabhadra é considerado o primeiro patriarca
da escola da Terra Pura. Durante a dinastia Sung, o monge Hsiao-fa da
montanha Shih-ming destacou sete mestres como patriarcas desta escola:
Hui-yuan, Shan-tao, Cheng-yuan, Fa-chao, Shao-k'ang, Yeh-shou e
Hsing-chang. Em seguida, o monge Chiih-pan registrou informações sobre
os ensinamentos da Terra Pura. Outros monges seriam também considerados
patriarcas: Lien-chih, Ou-i, Hsing-an e Chi-wu.
O taoísta chinês
T'an-luan (jap. Donran, 476-542) foi convertido ao buddhismo em 530 pelo
monge indiano Bodhiruchi. T'an-luan, autor do comentário Wang-sheng-lun
Chu, desenvolveu a escola da Terra Pura como uma tradição distinta.
Segundo ele, o próprio poder (jap. jiriki) não é
suficiente para alcançar a iluminação, sendo necessário o outro poder (jap. tariki) — isto é, o poder do Buddha Amitabha,
cuja graça é semelhante à luz que emana do sol. Amitabha proporcionaria
incondicionalmente o despertar sobre os seres presos na ignorância. Isto
constitui o "caminho fácil" da Terra Pura, em oposição ao
"caminho difícil" das outras escolas.
Com relação
ao "outro poder", para qualquer um que acreditar no poder do
voto compassivo do Buddha Amitabha de resgatar os seres sencientes e então
desenvolver a bodhichitta, cultivar o samadhi [da recitação ou]
lembrança do Buddha, cansar-se do seu corpo temporal e impuro nos três
reinos, praticar a caridade, manter os preceitos e realizar outros atos
meritórios, dedicando todos os méritos e virtudes ao renascimento na
Terra [Pura] Ocidental — suas aspirações e a resposta do
Buddha estarão de acordo. Contando assim sobre o poder do Buddha
[Amitabha], ele imediatamente atingirá o renascimento. [...]
Aqueles que
renascem na Terra Pura, apesar de poderem ser seres ordinários
totalmente pegos pela armadilha do karma negativo, não podem
desenvolver aflições ou visões perversas nem falhar em atingir o não-retrogresso
[isto é, não poderão cair novamente no sofrimento do samsara]. Isto
é devido a cinco fatores: [1] o poder do grande e compassivo voto do
Buddha que os abraça e protege; [2] a luz do Buddha sempre bilha sobre
eles e, portanto, a bodhichitta destes seres superiores sempre progredirá;
[3] na Terra Pura ocidental, os pássaros, a água, as florestas, as árvores,
o vento e a música todos pregam o Dharma do "sofrimento,
vacuidade, impermanência e não-eu" e, ao ouvirem isto, os
praticantes começam a se focalizar sobre o Buddha, o Dharma e a Sangha;
[4] aqueles que renascem na Terra Pura têm os bodhisattvas dos níveis
mais elevados como seus companheiros e estão livres de todos os obstáculos,
calamidades e más condições, além de não haver demônios malignos,
de modo que suas mentes estão sempre calmas e pacíficas; [5] uma vez
nascidos na Terra Pura, seu tempo de vida é inexaurível, igual ao dos
buddhas e bodhisattvas, assim podem praticar pacificamente durante
incontáveis éons.
(Chih-i, Ching-t'u
Shih-lun)
Desde os
seus primórdios, na Índia, o buddhismo ensinou um longo e árduo caminho
de prática para se alcançar a iluminação. Esse esforço pessoal feito pra
atingir a iluminação é uma manifestação do "próprio poder". Tariki,
por outro lado, é o reconhecimento do grande a abrangente "outro
poder"
— neste caso, o Buddha e a sua capacidade de nos iluminar — e o
simultâneo reconhecimento da profunda impotência do indivíduo diante das
realidades da condição humana. [...]
A idéia de que posso me salvar encarnado sozinho, individual e
diretamente a verdade absoluta do universo sob a forma do Buddha
Amitabha, pode lembrar superficialmente o contrato judaico-cristão com
Deus, mas é muito diferente em diversos sentidos. Um contrato é um
acordo mútuo entre duas partes interessadas, mas o outro poder afirma
que o Buddha atrai o indivíduo para sim o toma pela mão. Esse é o
significado de "encontrar refúgio" no Buddha. A grande questão nesse
caso é se o indivíduo consegue ou não entregar-se completamente ao
Buddha. É necessário aqui um sentimento de completa impotência, de
desilusão com o eu, de desapego em relação aos outros e o sentimento de
que se está, aqui e agora, no inferno. A filosofia do outro poder
Absoluto é a resposta a esse estado. Em tal ponto, qualquer crença no eu
desaparece sem deixar vestígios.
(Hiroyuki
Itsuki, Tariki)
T'an-luan enfatizava a
prática devocional da recitação de Buddha (chin. nienfo,
jap. nenbutsu), isto é, a recitação do nome de Amitabha. A prece
original era "Tomo refúgio em Amitabha" (sânsc. Namo
Amitabha); em tradições posteriores à compilação dos sutras, também
aparece a prática de recitação da prece "Tomo refúgio no Buddha
Amitabha" (sânsc. Namo Amitabhaya Buddhaya). Na China, esta
prece foi traduzida como Nan-mo O-mi-t'o Fo, e no Japão como Namu
Amida Butsu.
Em seu Tratado sobre
o Renascimento na Terra Pura, T'an-luan classificou seis técnicas básicas
de meditação da Terra Pura, sendo tanto técnicas de shamatha quanto técnicas
de vipashyana. Seguiremos sua classificação abaixo. As seis técnicas
caem em dois grupos.
[1] A porta do voto: Esta é uma porta de shamatha. A prática da Terra
Pura é baseada fundamentalmente no voto do praticante de renascer na
Terra Pura do Buddha Amitabha. Quando um praticante faz um voto, é
muito importante que ele faça isso com "unidade da mente" ou
concentração perfeita. Há três modos básicos de entender este voto
muito importante.
- [1.1] O mero ato de
fazer um voto e repetir o nome do Buddha Amitabha é suficiente para
limpar a mente e para trazer a cessação das máculas mentais;
- [1.2] Já que a Terra
Pura não é parte dos três reinos [do samsara, isto é, os reinos
do desejo, da forma e da não-forma], o mero ato de renascer lá é
suficiente para limpar a mente e trazer a cessação de todas as máculas
do corpo, da fala e da mente;
- [1.3] O poder do próprio
ser iluminado do Buddha Amitabha é tão grande que ele pode trazer
a cessação para qualquer um que o chamar.
[2] A porta da contemplação:
Esta é uma porta de vipashyana. Neste aspecto da prática da Terra
Pura, o praticante focaliza sua atenção sobre a contemplação, do
modo que ele terá sucesso em superar sua confusão mundana e seus hábitos
de delusão. As três contemplações básicas são:
- [2.1] Contemplar a
perfeição e magnificência da Terra Pura;
- [2.2] Contemplar a
perfeição e magnificência do Buddha Amitabha;
- [2.3] Contemplar a
perfeição e magnificência dos bodhisattvas que renasceram na
Terra Pura.
(Hsing Yün,
Only a Great Rain)
O monge Tao-ch'o (jap.
Dôshaku, 562-645) foi um dos principais propagadores da Terra Pura na
China. Tornou-se monge aos catorze anos e se especializou no Nirvana
Sutra. Aos quarenta anos, ao visitar o monastério Hsüan-chung-ssu
(jap. Genchû-ji), ele leu uma inscrição em louvor a T'an-luan e decidiu
aspirar à Terra Pura. Permaneceu naquele templo, chegou a recitar o nome
de Amitabha 70.000 vezes por dia e ensinou mais de duzentas vezes sobre o
Amitayur-dhyana Sutra.
De acordo com
Tao-ch'o, a recitação do nome de Amitabha seria a única forma
efetiva para merecer o renascimento na Terra Pura e, portanto, de atingir
a iluminação. Segundo ele, os seres ignorantes na era do declínio da
compreensão do Dharma seriam incapazes de praticar outras formas de
aprofundamento e entendimento espirituais. Tao-ch'o ensinava a repetição
constante do nome de Amitabha e criou um rosário para esse propósito.
Ele também escreveu a Coleção de Passagens sobre a Terra da Paz e
Bem-aventurança (jap. Anraku-shû), em dois volumes
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O monge chinês
Shan-tao (jap. Zendô, 613-681) tornou-se monge ainda jovem e
praticou principalmente a meditação sobre Amitabha e sua Terra
Pura. Ao ouvir falar em Tao-ch'o, foi até ele para receber seus
ensinamentos, passando a dedicar sua vida a divulgá-los. Ele copiou
o Sutra de Amitabha mais de cem mil vezes e fez mais de trezentas
pinturas da Terra Pura, além de compor cinco obras em nove volumes.
Seu comentário sobre o Amitayur-dhyana Sutra contribui para a
expansão desta escola na China.
Shan-tao pregava
a recitação do nome de Amitabha como uma atitude mental pura e
atenta, aliada ao cântico de sutras e hinos de louvor, e à veneração
e meditação sobre a imagem de Amitabha. Esta meditação é feita
com a visualização de dezesseis aspectos da Terra Pura, até que
se perceba a não-dualidade entre própria natureza e a natureza de
Amitabha.
Shan-tao também
era conhecido como o Mestre de Kuang-ming-ssu (jap. Kômyô-ji
no Kôshô) e o Grande Mestre de Chung-nan (jap. Shunan
Daishi).
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Nas escolas da Terra
Pura, há uma escatologia que divide a propagação do Dharma em três períodos.
Esse pensamento foi muito trabalhado por Shan-tao e no Japão
principalmente pelos monges Hônen e Shinran, entre outros. De acordo com
esses textos, as idades do Dharma seriam divididas em pelo menos três
grandes períodos. Na era do Dharma verdadeiro (jap. Shôbô),
que duraria 500 (ou 1000) anos, o ensinamento de Buddha seria praticado corretamente e a iluminação poderia
ser atingida facilmente; muitas pessoas alcançariam o despertar somente
pelo ouvir do Dharma. Na era do Dharma aparente (jap. Zôhô),
que duraria 2.000 (ou 500) anos, o ensinamento seria praticado, mas a iluminação seria
mais difícil, sendo necessário necessárias muitas práticas
meditativas para alcançar esse fim. Já na era do Dharma decadente (jap. Mappô),
que duraria 2.000 anos, o ensinamento seria praticado, mas a iluminação
seria extremamente rara.
A partir disso, o
Dharma desapareceria gradualmente, até que aparecesse no mundo o o
Bodhisattva Maitreya (jap. Miroku Bosatsu) que se tornará o novo
Buddha e restabelecerá o Dharma correto no futuro. De acordo com o Mahasamgata
Sutra, na época do fim do Dharma, haverá muitos praticantes
buddhistas mas poucos atingirão a liberação; porém, se recitarem o
nome do Buddha, eles serão capazes de transcender o samsara. Uma única
recitação sincero do nome de Buddha seria capaz de purificar o karma
negativa acumulado durante milhões de éons.
Depois do
nirvana do Buddha, o Dharma verdadeiro durará quinhentos anos e o
Dharma imitativo durará mil anos. Depois destes quinze séculos, o
Dharma de Shakyamuni perecerá completamente.
(Bhadrakalpa
Sutra)
Na China, após a
perseguição iniciada pelo imperador taoísta Wu-tsung no ano de 845, as
escolas Terra Pura e Ch'an (jap. Zen)
foram praticamente as únicas que conseguiram manter uma presença
significativa. A Terra Pura e o Ch'an acabariam se fundindo em uma única
tradição, predominante no buddhismo chinês até os dias de hoje.
Apesar de a
China historicamente ter produzido oito escolas maiores de buddhismo
[T'ien-t'ai, Hua-yen, Fa-hsiang, San-lun, Ch'an, Ching-t'u, Lü-tsung,
Mi-tsung], e apesar de uma vez estas escolas terem sido bem distintas
umas das outras, é importante entender que não há diferença
fundamental entre elas. São diferentes apenas em suas ênfases ou em
certas de suas interpretações filosóficas. Por esta razão, os
buddhistas chineses modernos geralmente praticam uma mistura de técnicas
de duas ou mais das oito escolas. Uma das formas mais efetivas de prática
buddhista é misturar a prática Ch'an com a prática da Terra Pura.
(Hsing Yün,
Only a Great Rain)
Quando as pessoas dizem Namu
Amida Butsu, Namu Amida Butsu, elas querem ser os filhos do Buddha
Amida. Eis o porquê da prática de repetir o nome do Buddha Amitabha. O
mesmo ocorre com a nossa prática de meditação sentada. Se soubermos
como praticar a meditação e se aquelas pessoas souberem como repetir o
nome do Buddha Amitabha, não poderia ser diferente.
(Shunryu
Suzuki, Not Always So)
No Japão,
o primeiro a disseminar a escola da Terra Pura foi o monge Eon, que viajou
à China em 608 e lá permaneceu durante 38 anos. Em 640, Eon explicou
para a corte japonesa as escrituras sobre o Buddha Amitabha.
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Chiko (709-780),
monge da escola Sanron, escreveu o
primeiro livro japonês sobre a Terra Pura, o Muryôjûkyôron
Shaku, um comentário sobre o Wang-sheng-lun Chu com
influências do buddhismo coreano. Além
da escola Sanron, a escola Hossô também
contribuiu para a emergência do buddhismo da Terra Pura no Japão.
Em 847, o monge japonês Ennin (ou Jikaku Daishi, 793/4-864)
introduziu a prática da recitação do nome de Amitabha no Japão.
Ennin foi discípulo de Saichô (767-822) e estudou os ensinamentos
das escolas T'ien-t'ai, Mi-tsung
e Ching-t'u quando este na China.
A recitação do
nome de Amitabha tornou-se popular nas escolas japonesas Tendai
e Shingon. Em 848, os monges
da escola Tendai estabeleceram um local dedicado ao Buddha Amitabha
no monte Hiei. Entre as camadas populares, a recitação do nome de
Amitabha foi propagada por Kûya ("o sábio das ruas",
903-972), que costumava fazer isto dançando pelas ruas.
Genshin
(942-1017), discípulo de Ryôgen (912-985) e monge da escola
Tendai, considerava a visualização de Amitabha e da Terra Pura
superior à simples recitação do nome de Amitabha.
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Ele escreveu um
tratado sobre a Essência para Ir Nascer na Terra Pura (jap. Ôjô
Yôshû), mostrando as vantagens da prática baseada sobre a compaixão
de Amitabha. O monge Ryônin (1072-1132) criou a primeira escola amidista
no Japão, chamada Yûsû-nenbutsu.
Os antigos disseram,
"O Buddha Shakyamuni manifesta-se no mundo impuro e subjuga os
seres sencientes através das condições de impureza, sofrimento,
impermanência e obstáculos, criando neles um senso de aborrecimento de
modo que sigam o caminho correto. O Buddha Amitabha, por outro lado,
manifesta-se na Terra Pura, reúne os seres sencientes através de condições
como pureza, felicidade, permanência e não-retrocesso, criando neles
o desejo de retornar à fonte da verdade. Deste modo, os dois buddhas
usam o método dual da subjugação e reunião para propagar o Dharma
correto. Suas atividades de ensinamento e transformação estão assim
relacionadas. Além disso, enquanto ensinava os três veículos, o
Buddha Shakyamuni propagou especialmente o método da Terra Pura de modo
que, através da ajuda do Buddha Amitabha, os seres sencientes que ainda
foram deixados possam ser resgatados. Portanto, nos sutras do Mahayana,
o Buddha Shakyamuni recomendou compassivamente e exortou constantemente
o renascimento na Terra Pura." [...]
Os sutras dizem que aqueles que invocam o nome de Buddha com a maior
sinceridade terão dez grandes benefícios nesta mesma vida: [1] dia e
noite desfrutarão da proteção invisível de todos os seres
celestiais, divindades poderosas e multidões de servos; [2] vinte e
cinco grandes bodhisattvas, incluindo o bodhisattva Avalokiteshvara e
outros bodhisattvas, constantemente os mantêm em mente e os protegem;
[3] desfrutam da ajuda e proteção contínuas dos buddhas, e o Buddha
Amitabha emite luz constante para reuni-los; [4] nenhum demônio
maligno, dragão feroz, cobra venenosa ou semelhante poderá feri-los;
[5] não encontram com calamidades como afogamento, incêndio ou outra
morte violenta, nem encontram punições como ser acorrentado ou
aprisionado; [6] o karma negativo anterior é dissipado gradualmente,
aqueles que eles mataram em vidas passadas são liberados e não mais
procuram vingança; [7] têm sono tranqüilo, sonham com eventos
auspiciosos ou vêem o corpo supremamente maravilhoso do Buddha
Amitabha; [8] suas mentes estão sempre alegres e em paz, seus rostos
claros e brilhantes, seus corpos preenchidos com energia e força, o que
quer que façam geralmente encontra o sucesso; [9] são sempre honrados
e ajudados pelos outros, e lhes são concedidos alegremente o respeito
reservado aos Buddhas; [10] na hora da morte, não experienciam medo
porque os bons pensamentos manifestam-se por si mesmos; testemunham o
Buddha Amitabha e a assembléia sagrada segurando o lótus dourado para
dar boas vindas e os escoltar à Terra Pura, onde desfrutarão de paz
mental e felicidade para sempre.
(T'ien-ju
Ch'an-ssu, Ching-t'u Huo-wen)
Possuidora de uma base tântrica,
a prática da Terra Pura tem uma dupla interpretação. De um lado,
expressa uma das mais profundas concepções metafísicas do buddhismo.
Aquilo que é a simples recitação de um nome, uma prática muitas
vezes relacionada com a oração em outros caminhos espirituais, se
entendida em seu aspecto mais profundo, transforma-se em um valioso
instrumento de desenvolvimento interior. O nienfo (jap. nenbutsu),
interpretado como invocação, é ainda hoje praticado diariamente nos
monastérios Zen da China, Coréia e Vietnã, juntamente com a prática
mais formal da meditação sentada. Curiosamente, o Japão é o único
lugar onde a prática Zen e a prática da Terra Pura se separaram de
forma mais extrema, apesar de uma terceira escola, bem menor em número
que a Sôtô e a Rinzai, e mais recente que estas, ter procedido
novamente sua reunião, a escola Ôbaku. Vários mestres recomendaram a
prática do nienfo, entre eles, Ashvaghosha, Nagarjuna e Vasubandhu,
respectivamente o décimo segundo, décimo quarto e vigésimo patriarcas
da linhagem Ch'an (Zen).
(Ricardo
Sasaki, O Caminho Contemplativo)
Ser conduzido ao
nascimento na Terra Pura significa o rompimento da pequena casca chamada
"eu" que nos distingue dos outros para sentir-se interligado a
todos, em união (jap. ichinyo), tornando-se alguém que "beneficia
os seres vivos salvando-os tal como desejamos". Por essa razão, só
seremos salvos da tristeza e do vazio gerados pelo amor finito, humano,
confiando no grande caminho do voto original do nenbutsu. Essa é
"a compaixão da Terra Pura". [...] O voto original do Buddha
Amitabha nos dá o Namu Amida Butsu como a prática para o nascimento na
Terra Pura, propiciando o bem a quem não o possui e tornando-se a prática
de quem não a exerce, pra que todos os seres tornem-se um buddha, sem
discriminação. Recitar o nenbutsu confiando nesse voto não significa
recitá-lo para evitar o mal e praticar o bem, mas é simplesmente
emocionar-se e agradecer a intenção do Tathagata que nos salva,
doando-nos o nome sagrado, pleno de todas as virtudes.
(Da
introdução de Jitsuen Kakehashi em Tannishô)
A Terra Pura é um lugar
ideal para praticarmos até alcançar a iluminação completa. Muitas
pessoas na Ásia praticam a lembrança do Buddha (sânsc. buddha-nusmriti),
refletindo sobre as qualidades do Buddha — visualizando-o ou invocando
o seu nome — para renascer em sua Terra Pura. Durante o período da prática,
vivem numa espécie de refúgio nesse Buddha. Estão perto dele e também
regam a si mesmas a semente da condição de Buddha. Mas as Terras Puras
são impermanentes. No cristianismo, o Reino de Deus é o lugar para
onde iremos na eternidade. Mas no buddhismo, a Terra Pura é uma espécie
de universidade onde praticamos por algum tempo com um professor, nos
formamos e depois voltamos cá, para dar prosseguimento à nossa vida.
Finalmente, descobrimos que a Terra Pura está no nosso coração, que não
precisamos ir para longe para encontrá-la.
(Thich
Nhat Hanh, Living Buddha, Living Christ)
Invocamos o nome de
Buddha e a recordação de Buddha para fazê-lo presente nas nossas
mentes, para torná-lo parte dos momentos da vida cotidiana. Buddha
precisa que o amemos, que nos lembremos dele, que o glorifiquemos? Não
creio. Não penso que Buddha necessite de amor. Podemos sentir amor por
Buddha, do mesmo modo que sentimos amor por nossos pais e mestres.
Buddha é nosso mestre. É claro que sentimos admiração pelo mestre, o
Buddha. Ele praticou bem, ele tem coragem. Tem muita compaixão,
compreensão e é uma pessoa livre. Não sofre tanto quanto nós por
causa do seu elevado nível de compreensão, compaixão e bondade
amorosa. Vocês amam alguém quando este alguém necessita de vocês.
Quando aquele alguém sofre, o amor de vocês alivia o sofrimento. Seu
amor contribui para trazer felicidade. Este é o significado do amor. É
fácil entender que os seres que nos cercam, sofrendo, necessitam do
nosso amor. Mas será que a salvação, a liberação de vocês depende
do seu amor por Buddha? Não penso assim. [...]
Onde é a Terra Pura? Como se pode renascer ali? Para mim, a Terra Pura
é aqui, bem aqui e neste exato momento. Cada um de nós é o Buddha
Amitabha porque temos a energia do amor, a mente do amor em nós, aquele
ardente desejo de fazer a felicidade de muitas pessoas. Cada um de nós
tem que se comportar como o Buddha Amitabha para criar uma Terra Pura,
para proporcionar aos amigos a oportunidade de viver em um ambiente tão
seguro e cheio de amor, onde todos podem praticar como estudantes em
tempo integral.
(Thich
Nhat Hanh, Jesus e Buda, Irmãos)
No Japão, a
expressão outro poder [jap. tariki] é ouvida mais freqüentemente
na frase o voto original do outro poder (jap. tariki hongan).
[...] Tariki hongan é um importante conceito filosófico enraizado
em uma visão de mundo extremamente vigorosa, e tem sido uma fonte de
energia constante para os que enfrentam uma crise.
Tariki, como vimos, significa outro poder. Hongan, ou voto
original, é o próprio cerne do ensinamento do buddhismo Terra Pura. No
início de sua prática para se tornar um Buddha, o bodhisattva Dharmakara
fez quarenta e oito votos, que prometeu realizar quando atingisse a
iluminação. Muitos votos dizem respeito à Terra Pura — uma descrição
simbólica do estado de iluminação — que ele criaria quando se tornasse
um Buddha. De todos estes votos, o voto “original” ou essencial de
Dharmakara foi a sua promessa de que, uma vez que tenha atingido a
iluminação e se tornado o Buddha Amitabha, qualquer ser que invocar o
seu nome nascerá em sua Terra Pura e atingirá a iluminação. Esse é o
voto que se tornou o ensinamento crucial do buddhismo Terra Pura.
Embora
contar com "o voto original do outro poder" possa parecer implicar a
dependência de um outro poder (Amitabha) para a sua salvação, trata-se,
na realidade, de uma idéia muito mais radical. Uma vez que Dharmakara já
atingiu a iluminação e se tornou Amitabha, segue-se que nós todos já
estamos iluminados. O verdadeiro ensinamento da Terra Pura, então, não é
obter o nascimento na Terra Pura recitando o nome do Buddha (isto seria
próprio poder, afinal de contas), mas se dar conta, do fundo do próprio
ser, de que já se é iluminado. A intensa gratidão que se sente após
passar por esta revelação espiritual expressa-se na exclamação Namu
Amida Butsu.
O que faz
do buddhismo Terra Pura uma filosofia tão radical é o fato de que algo
que a princípio parece ser um meio de alcançar a iluminação (recitar o
nome de Amitabha) é, simultaneamente, a própria iluminação. Tariki
hongan é uma filosofia que transcende o tempo; ela salta todas as
fronteiras, e, ao recitar o nome do Buddha, o passado e o futuro são um
só, praticar e alcançar são um só, sofrimento e iluminação são um só.
Não é uma filosofia de passividade e irresponsabilidade, como a
expressão passou a ser interpretada no Japão ao longo dos séculos. É uma
filosofia de atividade espiritual radical, de revolução pessoal e
existencial.
(Hiroyuki
Itsuki, Tariki)

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